“É ele?”
“Sério mesmo que ele se machucou numa missão simples como aquela?”
“Mas olhando bem, ele realmente parece fraco.”
Caminhando sem rumo pela mansão, ignorei os cochichos e os olhares vindo dos alunos que encontrava pelo caminho.
Ontem de noite, depois de completar a missão, eu voltei para a missão todo arrebentado. Meu braço inteiro estava sangrando e minhas roupas estavam todas rasgadas.
Apesar de não ter desmaiado, parecia que eu tinha ido pro inferno para as pessoas que me viram.
Por eu ter um pouco de ‘fama’, notícias do meu estado deplorável começaram a se espalhar pelos estudantes… e desse jeito, me tornei no tópico mais falado entre os primeiranistas.
Devido às missões que pegamos não serem secretas para os outros colegas, depois de pesquisarem um pouco, todos descobriram quem era meu alvo e foi aí que o rumor de eu ter apanhado de um <Classe G> começou.
…No final de tudo, isso resultou em eu me tornar palhaço para os primeiranistas.
‘Fracote.’
‘Perdedor.’
‘Lixo.’
Andando pelos corredores, eu era chamado de todo tipo de nome que possa imaginar.
Se fosse como qualquer outro dia, eu estaria resmungando e mandando todo mundo tomar no cu, mas hoje…
Encarando minhas mãos, lembrei do momento em que minha espada tirou a vida de múltiplas pessoas com um único golpe.
“…Eu matei.”
Eu não consegui pregar o olho de noite.
Agora, para as pessoas, eu provavelmente pareço um corpo sem alma andando sem rumo pelos corredores da mansão.
Minha mente não para de repetir os momentos onde tirei a vida dos quatro guardas.
…Até agora consigo lembrar com nitidez o rosto de misericórdia de Karl enquanto implorava para não o matar.
“Fuuuu…”
Expirando profundamente enquanto encarava o teto do corredor, tentei acalmar minha mente.
O que aconteceu, já aconteceu.
…Não tem como voltar atrás.
Eu matei e agora preciso seguir em frente…
Essa não será a única vez, e tenho certeza absoluta que não será a última.
Esse era o caminho que escolhi para mim mesmo, então preciso ter responsabilidades sobre minhas decisões.
Além disso, existe outra coisa mais importante pela qual preciso me preocupar.
‘O Massacre de Hollberg.’
O segundo evento principal do primeiro arco da novel.
Amanhã, às 21:45, no último dia da viagem e quando todo mundo estiver dormindo, um ataque organizado irá acontecer.
Embora seus alvos principais sejam Kevin e os outros, nem os estudantes fracos não serão poupados da perseguição.
…o que significa, que também não estou seguro.
Ainda que tenha decidido não interferir, preciso me preparar por que der e vier.
Colocando a mão no queixo, comecei a pensar.
Primeiro de tudo… preciso memorizar a planta da mansão.
Preciso achar um local bom onde vou conseguir ter visão de tudo que estará acontecendo, e que também não atraia muito atenção. O motivo para que preciso disso, era para poder monitorar qualquer coisa que fosse sair do enredo.
…Não quero outra situação igual da Amanda acontecendo.
Felizmente, tenho aquele livro misterioso comigo. Com ele, vou conseguir mais ou menos saber se tudo estará em ordem.
Se alguma coisa desviar do enredo, é meu dever prevenir isso a todo custo.
Segundo, preciso me recuperar logo dos ferimentos que tive ontem.
Apesar do fato de eu ter poções de cura, elas não conseguiam curar ferimentos tão rápido assim. Principalmente, porque meu ombro inteiro foi perfurado e os músculos foram cortados.
…Ainda preciso de um dia inteiro para me curar.
No momento, meu braço direito inteiro está doendo para um caralho. Só o simples movimento e consigo sentir uma dor eletrizante percorrer meu corpo. Mesmo que eu pudesse aguentar, eu gostaria de estar nas minhas melhores condições para amanhã.
Por último, preciso organizar minha mente.
Nesse exato momento, eu não tinha a condição mental certa para ser exposto a mais um cenário que me obrigasse a tirar vidas.
…só não dá.
Só de pensar em matar de novo, faz minhas mãos tremerem incontrolavelmente. Não estou pronto mentalmente para uma experiência como aquele novamente…
Mas enfim, eu já tinha decidido que amanha vou usar a [Indiferença do Monarca] durante o evento todo.
Só depois de matar pela primeira vez ontem, que me dei conta dos diversos defeitos que tenho, ambos em combate e mentalidade.
Eu era muito emocionado.
Mesmo tendo feito meu melhor para superar o fato de ter matado alguém, a ideia do meu futuro e do número de vidas que eu tiraria me fez questionar minha humanidade.
Será que estou certo? Será que tudo que estou fazendo está mesmo certo? Matar era mesmo a resposta certa?
Uma corrente de pensamentos opostos pairava em minha mente enquanto eu tentava encontrar a resposta correta.
No final de tudo, eu ainda tinha um longo caminho antes de conseguir encarar os demônios e vilões.
Suspirando e afastando todos meus pensamentos, rapidamente voltei para meu quarto e comecei a me preparar para amanhã.
“…Esses provavelmente vão ser os dois dias mais longos da minha vida.”
…..
-Bang! -Bang! -Bang!
“Huff… huff… huff…”
Com o peito desnudo, em um quarto vazio cheio de bonecos de treinamento, uma figura muito atraente permanecia no centro, ofegando pesadamente.
Seu corpo perfeitamente trabalhado estava coberto de suor, e seus olhos estavam completamente vermelhos.
-Gulp!
Virando uma poção e recuperando um pouco de energia, o jovem individuo rapidamente avançou em um dos bonecos e o socou com todas as forças.
“Morra! Morra! Morra!”
-Bang! -Bang! -Bang!
Xingando e não parando de socar o boneco até ficar sem ar, pequenas ondas se espalharam pelo quarto com o som de colisão entre os punhos e os bonecos, ressoando pelo local.
Exatamente trinta minutos depois de socos contínuos, o jovem rapaz deitou no chão e ofegou por ar.
Encarando o teto, ele cerrou a mandíbula e cobriu os olhos com o braço.
“…O que está faltando em mim?”
Lembrando de Kevin completando a missão logo no primeiro dia, Jin não pode deixar de sentir que tinha uma parede enorme na sua frente.
Era como se fosse uma parede que não pudesse passar estivesse diante de si.
Não importasse o quanto se esforçasse, ele não conseguia encontrar uma forma de diminuir o espaço entre Kevin e ele.
Será que o Kevin é tão mais talentoso assim que ele?
Será que ele deva apenas aceitar o fato de que Kevin era melhor que ele?
“Droga…”
-Bang!
Cerrando os punhos, Jin socou o chão.
“Não consigo aceitar! Mesmo que meu talento não seja melhor que o dele, eu ainda tenho acesso aos melhores recursos e treinamentos! Isso deveria ser o suficiente para eu me tornar melhor que ele!”
Kevin, que era um órfão e não tinha nada, conseguiu passar dele, uma pessoa que nasceu com uma colher de ouro?
Ele não conseguia aceitar.
Sem chances que ele iria aceitar isso.
-Gulp!
Bebendo mais uma poção, Jin recuperou um pouco de força e se levantou.
“Eu vou passar você custe o que custar!”
-Bang!
Correndo até um dos bonecos de treinamento, novamente começou a treinar até não conseguir se manter mais em pé.
E, finalmente quando desmaiou, que parou de treinar.
…..
Dentro de um pequeno café decorado com lindas plantas e cadeiras e mesas de madeira, duas garotas belíssimas estavam sentadas uma de frente para outra.
Bebericando um chá japonês quente, uma das garotas que tinha cabelos curtos e castanhos olhou para a outra garota à sua frente.
“Sabe, Amanda, você notou alguma coisa de estranho acontecendo nesses últimos dias?”
Olhando para Emma, Amanda franziu por um segundo antes de negar com a cabeça.
“Não.”
“Mesmo?”
Depois de franzir por um breve momento, as sobrancelhas de Emma relaxaram.
“Talvez seja só coisa da minha cabeça…”
Nesses últimos dias, Emma esteve sentindo uma estranha sensação de desconforto. Ela quase sempre sentia como se estivesse sendo vigiada.
Era meio perturbador… mas, ela só conseguia pensar que era paranoia sua.
Com todas as coisas acontecendo com a Família Parker, ela não podia evitar em ficar mais sensível com seus arredores.
Já que não conseguia confirmar nada, só podia rezar para que tudo fosse só coisa da cabeça.
Balançando a cabeça e mudando de tópico, Emma olhou para Amanda e disse.
“Por falar nisso, você ouviu sobre o último rumor que está tendo?”
Inclinando a cabeça para o lado, Amanda negou com a cabeça.
“…Ah, verdade. Você não é o tipo de pessoa que liga para esse tipo de coisa.”
Lembrando que Amanda não se importava com fofocas e coisas do tipo, Emma encostou na cadeira e murmurou.
“Bom, não é como se fosse algo animado… é só sobre aquele esquisito que senta do lado esquerdo da sala…”
Ouvindo as palavras ‘esquisito’ e ‘lado esquerdo da sala’, uma sobrancelha de Amanda se ergueu brevemente.
“…Hm? Quem?”
Ficando surpresa com interesse da garota, Emma olhou desconfiada para ela.
“Não tenho certeza qual é o nome dele, mas é aquele esquisitão que senta no lado esquerdo da sala e sempre tira e coloca a espada da bainha no meio do campo de treinamento…”
Franzindo o cenho, Amanda perguntou.
“…o que tem sobre ele?”
Notando algo estranho no jeito de Amanda, Emma semicerrou os olhos e disse.
“Por que você de repente está tão interessada nele? Você normalmente não se importa com esse tipo de coisa.”
Se dando conta que estava sendo um pouco insistente, Amanda deu de ombros e disse.
“Ah, nada de mais. Ele fazia parte do meu Clube de Exploração de Comida, então apenas fiquei curiosa…”
Não acreditando nem um pouco, Emma semicerrou os olhos e encarou Amanda, mas ao ver a expressão indiferente dela, desistiu e disse.
“Não é nada interessante. É só que agora ele tem o apelido de ‘O mais fracote do Primeiro Ano’ e outros apelidos idiotas como esse.”
Surpresa, Amanda não pode evitar em arquear uma das sobrancelhas.
“…O mais fracote do Primeiro Ano?”
Concordando com a cabeça e vendo a confusão de Amanda, Emma continuou.
“Pelo que parece, isso começou depois de alguns estudantes o verem voltando todo arrebentado ontem de noite. E depois de verem qual missão ele pegou, descobriram que ele tinha apenas que lidar com um zé ninguém de <Classe G>.”
Ouvindo Emma falar, Amanda fez uma careta.
O que ele estava pensando?
Quanto mais sabia sobre ele, mais misteriosos ele ficava.
Voltar arrebentado depois de ir contra um único <Classe G>? Nem em sonhos que ela acreditaria nisso.
Sem chances que o mesmo cara que matou Elijah, um vilão de <Classe D>, foi ferido por uma pessoa de <Classe G>.
Ele deve ter fingido estar ferido ou alguma outra coisa aconteceu…
“Terra chamando Amanda.”
Tirando Amanda de seus pensamentos, Emma fez um bico.
“Foi você que pediu para eu contar sobre os rumores envolvendo aquele esquisito, mas você nem prestando atenção está!”
“Ah, desculpa.”
Balançando a cabeça, Emma suspirou e olhou para o relógio.
“…Bom, de qualquer forma, já deu a hora de voltarmos.”
Levantando e colocando sua jaqueta, ela olhou para Amanda e disse.
“Vamos.”
Concordando com a cabeça, Amanda se levantou e saiu com Emma.
Pelo caminho, Amanda não pode deixar de pensar novamente no Ren que a salvou naquele dia da festa.
“Qual era o seu objetivo, afinal?”