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Otome Game Sekai wa Mob ni Kibishii Sekai desu – Volume 10 – Epílogo

Epílogo

A metrópole central do Reino Sagrado de Rachel, conhecida como Capital Branca, flutuava sobre um enorme lago. Ali ficava o castelo real e, em sua grande sala de audiências, reuniam-se os principais ministros do reino. Todos estavam ajoelhados diante do trono, onde se sentava um homem idoso de cabelos brancos. Ao seu lado permanecia o primeiro-ministro, que também já havia passado do auge da vida.

“Vossa Eminência”, começou ele, “permita-me apresentar o meu relatório. O Cavaleiro Canalha, a quem esses bárbaros chamam de herói, escolheu apoiar a família real de Holfort. Esse desenvolvimento sugere que o Reino de Holfort conseguirá evitar uma guerra civil.”

O rei acariciou a barba longa e majestosa antes de se levantar do trono.

“Não podemos permitir que o Cavaleiro Canalha continue agindo impunemente. Enviem comunicados oficiais a todas as nações vizinhas. Informem que qualquer país que não tome medidas contra o reino que deu origem ao Cavaleiro Canalha caminhará para a ruína.”

Um coro de assentimento ecoou entre os ministros.

“Uma decisão esplêndida, Vossa Eminência”, disse o primeiro-ministro. “Aproveitaremos esta oportunidade para forçar as outras nações a se voltarem contra Holfort e, assim, submetê-las à nossa vontade.”

O rei continuou acariciando a barba enquanto erguia uma das mãos.

“Rachel, com sua gloriosa história, triunfará naturalmente sobre um inimigo menor como Holfort. Dito isso, esse Cavaleiro Canalha certamente nos deu a melhor justificativa que poderíamos desejar. A ameaça que ele representa para as demais nações torna simples reuni-las contra ele.”

O plano de Rachel era formar uma aliança internacional e lançar um ataque coordenado contra Holfort.

“Vossa Eminência, não posso louvar o bastante a engenhosidade de seu plano. Ainda assim, há uma questão que me preocupa”, disse o primeiro-ministro. “Refiro-me aos movimentos daquele excêntrico, Roland, e da ardilosa e tortuosa princesa de Lepart. Não me surpreenderia se já estivessem cientes de nossos movimentos.”

Roland, o Excêntrico, e Mylene, a Princesa Má… Embora o rei de Rachel se lembrasse dos nomes, sua expressão mal se alterou, exceto por um leve estreitamento dos olhos.

“Estou cansado desses vilões e de sua história vulgar. Não vamos parar até reduzirmos Holfort a cinzas, deixando para trás nada além de uma terra estéril.”

O primeiro-ministro então se ajoelhou ainda mais diante do monarca.

O rei prosseguiu: “Eles devem se sentir confiantes, armados como estão com aquele Item Perdido que encontraram. Mas, no fim, todo esse poder depende de um único homem. Se nossa aliança lançar um ataque coordenado, Holfort será varrido do mapa antes mesmo de perceber o que aconteceu.”

“Como ordena, Vossa Eminência. Acelerarei os preparativos para enviar nossos cavaleiros”, respondeu o primeiro-ministro.

O rei ergueu a mão direita, com a palma voltada para cima, e então fechou lentamente os dedos, formando um punho.

“Tragam a vitória à nossa grande pátria!”

***

Enquanto isso, os principais ministros de Holfort também estavam reunidos no palácio real, em meio a uma discussão frenética.

“Quer dizer que todas as nações vizinhas se voltaram contra nós?!” “A república continua sendo nossa aliada.” “E você acha que eles vão servir para alguma coisa? Eles ainda nem se recuperaram!”

O Reino Sagrado de Rachel havia se tornado o líder de uma aliança composta por várias nações vizinhas do Reino de Holfort, e o grupo passou a se chamar Concordata de Defesa Armada. Em circunstâncias normais, esses países jamais concordariam entre si e muito menos conseguiriam coordenar ações. Mas a ameaça representada por Leon os levou a superar suas diferenças. Depois de subjugar praticamente um país inteiro sozinho, ele se tornara uma espécie de bicho-papão. Todos queriam destruí-lo antes que obtivesse ainda mais poder.

Roland gemia enquanto assistia aos ministros discutirem.

“Nunca sonhei que meu filho exigiria um duelo por outro homem. Eu achei que ele queria se tornar príncipe herdeiro. Se pretende se casar com um homem, então não poderá continuar na linha sucessória.”

Ele simplesmente não conseguia acompanhar a lógica de Jake, e isso o distraía tanto que mal prestava atenção ao verdadeiro problema em discussão.

Mylene, sentada ao lado do marido, lançou-lhe um olhar frio.

“Estou surpresa por você ainda conseguir pensar nisso num momento como este. Preciso lembrá-lo de que quase todos os nossos vizinhos declararam hostilidade aberta ao nosso reino?”

“Sim, mas Alzer ainda está do nosso lado, e sua terra natal também. Não é como se estivéssemos completamente perdidos.”

“A República Alzer praticamente não possui forças armadas neste momento. E você certamente sabe que a minha terra natal não tem poder militar suficiente para reunir uma força de combate digna desse nome.”

Roland deu de ombros.

“Ainda é melhor tê-los conosco do que contra nós.”

A atitude despreocupada dele só irritou ainda mais Mylene.

“O duque Bartfort pode ser forte, mas, se todos os nossos inimigos vierem contra nós como uma frente unida, Holfort se tornará um mar de chamas em questão de dias. Nosso status como grande potência está em claro declínio.”

Como se isso já não fosse ruim o bastante, os senhores regionais haviam se afastado da coroa. Se Leon fizesse um chamado, alguns provavelmente responderiam, mas outros romperiam definitivamente com Holfort. No instante em que isso acontecesse, haveria de fato nações inimigas às portas do reino. Era uma ameaça óbvia.

Roland bocejou.

“Se vamos ter que depender daquele pirralho para nos tirar dessa, então já estamos condenados. Que tal simplesmente admitirmos a derrota e nos rendermos?”

“Se fizermos isso, Rachel certamente nos executará. Eles nutrem desprezo por nós há muito tempo.”

“São antigos demais, então isso combina com eles. Nossos próprios ancestrais vieram de Rachel. Pelo que ouvi, a maioria era formada por nobres de baixa patente.”

“Tenha mais cuidado ao dizer essas coisas em voz alta”, advertiu Mylene.

Rachel e seus aliados finalmente estavam reunindo forças para invadir Holfort.

Divertido, Roland murmurou para si mesmo: “Agora a verdadeira questão é: o que aquele pirralho vai fazer?”

***

“Eu quero me vingar de Roland.”

Reunidos no meu dormitório estavam as IAs, minhas noivas e Erica, que eu também havia convidado. O propósito declarado da reunião era discutir meu desejo de fazer Roland sofrer por tudo o que havia me feito passar.

Eu havia preparado chá e lanches para todos, e o aroma perfumado dos quitutes se espalhava pelo ar ao redor da mesa. A luz morna do sol entrava pela janela, criando uma atmosfera relaxante de início de tarde. Francamente, era um desperdício passar um dia daqueles numa reunião sobre um assunto tão irritante. Aquilo só aumentava meu ressentimento em relação a Roland por me forçar a estar nessa posição.

Luxion e Cleare trocaram breves olhares antes de se voltarem para mim.

“Tenho dificuldade em acreditar que o senhor esteja em pleno juízo, Mestre”, disse Luxion. “Acabamos de receber a notícia de que Rachel está se preparando para atacar, e o senhor está preocupado em retaliar contra o próprio rei.”

“É mesmo. E eu também acho que o nosso mestre adora desperdiçar tempo com coisas inúteis.”

Como Luxion havia dito, a notícia de que Rachel estava se preparando para guerrear contra Holfort acabara de chegar. Eu já imaginava que eles estavam se movimentando, mas descobri que haviam conseguido unir a maioria das nações vizinhas em torno desse esforço.

Angie me lançou um olhar exasperado. A possibilidade de guerra a deixava visivelmente tensa. Depois de tomar um gole de chá, ela franziu a testa.

“Pela sua reação, imagino que você já tenha elaborado algum plano para enfrentá-los?”

Peguei um dos lanches da mesa, um biscoito finíssimo, e o ergui à altura dos olhos para observar os dois lados.

“Isso depende do meu oponente.”

Noelle franziu a testa, claramente irritada com a minha postura. Tomou o biscoito da minha mão.

“Pensa direito. Todos nós estamos contando com você, sabia?”

Ela tinha vivido a guerra em primeira mão durante seu tempo na República Alzer, então não tinha paciência para minhas palhaçadas.

Meus ombros caíram.

“Eu vou dar um jeito nisso, de uma forma ou de outra. Mas, mais importante que isso, o que eu quero agora é me vingar do Roland! E eu gostaria que vocês me dessem algumas ideias.”

Havia um limite para o que eu conseguiria inventar sozinho. Eu realmente queria fazê-lo sofrer direito, e foi por isso que convoquei minhas parceiras, noivas e companheiras de confiança.

Livia soltou um pequeno suspiro.

“Enquanto estamos aqui conversando, Sua Majestade deve estar atolado de trabalho no palácio. Por que não abandona essa rivalidade sem sentido? Estamos falando do nosso próprio rei.”

Tudo bem, em teoria Roland deveria ser uma figura digna de respeito e reverência. Pelo menos em termos de posição. Mas isso não mudava o fato de que, para mim, ele era o mais repulsivo dos porcos — um verdadeiro inimigo.

“Eu nunca vou superar o rancor que tenho dele. Ele me promoveu na hierarquia nobre sem razão nenhuma! E eu também não pretendo esquecer o fato de que empurrou para cima de mim a responsabilidade de cuidar da brigada de idiotas.”

Livia não encontrou palavras para enfrentar minha determinação e, no fim, apenas franziu os lábios.

Erica observou a cena e soltou um longo suspiro.

“Foi realmente necessário me chamar até aqui só para planejar vingança contra o meu pai?”

Na verdade, parte do motivo era porque eu queria convidá-la para o chá, mas também havia outra razão: achei que, como filha de Roland, ela talvez pudesse me dar alguma informação útil sobre como irritá-lo.

“Aquele idiota do Roland gosta bastante de você, princesa Erica. Você não tem nenhuma sujeira sobre ele?”

Erica claramente não gostou nem um pouco da linha de raciocínio.

“Mesmo supondo que eu soubesse algo assim, eu jamais lhe contaria. Meu senhor, o senhor realmente pretende insistir nessas infantilidades?”

“Com toda certeza. Eu preciso disso.”

Balancei a cabeça com firmeza.

Luxion e Cleare se moveram em uníssono, como se estivessem sacudindo a cabeça para mim.

“Se está tão decidido, por que não abandona a infantilidade e simplesmente assassina Roland?”, sugeriu Luxion. “Isso reduziria drasticamente o tempo desperdiçado pensando em maneiras de se vingar. Também eliminaria uma fonte significativa de sua ansiedade. Para mim, parece a solução mais eficiente.”

Fiquei boquiaberto para ele.

“Eu não quero fazer isso. Se Roland morrer, vai sobrar ainda mais merda pra mim. Tudo o que eu quero é vê-lo sofrer. Só isso.”

Dessa vez, foi Angie e Livia quem trocaram olhares.

“Leon realmente odeia Sua Majestade, hein?”, disse Angie.

Livia sorriu, inquieta.

“Acho que a única sorte é que eles não estão atrás… da vida um do outro” Na verdade, eu não tinha vontade nenhuma de ver Roland morrer. Tudo o que eu queria era fazê-lo sofrer. A ideia de vê-lo em desespero, afundando na dor que eu mesmo causaria, me trazia uma satisfação indescritível.

Noelle colocou na boca o biscoito que tinha roubado e o mastigou com mais força do que o necessário.

“Eu só não entendo por que você está tão obcecado com isso justo agora, só isso.”

Eu até conseguia ver o ponto dela. Estávamos no centro de um incidente internacional gigantesco. O Reino Sagrado de Rachel estava prestes a lançar uma ofensiva coordenada contra nossa fronteira. Não parecia exatamente a hora ideal para brincadeiras. Ainda assim…

“É justamente por isso que tem que ser agora”, retruquei. “Se eu atacar no meio dessa confusão toda, mesmo que exagere um pouco, vai ser fácil sair impune. O país inteiro depende de mim neste momento.”

Sim, tudo isso era calculado. Agora, mais do que nunca, eu podia atingir Roland com força e escapar sem consequências sérias. Por algum motivo, porém, o resto do grupo parecia enojado com o meu brilhantismo.

“Se é isso que você quer, deixe comigo!”, ofereceu Cleare com entusiasmo. “Eu vou mostrar o que é uma verdadeira quebra psicológica!”

Quebra psicológica? Do tipo dano cerebral ou algo assim?

“Espera aí. Isso parece profundamente perturbador. Até eu estou ficando incomodado”, eu disse.

“Ah, não entenda errado. Não é como se eu realmente fosse destruir o cérebro dele.”

Mas, considerando o que Cleare tinha feito com Aaron para transformá-lo em Erin, suas tentativas de me tranquilizar não eram exatamente convincentes. Ainda assim, confesso que ela despertou meu interesse.

“Tá, então o que você faria?”

Cleare mergulhou de cabeça no próprio plano diabólico.

“Certo, primeiro eu tiraria uma foto sua e da Erica dormindo juntos na mesma cama. Claro, não teria acontecido nada de verdade. A ideia seria só fazer parecer que aconteceu.”

Os rostos das minhas três noivas ficaram completamente vazios. Foi tão assustador que tive de olhar para qualquer outro lugar.

Erica apertou a mão contra a testa.

“Se você fizesse algo assim, o duque seria acusado de vários crimes.”

Ela já tinha um noivo, afinal. Mesmo insinuar que eu tinha feito alguma coisa com Erica já seria suficiente para me colocar numa situação muito mais perigosa do que eu estava disposto a enfrentar por mera vingança.

“Sem problemas!”, declarou Cleare. “Eu já calculei os resultados, e isso ainda está dentro do limite das coisas que você pode fazer. Enquanto o Mestre afastar Rachel, o reino não terá escolha senão fazer vista grossa. Na verdade, vão até ficar felizes em ignorar!”

Se Cleare estava tão confiante assim, talvez fosse realmente seguro? Eu considerei a ideia por um instante, mas Angie interveio antes que eu pudesse ir mais longe.

“Talvez ele até escapasse das consequências, mas, ao mesmo tempo, Sua Majestade veria nisso a desculpa perfeita para exigir que Leon assumisse responsabilidade e se casasse com a princesa.”

Eu conseguia imaginar perfeitamente a Srta. Mylene me dizendo isso, e só de pensar um arrepio percorreu minha espinha.

“É… eu com certeza seria forçado a assumir responsabilidade”, murmurei.

Cleare começou a circular à minha volta no ar.

“Vai ficar tudo bem. A gente prepara uma testemunha para garantir a sua inocência, alguém que jure que você não encostou um dedo nela. Depois você pode dizer ao Roland: ‘Sua filha ficou uma gracinha’.”

“Você é completamente desumana”, eu disse.

“São todos novos humanos. Eu posso muito bem ser desumana com eles”, argumentou Cleare. “Mestre, vamos apunhalar Roland no coração juntos!”

Balancei a cabeça bem devagar.

Enquanto isso, Angie, Livia e Noelle se levantaram em silêncio e tiraram Cleare do ar.

Angie lançou à IA um sorriso sombrio.

“Admito que esse plano quase certamente deixaria uma cicatriz profunda no coração de Sua Majestade. Ainda assim, seria extremamente inconveniente para o resto de nós se rumores dessa suposta infidelidade começassem a circular.”

“Cleary, acho que precisamos conversar um pouco”, disse Livia, sorrindo. “Principalmente sobre o que você fez com a Erin.”

Cleare tentou se soltar desesperadamente. Se usasse toda a sua força, teria sido fácil escapar, mas ela sabia que não devia machucar nenhuma das minhas noivas.

“Meninas, esperem!”, protestou ela. “Por favor, escutem! Eu juro, essa é uma técnica consagrada pelo tempo, usada há eras. Não tem nada de questionável nisso. Nelly, não fica aí sorrindo desse jeito. Socorro!”

Noelle continuou sorrindo enquanto levantava a mão para acenar.

“Desculpa, mas você conseguiu me irritar também, então…”

Como último recurso, Cleare voltou o olhar para mim.

“Mestre, você me entende, não é?”

“Não. Eu não entendo você nem um pouco.”

Sim, eu queria muito que Roland sofresse, mas até eu achava que o método dela era demais.

As meninas arrastaram Cleare para longe, deixando o resto de nós para trás.

Luxion olhou de mim para Erica.

“Se você tivesse aceitado a proposta de Cleare, Roland teria sofrido danos psicológicos imensuráveis. Suspeito, porém, que isso também geraria outros problemas.”

Esfreguei a nuca, exasperado com a incapacidade do meu parceiro de compreender toda a extensão do problema.

“Não seria só o Roland que sairia prejudicado. De qualquer forma, eu realmente não esperava que minhas noivas fossem ficar tão bravas assim.”

“Concordo.”

Nós dois inclinamos a cabeça — ou, no caso do Luxion, o corpo inteiro. Enquanto tentávamos entender por que exatamente as meninas tinham ficado tão irritadas, Erica nos observou com um sorriso torto.

“Tio, você realmente não entende?”

“Você entende? Então me explica.”

Quer dizer, eu entendia que elas não iam gostar de ver uma foto minha na cama com a Erica. Isso fazia sentido. Mas seria só uma encenação, não? Na prática, eu não estaria fazendo nada. Eu conseguia imaginar que elas discordariam da ideia, claro, mas não parecia motivo para ficarem tão furiosas. Tudo bem, a Srta. Mylene talvez realmente tentasse me empurrar para um casamento com Erica, e isso seria um enorme problema.

Mesmo assim, eu ainda não achava que isso justificasse uma reação tão intensa.

Erica franziu as sobrancelhas por um longo momento e então entrelaçou os dedos diante da boca, escondendo parte da expressão, como se estivesse envergonhada.

“Isso só mostra o quanto elas amam você.”

“S-sério?”

Achei adorável a maneira como as bochechas dela ficaram rosadas, mas, logo em seguida, sua expressão voltou a se tornar séria.

“Além disso, esse plano não teria machucado apenas meu pai.”

“Não teria?”

Erica suspirou.

“Pense do ponto de vista delas: mesmo que tudo fosse falso e feito apenas por vingança, aquela foto ainda sugeriria que você foi infiel. Dá para entender por que isso não as deixaria nada felizes, certo? E por que isso as machucaria de verdade?”

Eu não tinha pensado tão longe.

“Em outras palavras, o plano da Cleare era uma faca de dois gumes”, resumiu Luxion.

Ainda bem que eu tinha recusado.

Ela havia sido bastante clara, mas, em vez de sorrir, Erica ficou com uma expressão ansiosa. Com as mãos cruzadas sobre o peito, ela me perguntou: “Tio, vai ficar tudo bem nessa guerra? Eu quero acreditar em você, e eu acredito. Mas me preocupa que até você ache a situação difícil desta vez.”

Era verdade. Por mais poderoso que Luxion fosse, com tantos países unidos contra nós, o reino não tinha como sair completamente ileso. A situação com Rachel era um problema sério, mas eu não suportava deixar minha doce sobrinha preocupada.

Bom, eu continuo chamando-a de sobrinha, mas neste mundo nem somos parentes de sangue de verdade.

“Não é nada com que você precise se preocupar. Luxion e eu vamos dar um jeito”, respondi, e estendi a mão preguiçosamente para cutucar Luxion com o dedo. Ele imediatamente aproveitou a oportunidade para sair do meu alcance.

“O que você quer dizer é que eu vou dar um jeito, já que sou eu quem sempre faz tudo. Tudo o que você faz é empurrar o trabalho duro para mim, Mestre”, reclamou ele.

Como sempre, aquele idiota era insuportável.

“Eu só faço isso porque confio em você para fazer um bom trabalho.”

“Embora eu seja uma IA, lamento informar que até para mim isso soou vazio.”

“Tsk, tsk. Você é mesmo um cínico. Que tal aceitar minhas palavras pelo valor que têm uma vez na vida? Desse jeito, você não tem o menor encanto.”

“Você pode não mentir, mas também não faz questão nenhuma de dizer a verdade. E ainda quer que eu acredite em você? Francamente, isso só pode ser piada.”

“Olha só, justo quando eu te elogio pela primeira vez, é assim que você reage. E ainda por cima você vive reclamando que eu não te elogio o suficiente.”

Então me virei para Erica.

“Está vendo como ele é?”

Luxion girou na direção dela também.

“Erica, você não deve acreditar em uma única palavra que esse homem diz. Psicologicamente, ele é mais velho do que aparenta por carregar as memórias da vida anterior, mas, mesmo assim, continua sendo uma criança incapaz de admitir os próprios sentimentos. Se algum dia precisar de alguma coisa, por favor, recorra a mim.”

“Ei, qual é a sua? Ela é minha sobrinha, e você está me desautorizando completamente. Ela vai perder o respeito pelo tio!”

“Você não precisa se preocupar. Ela não deveria ter respeito nenhum por você em primeiro lugar.”

Minha mão disparou numa tentativa de agarrá-lo, mas, antes que eu conseguisse pegar aquele idiota no ar, Erica começou a rir. Nós dois congelamos e nos viramos para ela.

As bochechas dela estavam coradas.

“Minhas desculpas. Vocês dois pareciam estar se divertindo tanto brigando. Dá para ver que, por mais que reclamem um do outro, vocês realmente são próximos.”

Luxion e eu bufamos ao mesmo tempo e viramos o rosto.

“Quem seria próximo daquele idiota?”

“Somos apenas mestre e servo. Nada mais.”

Erica nos observou com um pequeno sorriso.

De qualquer forma, parecia que eu realmente teria de fazer alguma coisa em relação a Rachel — pelo bem do reino, claro, mas também pelo bem da minha

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