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Book of the Dead – Volume 1 – Capítulo 54.5

Epílogo: Corra, Garoto, Corra

Rígido e dolorido, Rufus saiu mancando do pátio de treinamento, mas satisfeito. Massageou um pouco seu punho direito depois de devolver sua espada de prática ao intendente e esperou na borda da área. Dezenas de pares de Espadachins preenchiam a área de treino, levantando a areia com cada passo e giro que davam sob o olhar atento do instrutor.

— Jogo de pés, jogo de pés, jogo de pés! — gritou o homem grisalho pelo que parecia a centésima vez esta tarde. — Se querem lutar com uma lâmina, vocês precisam de um equilíbrio para fazer uma dançarina morrer de inveja! Passos perfeitos. TODAS. AS. MALDITAS. VEZES. Morrison! Levante essa bunda e se posicione. Não quero ouvir reclamações, seu saco de lixo chorão! Não diga merda nenhuma até mexer seus malditos pés adequadamente.

Rufus observou com um sorriso debochado que nem se deu ao trabalho de esconder enquanto Calan, um antigo Exterminador de rank prata e atual mestre espadachim da academia Blue Steel, criticava o pobre coitado que o havia irritado desta vez. O homem era brutal em suas palavras e ações. Os homens e mulheres que caíam na Arena, o pátio de treinamento com piso de área destinado à prática de armas, eram levados ao limite. Se ele não tivesse a reputação de formar graduados de alta qualidade, ninguém o toleraria.

Sua ênfase no jogo de pés era especialmente irritante para muitos dos especialistas em espadas recém-despertados.

Assim que Rufus ganhou sua classe, ficou obcecado por sua espada. Não se sentia completo sem ela em sua mão. Sua habilidade de esgrima praticamente cantava para ele enquanto empunhava a lâmina, girava os punhos em ângulos precisos, balançava seus braços com momentum e sentia o corte satisfatório da lâmina através do ar. Só que depois de começar a treinar aqui, Calan os forçou a semanas de exercícios de movimentação. O homem era obcecado por jogo de pés e não os deixava tocar em uma lâmina até que estivesse satisfeito com a forma com que se moviam.

Rufus havia se adaptado mais rápido do que a maioria, devido a algumas coisas que conseguiu aprender ao observar Magnin com atenção. Nas poucas vezes em que o mestre Espadachim praticou onde qualquer um pudesse vê-lo, Rufus viu o cuidado e dedicação que ele colocava em seus pés, muitas vezes largando sua famosa espada para executar os golpes sem nada nas mãos.

Se o Exterminador do Século conseguia se concentrar em seus pés, Rufus certamente podia fazer o mesmo.

— Você ainda está esfregando o pulso? Talvez dessa vez você se defenda direito, seu maldito bastardo.

Rufus fez uma careta enquanto seu parceiro de treino se aproximava.

— Se você não fosse uma cobra tão baixa e suja, eu não precisaria ficar de olho nesses truques baratos — argumentou ele.

— Truques baratos? — Pewar colocou a mão no peito enquanto fingia uma expressão magoada. — Você simplesmente não entende minha genialidade. Nada surpreendente, não posso esperar muito da inteligência do filho de um ferreiro. Sua espada é como um martelo, reta, sem nenhuma graça.

Uma pitada de raiva surgiu no peito de Rufus ao ouvir a menção do pai, mas ele a reprimiu. Pewar não tinha más intenções, os dois costumavam trocar palavras depois do treino.

— Agora, quem não consegue apreciar uma boa técnica? Você só está com inveja de que minha espada faz algo que você nunca conseguirá: ir direto ao ponto.

— Touche, meu amigo musculoso, Touche.

Os dois olharam para os pobres sapos ainda na arena.

— Calan está se esforçando ao máximo hoje — observou Pewar. — O homem parece furioso.

— Oh, ele está irritado — disse Rufus. — Não tenho ideia do porquê. Não acho que alguém esteja se saindo particularmente mal hoje.

— Ele pode estar apenas tentando ver se alguém vai quebrar.

Rufus se virou para seu parceiro com a sobrancelha levantada.

— Desistir e abandonar tudo — elaborou Pewar. — Acho que ele quer eliminar qualquer um que não considere mentalmente forte. Uma forma bruta, mas efetiva de garantir que todos os graduados sejam capazes de absorver uma quantidade infinita de críticas severas.

— Se eles não conseguem aguentar isso, eles nunca serão Exterminadores — Rufus deu de ombros e os dois começaram a sair da área de treinamento e voltar aos dormitórios.

— Nem todos que recebem a classe Espadachim desejam ser um Exterminador, como você bem sabe — Pewar revirou os olhos. — Só porque todos vocês, idiotas, sonham em ser Magnin Steelarm, não significa que eu também precise.

— Você será um duetista de merda.

— Besteira, e você sabe disso.

— Se você não quisesse ser como Magnin, por que viajar até aqui para treinar? Você sabe muito bem que quase todas as escolas do Oeste baseiam seus métodos naquele homem. Você poderia ter ficado no Norte e treinado lá.

— Um efeito colateral infeliz de todas as classes marciais da província venerarem um único espadachim — suspirou Pewar —, é que acabamos com instrutores extremamente capazes. Por mais que as pessoas não gostem de admitir, as melhores escolas para treinamento de classes baseadas em espada estão aqui em Kenmor. Se eu serei o melhor, preciso ser treinado pelo melhor.

— Não existem escolhas melhores e mais respeitadas na província Central?

— Administrada pelos melhores Mestres Espadachins vivos, sim. Minha família tem dinheiro, mas não temos esse dinheiro.

— Justo.

Os dois caminharam em silêncio durante o resto do caminho enquanto permitiam que o ar frio secasse o suor. Logo precisariam se lavar para remover a sujeira e areia que ainda grudavam neles, mas, por ora, Rufus estava contente. Poderia não ter conseguido tudo o que queria quando saiu de casa, mas conseguiu o suficiente. Ele estava aqui, longe daquele pai inútil e babaca, treinando para realizar seus sonhos. Sentia como se sua vida finalmente tivesse começado.

Ele treinou arduamente, dedicou-se e logo estaria pronto para ir ao campo e começar a matar criaturas das fendas. A partir daí, seria apenas uma questão de tempo até que fosse um Exterminador completo.

E Tyron estaria morto em alguma vala.

— Te vejo depois, Pewar — disse ele, dando um tapinha no ombro do amigo. — Vou dar uma passada na casa de Laurel.

O outro homem contraiu o rosto.

— Sério? — Ele balançou a cabeça. — Gosto não se discute.

O sorriso de Rufus ficou torto.

— Ela é uma velha amiga — disse — prometi ao pai dela que cuidaria dela.

— Hum. Então vá. Te vejo de manhã.

Com um aceno final, Rufus se virou e caminhou por outro caminho, afastando-se dos dormitórios masculinos em direção aos femininos. A princípio, seus passos eram largos e confiantes, mas, conforme passava por cada vez mais sorrisos irônicos e olhares de pena das residentes femininas, ele se tornou mais curvado e abatido. Quando chegou no quarto de Laurel, sua cabeça estava baixa e uma tempestade nublava seus olhos.

Como esperado, a porta de Laurel estava trancada, embora não fosse difícil de imaginar o porquê. Gemidos apaixonados e o som da pele contra a pele podiam ser ouvidos com facilidade através da madeira sólida, e até mesmo pelo corredor. Rufus rosnou enquanto a raiva se contraía em seus músculos antes de bater na porta, sem dizer nada.

— Porra! — ele ouviu Laurel xingar, seguido por alguns barulhos enquanto ele continuava a bater o punho na madeira.

Um minuto depois, ouviu a voz dela do outro lado da porta.

— Certo, Rufus! Pare de ser um idiota por um minuto e eu abro.

Ele cerrou os dentes e deu um passo para trás, dando espaço para a porta ser aberta. Laurel apareceu, com os cabelos despenteados, rosto corado, ainda suada pelo esforço, vestindo apenas uma blusa que ia até a metade das suas coxas. Ela o encarou, irritada.

— O quê? — questionou.

— Quem está aí dentro? — perguntou Rufus com raiva.

— Isso é da sua conta, caralho?

— Quem. Está. Aí. Dentro?

— Vai. Tomar. No. Cu.

Os dois se encararam, com raiva fervendo dentro dos dois, antes que uma voz masculina chamasse de dentro do quarto.

— Ei, não se preocupe. Já estava na hora de eu sair mesmo — um homem loiro de cabelos despenteados, magro e de aparência discreta deu um passo em frente com um sorriso sarcástico no rosto e sapatos em mãos. — Eu sou Jer, prazer em conhecê-lo.

Ele estendeu a mão para Rufus por um segundo e a deixou suspensa enquanto o Espadachim não fez nenhum movimento para alcançá-la, até que a deixou cair com um encolher de ombros.

— Certo, então. Foi um… prazer vê-la, Laurel. Nos vemos na próxima.

Com uma piscadela e um sinal de positivo, Jer passou por Rufus e seguiu rapidamente pelo corredor até desaparecer na esquina. Laurel suspirou.

— Bem, então você pode entrar — disse ela.

— Eu não reconheço aquele cara — observou Rufus enquanto entrava e fechava a porta atrás dele. — Acho que nunca o vi na arena.

— E como poderia? Ele é um mago em treinamento.

— Um mago? — Rufus quase cuspiu.

— Por que não? — sorriu Laurel. — Eles são bons com as mãos.

A Arqueira sentou-se na cama, com as pernas cruzadas, o calor da raiva ainda árida em seus olhos enquanto Rufus expirava e afundava na única cadeira do quarto. Os dormitórios não tinham muito espaço para cada aluno. Uma cama, uma cadeira e uma mesa eram os únicos móveis disponíveis; todo o resto o estudante precisava providenciar por conta própria.

Com o dinheiro que havia pegado de seu pai, Rufus conseguiu se matricular e comprar algumas coisas para si, mas o quarto de Laurel ainda era extremamente simples. Ela não tinha quase nada sobrando depois de pagar suas taxas e não aceitaria a ajuda dele.

Os dois se encararam por mais um tempo até que Rufus quebrou o contato visual e Laurel suspirou.

— Você precisa parar de fazer isso, Rufus.

— Fazer o quê? — perguntou ele.

— Isso. Vir ao meu quarto o tempo todo. Ficando com raiva toda vez em que estou com alguém.

— Sabe que as pessoas pensam que somos um casal, certo? As garotas deste dormitório riem de mim todas as vezes que passamos por ele.

Laurel jogou o cabelo para trás, irritada.

— Bem, não sou eu quem está dizendo isso a elas. Não somos um casal, e nunca fomos.

— Não fomos? — murmurou ele.

— Não — respondeu ela, frustrada. — Ainda sou sua amiga, Rufus, e ainda estou disposta a trabalhar na sua equipe quando concluirmos a academia, mas nunca fomos um casal. Quanto mais cedo entender isso, mais feliz você será. Não vou me prender a ninguém, entendido?

— Eu terei que entender, não é?

— Isso mesmo. Você precisa.

Uma batida soou na porta.

— Laurel! Vista as calças. Há uma reunião de emergência no pátio — uma garota, outra residente, chamou através da porta.

— Hora perfeita — ela revirou os olhos. — Saia logo para que eu possa me vestir. Te vejo lá.

Dispensado, Rufus saiu, ainda frustrado, irritado e incapaz de se expressar adequadamente. O pátio ficava no centro dos quatro dormitórios de Blue Steel, uma área gramada aberta para os estudantes relaxarem ou se reunirem para anúncios. Provavelmente alguém tinha sido pego roubando na cantina e estava prestes a ser espancado e expulso.

Quando desceu as escadas, encontrou a maioria dos alunos já reunidos, conversando entre si, entediados e desinteressados na grande maioria. Parecia que vários tinham vindo de aulas interrompidas. Alguns dos alunos espadachim claramente ainda estavam na arena quando o chamado chegou, já que estavam cobertos de areia e sujeira.

Alguns minutos depois, Laurel correu até ele.

— Perdi alguma coisa? — perguntou.

Seus passos eram tão silenciosos que ele não a ouviu se aproximar, mas conseguiu conter seu susto quando ela falou.

— Nada ainda. Embora não pareça que vá demorar muito.

Ele apontou para a diretora reunido com vários outros funcionários perto da plataforma elevada no fim do pátio. A maioria dos estudantes pareceu notar quase ao mesmo tempo, pois o volume da conversa diminuiu rapidamente para um murmúrio, até que, finalmente, a velha diretora da academia subiu no palco. Outra Exterminadora veterana de rank prata, Ruth Finnar teve uma longa e bem-sucedida carreira como uma maga de batalha, lutando nas fendas mais difíceis que a província Ocidental tinha a oferecer. Sua presença inspirou o respeito de todos os alunos recém-despertados e um silêncio instantâneo se fez presente.

— Não vou usar meias palavras com vocês — disse ela, sua voz sendo ouvida com facilidade por toda a multidão. — Mensageiros vieram trazendo notícias de um desastre no noroeste. Houve uma ruptura na fenda perto de Woodsedge.

Imediatamente, Rufus cerrou os punhos enquanto vozes preocupadas começavam a murmurar ao seu lado. Uma ruptura era um evento raro, especialmente uma tão próxima. Foxbridge não ficava muito longe da Fortaleza fronteiriça, estaria diretamente na linha dos monstros. Ele olhou para Laurel, mas a expressão dela era impassível, como se a notícia não tivesse efeito nela.

A diretora levantou a mão para reestabelecer o silêncio.

— Exterminadores de ranks altos foram enviados para conter as criaturas das fendas, mas há escassez de pessoal. Perdemos mais de duzentos bons Exterminadores da Fortaleza local, que sacrificaram suas vidas para permitir que os outros tivessem a chance de escapar.

Era um trabalho perigoso, e todos aqui sabiam disso, mas isso não significava que a perda de tantos não tinha um impacto. Exterminadores eram os mais fortes, mais corajosos e mais capazes de todos. Duzentos não deveriam morrer em vão.

— É muito cedo no treinamento de vocês para estarem em campo, mas esta é uma situação crítica que precisa ser resolvida rapidamente — continuou a diretora. — Portanto, as Academias foram instruídas a enviarem grupos de estudantes para apoiar os Exterminadores mais experientes na eliminação desse surto e proteger o máximo possível de pessoas e terras. Apenas quando as criaturas forem encontradas e exterminadas, os moradores das cidades e vilas poderão retornar às suas vidas.

Rufus ergueu a mão e gritou.

— Sabemos o que aconteceu com Foxbridge? — perguntou, desesperado.

Assim que ele falou, outros começaram a gritar o nome de suas cidades ou vilas ao Oeste da capital. Os alunos ali presentes vieram de toda a província e muitos estavam preocupados com suas famílias.

A maga de batalha silenciou a todos com um olhar.

— Não temos notícias de nenhuma cidade ou indivíduo. Se quiserem garantir a segurança do seu povo, lutem com todas as forças quando chegarem lá.

— Consegue acreditar nisso? — sussurrou Laurel, com um brilho animado em seu olhar. — Já podemos sair e lutar? Podemos subir muitos níveis!

— E o seu pai? — sibilou Rufus. — Não está preocupada se ele está vivo?

Ela zombou.

— Meu pai pode cuidar de si mesmo. Muito melhor do que jamais cuidou de mim. Ele ficará bem.

— Antes de vocês partirem — continuou a diretora da Academia —, devem falar com o seu instrutor principal, que terá mais detalhes sobre sua missão. Esse assunto é urgente, e vocês serão enviados antes do final do dia. Também soubemos disto…

Ela colocou a mão no bolso e retirou uma folha de papel com um retrato desenhado nela. A respiração de Rufus ficou presa na garganta.

— Acredita-se que a atividade incomum e a desestabilização repentina da fenda são resultantes de atos criminosos. Várias testemunhas que sobreviveram ao desastre, incluindo Exterminadores experientes, identificaram este homem, o Necromante Tyron Steelarm, como estando próximo à fenda antes e durante a ruptura. Uma recompensa de cem soberanos de ouro foi oferecida pela captura deste criminoso. Vivo ou morto.

Murmúrios urgentes começaram a surgir entre os alunos reunidos.

— Obviamente, sabem quem ele é. Os magistrados nos informaram que Magnin e Beory se voluntariaram para encontrar seu filho rebelde e levá-lo à justiça. Vocês não precisam temer qualquer represália.

Ela se inclinou para frente.

— Tenho que enfatizar. Este indivíduo é perigoso e pode muito bem ser capaz de manipular fendas. Se o virem, espero que ajam com rapidez e determinação. Eliminem-no — ela fez um gesto no ar com uma das mãos. — Podemos resolver o resto depois que ele morrer.

…

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