O ar do quarto estava tenso. Quase sufocante. Eu estava com a sensação de estar preso dentro de um cubículo sem ventilação.
O motivo dessa atmosfera?
Ela está sentada na minha cadeira, uma linda garota com cabelos pretos brilhantes e com pele de porcelana sem nenhuma imperfeição, olhando ao redor do meu quarto com curiosidade.
Amanda Stern.
Alguém que nunca imaginei que interagiria sozinhos.
Vendo-a sentada na minha cadeira como se fosse a coisa mais natural do mundo, minha sobrancelha estremeceu de leve.
O que fiz para merecer isso?
…Espera, eu sei por quê. Eu só quero evitar a realidade.
Suspirando, comecei a falar para quebrar esse silencio constrangedor.
“Posso lhe oferecer algo? Um Chá-verde? Água?”
“… Chá-verde”
“Sem problemas.”
Indo até onde minha chaleira de chá estava, o peguei e coloquei água quente nele.
Após alguns segundos, peguei um saco cheio de folhas de chá e as joguei gentilmente na chaleira.
Enquanto esperava o chá ficar pronto, me virei e percebi os olhos pretos de Amanda me encarando.
Por ficar um pouco surpreso, perguntei.
“…Precisa de algo?”
Ao ouvir minha voz e ver que foi pega com a mão na massa, Amanda desviou o olhar e agiu como se nada tivesse acontecido enquanto murmurou.
“…Não.”
Sorrindo, voltei minha atenção para a chaleira.
Nada meu rabo! Você claramente estava me encarando!
Até mesmo uma pessoa cega conseguiria dizer.
Franzindo a testa, decidi pensar nisso de forma positiva.
Pelo que estou vendo, pelo menos ela não tem nenhum rancor contra mim. E pensando na personalidade dela, eu sabia que se tivesse alguma coisa, ela iria me evitar a qualquer custo.
Me tratando como se eu nem existisse.
Mas vendo que ela que veio me procurar primeiro, sei que Amanda não levou o que aconteceu pro coração.
…Então, por que ela veio?
Com certeza tem um motivo. Tenho uma leve sensação do que é, mas não tenho tanta certeza.
O mais provável é que veio agradecer por ter a salvado.
Se for, quero acabar com isso rápido. Se alguém descobrir que ‘a Amanda Stern’, uma das pessoas mais falada da escola, estava tendo uma conversa privada com um garoto no quarto, eu nem saberia como teria morrido.
Só do fato dela estar no meu quarto, já era um perigo para mim.
*Sigh*
Logo quando pensei que nada poderia piorar, isso me vem e estraga tudo.
Observando a água na chaleira que tinha começado a ficar marrom, cuidadosamente a tirei do aquecedor e coloquei o chá em duas xícaras de porcelana.
E me aproximando de onde Amanda estava sentada, a ofereci a xícara e sentei em sua frente.
“Obrigada.”
Pegando a xícara com ambas as mãos, Amanda assoprou antes de tomar um gole.
Saboreando o gosto do chá, Amanda fechou os olhos e assentiu de leve.
“…É uma delícia.”
“Obrigado.”
Sentado de frente a ela, também tomei um gole do chá. No final, tinha um leve gosto amargo que ainda continuava depois de alguns segundos na língua. Perfeito.
“…Então, sobre o que queria falar?”
Já que não podíamos apenas ficar tomando chá a noite toda, decidi ir direto ao ponto.
Colocando a xícara na mesa, Amanda me encarou com uma expressão neutra. E depois de um tempo, finalmente falou.
“…Obrigada.”
Franzindo o cenho, eu disse em seguida.
“Pelo quê?”
“Por ter me salvado.”
Balançando a cabeça, me encostei na cadeira e disse.
“Não me lembro de ter ajudado você.”
“Vo-…”
Assim que ela estava prestes a responder, eu a interrompi.
“Parece que você esqueceu sobre o que te falei antes.”
“…Esqueça o que acabou de ver.”
Ao ouvir minha última frase e lembrar o que tinha dito, Amanda permaneceu quieta por um momento. Suas sobrancelhas não paravam de franzir e relaxar constantemente, e após um tempo, ela balançou a cabeça e disse com pesar.
“Não consigo fazer isso…”
Revirando os olhos, também coloquei a xícara na mesa. A resposta dela foi exatamente o que pensei que seria.
E encarando os olhos pretos cristalinos que me encaravam de volta, pensei por um momento antes de falar.
“*Sigh* muito bem, se realmente está sendo culpada, então me dá dinheiro.”
Ouvindo minha resposta, Amanda suspirou em alívio.
Ela parecia muito aliviada com o meu pedido.
“Está bem.”
Pegando o celular, ela rapidamente entrou na conta bancaria.
E a vendo assim, não pude deixar de balançar a cabeça em desdém.
A personalidade de Amanda é simplesmente assim.
Ela odeia ter que ficar devendo alguém.
Ela não quer se sentir em débito com ninguém além de si mesma. Não, é mais como se ela não confiasse em ninguém além de si mesma.
Amanda sempre devolve qualquer favor que ela deve, assim não criaria nenhuma expectativa irrealista das pessoas.
“Cinco milhões está bom?”
“Cinco milhões? Acho que si…”
Tomando um gole do chá, concordei sem pensar, mas assim que processei o que ela disse, quase cuspi na cara dela.
“Haaa? Espera, pode repetir?”
Me levantei da cadeira com os olhos arregalados e Amanda apenas me olhou de forma inocente, dizendo.
“Cinco milhões não é o suficiente?”
“Como assim não é o suficiente? É mais que suficiente!”
Negando com as mãos, rapidamente a parei.
Mas que caralho em, crianças de segunda direção tratando dinheiro como se fosse nada.
“…Então tudo bem cinco milhões?”
“*Sigh* espera um pouco.”
Me jogando na cadeira, comecei a pensar.
Cinco milhões de U com certeza seria de grande ajuda. Com todo esse dinheiro, sem dúvidas conseguiria resolver o problema de encontrar um Manual de Espada…ah!
Olhando para Amanda, uma ideia surgiu na minha cabeça.
“Posso pedir outra coisa no lugar do dinheiro?”
Franzindo levemente, a temperatura do quarto caiu drasticamente e o ar em volta de Amanda ficou um pouco mais frio.
Vendo que ela provavelmente estava entendendo errado, rapidamente esclareci.
“Calma, não estou pedindo um encontro ou qualquer coisa parecida.”
Ao ouvir minha explicação, as sobrancelhas de Amanda relaxaram. Assentindo, ela disse.
“…Ok.”
Suspirando de alívio, eu disse.
“Você conseguiria um Manual de Espada para mim?”
“Uma Arte da Espada?”
Surpresa com o pedido, Amanda me olhou de forma estranha.
De início, fiquei confuso com a reação dela, mas lembrando o que aconteceu há algumas noites, logo percebi o porquê.
“…Quero esconder minha Arte da Espada principal.”
“Oh.”
Como se tivesse entendido tudo, Amanda concordou com a cabeça.
E vendo sua reação, eu sabia que ela ainda estava entendendo errado sobre minha força, mas me permanecia calado. Sinceramente, eu estava cansado demais para resolver um desentendimento.
Sem contar que, não importaria o que tentaria, ela provavelmente não acreditaria em mim.
Enfim, isso não era da minha conta. No final do dia, ela não é o tipo de pessoa que trataria alguém diferente por causa dos poderes.
Além disso, ela não é boca aberta. Ou seja, Amanda guardaria meu segredo.
“Que tipo de Arte da Espada você quer?”
Pensando antes de responder, eu disse.
“Hmm, quero uma que foque principalmente em defesa.”
Levando a mão até o queixo, Amanda pensou por um momento e perguntou.
“Quantas estrelas?”
“Hm, já que estava me oferecendo cinco milhões, pode ser algo nesse valor.”
Ponderando, Amanda pesquisou no celular antes de concordar.
“Ok, vou dar uma olhada.”
Ativando a função holográfica do celular, uma longa lista de Manual apareceu na minha frente.
“Esses são os que caem nos critérios que me deu.”
Ao ver a longa lista, minha boca estremeceu. Se dissesse que não estava com inveja, seria uma completa mentira.
…Como esperado da filha do Líder da Guilda Número Um do Domínio Humano, ‘Caçadores de Demônios’.
Amanda tinha acesso a uma quantidade inimaginável de recursos e Manuais que fariam qualquer um morrer de inveja.
E, pelos minutos seguintes, nós ficamos olhando o longo catalogo de Manuais que Amanda tinha acesso. Após um tempo, e muitos pensamentos, eu finalmente decidi qual queria.
[★★★ Anel da Retaliação] : Uma Arte da Espada bastante avançada que cria um anel de defesa perfeito em volta do usuário. Quando dominada, o anel pode criar uma esfera tridimensional que protege o usuário de todos os lados. Devido à falta de capacidade de ataque, o manual foi classificado como Três Estrelas.
É isso meus amigos, que chamamos de um Manual de Espada perfeito.
Apesar de ser Três Estrelas, se considerassem só as propriedades defensivas ele seria um Manual Quatro Estrelas.
Isso é perfeito e era exatamente o que precisava. [Anel da Retaliação] para defesa e [Estilo Keiki] para ataque.
…A combinação perfeita.
Depois de escolher [Anel da Retaliação], Amanda assentiu e mandou mensagem para alguém.
Logo, o quarto foi envolvido por um silêncio constrangedor.
“…”
“…”
Após uns minutos de silêncio, Amanda se levantou e disse.
“…Obrigada por ter conversado comigo, agora, se me der licença já vou indo.”
“Sem problemas.”
Sorrindo, a acompanhei para fora do apartamento. Eu finalmente estarei livre!
Chegando na porta, Amanda acenou casualmente.
“Tchau.”
Sorrindo, acenei de volta e respondi.
“Até depois.”
…..
Saindo do quarto de Ren, Amanda ficou satisfeita com o resultado da conversa.
Agora, ela conseguia entender mais ou menos o estudante que a ajudou.
A personalidade é completamente diferente de quando se encontraram na festa. E apesar de não estar mais escondendo sua força, a atitude dele não foi a mesma igual daquela noite.
Fria e inexpressiva.
Pelo contrário. Ele não era nem um pouco disso.
Ele era calmo e seguro, e mesmo estando no mesmo quarto que Amanda, Ren não pareceu estar influenciado por sua beleza.
O jeito dele é completamente diferente comparado ao um garoto normal de dezesseis anos. O garoto não era nem arrogante ou passava dos limites e tirando o fato da expressão dele ser muito fácil de ler, ele era bem fácil de se conversar.
Era como se tivesse falando com um adulto.
Sinceramente, foi uma sensação um pouco estranha.
Andando pelos corredores do dormitório, ela percebeu vários olhares vindo em sua direção.
“O que a Amanda está fazendo no dormitório Carneiro Chifrudo?”
“Será que ela estava encontrando alguém?”
“Nah, ela provavelmente veio verificar alguma coisa. De jeito nenhum que a Amanda conversaria com aqueles plebeus morando no dormitório Carneiro Chifrudo.”
Pelo caminho, Amanda conseguiu ouvir várias pessoas cochichando entre si.
E já acostumada com tal atenção, ignorou o que todos estavam dizendo e saiu do prédio.
Pegando o celular, ela rapidamente ligou para um número.
-Ring! -Ring! -Ring!
Depois de alguns segundos, uma voz envelhecida entrou no ouvido de Amanda.
—Olá? Como posso ajudá-la, senhorita?
Já que Amanda odiava conversinha, foi direto ao ponto.
“Mande o Manual Três Estrelas, [Anel da Retaliação], para o endereço que te mandei antes.”
Após uma breve pausa, a pessoa do outro lado do celular respondeu.
—…como deseja.
“Obrigada.”
-Tak!
Desligando a ligação, Amanda sentiu um peso sair do peito.
Se virando para o prédio do Carneiro Chifrudo, ela murmurou.
“Agora não lhe devo mais nada…”