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Book of the Dead – Volume 2 – Capítulo 14

Distância

— Rufus sempre foi um babaca egocêntrico, mas nem eu esperava que ele chegasse a esse ponto.

Elsbeth tentou não estremecer com a evidente antipatia no tom de Tyron. Ela não se sentia muito diferente sobre Rufus depois de tudo o que aconteceu, mas ainda a machucava pensar em como seus amigos de infância se odiavam sem que ela percebesse.

— Sempre foi assim? — questionou ela, com a voz suave. — Eu acreditava que realmente éramos amigos, nós quatro. Eu tenho tantas memórias felizes do tempo que passamos juntos. Não consigo acreditar que tudo isso era mentira.

O Necromante piscou, surpreso com a ingenuidade dela. Mesmo agora, ela não entendia? O que mais teria que acontecer com ela antes que abandonasse o desejo de ver o melhor nas pessoas?

— Eu não diria que nos odiávamos… — ele tentou encontrar as palavras certas para explicar. — É mais como se estivéssemos apenas esperando, matando tempo até o Despertar. Até receber uma Classe, é quase como se você nem tivesse nascido ainda. Todos os planos em sua cabeça, todas as ambições que já teve, todos os sonhos, são apenas isso: sonhos. Nós quatro passamos o tempo juntos e acho que realmente nos divertimos, mas, para mim, nada disso foi real. Estávamos apenas aguardando, vivendo em uma bolha. No dia do Despertar, essa bolha estourou e a vida real começou.

Ele passou a mão pelos seus cabelos escuros.

— Pegue Laurel como exemplo. Ela e Rufus dormiram juntos por anos, mas ela realmente se importa com ele? Não. Ela só estava entediada, esperando pelo dia que sua vida realmente começaria — ele parou por um instante enquanto se recordava do que estava falando e com quem. Abaixou a cabeça. — Sinto muito. Eu esqueci.

Da última vez que se encontraram, ele jogou na cara dela o relacionamento entre Laurel e Rufus, ajudando-o a escapar enquanto desestabilizava o espadachim e criava intriga entre eles.

Elsbeth respirou fundo, tremendo.

— Está tudo bem — disse ela, com os olhos um pouco úmidos. — Ainda não consigo acreditar que eu não fazia ideia.

— Acho que você foi bondosa demais para enxergar nós três como realmente éramos — disse Tyron. — Rufus é um babaca raivoso que faria qualquer coisa para sair da influência do pai. Ele tem grandes sonhos e não se importa em machucar a maioria das pessoas para conquistá-los. Acho que você o via como alguém brilhante, cheio de energia e esperança, mas não conseguiu reconhecer o que se escondia por baixo.

— Laurel é simplesmente egoísta — riu para si mesmo. — Como um gato. Ela segue o fluxo, contanto que consiga o que quer. Ela é divertida, simpática e consegue se dar bem com as pessoas, mas não acho que ela se dedique muito aos outros. Ela só está perseguindo um lugar quente enquanto o sol se move.

Imaginar a garota bronzeada da floresta como uma felina preguiçosa se adequava mais do que a Sacerdotisa esperava. Ela sorriu ao imaginar Laurel sibilando enquanto alguém tentava afastá-la da lareira.

— Quanto a mim — Tyron exibiu um sorriso torto. — Eu era um idiota mal-humorado e retraído, apavorado com a possibilidade de não corresponder às expectativas que eu mesmo havia criado. Qualquer futuro em que eu não conquistasse o que meus pais haviam alcançado era um fracasso completo aos meus olhos.

— Esse é um patamar absurdamente alto — comentou Elsbeth.

Os Steelarms eram… lendários. Exterminadores famosos por toda a província, e talvez além dela. Magnin era considerado possivelmente o melhor Espadachim vivo. Tentar alcançar ou superar esse patamar era… impossível.

— Por isso eu era um bastardo tão sombrio — confessou Tyron. — Eu estava apavorado, o tempo todo.

— O que você quer dizer com ‘era’? — uma voz soou do lado da cama em que Tyron estava.

— Cala a boca, Dove — Tyron revirou os olhos.

— Só estou dizendo que você continua sendo uma nuvem de melancolia. Você passa mais tempo com os mortos do que com os vivos.

— Claro que sim. Cacete, eu sou um Necromante, não sou?

— De certa forma, não acho que isso explique completamente…

— Tyron — interrompeu Elsbeth. — Com quem você está falando?

— Ah — disse o garoto. — Desculpa. Já me acostumei com a presença dele. Eu provavelmente deveria tê-lo apresentado…

‘A quem?’ pensou Elsbeth enquanto olhava ao redor dele.

— Este é Dove — disse ele. — Dove, essa é minha amiga, Elsbeth.

— É sempre bom conhecer uma linda mulher. É um prazer conhecê-la.

A Sacerdotisa encarou o crânio enquanto os olhos deste brilhavam com uma luz roxa suave, aparentando encará-la com um olhar malicioso.

— Dove era um Exterminador, um Invocador — Tyron tentou explicar. — Ele ia morrer. Bem… ele morreu, mas eu o salvei e vinculei seu espírito ao seu crânio.

— Me salvou? — cuspiu Dove. — Me aprisionou, você quer dizer! Seu verme nojento e sem caráter… Só continuo aqui porque você se recusa a me libertar e permitir que minha alma encontre seu lugar de direito nos peitos da deusa! Especificamente, o peito direito! Eu já tinha escolhido esse lugar há muito tempo!

— Dove, cale a boca por um minuto ou eu te jogo no esterco — reclamou Tyron.

Ele parou por um momento e, quando seu companheiro crânio não disse mais nada, acenou a cabeça.

— Você realmente é um Necromante — disse ela. — Não consegui acreditar por muito tempo… apesar de ver a evidência com meus próprios olhos. Eu só não conseguia imaginá-lo vivendo esse tipo de vida. Sempre pensei que você estaria em alguma torre, com o nariz enfiado em livros e sem nunca dormir.

O Necromante sorriu com amargura.

— É mais ou menos isso. Exceto que em vez da torre, eu tenho uma sala cheia de ossos ensanguentados.

Ela arregalou os olhos em choque com essa confissão.

— Tyron — ela hesitou, — você não esteve… matando pessoas, esteve?

Ele levantou as mãos e as balançou em sinal de negação.

— O quê? Não! Estive trabalhando com os ossos que encontrava. É por isso que eu fui até Woodsedge. Eu estava procurando por ossos dos Exterminadores na floresta. Pensei que eram os únicos restos mortais que eu poderia conseguir sem que alguém percebesse o que eu estava fazendo.

Ela o olhou atentamente, com seus olhos azuis o encarando.

— Bem… eu tive que matar os bandidos aqui — admitiu ele, — e alguns outros.

— Eu sei o que você fez aqui para ajudar essas mulheres — disse ela, estendendo a mão para segurar a dele. — Você fez algo bom. Eu gostaria que ninguém tivesse morrido, mas você protegeu pessoas que não conseguiam se proteger. Você não deveria se sentir mal por isso.

Tyron olhou para a mão que era segurada com tanta delicadeza e corou.

— Uh. Obrigado. Eu não queria fazer isso… quero dizer… eu queria. Ajudá-las, quero dizer.

‘Você estava indo tão bem’, resmungou para si mesmo, ‘mas então ela toca sua mão e você começa a gaguejar. Patético.’

— Ahem — ele soltou a mão. — De qualquer forma, você é uma Sacerdotisa dos Deuses Antigos, hein? Isso deve ser… diferente.

Ela hesitou antes de assentir ligeiramente.

— Sim. Eu realmente não sei muito sobre eles, mas são os deuses que me aceitaram. Se posso servi-los e ajudar as pessoas, então… estou satisfeita. Não é o tipo de Sacerdotisa que eu esperava ser, mas ainda sou uma Sacerdotisa.

‘Esses deuses estão dispostos a sacrificá-la em um piscar de olhos se isso lhes garantir o que desejam. Será que você sempre estará presa a algo que fique feliz em te descartar?’

Mas ele não conseguia dizer isso. Depois da dor que ela passou para chegar onde estava, ele se recusava a atrapalhar seus planos. Afinal, do que adiantaria? Os Deuses Antigos a permitiriam escapar de suas garras agora que a tinham? Improvável.

Sua determinação de evitar contatá-los se tornou ainda mais resoluta. Se eles tratariam Elsbeth dessa forma, ele não queria ter nada com eles. Não que os vampiros fossem muito melhores. Yor havia o salvado no sonho, mas apenas para servir aos seus próprios interesses. Ele estava no meio de um cabo de guerra de três vias entre jogadores muito mais poderosos do que ele.

Como um coelho disputado por três lobos famintos. Seja como for, o coelho nunca sairia ileso.

— Você está muito quieto — disse Elsbeth.

— Só… estava pensando. Nós dois estamos em caminhos muito diferentes do que imaginamos. Rufus e Laurel estão praticamente onde queriam estar, mas nós dois estamos aqui na natureza com Classes ilegais.

— Isso é verdade. Embora a minha só apareça como Sacerdotisa quando outra pessoa a avalia.

Os olhos do Necromante se estreitaram.

— Você está dizendo que os Deuses Antigos conseguem esconder o Status de uma pessoa?

— De certa forma, acho que sim. Seus servos nunca teriam conseguido sobreviver no Império de outra forma.

‘Merda.’

Afinal, talvez tivesse que falar com eles… embora fosse provável que a Corte também conseguisse fazer o mesmo. Vampiros certamente seriam expostos se seus Status fossem lidos, mas ele tinha certeza de que eles operavam nas cidades, já que Yor havia insinuado isso muitas vezes. Talvez até o Abismo tivesse algum método.

Por que nunca havia pensado nisso antes?

‘Porque eu queria depender deles o mínimo possível. Quem sabe que preços eles exigiriam em troca desse conhecimento? Yor demandaria que eu me tornasse um deles e servisse sua Senhora por mil anos. Os Deuses Antigos provavelmente querem usar minha alma como um brinquedo de mastigar ou alguma idiotice. Como alguém pode saber o que o Abismo quer?’

— Na verdade, ainda não aprendi muito — confessou Elsbeth. — Minha professora, Munhilde, com quem vim, é bastante reservada. Não importa o quanto eu insista, ela não está disposta a compartilhar nada comigo.

Tyron zombou.

— Esses deuses não me parecem ser do tipo que se importam muito com “bajulação”. Será que não preferem uma abordagem direta?

Ela o olhou de soslaio.

— Como você sabe alguma coisa sobre eles? Pensei que fosse algo secreto. Embora eu acredite que haja fiéis escondidos em todo lugar.

Ela ofegou.

— Magnin e Beory são…?

— O quê? Claro que não — exclamou Tyron, incrédulo — Eles não são nada religiosos.

— Ah.

Eles ficaram em silêncio por um momento.

— Bem, suponho que conseguirei aprender alguma coisa hoje. Munhilde está realizando um funeral para aqueles que morreram no combate. Nunca a vi fazer um desses antes.

Tyron a encarou.

— Ela vai fazer o quê?! — ele gritou.

— Um… funeral? Não, ela não vai — disse ele, jogando o cobertor para trás.

Ele girou na cama e apoiou os pés no chão, mas ficou tonto com o movimento súbito. Portanto, Elsbeth estendeu a mão para ajudá-lo.

— Cuidado! Você perdeu muito sangue. Munhilde conseguiu curar seus ferimentos, mas você ainda não está pronto para ficar de pé.

— Eu não tenho tempo — respondeu ele, procurando pelos seus sapatos e camisa debaixo da cama. — Na verdade, já esperei demais. Se os Marechais ou os Exterminadores me alcançarem, então estou morto. Preciso continuar me movendo.

— Você precisa se curar — insistiu Elsbeth. — Se você correr agora, vai cair daqui dez minutos. Por que você se importa tanto com o funeral?

— Porque esses corpos são meus. Ela não pode tê-los.

Ele a encarou e ela se afastou dele, assustada com a intensidade repentina.

— Você quer… os cadáveres? Para que? — perguntou ela, com os olhos arregalados.

Ele tentou suprimir sua impaciência enquanto tirava as botas de baixo da cama e as calçava.

— Porque eu sou um Necromante. Por que você acha que preciso deles? Eu perdi quase todos meus lacaios naquela luta, eu preciso substituí-los. Onde vou conseguir os materiais que preciso? Você quer que eu invada o cemitério local e desenterre alguns parentes das sobreviventes?

— Eles não são materiais… são pessoas.

— Eles eram pessoas. Pessoas ruins. Se eu puder pegar o que sobrou deles e transformá-los em algo útil, então isso é bom. Além disso, eu preciso continuar a avançar minha Classe. Sem criar lacaios, sem fazê-los lutar, ficarei estagnado.

Elsbeth queria dizer que ele poderia renunciar à Classe se realmente quisesse. Que ele poderia voltar a viver uma vida normal, mas ela sabia que era tarde demais. Tyron já estava comprometido.

— Então eu vou falar com ela — disse ela, levantando-se. — Você precisa ficar na cama.

— Está tudo bem. Eu mesmo direi a ela.

Ele cambaleou quando se levantou, mas se firmou e passou por Elsbeth ao sair pela porta. Quase sem pensar, ordenou que seus lacaios restantes o seguissem, e eles o fizeram, drenando sua magika em recuperação enquanto o faziam.

Ele encontrou a Sacerdotisa em um dos campos do lado de fora do pátio, ajudando algumas camponesas a cavarem buracos para os mortos. Os corpos já estavam dispostos; a maioria eram bandidos, mas alguns não eram. Afinal, ele não havia conseguido salvar todos, apesar de sua determinação. Na verdade, se Annette e as outras não tivessem vindo ao resgate, ele teria morrido e o ataque poderia ter sido bem-sucedido. A coragem delas era incrível.

Elas mereciam ser enterradas com toda a honra e dignidade possíveis.

Mas não os bandidos.

— Alguns desses pertencem a mim — disse assim que chegou, sem desperdiçar tempo.

A Sacerdotisa Munhilde interrompeu sua escavação ao ouvir a voz dele e olhou para cima.

— Você parece mais disposto do que a última vez que o vi — disse ela, arrastando as palavras.

Tyron franziu a testa.

— Obrigado por me curar — disse depois de uma pausa.

— Tem certeza de que é a mim que deveria estar agradecendo? — comentou Munhilde, franzindo a testa como ele.

— Eu acenderei uma vela aos Deuses Antigos depois — disse ele, apontando para os bandidos colocados no chão. — Mas esses são meus. Eu os matei, então os reivindico para meu próprio uso. Colocá-los no chão é um desperdício.

— Você vai negar a Rot sua dádiva? — questionou Munhilde. — A carne deles pertence ao solo, para se decompor, ser comida e transformada em algo novo. Este é o ciclo, garoto.

As mulheres reunidas assistiram à interação entre o Necromante e a Sacerdotisa com nervosismo. Elas não queriam nenhum conflito entre esses dois, a quem respeitavam. Nem podiam ignorar os esqueletos armados que estavam atrás de Tyron. Apesar de tudo o que ele havia feito por elas, as camponesas não podiam evitar o medo ao olhar para os mortos-vivos impiedosos.

— Nesse caso, não temos problema nenhum — respondeu Tyron, gesticulando para os bandidos. — Você pode ficar com a carne deles, cada pedaço, mas eu quero os ossos. Isso significa que nós dois ficamos satisfeitos, não?

Munhilde olhou para o garoto, enquanto Elsbeth se aproximava por trás dele, parecendo um pouco doente na presença de tanta morte.

— Você pretende fazer esse trabalho você mesmo, garoto? Porque eu com certeza não o farei.

— Claro que você não o faria — zombou Tyron. — Eu os descarnarei por conta própria. Você receberá cada pedaço de carne e cada gota de sangue. Eu garanto.

— Você vai fazer o quê? — ofegou Elsbeth.

No entanto, Munhilde levantou a mão para silenciar sua aprendiz.

— Ótimo — disse ela. — Chegamos a um acordo. Rot ficará satisfeito, e você terá o que precisa, mas é melhor trabalhar rápido. Quero fechar esses túmulos antes de amanhã.

‘Ele mal acordou,’ Elsbeth queria protestar, ‘Você sabe a seriedade dos ferimentos que ele tinha!’

— Tudo bem — declarou Tyron. — Começarei imediatamente.

Sem mais palavras, ele se virou e saiu, mas seus esqueletos não. Em vez disso, eles caminharam até os cadáveres e, trabalhando em duplas, começaram a arrastar os bandidos para longe.

As sobreviventes suspiraram de alívio, felizes pelo assunto ter sido resolvido, e tentaram não pensar no que seu jovem salvador estava prestes a fazer.

No entanto, Elsbeth não conseguia descartar tal pensamento com tanta facilidade. Ela caminhou rapidamente para alcançar seu antigo amigo, enquanto ele retornava ao prédio em que estava ficando.

— Tyron. Tyron! Você realmente vai… descarnar esses homens?

— Sim.

— Mas isso é… é…

‘Desumano.’

— É o que tenho que fazer. Não posso ressuscitá-los como esqueletos a menos que remova a carne primeiro. Poderia tê-los transformados em zumbis se sua professora não tivesse demandado uma parte para o seu deus, mas, de qualquer modo, eu não gosto de zumbis.

— Eles são pessoas, Tyron! Você não pode tratá-los como algum tipo de animal!

O Necromante se virou, e Elsbeth parou abruptamente. De repente, o jovem, seu antigo amigo, com quem vinha trocando histórias, havia sumido. Todos os vestígios do tímido e desajeitado Tyron sumiram, revelando um homem frio e determinado, sem paciência para as intromissões dela.

— É exatamente isso que eles são. Animais — sibilou ele. — Não embeleze as coisas, Elsbeth. Uma pessoa é apenas um animal esperto o suficiente para pensar que é diferente, mas não é sábio o suficiente para compreender que não é. Esses homens abandonaram qualquer pretensão de serem superiores às bestas, e eu não sinto culpa por tratá-los como tal.

Ela recuou, horrorizada com o desprezo e fúria na voz dele.

— Uma pessoa morta é apenas pele, carne e ossos, Elsbeth. Esta é a verdade. Quando eu morrer, tudo o que há de especial em mim desaparecerá. Neste momento, não me importarei se você alimentar um cachorro com o meu cadáver. Pelo menos, alguém será alimentado. Agora, se não se importa, sugiro que volte para o outro prédio. Você provavelmente não quer observar o que acontecerá a seguir.

Ele lhe deu as costas e entrou, batendo a porta atrás dele. Ela continuou parada e observou os esqueletos chegarem, derrubarem dois corpos no chão, bem em frente à porta, antes de se virarem para pegar mais. De dentro, ela conseguia ouvir o som de atrito entre metal, e levou um instante para perceber o que ele estava fazendo.

‘Ele está afiando facas.’

Seu estômago embrulhou ao pensar nisso e ela se apressou em sair dali. Apesar de seu desgosto, as palavras de Tyron reverberavam por sua mente. Isso a lembrou do que Munhilde lhe disse, sobre aceitar a realidade como ela é, sobre não atribuir falsos significados a uma verdade fundamental.

‘Isso é errado. O simples fato de as pessoas acreditarem nisso é suficiente para torná-lo real. A dor de uma mãe por seu filho é real. O respeito que prestamos aos mortos pode não fazer diferença para o falecido, mas faz para os vivos. Isso é o que torna tudo valioso.’

Ela encontrou Munhilde ainda no campo, cavando. Então, pegou uma pá sobressalente e pulou no buraco com ela.

— Aquele seu amigo é interessante — disse sua professora.

— O que envolve um enterro dedicado aos Deuses Antigos? — questionou Elsbeth. — Eu quero saber.

Munhilde parou de cavar e se virou para olhar para sua aprendiz, com uma pitada de surpresa em seus olhos.

— Esta é a primeira vez que você me pede diretamente para ensiná-la — observou ela.

Elsbeth encontrou seu olhar.

— E?

Munhilde assentiu.

— E os Deuses Antigos só se importam com aqueles que são fortes o suficiente para se defenderem sozinhos. Escute bem, garota, só direi uma vez.

…

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