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Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu – Arco 5 – Capítulo 73

Theresia Van Astrea

Theresia Van Astrea tinha doze anos quando recebeu a Proteção Divina do Santo da Espada. Foi uma mudança repentina e imprevista que causou imensa angústia em sua vida.

–“Será que fui escolhida?”

Esta foi uma emoção sincera e honesta, com a qual ela saudou a Proteção Divina.

Theresia continuou a guardar esta verdade em segredo durante algum tempo. O forte da família Astrea era a espada, o que deu origem à linhagem aos Santos da Espada por gerações e continuou assim desde então.

Graças às conquistas feitas há centenas de anos pelo Santo da Espada da primeira geração, Reid Astrea, o Reino do Dragão de Lugnica reconheceu o potencial da espada da família Astrea como uma existência de um bem indispensável. Esta tradição foi transmitida durante anos, até chegar à época de Theresia. Daí em diante toda a pessoa nascida na família Astrea, independentemente de ter a Proteção Divina do Santo da Espada ou não, deveria dedicar-se totalmente à espada por toda a vida.

Isso, é claro, também se aplicava ao seu pai, seus dois irmãos mais velhos e ao seu único irmão mais novo.  Independentemente de se tornar um espadachim ou obter a Proteção Divina, eles deveriam se familiarizar com a espada no momento em que alcançassem a consciência da razão.

Se você perguntasse como Theresia, que nasceu na família Astrea onde essa maneira de crescer era natural, estava amadurecendo, a resposta seria – ela estava passando seus dias de forma completamente paralela à espada.

Claro, aqueles nascidos na família Astrea, independente do sexo, deveriam empunhar uma espada. Houve dias em que Theresia e seus irmãos passaram por treinamentos rígidos. De fato, existiram dias assim, mas Theresia não tinha absolutamente nenhuma aptidão louvável para a espada.

Em vez disso, seria mais apropriado dizer que ela nunca teve a mínima orientação para enfrentar e empunhar a espada.

Como muitas garotas, Theresia não tinha interesse na espada. Não que ela fosse ruim nisso, mas seus esforços eram desmotivados e acompanhados pela atitude desafiadora. Não era surpreendente que seus pais logo acabariam percebendo que era inútil forçá-la a empunhar uma espada se ela continuasse a agir assim.

A Proteção Divina do Santo da Espada só era concedida apenas para espadachins que se provavam ser dignos do amor do Deus da Espada.

Durante tantas gerações, apenas os membros da família Astrea foram capazes de herdar a Proteção Divina do Santo da Espada. No mínimo, essa era a crença comum, uma vez que nenhum detalhe real a respeito da herança da Proteção Divina era conhecido.

E isso acontecia somente quando o espadachim enfrentava a espada com seriedade absoluta, que a Proteção Divina o reconhecia e se entregava a ele. Uma menina, a filha primogênita sem interesse nenhum sobre a espada continuou a desviar os olhos.

Vendo a possibilidade no curso dos eventos em ser escolhida como o Santo da Espada ser reduzida à insignificância, a ganância de Theresia foi permitida e ela recebeu a liberdade que tanto queria. Theresia se afastou e se desligou da prática com a espada, mas ela também tinha suas próprias razões sensatas para isso.

É claro que o desinteresse em se tornar o Santo da Espada junto com sua falta de motivação em empunhar a espada eram alguns dos fatores, mas sua maior razão por trás disso não tinha nenhuma relação com eles.

… Theresia sabia que havia nascido com a Proteção Divina do Deus da Morte.

As feridas que ela infringiria nas pessoas sangrariam incessantemente, incapazes de curar-se. Quando percebeu que seu forte era tirar vidas, o medo sobre o que as palmas de suas próprias mãos podiam resultar nasceu dentro da jovem Theresia.

Algo como o treinamento com a espada era perfeito para intensificar seu medo. Mesmo que fosse apenas prática ou treinamento, a Proteção Divina de Theresia, sobre a qual ela não tinha controle, não levaria em consideração a situação.

Mesmo que o ferimento que ela possa infligir seja tão pequeno quanto um arranhão, o fato de que não iria se curar tornava isso um assunto sério sem motivos para sorrir. Especialmente considerando que um ferimento infligido acidentalmente durante o treino de espada pode ser mortal.

A partir de então, Theresia se sentiu aliviada por se ver livre do treinamento.

Viver sem machucar as pessoas ao seu redor era na verdade algo difícil de fazer se você estivesse consciente disso. Se você estivesse consciente disso, notaria que machucar outras pessoas sem querer e acidentalmente pode acontecer com muita facilidade. Como você poderia determinar se a Proteção Divina seria ativada ou não, caso alguém acabasse cortando um dedo por causa de um pedaço de prato quebrado?

Portanto, a jovem chamada Theresia inconscientemente evitou ter relações com as pessoas. Se ela nunca fizesse contato, se ela nunca se aproximasse, ela não precisaria se preocupar em machucar as pessoas. Adquirindo uma tendência natural de evitar todo contato visual, ela passou a dedicar mais tempo às flores.

Ganhando a liberdade de descartar a espada, Theresia fez um canteiro de flores para si mesma no jardim de sua mansão, e cultivando flores sazonais, ela passou a amar e admirá-las.

Enquanto seus irmãos, que costumavam brandir a espada em extrema angústia, foram repetidamente submetidos a um treinamento difícil e doloroso.

Não era como se ela não se sentisse excluída ou lamentasse ao ver suas figuras. Simplesmente, devido à sua incapacidade de contar a eles sobre sua Proteção Divina, as flores eram as únicas com quem ela poderia estar e confiar com total confiança.

Theresia: “Eu me pergunto se algum dia… serei capaz de viver feliz ao lado de alguém.”

As únicas em que ela podia confiar seus sentimentos de sofrimento e suas dúvidas eram apenas suas flores, enquanto suas pétalas dançavam ao ritmo da brisa suave.

Como muitas pessoas, Theresia também era uma garota comum que ansiava amar, e ser amada.

Ciente de sua possibilidade em machucar e magoar os outros, ela se questionou se realmente merecia estar junto de alguém, mesmo não cumprindo os esquemas e desejos de seus pais, e excluindo os irmãos de sua vida. Os dias de dúvidas de Theresia continuaram. E no meio desses dias, o amor do Deus da Espada foi derramado sobre Theresia…

Theresia: “Será que fui escolhida?”

Sem aviso, esse conhecimento evidenciou-se por Theresia. Envolveu-a mais como um senso de incongruência em vez da consciência tal como aquela sobre a Proteção Divina do Deus da Morte.

Foi natural.

Para ela, a noção da Proteção Divina com a qual havia nascido era um costume, assim como os olhos davam a visão e os ouvidos, a audição. Algo como ganhar repentinamente uma nova Proteção Divina era sentir como se asas tivessem crescido em suas costas.

Ela o saudou com uma sensação de incongruência, que nunca existiu antes, e com a ampliação de seus horizontes em termos de suas capacidades.

— “Não vou empunhar a espada em minhas mãos.”

Assim pensou Theresia, nutrindo aversão e náusea para com sua nova Proteção Divina. Ela se lembrou dos tempos em que foi coagida a brandir a espada. Ela percebeu o quão sem sentido, sem objetivo, sem direção e o quão insensatas eram suas ações naquela época.

Agora, ela era instintivamente capaz de brandir uma espada da melhor maneira, de maneira fácil e da forma ideal.

Ela mesma, cuja habilidade consistia principalmente em matar, agora ganhou por completo a proficiência em matar pessoas.

Theresia: “~hk!”

Isto era terror e desespero. Nesse dia o mundo acabou. Ajoelhando-se, ela percebeu que havia virado o próprio Deus da Morte, o qual assumiu a forma de uma garotinha, e que seus dias de fingir ser uma mera menina haviam chegado ao fim.

Theresia não contou a pessoa alguma sobre sua Proteção Divina que havia recebido.

Ela pretendia ocultar a verdade de sua posse da Proteção Divina do Deus da Morte e da Proteção Divina do Santo da Espada. Ela pretendia esconder durante toda a eternidade, esconder dentro de seu coração que era um monstro cujo único objetivo era destruir vidas.

Dizendo que não estava bem, ela se trancou em seu quarto na mansão.

Esquecendo de cuidar até mesmo do canteiro de flores, Theresia escondeu-se dentro de sua concha.

Não fazendo nada, além de dormir e esperar que um dia acordasse e descobrisse que tudo não passava de um sonho juvenil. Mas no final das contas, isso era apenas imaturidade de uma criança na qual ela fugia e recusava-se a enfrentar o que não queria.

… E então, tornou-se imediatamente claro que Theresia havia herdado a Proteção Divina do Santo da Espada.

–??: “Nii-san… o próximo Santo da Espada é sua filha… Essa criança é a herdeira.”

Entrando na mansão, na sede da família Astrea, e revelando que a Theresia, acamada, seria a herdeira, foi ninguém menos que seu tio, o anterior Santo da Espada.

A Proteção Divina do Santo da Espada era uma Proteção Divina excepcional, capaz de ser herdada apenas por membros da família Astrea, tendo essa tendência continuamente herdada por gerações.

Essa Proteção Divina era herdada pelo próximo Santo da Espada do anterior Santo da Espada sem qualquer aviso prévio. E uma vez que o processo de herança é completado, o anterior Santo da Espada é liberado de sua responsabilidade, e perde a Proteção Divina.

Uma vez que o atual Santo da Espada perca a Proteção Divina, é natural que a identidade do próximo seja pesquisada minuciosamente pelo reino. E o anterior pode identificar quem é o próximo Santo da Espada com um único olhar.

Com isso, os dias de confinamento de Theresia chegaram ao fim.

??: “Segure a espada em suas mãos Theresia.”

Com o cabelo bagunçado, Theresia foi arrastada para o jardim. Com os pés descalços e ainda de pijamas, com a consciência vagando entre os sonhos e a realidade, ela foi arrastada à força pelo seu tio e forçada a segurar a espada de madeira. Com os dedos das mãos que haviam ficado mais magros, ela gesticulou sua resistência e balançou a cabeça várias vezes.

No entanto, suas queixas não foram ouvidas. Seu tio lhe entregou uma espada de madeira e a fez olhar para frente, após ela segurar o cabo.

Na frente de Theresia, estava seu irmão mais velho entre os quatro irmãos. Seu irmão atencioso e gentil, que era educado e amigável com todos, ficou ali com uma expressão confusa. Incapaz de perceber o que estava acontecendo, sua perplexidade pôde ser compreendida à primeira vista.

… Havia muitas lacunas abertas.

Vendo isso, Theresia se assustou.

Com aquela confusão atingindo seu coração diretamente, Theresia, sem palavras, simplesmente manteve os olhos abertos. E ignorando Theresia e a condição dela, seu tio chamou o irmão mais velho com uma voz profunda.

??: “Segure a espada de madeira e ataque Theresia de cima. Prove suas habilidades de esgrima derrubando e derrotando sua irmã.”

Disse ele. “Não há como eu fazer isso”, gritou o irmão mais velho.

Seu irmão era muito gentil. Ele havia treinado arduamente, e não tinha dúvidas em relação ao seu caminho na família Astrea, mas agora ele não podia ser nada além de gentil com sua irmã mais nova, Theresia.

Ela tinha medo de machucá-lo, então quase nunca iniciava contato físico, mas adorava abraçar o irmão e aquele seu corpo enorme. Ele era um irmão gentil. E em seguida, a voz de seu tio, chamando seu irmão de covarde ecoou.

Com a zombaria do anterior Santo da Espada, seu irmão fez uma expressão sugerindo que havia sido ferido pelas palavras do tio. Theresia sabia que os irmãos, tanto os mais velhos, quanto o mais novo, continuavam a empunhar a espada porque admiravam o tio.

Seus dois outros irmãos que estavam em pé na beira do jardim, que também saíram ao ouvir toda a comoção, fizeram caretas igualmente magoadas.

Por fim, seu irmão mais velho, enquanto mantinha sua expressão ferida, exibiu uma terrível prontidão em seus olhos. Endireitando a espada de madeira que segurava nas mãos e transferindo toda a sua energia para ela, ele fixou os olhos em seu alvo.

Vendo o tremor em sua espada e uma certa nitidez nos olhos de seu irmão mais velho, Theresia percebeu. Para evitar machucar Theresia, o irmão mais velho fará com que a espada de madeira que ele segurava em suas próprias mãos derrubasse a dela.

Era óbvio por sua postura, sua aparência, sua linguagem corporal e a maneira como ele segurava sua espada. No nível das habilidades de seu irmão, não seria uma tarefa difícil de concluir. Seria suficiente para provar sua habilidade como um espadachim apenas tirando a espada de Theresia.

“––”

Com o enrijecimento das bochechas de seu tio, a luta que nenhum dos dois lados queria participar, começou. Seu irmão mais velho gritou energicamente, e apontou a espada de madeira afiada em direção à Theresia.

Limitar os movimentos do oponente e ter controle sobre suas ações era outra habilidade na esgrima. Se a espada de madeira não estivesse erguida, sem dúvida seria fácil simplesmente derrubá-la.

O próprio fundamento dessa luta estava errado. Theresia não tinha motivos para lutar. E seu irmão não tinha motivos para feri-la. Com os interesses de ambos os lados alinhados, não deve haver aumento de falhas. Não deveria haver, mas…

??:”É isso!”

Uma espada de madeira, a qual foi lançada no ar, voando, pousou no chão a alguma distância, e o som ecoou. Além de ouvir a voz assustada do tio, também era visível a figura de Theresia com sua espada de madeira apontada para a frente e o gume tocando a garganta de seu irmão cambaleante que soltou um suspiro rouco.

Ela lembrou que desviou e afastou o ataque da espada que veio sobre ela por cima, e depois tirou a espada de madeira de seu oponente. Ela então forçou o Gume de sua espada contra o pescoço de seu irmão, provando que ela poderia matá-lo a qualquer momento, tornando clara a diferença entre sua proficiência. Com expressões de espanto, todos encararam a visão inacreditável.

??: “O próximo Santo da Espada é a Theresia. Na verdade, é inquestionável.”

A voz desenfreada de seu tio ecoou.

Theresia: “Ah… ah… a~h…”

Theresia largou a espada de madeira que segurava, olhou para a mão e depois começou a puxar seus cabelos ruivos com o punho. Ela os puxou com tanta violência que a fez sangrar, e erguendo a voz como a de um besta, ela gritou. Gritando, perdendo a sanidade, sangrando e lamentando-se, Theresia tornou-se o próximo Santo da Espada.


Todo o tempo que seus irmãos haviam se dedicado à espada, a esgrima de Theresia o pisoteou por completo. Contra o poder avassalador da espada, coisas como o tempo ou o esforço não tinham significado algum. Agora aos olhos de Theresia, que havia se tornado um Santo da Espada, os erros no manuseio de espadas de seus irmãos eram mais claros que cristal.

Ela estava, de fato, surpresa ao perceber que apesar de passar tanto tempo com eles, ela não havia notado essas falhas antes.

Ainda assim, mesmo apesar da clara diferença de força entre eles, seus irmãos lamentavelmente continuaram a treinar com a espada. Nem seus irmãos mais velhos nem seu irmão mais novo tinham paixão por outra coisa além da espada.

Isso porque eles nasceram na família Astrea, cresceram em uma casa cujo nome era respeitado por causa de suas espadas e dedicaram sua vida e destino a ela, então mesmo que sua irmã mais nova tivesse roubado o objetivo deles, eles ainda não tinham escolha a não ser continuar. Mesmo que eles saibam, que nunca poderão, jamais, alcançá-la.

Theresia: “É bastante estúpido.”

No final das contas, esse foi o pensamento que surgiu na mente de Theresia. Eles deveriam apenas fazer o que desejam. Eles não deveriam mais se preocupar com a espada. Se eles nunca podiam tolerar Theresia, eles deveriam apenas viver em seus próprios mundos de acordo com sua própria escolha.

–??: “Theresia-sama, os preparativos estão completos. Já está na hora, devemos ir.”

“Enquanto ela observava através da janela de seu quarto, enquanto seus irmãos continuavam a treinar com a espada do lado de fora no jardim, uma voz invadiu os ouvidos de Theresia. Quando ela se virou, acabou vendo uma garota de aparência elegante da mesma idade que a sua, com um lindo corte de cabelo curto e loiro.

… Ela era Carol Remendis. Um membro da família Remendis, conhecida pelos seus cavaleiros superlativos, devido às suas habilidades excepcionais como espadachim. E embora ela fosse da mesma idade que ela, Carol foi nomeada assistente de Theresia.

Inegavelmente suas habilidades como espadachim eram realmente excepcionais. Embora ela não quisesse mencionar isso a ninguém, sua proficiência com a espada era comparável à de seus irmãos.

Com uma personalidade completamente solene, como uma esgrima prodígio, ela não podia deixar de se sentir inquieta, com outra mulher da mesma idade.

Theresia: “Sim, vamos lá. Hoje temos de ensinar para o povo do castelo, não é?”

Carol: “Sim. Todos do castelo estão ansiosos para serem recepcionados e ensinados pela Theresia-sama. Claro que eu também mantenho os mesmos sentimentos que eles.”

Theresia: “Eu acho que você já é suficientemente forte, Carol.”

Carol: “De modo algum. Alguém como eu não consegue chegar nem aos pés de Theresia-sama.”

Como se estivesse subestimando a si mesma, Carol deu uma impressão de suas próprias habilidades. Theresia ficou um tanto desconfortável com essa avaliação. Afinal, Theresia nunca ergueu a espada na frente de Carol.

A última vez que as mãos de Theresia seguraram uma espada foi dois anos atrás, quando enfrentou seu irmão mais velho, com uma espada de madeira. Dois anos depois disso, Theresia não fez mais contato físico com a espada.

No entanto, ela ainda estava cumprindo suas responsabilidades como Santo da Espada.

A realidade de ela ser o Santo da Espada era uma verdade que não podia ser escondida. Ela não poderia ir tão longe a ponto de causar transtornos para toda a família Astrea, então ela estava disposta a cumprir seus deveres com diligência.

Carol: “É fácil entender o que vale a pena ver e o que não vale, à primeira vista. Mesmo que eu não tenha tido a oportunidade de vê-la empunhando uma espada, eu tenho certeza de que se Theresia-sama pegasse a espada em suas mãos, ela certamente se tornaria uma força que não pode ser oprimida por ninguém.”

Ela deu um sorriso irônico para as crenças de Carol. Junto com ela, Theresia foi ensinar soldados de plantão. Mesmo em nome do ensino, ela não havia realizado nenhum feito louvável. Ela apenas os daria ordens, faria com que eles empunhassem suas armas e treinassem, e principalmente apontaria suas falhas durante a batalha, como sempre fez, nada de incomum.

Talvez, o aspecto mais aterrorizante da Proteção Divina do Santo da Espada fosse como ela elevava os instintos de batalha da pessoa à perfeição.

E isso não se limitava às espadas apenas. Fossem lanças e machados, se estivesse relacionado com a batalha, Theresia reconheceria todos os seus truques e imperfeições. Se os erros dos soldados fossem apontados por ela um por um, eles iriam corrigir.

No entanto, do ponto de vista de Theresia, embora a forma de corrigir essas falhas possa ser correta, nunca foi suficiente, e mesmo que essa ligeira mudança acontecesse, os talentosos e os sem talento perceberiam isso de forma extremamente diferente. Theresia sentiu e experimentou um sentimento de culpa quando foi agradecida e respeitada.

Assim como quando ela recebeu a Proteção Divina, ela agora se sentia desesperada com a situação em que havia sido colocada.

Fechando-se em seu quarto e escondendo-se em sua concha, ela sempre acabava esperando que as marés de seu destino mudassem de direção.

… Esse pode ter sido seu castigo, por seus desejos egoístas e arbitrários, por fugir das responsabilidades que deveria ter assumido.

No reino de Lugnica conflitos de grande alcance surgiram com a comunidade Demi-humana.

Em um piscar de olhos, as queixas reprimidas e o descontentamento dos Demi-humanos, espalhados por partes do reino, explodiram e consumiram o reino em chamas. Conhecida como a guerra civil mais intensa e brutal da história do reino de Lugnica, Guerra Demi-humana havia eclodido.


Originando-se ao leste do reino, essa Guerra Civil piorava a cada dia que passava.

Inicialmente parecia apenas uma pequena revolta da comunidade Demi-humana que poderia ser resolvida facilmente sem se espalhar ao ponto de causar danos, mas, por trás das cortinas, o reino desprezava o aprofundamento das relações Demi-humanas.

Além disso, parecia haver pessoas preenchendo a lacuna de relacionamento individuais com os Demi-humanos e, à medida que o conflito se espalhava de pessoa à pessoa, o fogo da guerra civil se ampliou em um instante.

À medida que a guerra e o fogo se espalharam e se intensificaram de forma progressiva incessantemente pelo reino, após depois de um ano inteiro de esforços infrutíferos de tentativas de apagar o fogo, o reino finalmente reconheceu publicamente que esta era uma situação pior do que qualquer outra coisa que já havia enfrentado antes.

??: “Informe o atual Santo da Espada Theresia van Astrea. Aguardamos sua aparição no campo de batalha, junto com os cavaleiros e soldados os quais atualmente lutam para subjugar essa guerra civil.”

Reconhecendo a situação sem precedentes como uma ameaça em todo o reino, os aristocratas mais antigos não pretendiam manter o patrimônio do Santo da Espada como último recurso. E é claro que Theresia recebeu a mensagem sobre o pedido de sua participação na guerra.

— Theresia se desesperou com a chegada do futuro inevitável.

Isso era diferente de seus dias em que se recusava de forma egoísta a empunhar a espada. O que se esperava dela agora não era seu conhecimento como Santo da Espada, mas sim a verdadeira esgrima e força do Santo da Espada. Ela não teve escolha, a não ser empunhar a espada. Esta também foi a primeira vez que ela também recebeu a Espada Dracônica Reid, a qual apenas o Santo da Espada poderia empunhar.

??: “No entanto, essa espada só irá poder ser embainhada apenas quando precisar ser sacada. Eu acredito que você terá que carregar outra espada além dessa também. Você pode escolher uma de acordo com sua preferência.”

Seu tio, o anterior e ex-Santo da Espada, deu a ela conselhos por experiência própria.

Seu tio, que já havia empunhado a Espada do Dragão na cintura, estava familiarizado com a natureza caprichosa da espada. E de acordo com o conselho de seu tio, Theresia escolheu uma longa espada que oferecia os melhores golpes possíveis, uma que também era apreciada por Carol, outra espadachim.

… Em sua primeira batalha, a primeira equipe de Theresia consistia por Carol, junto com seu tio e seus irmãos. A primeira batalha de Theresia de sua perspectiva, embora não fosse longe o suficiente para chamá-la de uma oportunidade de honra e altruísmo, era indiscutivelmente um evento que ela não devia desviar os olhos nem por um instante.

Esta também foi uma oportunidade de mostrar ao povo do reino o poder da lendária espada dos Astrea. Independentemente dos pensamentos e sentimentos de Theresia, seu ambiente progredia arbitrariamente.

Todos a sobrecarregavam com expectativas arbitrárias, de que não havia chances de o Santo da Espada perder uma batalha. A fé sem limitações e insensível daqueles que a cercavam intimidou Theresia.

E como se isso se tivesse tornado normal, escondendo-se de todos, e em seu coração, Theresia apenas estremeceu diante do grupo que a acompanhou em sua primeira batalha. E, ao vê-la assim…

??: “Você está com medo, Theresia?”

Quem levantou uma voz gentil sobre ela foi seu único irmão mais velho. Theresia, enquanto esperava sua primeira batalha em uma tenda, ficou surpresa ao ver seu irmão mais velho falar com ela de forma gentil. Theresia estava evitando conscientemente o contato com o irmão mais velho.

Não, na verdade ele não era o único que ela evitava. Ela evitava todos. Seu irmão mais velho, seu irmão mais novo, assim como seus pais e seu tio. Ela evitou contato com todos eles. Depois de dois longos anos, esta foi a primeira vez durante muito tempo que ela finalmente trocou palavras de gentileza com seu amado irmão. E sem palavras, Theresia não pôde evitar continuar olhando para baixo.

No entanto, seu irmão sentou-se ao lado dela, que tinha uma expressão abatida, e gentilmente afagou sua cabeça. Theresia foi pega de surpresa, sentindo como a palma da mão macia de seu irmão ainda não havia mudado em nada.

??: “Eu sei que você tem um sentimento de dívida em relação a mim e ao resto dos nossos irmãos. Mas não é como se eu não tivesse pensado em nada ao perder para você daquele jeito, mas…”

Cortando suas palavras no meio da frase, seu irmão lhe mostrou um leve sorriso. Aquele era o sorriso do seu irmão, aquele que Theresia repetidamente olhava sem parar.

??: “… Você é minha querida irmã mais nova. Se você não quiser, se você estiver com medo… eu terei que protegê-la. Porque eu sou seu irmão mais velho.”

Theresia: “N… Nii-san…”

Lágrimas escorreram pelo seu rosto. Ela não deveria expressar sua fraqueza. E seu irmão, a quem ela derrotou, ela não deveria ouvi-lo, acima de tudo. Foi o que Theresia pensou, mas seu irmão negou seus pensamentos.

??: “Depois de perder para você, foi doloroso, pensei que deveria desistir. Mas, mesmo assim, eu amei a espada. Sou grato por ter nascido nesta família, tive meus irmãos mais novos e tive você como minha irmã mais nova. Por isso sou grato à espada.”

“––”

??: “É por isso que estou feliz por ter brandido a espada.”

Theresia percebeu sua própria idiotice, por considerar os pensamentos dele estúpidos. Mesmo depois de vê-los sendo derrotados, vendo seus irmãos insistirem em treinar com a espada, ela pensou que eles empunhavam porque não tinham outro caminho senão ignorar todo o resto, e que estavam se agarrando à espada já que não tinham escolhas. Tendo essa impressão, ela olhou para eles com desprezo.

Pensando que eles deveriam apenas fazer o que quisessem, Theresia arbitrariamente colocou seu irmão em sua própria escala e avaliou seu valor. Ela zombou de seu irmão, reduzindo sua pessoa a um mero espadachim, a quem ela deveria ter admirado, a quem ela deveria ter respeitado.

Ela era estúpida aqui. E o Deus da Espada também era extremamente estúpido. Ele era estúpido porque não direcionou seu amor ao humano que verdadeiramente o amava. E porque ele abençoou uma humana como ela, que sempre se afastava da espada. Seu irmão, ou outras pessoas como seu irmão, eram as que mereciam ser abençoadas.

??: “Não há necessidade de você lutar. Afinal de contas, você é uma garota gentil, que não ousaria matar nem um inseto.”

Com medo do poder da Proteção Divina do Deus Morte, ela sempre se certificou de nunca machucar nada nem ninguém. Ela havia julgado mal seu irmão, mas felizmente seu irmão entendia bem a irmã mais nova. Isso deu a ela tanto contentamento que, nesses dois anos, foi o que mais comoveu seu coração.

Ela acabou agindo como uma criança mimada, e acabou dependendo dele. Ela se agarrou a ele, chorou sobre ele, e deixou tudo para ele.

… Na primeira batalha de Theresia, seu irmão morreu protegendo o quartel-general de suas tropas. E durante esse tempo, Theresia nenhuma vez brandiu a espada. Ela não pôde. E, novamente, ela se recusou a tocar na espada por muitos anos.


Passaram-se cinco anos desde que a Guerra Demi-humana começou, e Theresia completou dezenove anos.

A Proteção Divina do Santo da Espada permaneceu inalterada, continuando a respirar silenciosamente dentro dela. No entanto, Theresia se desviou das oportunidades de brandir essa força, abstendo-se de se envolver com a guerra civil em processo de deterioração, vivendo seus dias de lazer de forma serena e indiferente.

Mas algo ainda a atormentava…

… A primeira batalha de Theresia, na qual foi incapaz de lutar.

A batalha, onde se esperava que o Santo da Espada demonstrasse sua força feroz, havia acabado completamente, e seu irmão mais velho acabou sendo morto no meio da guerra.

Desconcertada com o impacto da morte de seu irmão, Theresia foi incapaz de tocar na espada.

A verdade de que a atual geração do Santo da Espada teve uma primeira batalha desonrosa foi completamente escondida do público. A existência do Santo da Espada também tinha uma relevância espiritual para o reino. Eles não podiam ousar revelar que ela chorou e se apoiou em seu irmão antes da luta, e que ela se isolou após deixar seu irmão morrer.

Daí em diante, sem que o público soubesse disso, a desonra de Theresia foi apagada de todos os registros.

E assim como seu irmão mais velho, seus irmãos mais novos, que também participaram da batalha para proteger o nome da família Astrea em vez da Theresia, a qual se recusou a cumprir seu dever como Santo da Espada, também morreram. Seu irmão mais velho, cheio de bondade, que ouviria qualquer um de seus desejos com verdadeira preocupação.

Seu outro irmão mais velho, que era um pouco mau, mas sempre era o primeiro a se desculpar quando eles se reconciliavam. Seu irmão mais novo fofo, que era um gato assustado e um bebê chorão, sempre andava atrás dela, seguindo seu caminho.

Todos eles perderam suas vidas enquanto lutavam no lugar de Theresia, que se recusou a lutar.

??: “Eu fiz você passar por um monte de coisas que você não queria, não é? Sinto muito, Theresia.”

Seu tio, o anterior Santo da Espada, que era a fonte de motivação de suas tropas, também morreu lutando.

Lutando incessantemente batalha após batalha, ignorando seus ferimentos e, finalmente, atuando como a retaguarda das tropas amigas em retirada, infringindo feitos heroicamente, foi o que havia acontecido.

Não é como se ela não tivesse nada contra seu tio. Se não fosse pela revelação dele, talvez ninguém pudesse saber que Theresia herdou a Proteção Divina do Santo da Espada. Se isso nunca tivesse sido descoberto, seus irmãos não teriam se preparado para serem martirizados nessa guerra civil, e talvez eles não teriam morrido.

Se ela pensava sobre tudo isso, então certamente ela guardava certo rancor contra ele. Ela teve, mas ao mesmo tempo não teve. Seu tio devia saber o peso do título de Santo da Espada melhor que ninguém. Como o anterior Santo da Espada, naturalmente ele também devia ter passado pelas mesmas coisas que Theresia. Suas ações deveriam ter sido ótimas tanto para o reino quanto para Theresia.

Mas como não funcionaram, essas foram suas últimas palavras em seus momentos finais. Depois de ouvir essas palavras, Theresia não podia mais guardar rancor contra ele.

Então, se ela procurasse alguém para nutrir rancor, só restava a si mesma como opção. Ela mesma, que apesar de herdar o título de Santo da Espada, continuava fraca e sempre chorando.

??: “Theresia-sama certamente irá se levantar. É que simplesmente esse momento ainda não chegou.”

Sua associada, Carol, nunca pensou em abandonar Theresia, que havia ficado devastada pelas repetidas mortes de seus entes queridos. Tornando sua primeira batalha em uma visão verdadeiramente desagradável, enquanto perdia oportunidades devido ao seu próprio egoísmo, e a agora fechada e sozinha, Theresia era alguém que Carol ainda queria acreditar e ter fé.

Hoje em dia, houve até mesmo casos em que ela cumpriu as ordens dadas a Theresia pelo castelo real em seu lugar, expondo-se a riscos. No entanto, apesar de saber quão perigosa era a ponte que Carol estava trilhando, Theresia falhou em corresponder seus sentimentos.

No entanto, era ela própria, abençoada com o talento de matar pessoas.

Ela mesma nunca, jamais imaginou que chegaria um dia em que ela agonizaria por causa de sua falta de capacidade em matar pessoas. Em nenhum lugar ela poderia encontrar uma razão para lutar. Ela não poderia lutar.

“––”

Uma vez, quando estava longe do monitoramento de Carol, Theresia reflexivamente começou a andar pela capital. Já fazia cinco anos desde o início da guerra civil, que ressoava sem cessar, e a vibração da capital estava desagradável à medida em que a atmosfera um tanto sombria se proliferava.

Sem tópicos brilhantes, as expressões das pessoas permaneciam sem brilho.

E naturalmente, evitando lugares lotados, Theresia buscou a solidão. O local que recentemente se tornou o lugar onde Theresia frequentava durante seus passeios era um bloco de pedra inacabado nas proximidades da capital.

Um terreno cuja construção foi destruída devido ao início da guerra civil. Através das ruínas e lacunas nos pilares do edifício, ela se direcionou para a área logo atrás. Que se abria um pouco além disso era o lugar do qual Theresia gostava, uma área que nem poderia ser chamada de praça.

Não era um lugar tão especial a ponto de fazer o coração palpitar ou algo assim. Essa área vazia que existia dentro dessas ruínas, apenas acalmaria o coração, esvaziando-o de todos os pensamentos.

Na brisa um tanto ironicamente fria da manhã, Theresia se dirigiu para os fundos da área. Sentando sobre os fragmentos de pedra destacados, olhando para o outro lado, o que ela viu foi um jardim de flores estendendo-se, com as pétalas das flores amarelas dançando docemente ao vento.

A luz do sol irradiava sob o solo extremamente adequado para o crescimento das flores. Nesse ambiente clandestino, Theresia plantou as sementes dessas flores. Ela mal tinha força de vontade para cuidar dos canteiros de flores da mansão, que haviam murchado completamente. Mas, agora, pelo menos ela tinha o sentimento de zelar pelos resultados das sementes que ela tinha caprichosamente semeado.

Theresia: “Eu nem mesmo as reguei com água… mas ainda assim cresceram tanto.”

As flores são fortes. Mesmo enquanto Theresia refletia sobre suas próprias fraquezas, as flores, apenas olhando para os céus, abriam suas pétalas e floresciam em total magnificência. Ela havia admirado seu esplendor anteriormente, mas agora ela abraçava o desejo por tal força.

Ela sentiu seus sentimentos aumentarem e sentiu uma vontade de chorar. Ela dolorosamente tentou conter as lágrimas, e seus dedos tocaram o canto de seus olhos, que tinham um calor inesperado.

… Esse foi o momento em que uma presença pungentese aproximou dela.

Theresia: “Ah, desculpe-me.”

Foi a própria presença traiçoeira que invadiu o santuário matinal de Theresia. Exatamente quando estava prestes a derramar suas lágrimas, Theresia, deliberadamente, disse tais palavras, na tentativa de mostrar sua força. E então, ela virou-se e olhou para aquele que apareceu na praça. Ela o viu e ficou completamente pasma.

Tinha cabelo castanho aparado, olhos elegantes, mas ferozes, um corpo flexível, esguio e totalmente em forma, e sua pele transbordava uma luz deslumbrante, era assustador.

No entanto, o que mais surpreendeu Theresia naquele momento não foi algo tão superficial. Para ela, o jovem parecia exatamente uma espada desembainhada. Ela sentiu como se o próprio aço quente, firme e afiado focasse seus olhos sobre ela.

Diante daquela miragem, os batimentos cardíacos de Theresia se confundiram. Colocando a mão no peito, ela se questionou sobre o que havia acontecido consigo mesma. No entanto, a única coisa que lhe veio à mente foi que o jovem não entenderia o emaranhado de seus batimentos cardíacos. Doravante, para esconder isso, ela disse:

Theresia: “Então, tem gente que vem aqui pela manhã.”

??: “… Que saudação…”

Theresia falava com ele de uma maneira amigável, mas o jovem estreitou os olhos, e com essa reação pareceu como se a ponta de uma espada estivesse sendo apontada diretamente para ela. Era uma espada tão estável e intensa que não parecia uma ameaça. Talvez ele pretendesse rejeitar os pensamentos antipáticos de Theresia.

E de repente ele pareceu desanimado. Então, se essa fosse a carta que ele jogaria, Theresia também não iria se conter. Ela deve mostrar a ele que a essência da esgrima de que ele tanto se orgulhava estava arruinada.

Theresia: “Aconteceu… alguma coisa? Você está fazendo uma cara assustadora.”

Ao ouvir as palavras de Theresia, o jovem fez uma expressão de desagrado como se tivesse sido golpeado no ombro. Ele parecia ter julgado Theresia uma mulher leiga na esgrima, e não apenas nisso, em lutas de modo geral. A verdade é que ele não estava errado.

Theresia não tinha nenhuma experiência em uma luta real, nem havia registro algum dela brandindo a espada. Ela era uma mulher leiga que com certeza seria mais forte do que qualquer outra pessoa, se ela realmente lutasse.

??: “ O que uma mulher faz aqui tão cedo pela manhã?”

O jovem respondeu com palavras ásperas. A voz do jovem, que ela ouvira pela primeira vez, era sombria, mas era simples e fácil de se ouvir.

E mais uma vez ela sentiu o ritmo de seus batimentos cardíacos saírem do padrão.


Desde então, o jovem e Theresia começaram a se ver com mais frequência. Aparentemente, parecia que ele costumava ir à praça em dias como feriados fixos. Parecia que ele estava se sentindo incomodado com a presença de Theresia, mas ele nunca forçou ela a ir para outro lugar.

Talvez ele pensasse que a pessoa que teria que abordar era um incômodo. Para ver aquele jardim de flores amarelas, Theresia costumava ir até a praça.

Havia momentos em que o jovem era o primeiro a chegar enquanto, em outras, Theresia o era. E enquanto Theresia se sentava no pedaço de concreto e admirava o jardim de flores, o jovem se dedicava a treinar com a espada, brandindo-a com rapidez de sua excelente técnica, e no final das contas essas atividades tornaram-sea promessa entre esses dois, que costumavam passar e aproveitar seu tempo naquele mesmo lugar.

“––”

Olhando secretamente, Theresia espiou a dança de espadas do jovem. Sem pensar, ela estava prestes a soltar um suspiro. Olhar para a esgrima alheia e sentir-se assim era algo extremamente raro para Theresia, não, essa pode ter sido a primeira vez. Primeiro, ela se lembrou do nojo que sentiu ao ver a forma do jovem, segurando a espada.

Ele não tinha culpa, esse sentimento era por causa das próprias crenças de Theresia. Depois que ela fugiu de seu papel como Santo da Espada, até mesmo para o lugar onde correu, ela ainda encontrou alguém que segurava uma espada. Theresia também foi expulsa do único lugar tranquilo que ela havia finalmente encontrado. Mas essa deplorável e incomoda inquietação dela, foi varrida no momento em que viu a esgrima do jovem.

Os golpes da espada feitos pelo jovem, não havia nada particularmente obsequioso nelas.

Sob os olhos de Theresia, que possuía a Proteção Divina do Santo da Espada, havia imperfeições fáceis de se notar. Ver as falhas no manuseio da espada dos outros e sentir repulsa por isso era um mau hábito de Theresia, mas no caso do jovem, sua paixão pura foi usada para encobrir suas falhas.

Os irmãos de Theresia também devem ter dedicado tudo de si na espada. Não era como se ela fosse incapaz de abrigar quaisquer sentimentos negativos até mesmo em relação aos seus irmãos, sejam os mais velhos ou os mais novos, que tinham tanta devoção pela espada.

Ainda assim, por que ela não sentia o mesmo por este jovem e sua espada? A resposta para isso é surpreendentemente simples.

Theresia: “Que estúpido…”

Não havia absolutamente nenhuma impureza na espada do jovem. Ele oferecia tudo de si à espada, dedicava tudo à espada. É fácil colocar em simples palavras, e Theresia achava que seus irmãos tinham feito o mesmo até agora. Verdadeiramente, o jovem estava cheio de paixão, ele, que só tinha a espada.

Ele não tinha nada além da espada. Ele amava nada além da espada. Ele não amaria nada além da espada, que foi estabelecida com um único golpe de aço.

Theresia: “… que estúpido.”

Observando a esgrima do jovem de lado, Theresia sentiu o calor surgir em suas bochechas.

Theresia sentiu o calor pairar sob suas bochechas. Theresia era o Santo da Espada. Abençoada com o amor do Deus da Espada, uma existência que estava acima de todos os espadachins.

Em frente ao seu objetivo implacável, estava ela.

Embora fosse inquestionavelmente sua própria ilusão, ela sentiu como se ele a procurasse.

O atual Santo da Espada, Theresia, podia entender tudo sobre a espada apenas olhando para ela.

Ela podia ver sua verdadeira natureza, não importava que tipo de espada fosse, fosse ela preciosa, ou uma espada diabólica, uma espada durável ou, no pior dos casos, uma espada de Dragão. Ela podia manobrar livremente todos eles. Não existia nenhum aço desarmado nas mãos de Theresia.

Ele foi o único. Ele era o único aço que não se curvaria pela vontade própria de Theresia. Ele era uma espada, mas seus limites não podiam ser determinados por ela mesma, que era o atual Santo da Espada. Inconfundivelmente, foi por isso que ela passou a se preocupar tanto com ele.

??: “É Wilhelm Trias.”

Três meses depois de encontrá-lo pela primeira vez, ela trocou nomes com o jovem Wilhelm. Mesmo que eles tivessem se encontrado várias vezes, eles nunca perguntaram os nomes um do outro.

A verdade é que Theresia estava esperando por uma chance de fazer isso, mas Wilhelm ignorou seu desejo sem noção. Eles finalmente conseguiram trocar nomes, só porque Theresia ficou impaciente e deu início a isso, Wilhelm apenas deu uma resposta apropriada.

Wilhelm: “Até agora eu sempre a chamei de a mulher das flores na minha mente.”

Quão indelicado este homem poderia ser. Suas palavras não tinham um fragmento de simpatia, nem ela particularmente se importava, apenas tinha seus pensamentos focados em si mesma. E, além disso, ela costumava se contentar apenas em falar um pouco e logo voltar, mas agora o coração de Theresia estava palpitando.

Theresia: “Você gosta de flores?”

Wilhelm: “Não, eu odeio elas.”

Essa foi sua resposta, mesmo depois de ver tantas vezes a magnificência do jardim de flores de Theresia.

Arte: RingoTashi

Sem dúvidas, ele foi incapaz de responder para agradar ou elevar seu ânimo. Mesmo depois de ter um sentimento de angústia por causa disso, ela não pôde deixar de pensar, “Mas é exatamente por isso que ele é tão parecido com uma espada”.

Para a espada que não se curvava à sua vontade, o Santo da Espada não era nada digno de nota, e Theresia, naquela época, não percebeu como havia sido salva por causa disso.

Theresia: “Por que você empunhaa espada?”

Desde que trocaram seus nomes, as palavras que começaram a trocar também variavam. Eles costumavam falar sobre flores e apenas alguns outros tópicos alheios, e depois voltavam à normalidade. O que causou a mudança naquele dia foi talvez a causa do baixo astral daquele dia.

As tentativas de subjugar a Guerra Demi-humana falharam, e Theresia ouviu sobre as lutas no campo de batalha. Espalhados por todo o reino, os Demi-humanos que estavam por trás de toda a destruição causada eram notavelmente fortes, e entre eles estava uma “Bruxa” comandando uma força sobrenatural imensa, cuja existência também tinha sido confirmada. Isso foi o que ela ouviu.

E abruptamente ficou inquieta. Theresia tinha ouvido do próprio Wilhelm que ele não era um soldado do reino. No entanto, ele era um espadachim extraordinário. Além disso, ele tinha olhos que pareciam ter visto uma quantidade enorme de sangue.

Em tempos tão difíceis para o reino, ele certamente estava qualificado para ser um soldado — mas ele não era invencível. Algum dia, até mesmo ele poderia não ser mais capaz de vir a esta praça durante as manhãs.

Devido à ansiedade causada por isso, Theresia fez esse questionamento.

Pondo fim a sua dança de espada, o suado Wilhelm olhou diretamente nos olhos de Theresia, com absoluta seriedade. Parando por um momento, ele pensou em uma resposta, encolhendo os ombros, gesticulando que aparentemente achava a pergunta estúpida.

Wilhelm: “Porque isso é tudo o que eu tenho.”

Sim, essa foi sua resposta de aço. E para Theresia, foi exatamente o que ela esperava. Theresia estava bem ciente da sensação de mal-estar e isolamento em seu peito.

Theresia: “Você passou a gostar de flores?”

Wilhelm: “Não, eu odeio elas.”

Theresia: “Por que você empunhaa espada?”

Wilhelm: “Porque isso é tudo o que eu tenho.”

E em algum momento, isso tornou-se uma promessa entre eles, apenas repetir essa troca de interação.

A própria Theresia não tinha ideia do que esperar como resposta às suas perguntas reformuladas. Ela não sabia se não havia problema nas respostas que permaneciam inalteradas ou se ela deveria esperar alguma variação e alteração nelas.

Deixar as coisas que ela não sabia como estavam imprudentemente, era a própria essência de Theresia. Como quando ela, apesar de ter o título de Santo da Espada, enviou seus irmãos para a morte, e sobrecarregava Carol com suas responsabilidades, enquanto continuava a viver um tempo de indiferença.

Portanto, a mudança sempre valeu a pena, ao mesmo tempo que ostracizava Theresia de si mesma.


Normalmente, o primeiro a chegar nas ruínas abandonadas costumava ser Theresia. As visitas de Wilhelm, as quais antes eram irregulares, também eram constantes agora, e as palavras que eles trocavam entre si já estavam totalmente preparadas. Ultimamente, Theresia também havia percebido o quão imaturamente ela tratava a existência da espada.

Ao trocar mundoscom Wilhelm, e ao ter os olhos fixos sobre aquele jovem que dedicava tudo à espada, Theresia foi brevemente capaz de esquecer o peso em seus ombros como um Santo da Espada.

Ela ficou encantada por ele porque ela era o Santo da Espada, e Theresia tinha sido salva por ele dizer-lhe que ser o Santo da Espadaera uma bobagem. Mesmo que ela quisesse ser o Santo da Espada, ou não, ambos seriam desonestos da parte dela.

Enquanto ela continuava a afundar sob a água morna sem uma resposta, a culpa a envolveu. Apesar de seus dois desejos, ela queria ser capaz de esquecer sua existência.

Theresia: “… Wilhelm.”

Como de costume, Theresia olhou para trás ao sentir a presença que se aproximava. De pé na entrada da praça, estava o jovem da espada. Sem pensar, seus lábios se moveram e Theresia sorriu para ele.

“––”

Esse foi o momento em que suas emoções se quebraram. Com os olhos desviados, enquanto seus lábios estremeciam, Wilhelm colocou os dedos trêmulos no rosto. A própria Theresia ficou surpresa ao ver sua reação dramática e sentiu o gosto do impacto.

Theresia correu até ele, questionando se deveria se desculpar. No entanto, ela não sabia o que dizer. Até agora, Theresia se recusava a entrar em contato com as pessoas contanto que isso significasse que ela não as machucaria.

Por isso, quando machucava o coração de alguém, ela não sabia como reagir. Ela se desesperou.

Com ela mesma, que não sabia, e nunca tentou aprender.

Consigo mesma, que era incapaz de expressar qualquer palavra, na frente do ferido Wilhelm.

Theresia: “Wilhelm…”

Sem saber o que talvez ela devesse dizer ou fazer, os dedos de Theresia alcançaram Wilhelm. Há quanto tempo ela não iniciava o contato físico com alguém? Durante muito tempo, com medo de ferir os outros, ela se recusou a tocar as pessoas. Mesmo assim, neste momento, ela estava com muito mais medo de não o tocar.

Theresia abraçou os dedos de Wilhelm, os quais cobriam o rosto dele. Enquanto ele tremia terrivelmente impotente, seus dedos experimentaram um calor inacreditável, e ela percebeu.

Quando expostas a um calor tão incrível, as espadas de aço, transformam-se em um aço ainda mais reforçado.

Wilhelm era uma espada que sempre golpeava primeiro, mas ele não era, de forma alguma, uma espada completa.

E agora, recebendo este calor, Wilhelm estava mudando como aço.

Assim, esperava-se que Theresia assumisse o papel de golpear o aço.

Se ela estava lidando com uma espada, então ela, o Santo da Espada, deveria saber.

No caso desta pessoa em específico, no caso desta espada, ela deve desejar entender mais.

Theresia: “Você passou a gostar de flores…?”

Naturalmente, ela expressou sua pergunta usual. Se houvesse mais alguém ali além dos dois, eles poderiam ter considerado suas palavras estúpidas, pois iriam esperar que ela dissesse algo consolador.

No entanto, entre esses dois, essa foi a melhor escolha…

Wilhelm: “… Eu não as odeio.”

E uma resposta diferente veio para sua pergunta inalterada. Theresia sempre pensava sobre isso. Porventura, algum dia, quando a resposta de Wilhelm mudasse, a sensação que Theresia iria saborear seria de desespero, desânimo e pavor?

… Felizmente, esse não foi o caso.

Ela apenas amava a mudança nele. Foi isso que a Theresia de agora pensava sobre.

Theresia: “Por que você empunha a espada?”

É por isso que, certamente, a resposta para essa pergunta também seria diferente. E, possivelmente, essa resposta poderia salvar Theresia.

Wilhelm: “Porque isso é tudo… queeu pude pensar ao procurar uma maneira de proteção.”

A espada era única, foi o que Wilhelm respondeu. Sim, para essa pessoa, a espada era a única que importava.

Está tudo bem, porque ele é esse tipo de pessoa.

Era só isso, não havia necessidade de interação regular entre os dois. No entanto, isso não significava que tenham perdido a oportunidade de trocar uma ou duas palavras na praça. Na verdade, se falássemos sobre isso, as ocorrências desse tipo aumentaram mais que antes.

Wilhelm, que vinha constantemente à praça para praticar com a espada, passou a priorizar mais as discussões com Theresia em vez de apenas brandir a espada. Sentada em uma superfície elevada, seus ouvidos ouviam atentamente as palavras de Wilhelm, o qual sempre trazia à tona assuntos escassos.

Eram tópicos irremediavelmente ruins, dos quais ela não conseguia nem comentar, no entanto, ela se sentia completamente bem em simplesmente ouvir a voz dele.

Wilhelm: “Houve uma conferência… e eu me tornei um cavaleiro.”

Com um olhar caloroso, ele mencionou o assunto do dia. Theresia sempre se manteve distante das pessoas, por isso não era a melhor na socialização, contudo não era tão estúpida a ponto de não entender o significado das palavras do jovem o qual as expressou depois de reunir tanta coragem.

Um mero plebeu, trabalhando duro e tornando-se um cavaleiro graças aos seus esforços e indo para o campo de batalha, era inquestionavelmente impressionante. Quantas façanhas o Demônio da Espada, Wilhelm Trias, havia realizado, era algo que o atual e covarde Santo da Espada estava dolorosamente ciente.

Ela se perguntou qual poderia ser o motivo para ele ganhar a honra de ser um cavaleiro.

Theresia: “É mesmo? Parabéns. Então agora você deu um passo à frente para perto do seu sonho.”

Conhecendo suas reais intenções para tal feito, Theresia respondeu com uma atitude deliberadamente positiva. Era inevitável para ela corar naquele tom. Usando todas as suas forças para não deixar isso acontecer, Theresia sorriu para Wilhelm, o qual tinha uma expressão questionadora.

Arte: kisa_co

Wilhelm: “Sonho?”

Theresia: “Você empunha a espada para proteger, não é? Um cavaleiro é alguém que protege os outros.”

Com as palavras de Theresia, Wilhelm acenou com a cabeça sugerindo que ele entendeu o que ela havia dito. Embora fosse normalmente rebelde, às vezes ele demonstrava esse seu lado infantilmente manso.

… Ela simplesmente queria ser uma daquelas existências que ele queria proteger.

Embora ela não estivesse tão confiante sobre isso, ela se odiava, por se iludir e se assegurar disso. Mesmo que entendesse e percebesse bem seus próprios sentimentos, ela descobriu que era incapaz de agir sobre eles. Era incrivelmente, incrivelmente estúpida, repulsiva, irredimível. E mais uma vez, Theresia cometeu um erro.

Nesse ponto, quando ela pensava sobre isso, concluía que nunca fazia nada direito uma única vez.


Quando a cidade natal de Wilhelm queimou até às cinzas, ele entrou no campo de batalha. Quando Carol, sem fôlego, relatou a luta constante travada pelo Demônio da Espada, Theresia começou a perder o calor do corpo e quase caiu de joelhos naquele mesmo lugar. A pálida Theresia podia sentir o medo de Carol.

Ela podia sentir isso, mas seu corpo era incapaz de aumentar sua energia. Ela sabia exatamente isso, e como essa situação era desesperadora.

“––.”

A voz de alguém de fora invadiu os ouvidos de Theresia, a qual estava com os olhos fixos no chão. Não era de Carol. Nem era a voz de ninguém da casa. Ela conhecia a voz, pois era de alguém que sempre estava perto de Theresia, naquele instante, ela percebeu.

Era o som da risada do Deus da Espada, ridicularizando-a por seu amor abatido.

Theresia: “… Eu tenho que ir.”

Ouvindo a risada do Deus da Espada, Theresia se levantou lentamente. Mesmo agora, aquele som de zombaria ainda continuou a ecoar nos ouvidos de Theresia. No entanto, ela era incapaz de aceitar perder tudo enquanto era ridicularizada pelo Deus da Espada daquela forma.

Ela deixou tudo para seu irmão mais velho e o deixou morrer. Ela impôs sua própria responsabilidade ao seu segundo irmão mais velho, ao seu irmão mais novo e também ao seu tio, e os deixou morrer. Mas, apenas ele… “Mesmo que seja apenas o Wilhelm, não devo entregá-lo. Porque essa espada, essa pessoa, pertence a mim, somente a mim.”

Theresia: “Carol, prepare-se.”

Carol: “Theresia-sama…? Mas, a condição atual do seu corpo é…”

Theresia: “—Prepare-se.”

Carol, que estava preocupada com o corpo de Theresia, endireitou-se na segunda ordem. Movendo-se rapidamente, ela imediatamente fez todos os preparativos necessários para Theresia. O traje de batalha que não havia sido usado desde sua primeira batalha, junto com a longa espada que desconhecia o sangue.

Theresia: “Desta vez, não irei cometer erros.”

Apertando os braços e jurando pela longa espada, Theresia correu junto com Carol e saltou para a carruagem. O número de carruagens que vieram para resgatar Wilhelm, era muito mais do que Theresia esperava. Essas eram pessoas que estavam na mesma unidade que ele, ou aqueles que haviam sido anteriormente salvos por ele.

Agora a figura daquele jovem, segurando firmemente sua espada, estava longe de ser vista. A essa altura, aquele jovem havia se tornado uma espada preciosa, atraindo muitos com seu brilho e agudeza.

As linhas de frente da cidade natal de Wilhelm já haviam desmoronado. Gritos de fúria ecoavam, enquanto o campo de batalha era coberto pelo cheiro de sangue e fogo. O peito de Theresia ficou nauseado ao ver tais cenários terríveis.

Ela tinha se imaginado no campo de batalha várias vezes, mas a realidade era muito mais miserável do que qualquer coisa que ela poderia esperar. No campo de batalha, onde feridas são infligidas, vidas são tiradas, sangue é derramado, não adiantava se preparar com antecedência.

??: “De qualquer forma, procure pelo Wilhelm!”

Quem levantou a voz foi quem liderou o grupo de lutadores, Bordeaux Zellgef. Em sua instrução cheia de raiva, seu grupo, vestindo armaduras rochosas, avançou imediatamente, em unidade.

Carol: “Theresia-sama! O que deveríamos…”

A voz de Carol ecoou, pedindo instruções, mas Theresia não conseguia ouvir. O grupo de Bordeaux entrou em confronto com os soldados adversários, que haviam destruído sua cidade natal. Dentro das intensas trocas de golpes, ela vagamente o sentiu.

Carol: “Theresia-sama!?”

No momento em que percebeu, suas pernas se moveram. Theresia disparou no campo de batalha onde os lutadores estavam se enfrentando. Sem nem olhar para o ambiente, ela sabia aonde ir.

Ela pisou firme sobre o solo, atravessou as pilhas de cadáveres e se dirigiu para o ponto onde gritos de raiva e lamentos de morte se sobrepunham. E chegando naquele ponto escuro, do outro lado, Theresia viu.

… Na frente do quase desmaiado Wilhelm, estava um Demi-humano verde, com uma espada enorme erguida.

Com o rosto tingido de vermelho de sangue, Wilhelm olhou para a espada. Seus lábios se moveram, e com uma voz fraca e frágil ele murmurou:

“Eu não quero morrer…”

“––”

“Está tudo bem agora.”

Ela não conseguia ouvir mais nada. Theresia apenas considerou o que tinha ouvido pela última vez, o sussurro de Wilhelm. Ela balançou a longa espada em suas mãos. Estava claro.

Não fez nenhum barulho nem emitiu uma onda de choque sequer, ela apenas facilmente cortou o pescoço do Demi-humano. E ela voou em direção a figura a qual segurava a espada, e chutou o enorme corpo para que não caísse sobre Wilhelm. Ao mesmo tempo, tiros, cheios de desejo por sangue, avançaram com energia em direção à Theresia.

Todas esses projéteis, vindo em sua direção, ela podia senti-los em sua pele. Ela podia lê-los. Esquivando-se deles, Theresia seguiu um misterioso raio traçado que podia ver com sua espada. De repente aparecendo, misteriosos raios brancos estavam flutuando no céu.

O que era ainda mais misterioso era o fato de que ela sabia que deveria seguir esses raios com sua espada. Seguindo-os, sua espada deslizou sobre os raios brancos. Sua espada deslizou como o vento e subsequentemente cortou os corpos dos Demi-humanos.

Cortando seus membros, rasgando suas gargantas, cortando seus abdomens, ceifando suas vidas. A Proteção Divina do Santo da Espada e a Proteção Divina do Deus da Morte irradiaram uma oportunidade que finalmente chegou. Se ela cortasse o pulso, a ferida não se curaria. Se ela cortasse seus intestinos, o sangramento não cessaria. Até mesmo as feridas mais superficiais irão corroê-los eventualmente.

“––”

Do canto dos olhos, ela viu Wilhelm sendo carregado. Os que estavam ao seu lado eram Carol e um jovem com um escudo. Eles tentaram sair desse espetáculo sangrento, imediatamente após resgatar Wilhelm.

Sim, é o correto. Apresse-se e leve Wilhelm para longe daqui.

Carol: “Theresia-sama…~Hk!”

Carol apertou o pingente que pendia em seu pescoço, vendo Theresia brandindo a espada. Vendo seu gesto de aparentemente oração, Theresia achou isso um pouco engraçado.

Acho que é exatamente como a Carol disse, não é? Na verdade, sou mais forte do que qualquer pessoa, e melhor em matar do que qualquer outro.

… Se ao menos eu tivesse percebido isso um pouco antes.

“––”

Os jovens rapidamente agarraram Wilhelm, na tentativa de sair dali. Wilhelm, que estava resistindo, usou todas as suas forças, apesar de suas feridas profundas, para fazer o mesmo. Sua presença desapareceu.

Ela ficou aliviada ao sentir isso. E enquanto se sentia aliviada, ela tirou uma, duas, três vidas. Facilmente.

Cortando e cortando, ela mergulhou em gritos de raiva e lamentos de morte. Ela lavou a voz infinitamente alta do Deus Espada.

Apenas deixe-me ouvir sua voz, daquele que estava desesperadamente se agarrando à vida. Por gentileza, grave a minha razão de lutar.

“Por favor, deixe-me acreditar que a minha espada pode salvar o Wilhelm.”


O confronto foi dado como encerrado.

O objetivo de Theresia, o motivo pelo qual adentrou o campo de batalha, havia sido conquistado, e Wilhelm tinha sido recuperado.

No entanto, o objetivo de Wilhelm, de lutar e salvar sua terra natal, não foi realizado com êxito.

Sua terra virou cinzas, ele perdeu o lugar onde viver e estava completamente só agora.

Wilhelm, que empunhava sua espada com pura fúria, possuía mais de trezentas baixas.

Para o que foi um único espadachim em um único campo de batalha, era um número extraordinário e, sem dúvidas, inimaginável.

ーーSendo assim, a técnica de Theresia com a espada, que mandou mais de mil cabeças pelos ares, era uma anomalia.

Assim como a existência da Santa da Espada aliーー

Com sua vergonhosa primeira batalha tendo sido acobertada, esta ocorrência foi documentada na história como a primeira batalha da Santa da Espada Theresia.

A batalha em si podia até ter acabado em uma derrota incontestável, mas ela havia conseguido provar sua habilidade avassaladora com a espada.

O nome de Theresia van Astrea ecoou por todo o reino e ergueu a moral dos soldados que batalhavam.

Claro que os ouvidos do Demônio da Espada também deveriam tê-lo captado.

???: “Que humilhante.”

Entre os dois não havia promessa alguma de se reencontrarem.

E ainda assim sentiam que, caso fossem à praça, encontrariam um ao outro.

Era verdade, concretizou-se.

Wilhelm, ao vir até a praça, brandiu sua espada com os olhos grudados em Theresia.

Ela colocou a mão no caminho e a aparou com dois de seus dedos.

Theresia sabia de tudo, sobre o ângulo de ataque ideal, sobre a força de ataque ideal.

Ao ter o golpe de sua espada parado, Wilhelm distorceu seus lábios severamente e proferiu palavras revestidas de ardor que não combinavam com a reunião.

Theresia: “ーーÉ mesmo?”

Wilhelm: “Você estava rindo de mim?”

Theresia: “ーーーー”

Wilhelm: “Responda-me, Theresia… não, Santa da Espada!!”

Ela não tinha intenção alguma de o fazer.

Era só que também não havia significado nenhum em se explicar assim.

Era verdade que Theresia costumava observar o bailar das espadas de Wilhelm com certo menosprezo. Era verdade que via suas falhas e não o informava sobre, mantendo-as para si.

Também não havia sentido algum em declarar qual o real significado de tais coisas.

“ーーーー”

Wilhelm se jogou para cima de Theresia e teve suas pernas golpeadas por ela, isso fez com que ele caísse violentamente. Ele avançou com uma expressão irritada no rosto, contudo Theresia desviou de tudo e contra-atacou.

Não demorou muito até que a luta se tornasse unilateral e a amada espada empunhada por Wilhelm fosse parar nas mãos de Theresia. Ela literalmente viu de relance traços de empenho que se revelaram naquele sangue presente na empunhadura da amada espada dele… e a sacudiu, seguiu o feixe branco e golpeou o tronco do homem.

Ela o abateu com a lateral da espada, Wilhelm desabou respirando com dificuldade.

Theresia: “Eu não vou mais voltar aqui.”

Com ódio, com pena, com pensamentos seriamente negativos, ele não suportava ser visto desta forma.

Theresia virou o pescoço e escolheu a opção que havia escolhido inúmeras vezes até o dia de hoje, fugir.

Wilhelm: “Você não deveria… estar carregando uma espada… com uma cara dessas.”

Wilhelm, com o rosto na terra, forçou essas palavras para fora de si com frustração.

Possuía fé e confiança na beleza e grandiosidade da espada, mais do que qualquer outro, era o caso dele. Possuía a habilidade de chutar e pisotear ele como um todo, era o caso dela.

Theresia: “Eu sou a Santa da Espada. Nunca entendi o motivo disso, mas agora eu finalmente compreendo.”

Ela possuía a exótica Proteção Divina do Deus da Morte.

Havia recebido a Proteção Divina do Santo da Espada, mesmo não tendo pedido por ela.

Parecia que finalmente seria capaz de chegar a um meio-termo com aquilo que foi agraciada.

Wilhelm: “O motivo…”

Theresia: “Empunhar a espada para proteger alguém. Não acho que seja tão ruim.”

Empunhar a espada para proteger alguém.

Ela desejava poder ter notado mais cedo algo que era assim tão simples.

Se bem que, mesmo se tivesse percebido, poderia não ter encontrado alguém para proteger.

O que agora tinha encontrado.

ーーProteger Wilhelm.

Contanto que fosse capaz de proteger Wilhelm com este poder, com este detestável poder de massacre, ela o protegeria.

Protegeria ele, sua própria família, Carol e muito mais; até por fim proteger algo tão descomunal tal como o reino, tornar-se uma Santa da Espada adequada era seu dever.

Porque eu sou a mais forte. Porque o Santo da Espada é o mais forte.

Posso passar por cima dos sentimentos dele, posso trair aquilo em que ele acreditava, mas não posso abandonar o fato de que sou a Santa da Espada.

Wilhelm: “Só espere, Theresia…”

Não existiam mais palavras a serem trocadas.

Sua voz alcançou Theresia, que havia virado de costas, pensando que esse seria o fim.

“ーーーー”

Ela parecia estar prestes a parar de seguir adiante. Engoliu desesperadamente tal sentimento.

Independentemente disso, a voz de Wilhelm alcançou Theresia, a qual desesperadamente engolia seus próprios sentimentos.

Wilhelm: “Eu vou tirar essa espada de você. Não ligo pra essa Proteção Divina que você recebeu nem pro seu dever… Não ouse fazer pouco caso de brandir a espada… da beleza de uma lâmina, Santa da Espada!”

“ーーーー”

Declarou que a tiraria dela.

E mais uma vez ecoaram os risos do Deus da Espada dentro da cabeça dela.

Como se tirassem sarro da declaração inconsequente do jovem imaturo.

Como se tirassem sarro da criança mimada cujo coração abalou-se diante uma esperança passageira.


ーーColocar um fim na guerra civil levou mais dois anos.

Desde que se despediu de Wilhelm, Theresia adentrou cada campo de batalha.

Ela trabalhou duro com ferocidade e dedicação repetidas vezes, tal contribuiu em especial para o enfraquecimento da aliança demi-humana.

A aliança também perdeu seu alto escalão, o qual era a sustentação, e sua fundação desestabilizou-se.

Digamos que eles não tinham escolha a não ser reagir apropriadamente ao tratado de paz oferecido pelo reino.

Assim sendo, a maior guerra civil que o reino já viu, a Guerra Demi-Humana, distanciou-se de seu horror na metade do caminho e encerrou-se tão rápido quanto teve início.

Theresia: “Ela… acabou?”

Ela estava totalmente preparada para seguir rumo à próxima batalha, à batalha seguinte, a um número interminável de batalhas.

Por isso Theresia foi completamente tomada de surpresa assim que ouviu o repentino relatório.

Carol: “Sim, ela acabou. A guerra civil chegou a um fim. ーーÉ uma conquista da Theresia-sama.”

Disse Carol com inocência enquanto abraçava Theresia, que se encontrava desnorteada.

Carol nesses últimos anos veio a mostrar várias vezes expressões suaves como essa, ela estava apoiando firmemente uma Theresia pasma enquanto a acariciava gentilmente nas costas.

Theresia: “Conquista, você diz…”

Ela não concordava realmente com essa afirmação.

Theresia havia simplesmente continuado lacerando e dilacerando com devoção. Ela acreditava que, ao final, tratava-se de proteger outro alguém.

Acreditava que era para salvar o jovem rapaz que havia desertado do exército por vontade e conta própria e que então sumiu de vista.

O que Theresia falhou em perceber é que era exatamente como Carol havia dito, suas ações eram enaltecidas como sendo a maior contribuição feita ao reino.

Uma cerimônia foi feita para ela e, enquanto trajava seu vestido de gala e carregava em suas mãos uma espada cerimonial, Theresia, do começo ao fim do evento, não conseguiu livrar-se da sensação de que estava caminhando em um sonho.

Não, se fosse mesmo um sonho, então Theresia sempre esteve dentro de um.

Desde que recebeu a Proteção Divina do Santo da Espada e sentiu por perto a existência do Deus da Espada pela primeira vez, o coração de Theresia sempre esteve no sonho mostrado por esse enorme ser.

Sendo assim, isto também era um sonho. Um sonho mostrado pelo amor do Deus da Espada e no qual a luz do sol nunca raiava.

Era por isso que, se fosse para haver um momento em que se libertasse deste sonho, entãoーー.

“ーーーー”

Uma comoção surgiu cortando o fervor da multidão entusiasmada.

Sem nenhum aviso prévio e através de todos os brados que exigiam seu cessar, o ser invadiu o salão de cerimônias.

Em suas mãos estava uma espada velha e cheia de ferrugem.

Ele estava vestindo uma túnica marrom enlameada e, no que se via de sua pele, ela estava cheia de manchas imundas. No entanto, antes que fosse possível franzir as sobrancelhas diante dessa aparência, havia outra coisa que o instinto de todos sentiu.

ーーDesse indivíduo emanava um terror avassalador.

ーーNão, uma aura de espadachim.

“ーーーー”

Theresia, com sua espada cerimonial em punho, ficou frente a frente com o ser que se aproximava em silêncio.

Os guardas estavam prestes a cercar o rebelde, até que o rei, em pé no mesmo estrado que eles, acabou por impedi-los. Ela estava grata por isso. Dali em diante não haveriam obstruções.

Agora ninguém iria interferir em seu encontro com o Demônio da Espada ali.

ーーAviso nenhum foi dado.

Contudo, como se tivesse sido preparado de antemão, as lâminas dos dois avançaram simultaneamente e causaram um tinido agudo.

A lâmina basicamente cega colidiu diretamente com a lâmina que, embora fosse para uso cerimonial, era uma espada sagrada inconfundível. Lampejos dançavam vividamente, cortes partiam os ventos, as duas silhuetas se emaranhavam na plataforma como se estivessem bailando.

“ーーーー”

Enquanto brandia a espada, Theresia estava recheada de admiração. Seus batimentos aceleravam, seu coração palpitava cada vez mais rápido.

Os olhos de Theresia, como sempre, viam aqueles feixes brancos que flutuavam em meio à batalha. Caso os feixes abrissem caminho, ela seria capaz de matar seu oponente se os seguisse, era essa a assistência do Deus da Espada que seus olhos enxergavam.

E esse caminho para a vitória, construído pelo Deus da Espada e revelado pelo ápice da espada, estava sendo sobrepujado pela lâmina do Demônio da Espada meramente por meio de sua devoção e de sua paixão enlouquecedora.

Os feixes brancos flutuantes, como se fossem visíveis, eram sempre cortados pela espada enferrujada.

Enquanto interceptava cada um dos inúmeros feixes brancos, o Demônio da Espada rugia e tentava invadir o ápice da espada que ele não deveria ser capaz de jamais alcançar.

O coração dela palpitava cada vez mais rápido. Sempre que entravam em contato.

Sempre que suas espadas colidiam, sempre que os feixes brancos eram cortados, sempre que seus olhares se entrelaçavam.

Ela estava se apaixonando pelo Demônio da Espada diante de seus olhos.

A Santa da Espada apaixonou-se pelo Demônio da Espada de novo e de novo e de novo.

Ela o amava. Ela o amava. Ela o amava tanto que era insuportável.

ーーEla amava essa pessoa ao ponto de ser insuportável.

“ーーhk.”

A cerimônia virou uma enxurrada de absurdos e, quando Theresia se perguntou o que estava fazendo diante dos olhos de tantas pessoas, ela achou a situação insuportável de tão ridícula.

Suas bochechas estavam quentes. Seu coração estava palpitando. A cada instante que se passava, seu amor se intensificava.

A verdade é que eu queria abrir mão da minha espada agora mesmo e me jogar no peito dele.

Já não tem mais nada a ser tirado de mim. Há muito tempo, quando te encontrei pela primeira vez, desde que senti o meu coração acelerar por causa da sua imagem, eu sempreーー.

“ーーーー”

Sua opção de fugir pelo caminho mais fácil outra vez, de se recusar a enfrentá-lo, havia sido completamente esmagada.

Não pela voz de repreensão do Deus da Espada, e sim pelo brilho nos olhos do demônio perante ela, ele que a rejeitava de corpo e alma.

Eu vou tirá-la com a minha própria força, com as minhas próprias mãos, não com as suas nem com as de mais ninguém.

Com a minha própria força, com a minha própria perseverança, com tudo que dediquei à espada, eu vou tirar essa mulher do Deus da Espada.

Quanto será e por quanto tempo será.

Quantas vezes, quantas centenas de vezes, dezenas de milhares de vezes, milhares de milhões de vezes será que ele pensou nisso consigo mesmo.

As espadas se cruzaram, as lâminas foram pressionadas uma contra a outra, as pontas cintilaram, eles trocaram golpes várias e várias vezes.

E então o agitar da espada que veio acompanhado da voz enfurecida do Deus da Espadaーー,

“ーーーー”

A lâmina marrom-avermelhada rompeu, a ponta dela saiu rodopiando pelos ares e pousou na plataforma.

O responsável por conquistar tal feito foi o ataque categórico e recheado de paixão que foi realizado pela Santa da Espada.

Era um ataque carregado com a força do Santo da Espada, não havia como ser mais refinado, ela apostou tudo de si.

No entanto…

Wilhelm: “Eu…”

Theresia: “ーーーー”

Wilhelm: “Eu venci.”

A espada valiosa foi tirada das mãos dela.

A palma de sua mão amorteceu devido ao impacto, e a valiosa espada caiu atrás dela com um baque. A ponta da espada cega partida ao meio em seguida foi posicionada contra o pescoço branco de Theresia.

A Santa da Espada belamente adornada perdeu para o Demônio da Espada treinado de forma bronca.

Foi esse o momento em que a espada valiosa foi derrotada pela lâmina cega e a ilusão conhecida como Santa da Espada despedaçou-se.

Wilhelm: “Você é mais fraca que eu, então não tem mais motivo nenhum pra empunhar a espada.”

Uma voz ecoou.

Agora que eu parei para pensar, já faz um bom tempo desde que eu ouvi a voz indelicada dele.

E pensar que as primeiras palavras dele seriam essas.

Theresia: “Se eu não empunhar a espada… quem vai?”

Wilhelm: “Eu vou tomar de você o motivo para brandir uma espada. Você só vai se tornar o meu.”

O motivo pelo qual brandia a espada era para proteger alguém.

Você vai se tornar esse motivo, enquanto dizia isso, ele tirou o capuz.

Ao se ver sendo encarada por aquele rosto azedo e manchado, Theresia mexeu a cabeça de um lado para o outro.

Embora tenha dito algumas coisas bem maneiras, que a tiraria dela, que a protegeria, ele ainda nunca conseguiria entender o coração de uma mulher. Ele era uma espada, então fazer o quê.

Theresia: “Você é tão insensível. Jogando fora assim a determinação e as decisões de alguém.”

Wilhelm: “Eu vou tomar todas essas coisas também. Só esqueça que já segurou uma espada na vida e… é isso mesmo. Só viva em paz atrás de mim, e cuide de umas flores ou algo assim.”

Ah, isso, isso éーー.

Theresia: “Enquanto sou protegida pela sua espada?”

Wilhelm: “Isso mesmo.”

Theresia: “Você vai me proteger?”

Wilhelm: “Isso mesmo.”

Caso incluísse ela mesma nas coisas que ele queria proteger, ele responderia ao amor dela.

Theresia sorriu em resposta às palavras do Demônio da Espada, às palavras de Wilhelm.

Logo em seguida, ao encostar na espada colocada contra seu pescoço, ela deu um passo adiante.

Por meio da lâmina que tocou, ela conseguia sentir os dois anos que Wilhelm havia experienciado.

E, ao pensar que ele possivelmente esteve pensando nela aquele tempo todo, sentiu seu peito esquentar.

Com a vinda de emoções que Theresia não conseguia suportar, seus olhos se preencheram de lágrimas. Elas por fim transbordaram e começaram a escorrer pelas bochechas de uma Theresia sorridente.

Theresia: “Você gosta de flores?”

Wilhelm: “Eu não as odeio mais.”

Theresia: “Por que você empunha a sua espada?”

Wilhelm: “Para te proteger.”

Este era o limite da paciência dela.

Desde que a espada foi tirada de suas mãos, ela não ouvia mais a voz do Deus da Espada.

Ela não via nada a não ser Wilhelm.

Ela não sentia nada a não ser Wilhelm.

Ela não possuía nada a não ser Wilhelm.

Tendo se aninhado suavemente contra o peito dele, ela ergueu levemente a cabeça.

Os lábios de Theresia, a qual estava de olhos fechados, juntaram-se aos de Wilhelm. Ela sentiu o amor macio e ardente dele, e o mundo de Theresia foi revolucionado.

Ela, de bochechas coradas, olhou para seu amado, que estava logo adiante.

Wilhelm não disse nada, aguardava em silêncio pelas palavras dela.

Essa atitude era esquisita. Ela que estava no aguardo. Já que ele não parecia entender isso, assim como já ocorreu várias vezes anteriormente, ela tomou a iniciativa:

Theresia: “Você está apaixonado por mim?”

Wilhelm: “ーーVocê já sabe a resposta.”

Ele virou o rosto enquanto entregava uma resposta grosseira.

Assim que ela o encarou com surpresa após essa resposta, sons adentraram o mundo dos dois. A estagnação do tempo que caiu sobre o público se desfez e os guardas foram em direção a eles.

E lá se via figuras humanas que Wilhelm conhecia bem.

Theresia: “Minha nossa.”

Diante desse Wilhelm, que estava olhando para as pessoas com uma expressão meio aliviada, ela estufou as bochechas.

Mesmo com ela parada logo em frente ao homem, por que ele estava olhando para outro lugar?

Ele ainda nem havia dito as palavras que ela queria ouvir.

Theresia: “Há algo que eu quero que você diga, sabe.”

Wilhelm: “Ah.”

Wilhelm virou a cabeça enquanto coçava a bochecha, era como se estivesse tentando enganá-la.

Contudo, não muito depois, como se tivesse sido vencido pelo olhar de Theresia, ele suspirou e repentinamente abraçou a cintura esguia dela.

Então ele gentilmente colocou o rosto ao lado da orelha de uma Theresia surpresa:

Wilhelm: “Algum dia, quando eu ‘tiver no clima.”

ーーParecia como se fosse levar um longo tempo para esse dia chegar.

Ela se sentiu frustrada por causa disso, mas, ao mesmo tempo, estava ansiosa por esse dia.

Em virtude de seu defeito, o de amá-lo demais, Theresia perdoou as palavras de seu amado.


ーーDepois disso, em retrospectiva, aconteceu um monte de coisas.

Wilhelm, que interrompeu a cerimônia e roubou o papel principal com uma violência sem precedentes, ter sido recebido como marido foi uma delas.

Wilhelm ter se tornado um cavaleiro da Guarda Real mediante as sugestões de Bordeaux e companhia, assumindo então o lugar de Theresia, a qual havia deixado de ser a Santa da Espada, foi uma delas.

Carol, que afirmou que serviria Theresia vitaliciamente, ter se apaixonado por um dos colegas de Wilhelm, podendo ou não se casar com ele, foi uma delas.

Bordeaux, que obteve várias conquistas militares em batalha, ter ganhado uma cadeira no Comitê Parlamentar, sendo encarregado de tratar de assuntos importantes do reino, foi uma delas.

Tantas, mas tantas coisas aconteceram, esses foram dias realmente divertidos.

Theresia: “Eu estou apaixonada por você, Wilhelm. E você?”

Wilhelm: “ーーーー”

No final, ele nunca pronunciou as palavras que deveriam ser ditas em seguida. Se bem que, ao invés de palavras, ele se expressava com ações.

Os únicos capazes de serem enganados por isso eram mulheres gentis ou mulheres perdidamente apaixonadas pelo homem em questão… Já que Theresia era ambas as coisas, continuava sendo enganada.

O tempo que passaram como um casal foi calmo e sossegado, talvez até demais.

Wilhelm, conforme a promessa que fez a Theresia, desde aquela cerimônia, não a deixou empunhar uma espada uma vez sequer. Além de que Theresia não possuía nenhum apego persistente pela espada. A voz do Deus da Espada também já havia sido calada há tempos.

Ainda assim, a Proteção Divina do Santo da Espada ocasionalmente dava as caras.

Por exemplo, na hora de cozinhar, sempre que pegava alguma faca de cozinha, ela espontaneamente ficava ciente de coisas como o ângulo de ataque ideal. No entanto, ser especialista em fatiar só daria conta do processo de preparação, quando teve que aprender os processos seguintes, ela percebeu como ser uma dona de casa era bem mais difícil do que ser um espadachim.

Theresia: “…Ah.”

Também teve a vez que aprendeu a controlar sua Proteção Divina do Deus da Morte. Enquanto cozinhava, ela acidentalmente cortou o dedo na casca de um ingrediente.

Feridas causadas voluntariamente eram sujeitas à Proteção Divina não importa o que aconteça. Ela ficou pálida ao ver o ferimento que causou em si mesma e, quando tentou estancar o sangramento às pressas, o sangramento parou imediatamente.

ーーEntão era simples assim?, pensou ela, um pouco espantada.

Ela aceitou a existência das Proteções Divinas e controlou seus poderes.

Uma garotinha que recebeu um título tão monstruoso quanto o de Santo da Espada, quando, na verdade, nem compreendia aquilo que já possuía.

Se ao menos isso tivesse acontecido antes… intensas emoções tomavam conta de seu peito ao pensar na imagem de seus irmãos.

Wilhelm: “Theresia.”

Theresia: “ーーHm.”

Em momentos assim, Wilhelm chegaria como se os tivesse previsto. Ele rasgaria o frágil manto com o qual Theresia parecia tentar ocultar seus pensamentos internos e entraria lá à força.

E assim ela seria salva.

Theresia: “Você está apaixonado por mim?”

Wilhelm: “ーーーー”

Era só essa pergunta que ele, apesar de tudo, teimosamente se recusava a responder.


Depois disso, mais uma vez, aconteceu um monte de coisas.

Um monte, de fato.

O filho do casal, Heinkel, nasceu.

Heinkel então conheceu a mulher que viria a ser sua noiva, a que daria à luz ao neto de Theresia, Reinhard.

ーーAbsolutamente ninguém deveria ser culpado de nada.

Nem Heinkel, o filho orgulhoso daquele que persistiu trabalhando duro, parecendo direto, zeloso e mais sincero com sua espada do que qualquer outro.

Nem a noiva, que foi acometida por uma doença conhecida como Bela Adormecida, roubou de Heinkel a chance de se explicar e deixou o jovem Reinhard absolutamente só.

Nem Reinhard, que foi abençoado com talentos capazes de fazer alguém tremer à primeira vista e estava com seu tenro ser entupido de um destino desnecessário.

Ninguém era culpado.

Por isso que, como sempre, a única a ser culpada era a si mesma.

Heinkel depravou-se, a noiva ficou aprisionada em sonhos e Reinhard trabalhou duro na tentativa de ser amado por pais assim.

Ela viu-se como a mais tola, foi a primeira a perceber e não fazer nada, pois de nada serviria.

Heinkel: “Tem uma batalha conhecida como a Grande Expedição… uma cruzada para abater a Baleia Branca. Lá, eu…”

Um cavaleiro da Guarda Real só no papel e uma missão de peso só no papel.

Conforme a voz de seu filho tremia enquanto apresentava a proposta, Theresia silenciosamente e por conta própria firmou sua decisão.

Desde a última vez em que a usou, sua espada longa esteve sob os cuidados de Carol, que a havia preservado na mesma condição até os dias de hoje.

Wilhelm: “Eu sou contra. No que você está pensando!?”

Mesmo entendendo perfeitamente a decisão de Theresia, Wilhelm foi contra.

Ela sentiu um olhar penetrante e resoluto atravessando-a.

Ele possuía alguns cabelos brancos e sua voz havia perdido a juventude de outrora, ainda assim, Wilhelm em essência havia permanecido inalterado.

Sua dignidade, seu ardor, seu desajeitamento, tudo era como Theresia amou e ainda amava.

Theresia: “ーーEu já tomei a minha decisão.”

Wilhelm: “Fazendo o que bem entende! Mas quem é que… Não pode ser.”

Diante dessa atitude teimosa de Theresia, Wilhelm percebeu quem era o responsável pela ideia.

Fúria tingiu seu rosto de vermelho e uma aura de espadachim incontrolável irrompeu.

Wilhelm: “Aquele maldito imbecil… ele deveria tomar vergonha… hk.”

Theresia: “Isso é uma coisa que nem você nem eu temos o direito de falar.”

Wilhelm: “ーーーー”

Wilhelm também lamentava por seu filho. Sua fúria foi sumindo aos poucos de seu semblante e Wilhelm mordeu os lábios.

Embora seu ardor tivesse permanecido inalterado, ele havia amadurecido ao ponto de suprimir seu fervor e demonstrar calma.

Wilhelm: “Eu também assumirei esse…”

Theresia: “Você tem os seus próprios deveres. E já deve estar bem ciente disso, Wilhelm… Não me diga que se esqueceu do luto de Ford-sama?”

Wilhelm: “ーーーー”

Ford, o irmão mais novo do rei, teve a filha raptada por alguém que invadiu o castelo. Por ser o comandante da Guarda Real, Wilhelm tinha o dever de recuperá-la imediatamente.

Era impossível levar o Demônio da Espada para a Grande Expedição.

Em seu lugar, foi proposto que Theresia, a atual herdeira da Proteção Divina do Santo da Espada, participasse da cruzada.

Ela não podia recusar. Os dias pacíficos em que viveu longe da espada haviam sido construídos sobre seu egoísmo.

Ela não podia mais continuar dependendo dos outros assim.

Wilhelm: “Theresia, algo assim é…”

Theresia: “Wilhelm.”

Theresia chamou pelo marido que ainda estava tentando persuadi-la. Diante do rosto dele, que havia prendido o fôlego ligeiramente, ela sorriu e fez uma pergunta.

Theresia: “Você está apaixonado por mim?”

Wilhelm: “Quê… hk.”

Inquietação… ela viu nele a mesma emoção de antes.

Enquanto sorria, Theresia brandiu agilmente a palma de sua mão, como se fosse uma espada, em direção ao ombro de Wilhelm. Ela cortou o ar e rasgou-lhe a pele.

Wilhelm, que estava exposto e indefeso perante sua esposa, não conseguiu reagir por causa de sua desatenção, o ferimento em seu ombro então começou a sangrar.

Wilhelm: “Theresia… o que está fazendo?”

O rasgo superficial em seu ombro foi sujeito ao poder da Proteção Divina do Deus da Morte. Não era uma ferida grave, mas o sangramento não cessaria. E continuaria assim contanto que Theresia estivesse por perto, contanto que não se distanciassem demais.

Wilhelm: “Theresia?”

Ela gentilmente se aproximou do peito dele.

Enquanto sentia a robustez dos braços que a envolviam, Theresia beijou a ferida no ombro de Wilhelm.

Enquanto provava do sangue de seu esposo pela primeira vez, o sangue tingia seus lábios de carmesim.

Theresia: “Agora você não pode mais ir atrás de mim. Já que essa ferida não vai fechar se você ficar perto de mim.”

Wilhelm: “Fazendo algo tão idiota assim por uma coisa dessas… que eu seja claro, mesmo que o sangramento não pare, eu ainda assim…”

Theresia: “Se você fizer isso, vai ter sido para nada.”

Theresia deu um leve sorriso e separou-se do corpo dele.

E então, enquanto apontava para o ferimento no ombro de Wilhelm:

Theresia: “Eu deixarei essa ferida como está. É para que não venha atrás de mim. Irei fechá-la assim que ambos os nossos trabalhos tenham sido concluídos.”

Wilhelm: “ーーーー”

Theresia: “Está tudo bem, além do mais, quem você acha que eu sou? Eu sou a mais forte espadachim neste mundo, perdendo só para você.”

Wilhelm: “Só que comparar o seu nível de agora, na metade dos quarenta, ao da sua juventude…”

Theresia: “Não diga coisas desnecessárias.”

Antes que algo rude saísse da boca dele, ela indelicadamente fez com que ele a fechasse.

Caramba, mesmo depois de vinte anos juntos, isso ainda acontecia.

O aço ainda permaneceu inalterado. Portanto:

Theresia: “Eu estou apaixonada por você, Wilhelm.”

Wilhelm: “ーーーー”

Theresia: “Sim, pode ser isso também. A resposta fica para a próxima.”

Wilhelm: “A próxima?”

Em resposta a Wilhelm, que franziu as sobrancelhas, Theresia acenou com a cabeça.

Então, enquanto jurava pelo ferimento no ombro de seu marido que eles se encontrariam novamenteーー.

Theresia: “No dia em que eu voltar, por favor, me deixe ouvir as palavras que não pude antes.”


Suas memórias estavam sumindo.

Seu campo de visão estava desordenado, como se ela estivesse no meio de uma tempestade de areia, os sons dispersos estavam ficando cada vez mais difíceis de ouvir.

“ーー!”

Ouvia-se os bramidos, uivos e berros de alguém.

Em sua visão estava uma superfície esverdeada… não, este era o chão. Ele tinha a cor de uma campina. Caso examinasse os arredores, veria que além da casa dos dez metros tudo era incerto, uma névoa densa havia isolado o mundo por completo.

A força de subjugação havia sido parcialmente dizimada, as tropas estavam em condição catastrófica.

Começaram a entrar em debandada e não conseguiam determinar para qual direção deveriam fugir em meio à névoa espessa.

No entanto, sentiram vagamente uma sensação opressiva descomunal vindo do outro lado do nevoeiro. Portanto, era de se imaginar que as vozes ao vento estivessem fugindo para a direção oposta.

“ーーーー”

Ela imediatamente não se viu capaz de recordar o que havia acontecido.

Em meio à feroz e violenta batalha, embora tivesse se esforçado para conquistar a vantagem no embate, sentia que seria tão mais útil se usasse seu poder para recuar das linhas de frente, e bem quando começou a se sentir desse jeitoーー.

“ーー?”

Ela refletiu até esse ponto e percebeu um leve desconforto.

Olhou então para a palma de sua mão. Havia algo de desconfortante.

Não havia nenhum problema com seus membros, olhos ou pés.

No entanto, em algum lugar, ela se sentia como se tivesse perdido asasーー.

Theresia: “A Proteção Divina…”

Ela se deu conta.

Não conseguia mais sentir a Proteção Divina do Santo da Espada em lugar nenhum. O mesmo valia para o Deus da Espada, que, não importava o quanto ela se afastasse da espada, sempre esteve ao seu lado.

Até mesmo sua zombaria agora não se encontrava em lugar nenhum.

Theresia: “Reinhardーー!”

Na mesma hora, Theresia sentiu como se soubesse quem possuía aquilo que seu próprio corpo perdera.

Será que foi a mesma coisa que aconteceu quando seu tio sentiu que Theresia era a herdeira da Proteção Divina? Ou será que Theresia estava simplesmente ciente do talento nato incomensurável que Reinhard detinha?

Seja qual for, Theresia não tinha dúvidas de que o Santo da Espada da próxima geração seria Reinhard.

Tal sentimento talvez seja traição a seu filho biológico, Heinkel… mas não havia ninguém a culpar por isso, muito menos tempo para tal.

???: “ーーAh, uma moça sozinha em um lugar desses, vejo que é muito valente.”

Ecoou a voz graciosa de uma garotinha que não parecia se importar com o local onde se encontrava.

Ao se virar, Theresia viu uma pequena silhueta em meio à névoa densa.

Vestes brancas e cabelo platinado.

Uma afeição que parecia íntima, um olhar amigável com uma simpatia que expressava perpétua confraternidade por um desconhecido… amor tão mal direcionado que era asqueroso.

Arte: [Fonte Desconhecida]

Theresia: “ーーーー”

???: “Me parece que não fui do seu agrado.”

Theresia seguiu adiante com a espada de prontidão.

Se a garota estivesse em uma situação normal, até poderia ter se preocupado com ela. Mas este era um mundo de morte governado pela névoa densa da Baleia Branca.

Uma garotinha dar as caras ali era mais que esquisito.

Mesmo tendo perdido a Proteção Divina do Santo da Espada, no corpo de Theresia ainda restava uma parcela de sua antiga técnica com a espada. Era o bastante para que demonstrasse o verdadeiro poder do apogeu da espada, seu corte então dividiu o corpo miúdo da garota ao meio…

???: “ーーEu quero entendê-la.”

A voz da jovem fazia cócegas em seus tímpanos e interrompia sua consciência.

Quando de repente…

A consciência dela despencou escuridão adentro.

O corpo de Theresia foi sendo submerso profundamente, como se estivesse afundando, com os pés e mãos amarrados, em água morna sem fundo.

Arte: まおとろ

O futuro de seu neto, o coração de seu filho, a noiva que os dois interligava, tais preocupações percorreram sua mente.

E por fim…

Theresia: “Wilhelm.”

Ela disse o nome de seu amado, sua consciência então foi interrompida por completo.

E…


Theresia: “Mas que rosto… miserável…”

Ao abrir lentamente suas pálpebras, ela pôde ver um rosto acabado.

O cabelo dele havia ficado completamente branco e, em sua face, as rugas da experiência estavam mais presentes do que nunca, mesmo assim, ela não se via capaz de não achar que essas coisas eram legais da sua própria forma.

Ela não se equivocaria sob hipótese alguma.

Era o rosto de seu marido. Ao que parece, um bom tempo havia se passado desde aquela despedida.

“ーーーー”

Ela respirou fundo.

Por perto também estavam Heinkel e Reinhard. Ela conseguia sentir a presença dos dois.

Todos os três homens da família Astrea haviam se reunido lá, possivelmente para dar as boas-vindas e dizer adeus.

Já que são todos tão gentis.

Wilhelm: “Theresia, eu…”

Wilhelm, com o rosto enrugado, estava sem fôlego.

Ela não poderia dizer que desaprovava isso em frente a seu filho e neto.

Onde ele deixou sua dignidade e majestade? Na verdade, em retrospectiva, essas suas fraquezas sempre se destacaram, por mais incrível que parecesse.

Theresia: “Ei, Wilhelm…”

Sua voz estava rouca, e ainda assim era estranhamente jovem.

Era como se não fosse dela… Não, era definitivamente dela, só que ela deveria ser uma avó.

Parecia a mesma voz de quando se apaixonou pela primeira vez, que constrangedor.

“ーーーー”

Quando se apaixonou pela primeira vez, enquanto se sentia dessa forma, ela ficou sem jeito ainda mais.

Não havia muito tempo de sobra, e ainda assim desperdiçaram uma boa parte dele ao escolher simplesmente olharem um para o outro.

Mas estava tudo bem mesmo assim.

Theresia já havia transmitido suficientemente as palavras que precisava dizer. Wilhelm também deveria estar ciente disso.

Era por isso que a pessoa aqui que necessitava do tempo, da oportunidade e das palavras, era ele.

Theresia deveria simplesmente aguardar por tais palavras em silêncio.

Embora tivesse que esperar, suas expectativas certamente seriam cumpridas.

Era assim que esse homem, Wilhelm Trias, era.

Era assim que seu marido, Wilhelm van Astrea, era.

Wilhelm: “Há algo que preciso… te dizer.”

“ーーーー”

Wilhelm: “E-Eu não sou bom com as palavras… então não consigo expressar meus pensamentos direito, estou tendo dificuldade até com você… é por isso que, mesmo em mais de vinte anos, eu nunca…”

“ーーーー”

Wilhelm: “Aqueles vinte anos podem ter te deixado apreensiva. Mas eu estou…”

Theresia: “…Sendo um bocó.”

Ao vê-lo desengonçadamente tentando pensar no que dizer enquanto se comunicava com tanta dificuldade, ela não conseguiu resistir.

Ela acabou rindo sem querer. Realmente, o que este homem estava falando?

Theresia: “Você realmente… nunca se deu conta?”

Ela levou a mão até a bochecha do homem, o semblante dele parecia que iria chorar a qualquer instante.

O corpo dela estava terrivelmente pesado. Todas as coisas minimamente parecidas com força já estavam praticamente esgotadas, ainda assim ela depositou em seus dedos toda a força que lhe restava e enxugou as lágrimas que escorriam pela bochecha dele.

Theresia: “Você sempre… esteve dizendo.”

“ーーーー”

Será que ele achava que estava escondendo aquilo?

Será que ele achava que seria capaz de manter aquilo oculto se nunca o dissesse em voz alta?

Theresia: “A sua voz, os seus olhos, a sua atitude, os seus atos, eles sempre estiveram.”

Tudo que Wilhelm havia direcionado a Theresia.

Esta pessoa sempre esteve, claramente e acima de tudo, comunicando seu coração a Theresia…

Wilhelm: “Eu estou, por você.”

Theresia: “Você está, por mim.”

Por isso, foi o suficiente.

“ーーApaixonado.”


Do início ao fim, a minha vida definitivamente foi uma lotada de bênçãos.

Tive irmãos com os quais mantive boas relações, tive uma amiga que sempre me tratava com carinho, fui ajudada por muitas pessoas, e me encontrei com o Wilhelm.

Tenho certeza de que ainda deve haver vários problemas.

Mas tenho fé de que todos vocês ficarão bem.

Só que, na verdade, tem uma coisinha.

Tem uma última coisinha que eu me arrependo de não ter perguntado.

… O quão surpreso você ficaria se acabasse descobrindo que foi, na verdade, amor à primeira vista?


Esta foi a última vez em que trocaram palavras amorosas um com o outro.

A figura de Theresia van Astrea, que estava com um sorriso de satisfação, com as bochechas coradas de amor e com seus olhos úmidos por causa das lágrimas, perdeu a forma e desmanchou-se em um piscar de olhos.

Nos braços de Wilhelm, que estava de joelhos, não se via mais o feitio de uma mulher sangrando e sofrendo, restou somente um amontoado de cinzas… a única coisa que comprovava que ela esteve ali.

“ーーーー”

Em meio aos braços dele, a vida de Theresia se esgotou, e ela tornou-se um amontoado de cinzas. Wilhelm olhou para baixo, para os restos de Theresia, e simplesmente continuou calado com a cabeça baixa.

???: “… Satisfeito agora?”

E então, ao invés do silencioso e imóvel Wilhelm, outro homem ergueu a voz.

O homem de meia-idade com cabelos vermelhos… Heinkel, encarava Reinhard, que estava logo ao seu lado, com um olhar recheado de ódio.

Reinhard lentamente foi de encontro com esse olhar e então suspirou.

Reinhard: “O que você quer dizer com satisfeito?”

Heinkel: “Não se faça de idiota, é bem como você viu! Satisfeito? Você deve estar! Agora a posição de Santo da Espada é todinha sua, não só no papel como na vida real também, parabéns! Os boatos de você ter roubado ela matando o seu antecessor também vão ser uma verdade irrefutável agora. Satisfeito, hein? Ei!”

Reinhard: “Não compreendo o que está tentando me dizer.”

Heinkel: “Me poupa dessa sua cara de esnobe. Seu pirralho de merda!”

Ao soltar um hálito rouco, Heinkel tentou agarrar Reinhard.

No entanto, Reinhard desviou de seus dedos e, com a palma da mão, controlou seu pai que cambaleou por conta do embalo.

O atual Santo da Espada não parecia ter sido minimamente afetado pelo fato de que enfrentou a antiga Santa da Espada. Para falar a verdade, seu oponente também não.

Como se na tentativa de forçar essa realidade sobre ele, a garganta de Heinkel estremeceu sutilmente.

Heinkel: “Não se deixe levar, Reinhard… hk.”

Para tentar enganar o vacilar de seu próprio coração, Heinkel ficou ainda mais desesperado, apontou o dedo para Reinhard e cuspiu.

Heinkel: “Não importa o quanto você tente enfeitar as coisas, o que eu vi não vai mudar não. É o fato que você matou a minha mãe… Theresia van Astrea. Eu vou é anunciar isso. Espalhar por toda a parte, pra daí ninguém te reconhecer como o Santo da Espada mais!”

“ーーーー”

Heinkel: “Não importa o quanto você se faça de calmo, nem pensar que você vai abrir mão do seu prestígio como Santo da Espada. Você pode até ter mantido ele até agora, mas acabou. Aquele fatiando seus parentes até a morte é o Santo da Espada? A espada do reino? Hah, não me faça rir! Seu assassino!”

Reinhard: “Vice-Comandante, independentemente de quantas vezes o diga, não compreendo o que quer dizer… Eu ter fatiado meu antecessor até a morte é um mal-entendido da parte do Vice-Comandante.”

Heinkel: “Hã…?”

Reinhard respondeu calmamente a Heinkel, que estava com o rosto todo avermelhado enquanto discutia fervorosamente. Heinkel arregalou os olhos diante da resposta, mas Reinhard não parecia ter a intenção de passar a perna nele nem a de ficar de enrolação.

Não tinha nada a ver com sua opinião tentando distorcer os acontecimentos nem nada. Reinhard estava afirmado fatos.

Reinhard: “O inimigo de agora há pouco era meramente um cadáver que foi compelido a movimentar-se por meio de técnicas secretas. Não poderia ter sido a Santa da Espada da geração passada… minha avó. Ainda há, porventura, algum mal-entendido?”

“ーーーー”

Heinkel reagiu às palavras de Reinhard com uma expressão aturdida.

Ele em seguida colocou as mãos no cabelo avermelhado de sua própria cabeça e o esfregou com violência. Fracos risos escaparam da boca de Heinkel, e ele, com um sorriso desvairado estampado no rosto:

Heinkel: “Então o que é que foi aquilo lá no final? Dela… falando com o meu pai!? Olhando você e eu com tanto ódio… o que aquilo poderia ter sido a não ser a minha mãe!?”

Wilhelm: “… Já basta, pare, Heinkel.”

Heinkel, com os dentes à mostra, estava ardendo de ódio puro. O responsável por apaziguar a fúria de Heinkel foi Wilhelm, o qual havia se mantido em silêncio até o momento.

O velho espadachim, ainda de joelhos, rasgou a manga de seu casaco e a usou para cuidar do ferimento em sua perna direita… que havia sido causado por uma certa espada longa.

O poder da Proteção Divina do Deus da Morte, o qual deveria fazer com que a ferida não se fechasse, perdeu o efeito assim que Theresia deixou de existir… Não, antes disso, parou desde que Theresia recobrou a sanidade no final. O que restou no lugar foi a dor em seu ombro esquerdo, causada pelo ferimento gravado em seu ombro durante a despedida dos dois.

O da Theresia sã em seu ombro esquerdo e o da Theresia defunta em sua perna direita.

Ambos os ferimentos causados pela Proteção Divina do Deus da Morte se foram.

Heinkel: “Pare, você diz… Pai! Você realmente ‘tá de boa com isso!? Ele…!”

Wilhelm: “Pare, Heinkel… Pare.”

Wilhelm mais uma vez conteve Heinkel, quem estava prestes a perder a cabeça.

Ele tirou o casaco, já sem manga, e usou o tecido estirado para embrulhar as cinzas de Theresia. Deixá-la assim, à mercê do vento, faria com que ficasse solitária demais.

Ele acreditava que deveria pelo menos devolver as cinzas ao devido túmulo.

Heinkel: “ーーhk.”

Ao ver o estado em que seu pai se encontrava, Heinkel cerrou os dentes e engoliu suas palavras. Já Wilhelm, coletando as cinzas, levantou-se de forma bamba.

Embora o sangramento tenha cessado, seu corpo havia perdido uma quantidade considerável de sangue. O ferimento na junta de sua perna direita era profundo, logo andar sem apoio era motivo para ansiedade. Reinhard imediatamente tentou apoiar aqueles ombros trêmulos.

Contudo…

Wilhelm: “… Afaste-se!!”

“ーーーー”

Os dedos que estavam indo até Wilhelm foram sujeitos à fúria dele.

Reinhard parou de mexer o braço que havia erguido, e Wilhelm não tentou virar o rosto na direção do rapaz. Porém, enquanto evitava contato visual, o Demônio da Espada expirou silenciosamente.

Wilhelm: “Reinhard…”

Reinhard: “… Sim.”

Ao contrário da voz oscilante de Wilhelm, a de Reinhard era firme e decorosa.

Assim que ouviu sua voz, Wilhelm, após fechar os olhos, escolheu suas palavras cuidadosamente.

ーーEra uma pergunta.

Wilhelm: “Você se arrepende de ter fatiado a sua avó… de ter fatiado a Theresia até a morte?”

“ーーーー”

Houve uma breve pausa entre o questionamento e sua respectiva resposta.

Ou ele, quem sabe, poderia ter achado a pergunta sem sentido e a jogado para escanteio, similar ao que aconteceu com as perguntas de Heinkel alguns momentos atrás.

Entretanto, não muito depois, Reinhard respondeu.

Reinhard: “Não… Eu fiz o correto. Não possuo arrependimentos.”

Wilhelm: “… É… mesmo? Tem razão.”

“ーーーー”

Wilhelm: “Você está correto. Eu estou errado… É por isso que não há… mais nada o que discutir com você.”

Tendo proferido isso em voz baixa, Wilhelm virou as costas a Reinhard.

Avô e neto colocaram um ponto final nas perguntas e respostas decisivas, sem nem ao menos encararem um ao outro.

Wilhelm então ergueu um dedo e o apontou para o centro da cidade.

Wilhelm: “Estou preocupado com a Prefeitura a qual Garfiel-dono está indo. Se possível, pediria que fosse lá oferecer reforços. Santo da Espada Reinhard-dono.”

“ーーーー”

Ao receber essas palavras cordiais, que eram terrivelmente formais e extremamente distantes, Reinhard olhou na direção que o dedo apontou. Ele acenou com a cabeça e por fim olhou para Heinkel.

Heinkel, ainda fervilhando de ódio, engasgou-se ligeiramente ao ver aqueles olhos azuis, mas Reinhard fez vista grossa a esse leve nervosismo.

Reinhard: “Ficar ao ar livre é perigoso. Se possível, Vice-Comandante, dirija-se a um abrigo… Juntamente de Wilhelm-dono.”

Heinkel: “S-Só cala a porra da boca! Anda logo e some daqui!”

Ao ser atingido pelas palavras de um mau perdedor, Reinhard virou o rosto. Ele correu rumo ao canal assim mesmo e, como se tivesse chutado a superfície da água, saltou com uma força capaz de passar sobre os edifícios e sumiu a caminho do centro da cidade.

Tendo presenciado esse impulso de outro mundo, Heinkel cuspiu. Ele então foi rapidamente até Wilhelm, que estava andando vagarosamente como se manco. No entanto:

Heinkel: “Pai, ir sozinho é…”

Wilhelm: “Me deixe sozinho, por favor. No momento, não quero que ninguém veja meu rosto.”

Heinkel: “Pai…”

Wilhelm: “Não precisa se preocupar comigo. Você deveria se preocupar somente com si mesmo. Esconda-se em um edifício adequado ou em um abrigo… é só fazer isso que vai ficar tudo bem.”

Wilhelm ofereceu sua opinião e continuou andando, deixando Heinkel para trás.

Ainda carregando o casaco com o qual embrulhou as cinzas de sua esposa, suas costas iam distanciando-se conforme ele mancava.

“ーーーー”

Ele foi deixado para trás, incapaz de pará-lo ou de andar ao seu lado.

Com Wilhelm tendo finalmente sumido de vista, Heinkel, que foi deixado todo só…

Heinkel: “Qual é… o problema de vocês… qual é o problema de vocês, qual é o problema de vocês, qual o problema de vocês, qual o problema de vocês, cacete, qual a porra do problema de vocês!?”

Enquanto encarava o pavimento rochoso da praça deserta, Heinkel botou para fora toda sua fúria. Ele esfregava a cabeça violentamente e rugia uma raiva que não se era capaz de expressar em palavras, pegou então a espada que estava presa na sua cintura e a tacou no chão.

A bela espada de um cavaleiro soltou um ruído estridente e quicou no chão, rolou como se estivesse deslizando.

Heinkel: “Merdamerdamerdamerda, que todo mundo…! Que todo mundo morra de uma vez…! Morram de uma veeeeeez ~hk!”

Somente o grito odioso de Heinkel ecoou pela praça deserta.

O grito, que era uma confusão de infindo e interminável ressentimento e pesar, ecoou ao longe e às alturas…

Com isso, o campo de batalha do avô, do pai, do neto, de toda a família Astrea, concluiu-se.

Uma mulher, uma avó, uma mãe, uma esposa.

O fim de Theresia van Astrea entalhou feridas nos corações dos três.

… Com isso, todos os campos de batalha do conflito por Pristella, a Cidade das Comportas, haviam sido resolvidos.

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