???: “Isso é ruim”
Perdido e sem nenhum tostão, essas poucas palavras eram as únicas que surgiam em sua mente.
Bem, “sem nenhum tostão” não era exatamente verdade. Ele estava, sim, com sua carteira no bolso e, deixando de lado a pequena quantidade de troco e as poucas notas, não podia negar que carregava consigo tudo o que precisava.
Mais do que o suficiente para ir ao shopping mais próximo, fazer algumas compras e até almoçar por lá. Mesmo assim, naquela situação, só poderia ser chamado de pobre.
???: “Parece que a moeda usada por aqui é completamente diferente…”
Jogando para cima a rara moeda de 10 ienes em alto relevo que estava segurando, o garoto suspirou profundamente.
Ele era um jovem ordinário com cabelo preto e curto e de estatura média. O garoto possuía alguma musculatura combinando com a seu moletom barato, a qual exalava um ar de atleta.
Seus olhos afiados eram sua única característica digna de nota, mas agora nem eles poderiam ajudá-lo.
A banalidade de sua aparência era capaz de fazer qualquer um facilmente perdê-lo de vista ao entrar em uma multidão, porém os olhares agora direcionados a ele eram de preocupação e incompreensão, como se estivessem olhando para algo estranho.
Obviamente, não havia uma única pessoa com cabelo preto ou moletom cinza entre os que o olhavam. Na verdade, o cabelo deles variava bastante entre loiro, branco, castanho, verde, azul e assim por diante. Além disso, as vestes deles eram armaduras, trajes de dança, mantos enfadonhos e muitos outros que possuíam essa mesma “vibe”.
Enquanto recebia aquela chuva de olhares descarados, tudo que o jovem pôde fazer foi cruzar os braços em compreensão.
???: “Então, basicamente, é isso, huh.”
Estalando seus dedos, apontou para aqueles que o encaravam.
???: “Parece que fui invocado para um outro mundo.”
Diante de seus olhos estava uma carruagem levada por um ser gigante parecido com um lagarto.
Natsuki Subaru nasceu durante a era Heisei em um Japão com sistema educacional completamente livre de qualquer pressão.
Ele viveu durante dezessete anos, e para descrever sua vida precisaria de dezessete anos.
Deixando isso de lado, sua situação atual poderia ser descrita simplesmente como “aluno do terceiro ano do Ensino Médio, recluso.”
Ou, de forma mais detalhada, “um pedaço de lixo que despreza tudo, inclusive seus próprios pais, a ponto de isolar-se em seu casulo mesmo com os vestibulares estando tão próximos.”
Não havia nenhuma razão específica para a sua solidão.
Em fins de semana normais, iria ocasionalmente pensar que “acordar agora seria uma droga”, o que acabou se transformando num arrebatador ato de faltar às aulas.
Com suas faltas aumentando a uma velocidade assustadora, antes que se tocasse, o garoto havia se tornado o exemplo perfeito de recluso que faz os pais chorarem de preocupação.
Ele passou seus dias fazendo nada, navegando cada vez mais profundamente na internet, conversando o mínimo que pudesse.
Subaru: “Agora, o resultado de ser invocado para outro mundo, huh… não entendi mesmo.”
Checando seus arredores de novo, ele soltou seu enésimo suspiro.
O garoto saiu da rua em que estava e sentou em algum tipo de beco escuro.
O chão estava asfaltado. Um trabalho medíocre se comparado ao do Japão Moderno, mas não tão ruim.
Subaru: “Supondo que esse seja um mundo paralelo de fantasia, imagino que essa seja uma civilização medieval padrão. Não vejo nenhum maquinário e constroem tudo com pedra e madeira…”
Ele pensou nas paisagens que viu no caminho até o beco e organizou a informação em sua cabeça. Frequentemente deixava sua imaginação correr solta no mundo de onde vinha, então estava mais do que preparado para a situação.
Primeiro, analisar calmamente a cultura dessa era e suas diferenças com a do Japão. Verificar as diferenças nas leis físicas e a possibilidade de contato com organismos humanoides. Existiam prioridades.
Subaru: “Beleza, vamos lá. Não estou imaginando coisas e tenho confiança no meu conhecimento sobre o nível de civilização desta cidade. Parece que o meu dinheiro não vai mais ter uso algum, mas tive a oportunidade de falar com um vendedor e não tivemos problema algum na comunicação.”
Após perceber que foi invocado, a primeira coisa que Subaru tentou fazer foi negociar com um “Comerciante?”. Ao tentar comprar “Maçãs?” com seus Ienes Japoneses, e na mesma hora foi rejeitado. Parecia que esse mundo usava moedas de ouro, prata e cobre como moedas correntes. O valor inerente da moeda daquele mundo era fácil de entender, algo certamente condizente com um mundo paralelo de fantasia.
Subaru: “Bem, suponho que deva haver algumas falsas com metais misturados. Provavelmente algo parecido com uma moeda de 500-won degradada.”
Provavelmente difícil de carregar por aí, pensou, enquanto mais um lagarto de carga passava pela rua. Aquilo levantou uma gigantesca nuvem de areia, mas as pessoas nem pareceram se incomodar, como se já estivessem completamente acostumadas com isso.
Subaru: “Ainda assim, não parecem ser tão comuns quanto carros… parando para pensar nisso, eu ainda não vi nenhum cão ou gato aqui por perto.”
Os lagartos carregando as carroças pareciam consideravelmente maiores do que cavalos. Suas massas corporais pareciam estar de acordo com as proporções, mas certamente era preocupante ver répteis daquele tamanho.
Subaru: “Eles são comuns, huh… ambos, lagartos e humanóides.”
Então, faltava o último elemento que precisava conferir, a aparência única desse mundo humano.
Possuíam cabelos muito coloridos, mas qualquer um poderia facilmente obter tais cores ao descolorir e pintar os fios. Para um mundo paralelo de fantasia, aquilo não era nada demais. Em vez disso, Subaru focou nas “orelhas de animais”.
Com uma olhada rápida, viu orelhas de cachorro, de gato, até mesmo de coelho e, no fim, chegou a se deparar inclusive com um cara parecido com um lagarto. Havia aqueles que também não pareciam diferentes de Subaru, o que o fez concluir que…
Subaru: “O gênero é mundo paralelo de fantasia. A cultura é aquela da típica civilização medieval. Semi-humanos são comuns, então batalhas e aventuras também devem ser frequentes. Os animais mostram algumas mudanças mínimas, mas basicamente cumprem com suas funções. É assim que vai ser?”
Tendo deduzido isso, Subaru exalou profundamente, de forma um pouco diferente a de um suspiro.
Após esclarecer a si mesmo sobre as circunstâncias em que se encontrava, franziu as sobrancelhas para aquele desenvolvimento aparentemente conveniente. Se as coisas procedessem de acordo com suas fantasias, usaria seu conhecimento do mundo moderno livremente para obter um poder imensurável, porém aquele mundo era um pouco diferente do que havia esperado.
Subaru: “Tive um desempenho perfeito nos simulados da era Sengoku… se eu tivesse ido parar lá, teria tomado o país de Nobunaga.”
Agora, quando o assunto era ir a um mundo paralelo de fantasia, na melhor das hipóteses, seu conhecimento seria o suficiente para começar a produção de pólvora e de armas de fogo. Mas, mesmo assim, isso não fazia sentido, considerando o nível tecnológico daquele mundo. Mundos paralelos de fantasia costumavam possuir magia e, se fosse o caso, faria as armas de fogo serem um pouco mais do que fogos de artifício.
Subaru: “Bem, também existem clichês onde magia não é o fim de tudo. Se eu algum dia tiver a oportunidade de contribuir para o avanço da ciência, farei o meu melhor… Mas, primeiro, ao meu problema atual.”
Ele não tinha nenhuma pista de como ou porque foi invocado ali.
Lembrava claramente do que estava fazendo segundos antes de ser invocado: Acabara de sair de casa pela primeira vez em muito tempo para comprar um pouco de ramen de copo na loja de conveniências e estava prestes a voltar. Não queria usar sua bicicleta, então foi à pé.
No meio do caminho, olhou para o céu escuro e pensou: “Já estamos quase na lua cheia, huh”. E, depois, enquanto virava o rosto para baixo e piscava, a noite virou dia.
Noite para dia em um instante. Na mesma hora se deu conta de que havia algo errado, mas foi só isso. Ele já tinha se acalmado um pouco, porém, imediatamente depois de ser invocado, o pânico foi tanto que poderia ser lembrado por gerações.
Subaru: “Considerando que sou um filho único que está desaparecido, essas próximas gerações podem vir a não existir.”
Enquanto balbuciava isso, mais uma vez checou seus pertences. Em um mundo paralelo, equipamentos iniciais eram ainda mais importantes do que ele pensava. Precisaria de tudo que tivesse, mesmo que fosse pouco.
Primeiramente, um celular (com pouquíssima bateria), sua carteira (contendo muitos cartões de membro de locadoras de vídeo), o ramen que havia comprado na loja de conveniência (Shoyu Tonkotsu), alguns lanches (milho potage com sabor), seu amado moletom cinza (suja), tênis usados (por dois anos) e outras coisas.
Subaru: “Isso é, huh… Por que eu não trouxe uma pistola? E agora, o que faço?”
Parecia que, no fim das contas, só seus lanches se provariam úteis, e apenas para encher seu estômago.
Subaru: “A situação é desastrosa. E, é claro, não sei o motivo, nem mesmo tenho memórias de ter passado através de algum espelho ou pulado em alguma lagoa. Mais importante, onde está a beldade que me invocou?”
A falta de uma heroína, para os padrões 2D, era um ato de absoluta negligência.
Invocá-lo e deixá-lo ali daquela forma, era como se tivesse sido simplesmente jogado fora.
Para falar a verdade, Subaru não poderia mais fugir da realidade, a de que a partir de então havia avaliado sua situação e poderia somente agarrar sua cabeça em desespero.
Subaru: “Ah, dá um tempo. O que diabos eu deveria fazer?”
Subaru já estava em seu limite enquanto gritava reclamações. Ele realmente queria voltar ao seu mundo.
A fantasia ficava melhor sendo deixada no reino da fantasia. Era divertido se imaginar chegando em um outro mundo e obtendo um poder incomparável, mas ao acabar nesse tipo de situação, o que poderia fazer?
Subaru: “Por agora, o importante é sobreviver, mas… minha habilidade de comunicação nível 1 vai ser suficiente?”
A não ser por sua família, só conversou com funcionários de lojas. Viveu assim por praticamente um ano e esqueceu de como gerenciar interações sociais.
Subaru: “Ainda que eu possa digitar na velocidade em que falo nos chats online…”
Subaru moveu seus dedos de forma nervosa enquanto contemplava seu futuro em desespero. Entretanto, sua expressão mudou quando ouviu o som de passos ecoando do beco.
Ele ergueu os olhos para ver, e avistou três homens bloqueando a saída.