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The Divine Hunter – Capítulo 29

Fora da cidade

Roy fez alguns cálculos. Um quarto na estalagem não era algo que um civil pudesse pagar numa cidade como Aldersberg. Só a comida e o alojamento custariam sete coroas por dia, se Letho estivesse ausente durante um mês e meio, Roy gastaria mais de duzentas coroas. Isso era mais dinheiro do que ele possuía.

 E isso sem contar outras despesas, como aulas para aumentar seu vocabulário comum. Ele estava planejando ter lições disso durante a ausência de Letho, ser um analfabeto para sempre não estava na sua agenda, uma vez que isso o prejudicaria em sua carreira futura. O conhecimento e os livros tinham um preço muito elevado, especialmente em cidades como Aldersberg. A aprendizagem vai ser muito cara aqui.

…

 Roy saiu do quarto caro e detalhou o plano em sua mente. Primeiro, ele teria de alugar um local barato, necessariamente um que custaria uma coroa por dia. Ele precisaria de um espaço grande e escondido nas proximidades para sustentar a sua formação diária. Roy não ia pedir ajuda ao Seville, pois tinha acabado de recusar o pedido do anão. Pedir ajuda a ele de imediato seria uma fraqueza para Roy.

 Depois disso, ele teria que arranjar um emprego que pudesse dar-lhe algum dinheiro rápido. Ele não poderia simplesmente ter apenas débitos, sem créditos, Roy tinha de estar preparado para a ausência prolongada de Letho.

 E finalmente, ele precisaria de um professor de confiança com quem pudesse aprender um vocabulário comum. Vou tentar pechinchar o salário com eles.

 Roy passou a tarde inteira perguntando a cinco proprietários sobre seus quartos para alugar, a maioria deles tentou aproveitar-se dele porque ele era jovem e um forasteiro. O carto mais barato custava mais de três coras por dia, e isso sem contar as refeições.

 Isso fez Roy perceber que encontrar um quarto barato e adequado na cidade era só um sonho, por isso foi até os portões da cidade e perguntou às pessoas de lá. Para sua surpresa, ele conseguiu encontrar um lugar antes do pôr do sol.

 Atrás do portão sul de Aldersberg, Roy foi conduzido através de um campo de trigo que brilhava um dourado cintilante por um homem da faixa dos trinta anos. O homem era magro e baixo, ele vestia uma camisa branca, um par de calças brancas e um gorro da mesma cor. Eventualmente, chegaram a um pedaço de terra que tinha um moinho de água gigantesco e algumas casas. O nome do homem era Hank, o proprietário do local.

 Era quase pôr do sol quando chegaram. O pôr do sol bateu nas quatro casas perto do moinho de água. O cheiro de trigo flutuou pelo ar enquanto a brisa do Outono soprava pelos campos, as folhas caídas dançando no ar. Enquanto o moinho d’água corria lentamente, a água fluía através dele. Se Roy pudesse parar o tempo, a cena ao lado do rio teria parecido uma pintura a óleo.

 Roy gravou o cenário enquanto seguia Hank por aí. Quando seu olhar caiu sobre a gaiola do lado direito do moinho de água, Roy olhou mais de perto. Ele viu uma jovem senhora de avental branco com as costas voltadas para eles. O seu cabelo castanho estava amarrado num rabo de cavalo, e ela inclinava-se para alimentar as galinhas com a ração em sua caçarola.

 Ela era pequena em estatura, mas essa não era a questão. A questão era que as costas da jovem senhora estavam salientes. Ela era corcunda.

 Quando Hank reparou onde Roy estava olhando, sorriu de forma estranha. “A minha filha está muito doente, meu amigo. É por isso que ela está nesse estado. Será que ela o assustou? Vou afastá-la agora mesmo”.

 Por causa da sua filha feia, ninguém alugava o quarto vazio de Hank, por mais baixo que fosse o preço. Agora que esse idiota está aqui, não vou deixá-lo ir tão facilmente. Esse rapaz vai ser fácil de negociar.

 “Não”. Roy balançou a cabeça. Ele não era alguém que ria das deficiências dos outros. “Eu não ligo. Apenas me leve para o quarto”.

 A garota no galinheiro ouviu a conversa deles, e se virou. Quando viu Roy e seu pai, a garota tropeçou para se esconder no armazém. A forma como ela corria era estranha. As suas pernas tinham comprimentos desiguais, e os seus ombros não estavam nivelados. Sempre que ela tentava andar, balançava e mancava. Roy se lembrou de uma mulher velha e manca quando viu a garota fugir.

…

 O quarto que Hank alugava era simples e direto. Não tinha nada além de uma cama feita de feno e um cobertor. O quarto estava limpo, embora mal cuidado quando comparado com os quartos da estalagem que estavam cobertos com cobertores de penas, móveis delicados, janelas francesas e espelhos grandes.

 Roy não reclamou, no entanto. Depois de sobreviver na selva com Letho, ele não se importou com a cama que tinha. Desde que chegou a este mundo, tinha levado um estilo de vida extremo e minimalista. Felizmente, o Roy original não era um jovem delicado, e graças a isso, o novo Roy adaptou-se rapidamente à essa vida. Se vivesse como na minha antiga vida, provavelmente seria um nobre ou um mago.

 Roy estava feliz com o lugar. Havia uma grande parcela de terreno ao lado da lagoa sobre a qual foi construído o moinho. Ele podia usar esse lugar para treinar seu disparo de besta. Hank até lhe ofereceu um jantar gratuito, por causa que ele lhe pagou 30 coroas para ficar durante o mês.

…

 Quando a noite caiu, Roy veio para a mesa de jantar. Lá ele viu Hank e a sua família. Além do magro dono do moinho de água, havia uma mulher gorda e rechonchuda com um vestido comprido e um nojento batom carmesim que estava sentada ao lado de Hank

 “Deixe-me apresentar você a minha mulher, Roy. Está é Mana, ela ajuda no moinho”.

 A mulher gorda estava sorridente. “Ah eu estava me perguntando por que os pássaros estavam cantando tão alegremente esta manhã. Então, nós temos um cliente. Tem bom gosto, meu amigo, garanto que não há outro lugar tão barato e limpo como o nosso por aqui, tenha uma boa estadia. Você vai adorar”.

 A mulher gorda cobriu a boca e riu roucamente, o seu corpo carnoso tremendo. Roy olhou para Hank.

 Com uma mulher como ela, não é de admirar que ele seja tão magro.

 “Você não parece que é daqui, e o seu sotaque não soa familiar. De onde veio? Está aqui para assuntos urgentes?” Mana pegou uma pata de porco que foi grelhada até ter um tom dourado-marrom e lambeu a gordura dos seus dedos avidamente.

 “Venho de uma aldeia em Baixa Posada. Um parente meu me trouxe aqui para trabalhar, disse que eu podia ganhar alguma experiência. Mas desapareceu no momento em que chegamos à cidade”. Roy suspirou de propósito e pegou uma pata de porco para cortar.

 “Oh, que parente horrendo”. A mulher gorda limpou sua boca oleosa com um guardanapo, com a simpatia piscando em seus olhos. “Não se preocupe, meu amigo. Aldesberg é uma grande cidade, se estiver disposto a trabalhar, há empregos em todo lugar. Você encontrará um rapidamente”.

 Roy olhou para o casal. “Tem algum emprego que possa recomendar?”

 Hank balançou a cabeça enquanto ponderava, a luz fazendo as sombras dançarem sobre o seu rosto. “O açougueiro do lado? Não, ele não vai ensinar um forasteiro isso. É muito lucrativo, o assistente do carrasco? Não, morte demais. É má sorte para o moinho”.

 “Siga o meu conselho, meu jovem. Já que esse é o seu primeiro trabalho numa grande cidade, porque não baixa seus padrões?” A mulher gorda entrou na conversa. “Hank deixou sua casa para trabalhar aqui quando tinha a sua idade. Ele teve de trabalhar durante dez anos para ganhar algum dinheiro e alugar esse moinho. Ele já tinha feito todos os trabalhos sob o sol antes disso – lixeiro, e até mesmo um substituto para um dono de cabine. Eu acho que você deveria tentar esses trabalhos, o mercado no centro da cidade precisa de trabalhadores, mas cuidado com certas pessoas”.

 Hank continuou. “Mana tem razão. Se algum revolucionário lhe der panfletos, lembre-se de se manter afastado deles e não se deixe enganar. De todas as coisas que eles podem fazer, decidiram se revoltar. Um dia desses, suas cabeças estarão sob da guilhotina”.

 “Pensei que eles estavam abaixando os impostos sobre os camponeses”. Roy terminou tranquilamente todas as patas de porco e lambeu seus lábios. As patas eram macias e deliciosas. Essas estariam ao nível da carne grelhada de Letho, se acrescentassem mel. O único problema é a quantidade, provavelmente, só o jantar do primeiro dia pode ser tão bom.

 “Oh, você não sabe. Claro que sim, o Barão Tavik cedeu uma vez, e honestamente, eles deveriam ter desistido enquanto estavam à frente. Mas depois o seu líder desapareceu, e eles insistiram em culpar o barão por isso, forçaram-no a responder. Isso é simplesmente ridículo”.

 Roy sabia que o cadáver do líder estava apodrecendo num certo barril de vinho de um anão. O barão foi acusado injustamente nesse caso.

 Hank continuou. “Você também precisa ter cuidado com a Tríade Sparrow, meu amigo. Os rebeldes não são o único perigo em Aldersberg. Esses idiotas são maus. Eles fazem tudo, desde esquemas e até roubos. Não vá para a parte baixa da cidade. Aquele é o território da Tríade, eles atacam forasteiros, especialmente rapazes jovens, frágeis e bonitos como você”. Ele sorriu misteriosamente. “Alguns nobres adoram rapazes jovens”.

…

 “Obrigado pelo lembrete”. Roy acenou com a cabeça e encheu sua tigela com sopa de batata. “Oh, certo, Sr. Hank. Me lembro de ter visto uma garota há pouco, ela é sua filha né? Porque ela não está aqui conosco?”

 O ar gelou depois de Roy ter mencionado a garota. A mulher gorda que estava devorando sua comida se engasgou com ela. Ela bateu no peito, com a cara vermelha por asfixia, e Hank abaixou seu garfo. “Ela só vai arruinar nosso apetite, meu amigo. Aproveite o seu jantar. Ela tem o seu próprio lugar”.

 “Hmph!” Depois da mulher gorda ter se acalmado, a sua expressão jovem foi substituída por uma contorcida. “Não volte a mencionar aquela infeliz. É da nossa conta como a tratamos, não se meta nisso”. A mulher gorda não se deu ao trabalho de esconder o desdém que tinha, embora para Roy ou para a garota, isso permanecesse um mistério. “Somos suficientemente amáveis para a alimentar e abrigar. Ela pode esquecer de jantar conosco”.

 “Qual é o seu nome então?”

 “Aquela infeliz? Se chama Toya”.

…

 Roy deu a volta no local depois do jantar, e viu uma garota solitária sentada à porta do armazém, comendo de seu prato. Finalmente viu o rosto dela graças a lâmpada na parede. A garota tinha uma cara redonda e traços pequenos que correspondiam ao tamanho da sua cara. As suas sobrancelhas eram finas, os seus lábios minúsculos. A suas bochechas brilhavam em vermelho sob a luz, e só pela sua aparência, Roy diria que ela tinha por volta da idade dele. Uma moça muito jovem.

 A percepção da garota era afiada. Ela percebeu que Roy estava lá após apenas um momento, e escondeu como uma ovelha assustada.

 Eu sou assim tão assustador? Eu não sou um demônio, pensou Roy. Ele foi ver o que a garota comia, comparado ao refinado jantar que Hank e Mana tinha, Toya só tinha um prato de purê de batatas sem graça. Roy se perguntou por que Hank e sua mulher iriam torturam a sua própria filha. Só porque ela está deformada e ‘desagradável’? Mas Roy não podia interferir, pois não estava lá há muito tempo. Ele tinha que se familiarizar com o lugar antes de poder fazer qualquer coisa.

…

O brilho prateado da lua banhava a terra. Na região ao lado do lago estava um rapaz firme, magro com cabelos e olhos negros. Estava ajoelhado num só joelho, segurando uma besta com ambas as mãos enquanto apontava para uma árvore desagradável à cinquenta metros de distância. O seu corpo estava centrado, os seus ombros nivelados. O seu joelho esquerdo no chão, o seu pé esquerdo encostado na terra, o seu joelho direito apontava para fora enquanto o seu pé direito o segurava, formando um triângulo firme com sua perna esquerda apoiando o rapaz.

 O rapaz pesou o quadril suavemente no calcanhar esquerdo, enquanto o cotovelo direito foi colocado no joelho direito, apoiando a besta de mão que era segurada na mão direita. O rapaz respirou fundo enquanto apontava para a árvore, e soltou-a lentamente. No momento em que terminou, ele puxou o gatilho com o seu dedo indicador esquerdo.

 O virote disparou pelo ar, alojando-se no seu alvo. Então Roy realizou uma série de ações com as mãos e pés em sucessão, recarregando a sua besta de mão em quatro segundos. O rapaz se atirou para o lado e se fixou no chão novamente antes de se mudar para uma posição de pé para disparar.

 Continuou a atirar, parando, mudando de posição, disparando e recuperando os virotes mais de quinhentas vezes. Tinham passados três horas após quinhentos tiros, e os seus músculos gritavam em protesto. Roy terminou o tedioso exercício de tiroteio, mas ele estava ofegante.

 A brisa da noite passou por ele com o seu arrepio, mas não conseguiu apagar a chama dentro dele.

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