As rodas rangiam ameaçadoramente ao passar sobre as pedras meio afundadas que cobriam a estrada. Não era a primeira vez naquele dia que Elsbeth teve que levar uma mão à cabeça para impedir que o capuz caísse e a outra mão ao poste ao lado para impedir que caísse de seu assento. Ela havia aprendido por experiência própria que Munhilde não pararia o vagão quando ela perdesse o equilíbrio, esperando que ela se equilibrasse e subisse de volta.
“Descubra você mesma” parecia ser a forma de viver da mulher mais velha.
— Você não acha que deveríamos parar em breve? — perguntou ela, esforçando-se para soar mais animada.
— Não falta muito — resmungou Munhilde. — A fazenda Long Field fica a cerca de trinta minutos daqui.
Então, silêncio.
Ela era uma mulher de poucas palavras, esta sacerdotisa dos Deuses Sombrios. Elsbeth descobriu que conseguir informações dela era como arrancar um dente. Como esperava que essa pessoa fosse sua professora e mentora, sentia-se frustrada com a falta de progresso.
‘Paciência’, ela se consolou.
Se não lhe contavam muito, tinha que haver um motivo. Talvez ela devesse simplesmente aprender ao observar. Exceto que fazia semanas desde que deixaram a vila, e não havia aprendido quase nada!
Paciência era uma virtude, mas ela sentia que a sua estava se esgotando rapidamente.
Na verdade, ela não havia aprendido nada. As duas passavam o tempo viajando entre vilas e fazendas remotas, onde sempre eram bem-vindas, ainda que com certa reserva. Munhilde falava com as pessoas, cuidava das doenças com cataplasmas e ervas que guardava na carroça, vendia mercadorias e trocava notícias.
De muitas formas, elas eram como vendedoras ambulantes, e Elsbeth achou essa experiência agradável. Ela conhecia novas pessoas, cuidava dos cavalos, Tum e Rum, e dormia na carroça à noite. Era pacífico, silencioso, e sentia que estava ajudando as pessoas.
Mas o que mais a surpreendeu foi o número de pessoas que encontraram e falaram com sua professora sobre os Deuses Sombrios. Homens e mulheres, velhos e jovens, vinham conversar com Munhilde em tons baixos e reverentes, pedindo por bênçãos, intercessões ou orações.
Elsbeth não sabia o que esperava ver nos seguidores dos Três. Pensou que, de alguma forma, eles pareceriam diferentes, seriam distintos dos demais, mas, claro, não eram. Ela nunca teria descoberto a fé secreta dessas pessoas se não estivesse acompanhada por uma Sacerdotisa das Trevas.
A qual também era sua Classe agora.
A revelação, quando ela finalmente completou o ritual de Status e viu o nome escrito na página, foi agridoce. As coisas não haviam ocorrido da forma que esperava, mas ela ainda encontrou deuses que estavam dispostos a aceitá-la. Só que não entre o panteão que adorou por toda sua vida.
— Você se encontrou com essas pessoas recentemente? — Elsbeth continuou em sua tentativa obstinada de atrair sua professora para a conversa, com um sorriso no rosto mostrando talvez alguns dentes a mais do que pretendia.
— Faz dois anos que não vou até Long Field — respondeu Munhilde depois de pensar por um instante, então voltou o silêncio.
Elsbeth sentiu seu rosto começar a doer.
— Há alguma coisa que você possa me dizer sobre as pessoas que encontraremos lá? — perguntou animada.
Ela tentou dizer isso alegremente, mas sua professora a encarou por um momento antes de bufar.
— De modo geral, Avery é quem manda no lugar. Ele é uma pessoa legal, considerando que é um seguidor de Rot — disse ela.
Elsbeth quase pulou, pois a outra mulher raramente mencionava algo sobre os deuses sem ser questionada.
— Eles tendem a possuir algum temperamento particular? As pessoas que adoram Rot.
Ela falou o mais casualmente que pôde, temendo que sua professora se calasse, porém Munhilde fez só uma careta.
— Existe uma certa perspectiva que vem de estar perto disso. Não é incomum que Fazendeiros que seguem os Sombrios trilhem esse caminho.
Qualquer tipo de trabalho em que suas mãos estejam imersas no ciclo da vida e da morte tende a ter adoradores de Rot entre eles. Curtidores, Açougueiros, Lenhadores e outros do tipo. Até mesmo Curandeiros.
— Curandeiros? — Elsbeth ficou surpresa. — Eu pensei que eles quisessem evitar a decomposição o máximo possível.
— Tudo está em estado de decomposição — Munhilde balançou a cabeça, com os olhos ainda fixos na estrada à frente delas. — Do momento em que nascemos ao momento em que morremos, e mesmo depois disso, estamos apodrecendo. Isso vale para todas as coisas vivas ou mortas. Até mesmo pedras estão sujeitas à erosão, desgastando-se com o tempo. Nada é permanente, neste reino ou em qualquer outro.
— Isso parece… uma forma muito desagradável de enxergar o mundo — Elsbeth hesitou em dizer. — Não há nenhuma esperança ou alegria na criação?
Munhilde cuspiu ao lado da carroça, e Rum balançou a cauda ao ouvir o som úmido.
— Isso são besteiras contadas pelos Cinco. Não é desagradável, nem ruim, nem bom, nem nada do tipo. Simplesmente é assim que as coisas são. Falar palavras bonitas, como esperança e alegria, não muda o que é. Só quando aceitamos a realidade do nosso mundo é que podemos começar a fazer algo a respeito. Não há espaço no pensamento dos Sombrios para desejo. Reconheça a realidade e siga em frente a partir daí.
Isso era mais do que a mulher mais velha havia dito mais sobre os deuses que compartilhavam em dias, e Elsbeth escutou com atenção. Ela nem sempre gostava de ouvir sobre aqueles a quem servia, mas nunca ignorava.
Isso certamente se encaixava no que já sabia sobre eles. Os Três eram deuses frios e indiferentes, desinteressados em mudar a realidade do dia a dia das pessoas que os veneravam. De muitas maneiras, eles eram alienígenas, completamente alheios à experiência humana que ela e os outros compartilhavam com os Cinco Divinos.
Isso a fez parar para pensar.
— Por que as pessoas veneram os Três? — perguntou, com a voz baixa e reflexiva. — Eles não gostam de responder orações, nem de ajudar pessoas. O que os seguidores deles ganham?
Este era um pensamento que ela teve muitas vezes, mas nunca havia sido ousada o suficiente para proferi-lo em voz alta. Agora que sua professora estava tão falante, ela ousou perguntar por uma resposta.
Para sua surpresa, Munhilde riu. Ela nunca havia ouvido a mulher rir nesse mês que estiveram juntas!
— Vocês, seguidores dos cinco impostores, são todos iguais — zombou ela —, vocês veem seus ‘deuses’ de uma forma tão transacional. O que eu ganho com isso? No que me beneficia? Como eles irão me ajudar e influenciar minha vida? Pff!
Ela cuspiu de novo.
— Você espera que um deus de verdade, um ser realmente divino, desça do céu e peça pela sua devoção? Que ele negocie como uma prostituta de rua?
Não seja ridícula. Nós os veneramos porque é isso que eles merecem e porque eles são seres caprichosos. Não há nenhum mal em buscar o favor de seres muito maiores do que nós.
A mulher mais velha a olhou de soslaio.
— Eles não deixam de conceder dons àqueles que os servem bem, saiba. Eu, por exemplo, recebi a bênção de Crone há muitos anos.
Por mais que quisesse perguntar, Elsbeth conteve sua língua. Não era seu lugar pedir por informações tão pessoais, mesmo que estivesse louca para saber. Munhilde a observou se debater por um minuto inteiro antes de suspirar.
— Você é incrivelmente gentil. Acho que nunca conheci um Sacerdote ou Sacerdotisa deles tão agradável em toda minha vida.
Ela pareceu pensativa por um instante antes de dar de ombros para si mesma.
— Talvez isso explique o interesse deles em você. Eles querem criar a primeira Sacerdotisa das Trevas gentil de todos os tempos.
— Eu gostaria que esse fosse o motivo… — murmurou Elsbeth.
Munhilde esperou que a menina elaborasse, mas só encontrou o silêncio. Então, estalou a língua e incitou os cavalos a seguirem pela estrada esburacada.
— Quase lá — disse ela. — Você pode ver as casas daqui, agrupadas uma em torno das outras. Já estaríamos lá se as estradas não tivessem sido destruídas pelas criaturas.
Elsbeth ficou em silêncio quando as criaturas das fendas foram mencionadas. Elas haviam ouvido sobre a ruptura a tempo de buscar abrigo em uma vila próxima. Foi uma visão horrível, e ela estremecia só de pensar.
— Espere — algo no tom de Munhilde a despertou de sua introspecção. — Algo está estranho.
Quando Elsbeth observou as construções distantes com mais atenção, ela pôde ver os danos. Janelas quebradas, alvenaria rachada e ladrilhos estilhaçados evidenciavam a carnificina que assolou esta área.
— Parece que eles sofreram muito durante a ruptura — disse ela suavemente.
— Não isso — comentou Munhilde. — Olhe para as cercas.
A garota olhou, confusa.
— Elas estão quebradas. Isso é chocante?
— Já deveriam ter sido consertadas. Mesmo bem perto das casas, elas não foram consertadas. Avery é muito rigoroso e não há como ele deixar que as coisas cheguem a esse ponto.
Com um puxão nas rédeas, os cavalos pararam e as duas Sacerdotisas aguardaram e observaram as casas à distância. A mais nova estava com uma expressão intrigada, e a outra mais irritada.
— Espere um momento — murmurou Munhilde antes de fechar os olhos.
Comungar com os Deuses Sombrios não era nada parecido com o que Elsbeth estava acostumada. Sua professora não precisava se ajoelhar ou preparar uma cerimônia para falar com eles. Em um raro momento de generosidade, Munhilde havia confessado que não “falava” com eles propriamente dita, mas sim buscava uma impressão do que eles queriam transmitir, que normalmente era nada.
Ela segurou a respiração enquanto a outra mulher se sentava, com as mãos cruzadas no colo e os olhos fechados, comungando com poderes mais antigos que a civilização. Finalmente, soltou um longo suspiro e incentivou Tum e Rum a continuarem.
— Deve haver um motivo para eles me colocarem neste caminho — disse ela. — Esta pode ser uma experiência reveladora para você, garota.
Algo na expressão dela dizia a Elsbeth que perguntas não seriam bem-vindas, então ela se preparou e manteve os olhos bem abertos enquanto se aproximavam. Surpreendentemente, não havia sinais de vida dentro do complexo até que estivessem muito próximas dele.
— Pare bem aí! — gritou uma mulher do segundo andar quando elas entraram na sombra do edifício. — Tenho uma flecha apontada para você.
Identifique-se.
— Annette Avery. Você deveria reconhecer a pessoa que a casou — zombou Munhilde, franzindo a testa para a janela. — Abaixe esse arco antes que você se machuque.
Ouviu-se uma correria acima.
— É você, Sacerdotisa? — perguntou a mesma voz, chocada.
— Obviamente. Vai mostrar seu rosto ou eu terei que falar com uma janela aberta?
— Já estou descendo!
Após um minuto, uma mulher de meia-idade, com o rosto vermelho, correu entre as casas para ficar ao lado dos cavalos. Uma miríade de emoções passou por seu rosto e então, surpreendendo Elsbeth, ela chorou.
Munhilde desceu da carroça e envolveu a camponesa em prantos em um abraço carinhoso.
— Calma, calma — disse ela. — Vejo que você passou por muita coisa. Vamos entrar e você pode me contar a respeito.
— Não, não — chorou Annette, — é o garoto! Por favor, Sacerdotisa, você precisa curá-lo!
Minutos depois, elas estavam diante do corpo pálido e suado de um jovem, inconsciente na cama. Sua respiração era ofegante enquanto seu peito subia e descia, com os membros tremendo nas extremidades.
E seis esqueletos mortos-vivos o observavam, com seus olhos queimando com uma luz roxa.
Elsbeth enxugou as lágrimas brotando em seus olhos ao olhar para Tyron.
— Temos que curá-lo — implorou à sua professora. — Eu o conheço.
A Sacerdotisa a encarou com olhos semicerrados.
— Os Sombrios são conhecidos por concederem favores — respondeu ela. — Mas sempre por um preço.
…