Ao som da fria voz de Ram, Subaru sentiu seu coração congelar.
Subaru: “――――”
Ao olhar de volta para a entrada, lá estava Ram. Suas írises carmesim flamejavam enquanto, silenciosamente, encaravam Subaru. Por mais que Subaru houvesse tido contato com ela algumas vezes antes, ele raramente viu alguma emoção autêntica no rosto dela… porém, naquela Ram, havia um fervor que traía facilmente essa impressão.
Subaru: “Nhh, uh…”
Ram: “Por que você está tão aflito? Ram te fez uma pergunta. Respondê-la é o dever do Barusu… Não, é seu dever.”
Nota de tradução: Ram troca de Barusu para “anata”
Subaru: “E-Eu… só…”
Ram: “Só?”
Imediatamente, a cabeça de Subaru começou a girar ao que ele tentava explicar-se. De algum modo ele precisava mexer a língua, amaldiçoar sua mente lerda pela resposta inicial e tratar com boa lábia a situação atual.
Entretanto, anterior a todo esse caos, no qual ele havia sido jogado sem aviso prévio, Subaru nem sequer conseguira processar o desaparecimento do corpo de Meili. Ele nem mesmo preparara as palavras a serem ditas para se safar, ele sequer foi capaz de se pôr em posição para compreender o que havia ocorrido diante de seus olhos.
Tudo o que Subaru podia fazer era abrir e fechar a boca de maneira tosca enquanto fazia seu melhor para não dizer algo inapropriado. Muito embora esse comportamento o tornasse mais suspeito que qualquer outra palavra proferida por ele.
Subaru: “――――”
Ram estreitou seus olhos para o silêncio de Subaru. A frieza no olhar dela, a qual ele pensara chegar ao zero absoluto, aumentou ainda mais. Parecia que uma forte e arrepiante nevasca o havia atingido. Enquanto tentava desesperadamente manter seus joelhos firmes, Subaru lenta e tardiamente começou a entender a situação.
…Teriam armado contra ele?
Uma vez que o corpo de Meili não havia sido encontrado, teria a reunião na mesa de jantar sido apenas um blefe?
Quando eles reportaram que o corpo de Meili não fora achado, Subaru se sentiu aliviado porque havia escapado de ser considerado culpado.
Desesperadamente procurando em vão, eles não conseguiram encontrar o corpo da garotinha que fora escondido pobremente. Sua má sorte prevalecera mesmo nestas situações anormais, e Subaru havia aceitado essa verdade conveniente, colocando de lado todas as dúvidas que o afligiam. E isso resultou neste confronto direto no qual ele se encontrava.
Não houvera Subaru visto isto em vários programas de TV? No ato final, o assassino, que meticulosamente havia executado o plano perfeito, retorna à cena do crime e é descoberto enquanto a polícia e os detetives a investigam. E por conta disso ele entrega que cometeu o crime, uma prova irrefutável. Tal era o cômico momento…
Em algum canto de sua mente, Subaru pensara que se fosse ele nessa situação, jamais cometeria tamanha burrice. Qualquer conhecedor de mistérios iria lembrar-se dessa estupidez que todo criminoso cometia no fim. E ele havia agido exatamente da mesma forma… não, na verdade, agiu pior, pois, devido a seu estado de choque, um ar miserável transparecia sobre ele.
Ram: “…Farsante.”
O baixo murmúrio de Ram ressoou dentro dele enquanto ele era incapacitado pelas proprias ações. Com apenas uma palavra, o coração frágil de Subaru desmoronou e afundou peito adentro, como se atingido por um morteiro. No momento em que ele o ouviu, sua face ficou pálida tal qual um lençol; seus lábios tremiam.
Ram deixou escapar um suspiro.
Ram: “Então você não tem nada a dizer para se defender. Imagino que isso seja a prova que até mesmo você está ciente do quão horrenda sua atuação é. Você não se preparou o suficiente para imitá-lo. Há limites no que tange negligência, não concorda?”
Sem esconder o desgosto em sua voz, Ram começou a contar para Subaru o porquê ela tinha suspeitado dele. Falsidade, atuação fraca e uma aparente falta de conhecimento sobre『Subaru Natsuki』foram apontados por ela. Subaru não estava apenas sem palavras, como seu coração parecia que estava prestes a explodir. Ele tinha mordido o lábio inferior, e seu sangue começou a pingar, acompanhado por uma dor agoniante.
Um farsante, farsante, farsante, farsante, farsante, farsante, farsante, farsante, farsante, farsante, farsante… Uma imitação barata de 『Subaru Natsuki』, um impostor…
Esse pensamento fez morada em seu estômago. Como se uma repugnante lama o cobrisse da cabeça aos pés; um peso que fazia seus joelhos pararem de tremer. Contudo, uma chama cintilava, dançando sobre a fusão de emoções obscuras. Pode-se chamar isso de hostilidade, malícia, malquerença… ou, porventura, um anseio por matar.
Ram: “Impossível esse comportamento estranho não ser percebido, bom, exceto para quem que não pode desperdiçar o tempo pensando sobre isso. Isto é, Julius e, Anastasia-sama… bem, Eridna.”
Subaru: “…Você tá mesmo soltando a língua. E, olha, cá estou eu te escutando pacientemente sem dizer nenhuma palavra.”
Ram: “――――”
Subaru: “Um farsante?! Acho que você tá passando dos limites com essas acusações falsas. Quem diabos você pensa que é?!”
Ram: “Acusações falsas, huh?”
Subaru tentou expressar as suas objeções, por mais doloroso que fossem, em resposta à língua afiada de Ram. É claro, o ponto que ela fez estava completamente correto. Mesmo que ele não gostasse de ser chamado de『Cópia fajuta』, aquele vazio, que nunca poderia ser preenchido, existia entre Subaru e『Natsuki Subaru』. No entanto, ela não deveria ter percebido isso. Caso ela percebesse, então seria impossível ele sair dessa situação. E ele não poderia parar aqui, bem no meio do caminho―
Subaru: “Mais e mais acusações falsas. Minhas orelhas nem dão mais atenção, sabe, eu não posso escutar nenhuma delas.”
Com os ombros encolhidos e com as bochechas distorcidas pela raiva, Subaru falou enquanto encarava Ram. Dramatizando verdades e mentiras, que até mesmo ele as achava descaradas, como a verdade do mundo.
Subaru: “E mais, qual o problema de eu querer caminhar pela torre à noite? Só queria esticar as pernas e aproveitar para pensar um pouco sozinho. Foi por isso que, por escolha, fui a um lugar onde eu não estaria perto da sua irmãzinha… nem da Patrasche…”
Ram: “…Você realmente pensou que ninguém havia visto nada?”
Ram perguntou calmamente para Subaru, que estava vomitando desculpas. Suas palavras foram breves, porém afiadas, faladas com a intenção de perfurar os seus pontos vitais.
Subaru: “――――”
Subaru prendeu sua respiração e sua mente começou a trabalhar rapidamente para descobrir o que ela realmente queria dizer com aquelas palavras. Ver, viu, não ter visto, não poder ser visto.
―De onde Ram tinha tirado essa palavra, Ver. O que ela quer dizer com isso?
O cadáver de Meili? Ou ela estaria se referindo a Meili antes de ser um cadáver? Ou talvez ela tivesse visto ele agindo para esconder o corpo? Ou talvez―
Ram: “Nada… mesmo que você planejou para ninguém ver, a dragão de terra estava diligentemente observando o seu comportamento estranho. E por conta disso, Ram também foi capaz de te ver da mesma maneira.”
Colocando os dedos em seus lábios, bem na frente dele, Ram, propositalmente, fez questão de mostrar esse gesto asqueroso para Subaru.
Subaru: “O que caralhos você tá falando.”
Sem entender o significado dos gestos dela, Subaru soltou estas palavras com espanto. No entanto, ele tinha uma memória recente desse gesto em específico. Era nada mais nada menos do que o gesto que Subaru fez para Patrasche ao sair da Sala do Espírito. Nesse momento, ele não poderia nem imaginar como o significado por trás disso poderia aparecer aqui, nesse lugar com a Ram―
Ram: “Você precisa estudá-lo mais, sua『Cópia Fajuta』―”
O completo desapontamento que aquela palavra carregava era o que demonstrava que esse era o aviso final de Subaru
Subaru: “――――”
Até o momento, por mais que ela tenha sido extremamente fria e insensível, Ram se manteve aberta ao diálogo, mesmo que a sua intenção de trocar palavras com Subaru estivesse sumindo a cada segundo. Entretanto, no instante em que ele viu o olhar de Ram, Subaru percebeu que suas desculpas eram inúteis.
Ram iria ignorar qualquer coisa que Subaru inventasse. Dessa forma, já que havia chegado a esse ponto, Subaru não tinha outra escolha a não ser usar a força bruta.
―Naquele momento, Subaru começou a pensar na forma de que ele iria matar Ram.
Subaru: “――――”
Pensar como ele iria matá-la… Não tinha mais sentido em ser relutante nesse assunto. Ele já havia matado uma pessoa. Uma ou duas, a diferença era mínima. A um tempinho atrás, 『Eu』, eu tive muita experiência em roubar vidas de um grande número de pessoas. Daqui em diante, não teria nenhum obstáculo na execução do plano do 『Livro dos Mortos』.
Meili: “M~as, aquela Onee-san…”
Inúmeras escolhas desmoronaram como uma cascata dentro de Subaru. À beira de ser deixado apenas com seus pensamentos perigosos, a ilusão da garotinha, que estava em silêncio até agora, fez sua aparição.
Por que, mesmo que fosse invisível, a presença da ilusão era tão forte que ele a podia sentir respirando em sua nuca. Ela abraçava o corpo dele por trás, delicadamente sussurrando na sua orelha, tentando-o. E o conteúdo dessa tentação doce, doce e sentimental era—
Meili:『―Certamente ela está em uma condição péssima, não~é? O centro de gravidade dela está para esquerda, o seu equilíbrio está bem ru~im』
Aqueles sussurros doces o endereçavam as fraquezas da impressionante porém aterrorizante garota… No fundo, Meili tinha dado instruções de como matar Ram.
Ram era menor que ele, era mais fraca que ele, tinha menos experiência em matar que ele.
Com o conhecimento que『Ela』tinha acumulado por passar tanto tempo com a assassina de preto, seria bem fácil matar a mulher a sua frente.
Meili:『Derrube-a na direção da mão esquerda dela, e então bata a cabeça dela contra a parede. Isso vai bastar.』
Enquanto ele considerava a diferença de força entre ele mesmo e Ram, um conselho relevante veio 『Dela』. Apenas seguindo isso, o crânio da menina iria rachar, e flores com uma profunda cor carmesim iriam desabrochar na parede.
Flores carmesins iriam combinar perfeitamente com o cabelo rosado dela―
Subaru: “―!”
Sem nenhum aviso, sem nenhuma abertura óbvia, Subaru encarou a face de sua oponente em um piscar de olhos, e, então, deu um passo à frente. Recebendo aplausos da ilusão, Subaru seguiu em frente, sem hesitação, em direção ao corpo de Ram, que estava levemente tenso. Ele se inclinou à mão esquerda da garota, com a intenção de jogar o corpo dela contra a parede e então―,
Ram: “Agora que você ficou sem palavras decidiu recorrer à violência. Que bárbaro, uma conclusão entediante.”
Naquele momento de defesa e ataque, antes que o braço de Subaru pudesse alcançá-la, Ram abriu sua boca e soltou tais palavras. Com os seus olhares se cruzando, o fôlego de Subaru foi embora ao ver o olhar frio de Ram.
Ram: “―Você realmente pensou que “a pequena e frágil Ram” iria enfrentar um bárbaro sozinha?”
Ao invés de zombar dele, as palavras de Ram tinham um tom similar ao de pena, e se misturavam com um som de estalos no ar. Porém, Subaru não estava ouvindo coisas. A umidade da atmosfera se congelou rapidamente, o ar a sua volta estava sendo transformado de gasoso para sólido forçadamente.
Subaru: “O…Que?”
O som de estalo, do qual ele havia ouvido, tinha sido causado pelo seu próprio passo contra uma pilha de gelo que se levantava em direção a seu pé. Aquilo tinha lhe parado, causando-lhe dor.
Subaru: “Ge-lo…?!”
Ao cair devido ao frio e forte impacto, Subaru mal pôde acreditar em seus olhos. Mas, a transformação não parou por aí. Barras de gelo, que não tinham aparecido apenas sob seus pés, mas também aos arredores, o enclausuraram, tomando forma de uma jaula de gelo.
Subaru: “Você deve tá de brincadeira… mas que p… Magia?!”
Em um piscar de olhos, a jaula de gelo se materializou e Subaru estava completamente preso dentro dela. Agarrando as barras com as mãos, Subaru tentou sacudí-las violentamente em uma tentativa de quebrá-las. No entanto, seus esforços apenas resultaram na sua surpresa perante a resistência do gelo. As barras não se moveram um centímetro. Ele não tinha um pingo de fé de que conseguiria escapar. E então, Subaru tinha sido pego―
???: “―Tudo seria muito melhor se Ram estivesse errada sobre isso…”
Olhando para ele com seus olhos ametistas, Emilia entra no seu campo de visão vindo por de trás de Ram.
O que havia ocorrido não era nada surpreendente; Subaru se vê surpreso como um macaco dentro de uma gaiola.
Subaru: “――――”
Ram e Emilia se juntaram para prendê-lo; isso era óbvio. Ao contrário de Subaru, elas tinham a opção de cooperar entre si. Desde do inicio, a escolha de encarar uma pessoa perigosa sozinha não passou pela cabeça delas. Em conclusão, Subaru havia dançado na palma das mãos das garotas esse tempo todo.
Ram: “Nesta cena, você não será capaz de se engrandecer com frivolidades, eu cansei de falar com você e suas bobagens sem sentido. Como ator, mal posso dizer que você é ruim, muito menos medíocre.”
Ram soltou isso, cruzando os braços e olhando para Subaru, que estava sentado dentro da jaula. Olhando para ela, ele notou que ela não tinha dado um passo sequer do lugar que ela iniciou a conversa. Pior ainda, ela nem sequer mudou sua postura. Entre ela e Subaru, isso era o que diferenciava os dois atores.
Ram: “Com essa atuação, só uma pessoa desatenta seria enganada. Basta pensar que até a pessoa mais cabeça de vento de todas desconfiou de você.”
Emilia: “Do jeito que você está falando… você não está me elogiando? Obrigada.”
Ram: “… Não há de que.”
Perto de Ram, que havia reagido com acidez, os cabelos prateados balançaram enquanto Emilia andou para frente. Julgando pela fala de Ram, essa jaula de gelo tinha sido feita a mão pela Emilia― Em outras palavras, pode- se concluir que esse era o tipo de magia que ela manipulava.
Se fosse em outra situação, Subaru teria definitivamente ficado impressionado com a sua manipulação de magia de gelo, que combinava perfeitamente com a sua face mística e bela. Mas, vendo que ele estava praticamente em cativeiro, e testemunhado o quão dura a jaula era, com apenas um olhar era possível perceber a nítida diferença de força entre ele e Emilia, e o quão inferior ele era.
A dificuldade de execução do seu plano do『Livro dos Mortos』tinha subido muito, mas, antes disso―
Emilia: “―Subaru, o que você está tentando fazer dessa vez? Não era para você estar descansando na Sala do Espírito?”
Subaru: “Eu…”
Com um olhar de preocupação, Emilia perguntou a Subaru o que ele fazia ali naquele horário. Um sério olhar de ansiedade transparecia nos olhos dela, e a única conclusão que ele poderia alcançar era a de que o motivo dessa pergunta vinha de uma honestidade tão pura que poderia ser considerada estupidez. Ela estava enganada ao pensar que havia um motivo lógico por trás dessas coisas.
Até Subaru tinha a sua própria opinião sobre isso. Uma razão de como ele acabou assim certamente existia. Porém, tentar contá-la seria como tentar agarrar o ar; Quem nessa terra acreditaria em Subaru?
Ram: “Emilia-sama, não tem sentido perguntar isso a ele. Eu duvido que ele irá respondê-la honestamente. Eu tenho as minhas dúvidas de como manejar essa situação como se ele fosse Barusu.”
Emilia: “Mas, Subaru é Subaru! Ram, você deve entender isso, certo?”
Ram: “Apenas uma imitação com uma aparência parecida… é assim que Ram vê.”
Mesmo que viessem de Ram, esses pensamentos se assemelhavam muito aos pensamentos do próprio Subaru sobre ele mesmo…
Ram repreendeu a noção de Emilia. Provavelmente, foi ela quem havia suspeitado de Subaru e que também propôs vigiá-lo durante a noite. Assim, Emilia ficou por perto, agindo de guarda-costas no caso de uma emergência.
Em outras palavras, as respostas de como lidar com o『Natsuki Subaru』,que não era Natsuki Subaru, já tinham sido descobertas por Ram um tempo atrás. Assim, tudo que restou era confirmar o fato e as respectivas queixas…
Ram: “Graças a Emilia-sama, você foi capturado antes que pudesse causar algum male. Eu me pergunto se um pouco de dor o deixaria mais propenso a nos dizer o que queremos ouvir.”
Subaru: “Dor…tipo me torturar? Isso não é uma daquelas coisas bem conhecidas que, além de ser extremamente sádico, é necessário um conhecimento bem sofisticado??”
Ram: “Eu irei fazer o que for necessário. Além do mais, não é muito do meu feitio causar dor em terceiros― Porém, é uma das minhas especialidades.”
O mantendo na jaula, que mal tinha 2 metros quadrados, Ram não estava pegando leve. Por mais pálido e esguios que os dedos dela possam parecer, a declaração humilde de『Causar dor é minha especialidade』era assustadoramente convincente para Subaru.
Se ele continuasse assim, sem fazer nada, e se a oportunidade de um contra-ataque não se apresentasse, isso se tornaria um caso onde não importasse o quanto ela procurasse pelos segredos dele, ele apenas estaria confessando seu comportamento miserável.
Emilia: “―Espera. Você não pode machucar ele. Eu não permitirei que você faça isso.”
Porém, Emilia, aquela que tinha aprisionado Subaru, foi quem parou Ram antes que essa tomasse medidas drásticas. Ela se virou de costas para a prisão na qual Subaru estava e encarou Ram diretamente.
Ram: “…Emilia-sama, você não estava apoiando Ram?”
Emilia: “Eu apoiei a sua ideia de questioná-lo porque eu também estranhei o comportamento de Subaru. Mas por acreditar que esse tipo de situação poderia vir a acontecer… eu decidi aparecer aqui.”
Ram: “Por eu não querer que algo assim ocorresse, pedi que Beatrice acompanhasse os demais. E, ainda assim, eu não imaginei que a Emilia-sama seria tão…desobediente…tão ingênua.”
Sem esconder o seu descontentamento perante a diferença de opiniões, Ram aponta para Subaru, que estava se escondendo atrás de Emilia. Se referindo a eles, ela solta as palavras amargas “isso está certo?”.
Ram: “Ele não possui as características que Barusu obviamente deveria ter. Eu ouvi você falando sobre a cidade das comportas d’água… Pristella. Pelo que parecia, você se encontrou com um arcebispo que trocava de forma.”
Emilia: “… Sim. Uma das razões para nós virmos até aqui é para trazer de volta aquelas pessoas que o Arcebispo do Pecado transformou em uma forma diferente”
Ram: “Então, quais são as chances do Arcebispo do Pecado se transformar em qualquer um de nós?”
Emilia: “――――”
Ram: “Mesmo se ele não for esse Arcebispo em específico, se eles forem capazes de mudar sua forma livremente nós não podemos confiar nas aparências externas. A conduta normal dele, os sentimentos quando ele tenta falar, se todas essas coisas são diferentes…”
Ram respondeu logicamente enquanto segurava a sua raiva direcionada a oposição meramente emocional de Emilia. Suas falas não eram nada mais do que meras deduções e acusações sem base direcionadas a Subaru. Mas também não havia nenhum respaldo para negá-las. E não menos importante, Subaru― Não,『Eu』me senti revoltada com o tópico atual.
Subaru: “――hk”
Um flashback, memórias brancas. Elas não vinham de Natsuki Subaru, mas sim de um pequeno fragmento das memórias vistas no 『Livro dos Mortos』. Memórias de quando『Eu』 era『Ela』.
…Treino, era assim que eles chamavam suas ações contra『Mim』.
Mesmo que pavor tivesse sido encravado em mim incontáveis vezes, o mais aterrorizante de tudo o que aconteceu comigo foi ter meu corpo manipulado para se transformar em incontáveis『Sapos』.
Embora minha consciência existisse apenas em um corpo, ela estava infinitamente fragmentada e fazia o que queria, pulava quando queria, corria para onde queria.
O temor do pensamento de não ser capaz de voltar a meu eu original trouxe a percepção de que eu tinha esquecido quem o meu 『Eu Original』 , era em primeiro lugar. Com minha razão de existência destruída, fiquei agradecida do fundo do meu coração quando minha『Mãe』 me trouxe de volta ao normal.
Ao mesmo tempo, a ideia de que eu nunca deveria, sob circunstância alguma, ir contra as ordens dela foi fixada em minha alma.
Subaru: ”――hk”
Relembrando desse terror tão avidamente, quase como se o tivesse vivido, o campo de visão de Subaru se embaçou. A aparência de alguém é algo que está diretamente ligado à sua identidade e a sua subjetividade. Moldar e transformar isso ao bel prazer, poderia ser chamado de blasfêmia para a existência desse alguém. O feito mais detestável de todos―.
Emilia: “Isso é muito extremo, não é do seu feitio Ram! Parece que você está me forçando a contê-lo!”
Ram: “Como você pode dizer que nada está acontecendo? Quando esse homem, logo atrás de nós…”
Emilia e Ram continuaram a discussão enquanto o estômago de Subaru se revirava em agonia. Contudo, o ponto de Ram era como uma “Probatio Diabolica”. Você pode provar que algo é, mas ninguém pode provar que não é.
Esse Natsuki Subaru não era o 『Natsuki Subaru』que elas queriam. Para respaldar essa teoria, era necessário apenas existir alguém que pudesse trocar de forma. Ficava simples― e ao mesmo tempo, era insuportável para o atual Subaru, do fundo de seu coração. Esmagado pelas emoções hostis dentro dele, Subaru arqueou em dor.
Ram: “Eu preciso fazer ele falar, agora! Para que eu possa saber onde estão Barusu e Meili.”
Subaru: “…Ah?”
Aquela queixa inesperada de Ram sobrecarregou a consciência de Subaru. Foi como um raio repentino, um comentário verdadeiramente abrupto.
Subaru: “――――”
Levantando o seu rosto, Subaru olhou para Emilia e Ram, que continuavam a sua briga. Vendo somente as costas dela, ele não era capaz de ver as emoções de Emilia, entretanto, a face de Ram era completamente visível para ele. Os olhos dela, queimando com ira, não estavam blefando. No mínimo, o que ela acabara de falar era o que ela realmente achava.
Em outras palavras, isso significava que Ram e os outros não tinham achado o corpo de Meili. A única coisa que tornava Subaru suspeito era seu comportamento, já que ele não conseguia de jeito nenhum emular o papel de『Natsuki Subaru』. Ele conseguia compreender de onde os questionamentos confusos de Ram vinham. Mas, ao mesmo tempo, ele não compreendia…
Se não foi Ram ou Emilia, quem teria movido de lugar o corpo de Meili? Se não foi Ram, nem os outros, nem Subaru, então tinha mais alguém agindo―.
Emilia: “Real ou falso, você não pode decidir assim! Eu digo, o Subaru que está aqui agora é…”
Subaru: “―Eu tenho… Amnésia!!”
Ram: “Huh…?”
Segurando nas barras de gelo, a fala de Subaru cortou a discussão das duas.
Ouvindo aquele grito, Ram pareceu ter ficado surpresa e confusa. Aquele ataque no ponto cego deixou a mente de Ram em branco. Se fosse um truque, executado para furar a lógica dela e atrapalhar seus pensamentos, então ele teria sido bem sucedido. Entretanto, esse não foi o objetivo: sua fala foi um grito da mais pura verdade sobre Subaru.
Subaru: “―tch”
O porquê de ele ter expelido isso bem nesse momento, até mesmo ele não era capaz de dizer. Nesse loop, ele tinha escondido o fato de que as suas memórias tinham desaparecido, e tentou imitar o antigo 『Natsuki Subaru』. E, graças a isso, ele conseguiu se safar nesse loop.
E, embora ele tenha sobrevivido, não ocorreram outras situações alarmantes que talvez até rivalizassem com esta, em que brincaram com Subaru Natsuki e o perseguiram, uma após a outra?
Mas na verdade, ocultar a sua amnésia tinha complicado tudo nesse loop. Então o que irá ocorrer agora, depois dessa grande revelação?
Ram: “Depois de tudo, você ainda está brincando…!?”
Quando os pensamentos estagnados de Ram voltaram a suas atividades normais, sua expressão ficou pintada de raiva. A garota provavelmente achou que o grito de desespero de Subaru era uma mentira esfarrapada ― Que não era nada mais do que pura bobagem.
Emilia: “Ram! Escute o que Subaru está dizendo! Existe uma razão no fim das contas!”
Ram: “Você está falando sério, Emilia-sama?! Isso é completamente inacreditável…!”
Com os braços esticados, Emilia ficou na frente de Ram, como que se apoiando às palavras de Subaru. Se ela pensasse que ele apenas inventou essa desculpa absurda, ele poderia muito bem desistir de continuar a falar. Porém, se opondo a Ram, que queria rejeitar completamente, Emilia a enfrentou com determinação.
Emilia: “Vale a pena acreditar nele! Nós não fizemos isso até agora?!”
Ram: “―hk.”
As bochechas de Ram ficaram tensas ao ouvir a resposta de Emilia. Por um segundo, um traço de dúvida sobrevoou as irises rosadas de Ram e vários pensamentos pareceram girar dentro da inteligente cabeça de Ram. Ela começou a abrir seus lábios rigidamente fechados, e então:
Emilia: “Ram, vamos ouvir Subaru e…”
Ram: “―E quanto a Rem?”
Emilia: “―ah”
Em um instante, com os olhos levemente marejados, a forma magra de Ram girou e saltou em direção a Emilia. Decidindo naquele momento em recuar, Emilia tinha se preparado para segurar Ram. Mas, os movimentos de Ram mostraram-se mais velozes, e a mão esquerda foi pega pela mão direita de Ram.
Ram: “Não fique no meu caminho agora!”
Emilia: “Kyaa!”
Enquanto ela falava, demonstrando seu excelente trabalho com os pés e movimentos defensivos que moviam minimamente o seu pulso e ombro, Ram jogou o corpo de Emilia para o lado, de uma maneira que demonstrava eficiência máxima. Enquanto Emilia voava, sua figura lentamente deu uma cambalhota para o lado. Por mais surpresa que estivesse pelas palavras repentinas de Ram, Emília rapidamente entendeu a situação e tentou balançar suas pernas longas de volta ao chão.
Emilia: “――hk”
No lugar onde Emilia pousou, estava um dos sapatos de Ram, que ela própria tinha jogado a pouco. Tropeçando, Emilia perdeu seu equilíbrio e caiu de quatro.
Naquele combate corpo a corpo, as técnicas de Ram tinham se sobressaído às de Emilia, e ela foi capaz de se aproveitar da brecha criada. Enfiando a sua varinha entre as barras de gelo, ela apontou-a em direção ao nariz de Subaru.
Ram: “Eu duvido você dizer aquilo de novo.”
Subaru: “Não é… Bem assim…”
Ram: “Com esse rosto e essa voz. Fale que você esqueceu de Rem. Mais uma vez…”
Mordendo seus dentes, Ram estava acumulando algo na ponta de sua varinha, e ele sabia o que era. Era invisível ao olho, um poder que provavelmente você chamaria de mana estava sendo condensado na frente de seus olhos, mas mesmo assim, Subaru não conseguia responder com nenhuma palavra.
Ele não conseguia pensar em algum jeito de dizer a Ram. Para aquela garota na sua frente, que estava a ponto de chorar. Se ele não fosse Natsuki Subaru, mas sim『Natsuki Subaru』, ele seria capaz de falar?
Emília: “Você não pode, Ram! Para!!”
Emilia, tendo se levantado, grita para tentar parar Ram. Contudo, ela não gritou a tempo.
Emília: “――――”
Uma luz branca brilhou entre as barras gélidas, e o choque engoliu Subaru. Essa onda arremessou seu corpo contra as barras de gelo, a sua nuca bateu contra elas.
Subaru: “――hgh”
A cabeça dele ricocheteou violentamente, e sua consciência ficou nublada. Sem nem ter tempo para se explicar, a consciência de Subaru foi embora.
Subaru: “――Huh?”
Soltando um leve e fraco gemido, sua consciência começou a voltar. Gradualmente, gradualmente, sua mente da lama emergia para a superfície. Sentindo como se estivesse em algum lugar vasto, estável, acelerando constantemente, estendendo-se para a realidade, ele…
Subaru:”―Gaaaa!? Owww!?”
No instante em que ele estava prestes a ficar consciente, ele foi puxado por uma força que parecia o ter agarrado pela nuca. Uma quente e afiada dor ardeu dentro da mente de Subaru. Gemendo e agonizando de dor, Subaru acordou no frio e duro chão.
Subaru: “Ow, ow, owwwww, que, que é isso…?”
Com seu corpo despertado pela dor intensa, Subaru tocou seu ombro esquerdo. No momento em que ele o fez, uma dor incessante queimou sua mente mais uma vez. Ele não podia mover seu braço esquerdo de jeito algum.
Subaru: “Foi arrancado do soquete…? Tá deslocado? Ugh, nunca senti isso antes…”
Pendurado, seu braço não se movia conforme a sua vontade. Contudo, quando ele tentou movê-lo e tocá-lo, sentiu uma forte dor. Assim, Subaru se levantou cuidadosamente. Olhando em volta, ele viu que… não havia ninguém. E essa sala era―
Subaru: “A sala que escondi a Meili…”
Em outras palavras, ele estava na mesma sala na qual estava acordado antes. Como evidência disso, atrás de Subaru, estava a jaula de gelo que Emília fez usando magia. Porém, era estranho que Subaru estava deitado fora da jaula. E, olhando para a prisão, não parecia que fora aberta ou que ele teria conseguido sair usando métodos ordinários.
Subaru: “…Então isso quer dizer que meu ombro foi…?”
Pensando a esse ponto, Subaru notou a relação entre o seu ombro deslocado e a fuga de seu cárcere. Os espaços entre as barras eram tão pequenos que seria impossível passar entre eles a não ser que você fosse do tamanho de uma criança. Entretanto, seria possível fazê-lo caso seu ombro fosse deslocado. Então, a questão era: como Natsuki Subaru fez isso inconsciente? E também ―
Subaru: “…Onde a Emília… e a Ram foram?”
Na sala, as meninas que estavam brigando entre si a não muito tempo atrás, ou talvez quase se matando, não estavam em lugar algum. Aquela situação era muito sobrenatural. ―Não, era mais como uma situação terrível do que sobrenatural.
Subaru tinha sido nocauteado, e por conta disso não sabia nada sobre o deslocamento de seu ombro, ou da localização de Emília ou de Ram, ou de qualquer um que deveria estar aqui. Subaru olhou para a sala a sua volta, se perguntando o que havia ocorrido enquanto estava desmaiado, olhando para ver se achava algo― e então, ele viu aquilo.
『Subaru Natsuki esteve aqui』
Subaru: “――――”
Nas paredes, em todo canto que ele podia ver, aquelas palavras foram cravadas. Riscadas nas paredes de pedra, palavras com formato rudimentar foram grosseiramente esculpidas como se fossem riscadas em um tabloide.
Teria sido o pedaço de pedra que ele deixou perto da parede que fez isso? Parecia que isso era obra da pedra que estava na parte de trás da sala, na qual ele originalmente usou para esconder o cadáver de Meili. Usando esse fragmento de pedra, a frase 『Subaru Natsuki esteve aqui』foi cravada nas paredes… Se fosse apenas isso, então o impacto não seria tão grande quanto as palavras que foram gravadas no braço dele.
Sob a influência da surpresa e do espanto que a lembrança de seu braço lhe trouxera, ele teria considerado como não sendo grande coisa. No entanto…
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』
『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』『Subaru Natsuki esteve aqui』―.
Subaru: “—U…ah”
Escritas bem juntas, de forma anormal, as palavras foram gravadas de modo que cobriam completamente as paredes dentro da sala. Elas pareciam tão naturais que ele inicialmente não se sentiu desconfortável. As palavras estavam tão estranhamente coladas umas nas outras que emanavam uma ilusão de ótica, devido ao excesso desse padrão nas paredes.
Dentro dessa sala, para que propósito? Gravando esses caracteres―
???: “―Hmm? Ou, que merda que ta rolando nessa sala estranha da porra? Você, que merda é essa decorando as paredes?”
Estremecendo, não conseguindo se mexer, a voz que veio de trás de Subaru inspirava medo, e não era pelo fato de ele não ter detectado sua presença. Afinal, a atenção de Subaru até agora estava firmemente fixada na escrita nas paredes. Ele não teria notado ninguém se aproximando.
A surpresa de Subaru se deve ao quão familiar aquela voz grosseira soava. As terríveis memórias que ele queria esquecer―
???: “Você, o que caralhos cê tá fazendo, peixinho. O que um peixinho tá fazendo tão longe do cardume? Cê tá pedindo pra virar comida de peixão?”
Enquanto ele falava atrás de Subaru, que não se atrevia a olhar para trás, o homem de cabelos vermelhos soltou uma risada que parecia a de um tubarão. Oh, e como ele riu. Ele, o homem que não deveria estar aqui de jeito nenhum.