Tradutor: miggigibe
Penia, vice-mestra da Torre Azul, era um gênio, mas poucos magos gostavam dela.
Havia três motivos para isso. Primeiro, ela era incrivelmente grosseira. Segundo, era absurdamente grosseira. E terceiro, era insuportavelmente grosseira.
Em geral, os magos se reuniam ao redor daqueles de ranque mais elevado independentemente da personalidade, pois o que mais importava para eles era a busca pelo conhecimento, não o caráter de cada indivíduo.
Em outras palavras, mesmo que alguém tivesse uma personalidade horrível, os magos ainda tentariam se aproximar para obter qualquer migalha de conhecimento.
Ainda assim, nem mesmo eles suportavam ficar perto de Penia.
Ela era um gênio, mas sua arrogância era insuportável.
Por causa disso, a presença de Penia sempre provocava todo tipo de confusão dentro da Academia de Magia.
Ela tratava abertamente com desprezo qualquer um abaixo do posto de mestre de torre, tornando os conflitos inevitáveis.
Por isso, todos os magos a chamavam de "encrenqueira sem freio" e não gostavam dela.
Milan, um mago da Torre Verde que acabara de discutir com ela, não era exceção.
Ele guardava um profundo ressentimento por Penia.
Tanto que, nos últimos sete anos, sonhara em dominá-la com sua magia e fazê-la pedir desculpas pelos insultos constantes que ela despejava sobre ele.
Desde que se tornara um mago de pleno direito e passara a poder apresentar teorias na Academia de Magia, Penia vinha atormentando-o.
Por isso, Milan não conseguia compreender a situação que se desenrolava diante de seus olhos.
— Quanto tempo faz? …Hm, acho que já faz pouco mais de meio ano.
— S-sim, isso mesmo.
— Não precisa ser tão formal. Acho que da última vez eu disse que podia falar comigo de forma mais casual.
— Eu devo… falar de forma mais casual?
— Ah, agora que penso bem, eu disse para fazer o que fosse mais confortável. Fale como preferir.
…!
Milan piscou, incrédulo, ao ver Penia soltar um suspiro de alívio, claramente satisfeita por poder continuar falando de maneira formal.
'Isso é algum feitiço de ilusão?'
Com medo de ter caído em um dos feitiços de ilusão maliciosos de Penia, ele chegou a lançar magia de dissipação, mas a situação diante de seus olhos continuou exatamente igual.
— Enfim, é bom ver você por aqui.
— T-também é bom ver o senhor!
Ver Penia, que nem sequer falava com educação a menos que a outra pessoa fosse no mínimo um mestre de torre, comportar-se agora como um filhote dócil mostrando a barriga foi um choque para todos.
Até o mestre de Milan, que estava ali por perto, já havia lançado magia de dissipação mais de cinco vezes. O choque era desse tamanho.
Mas as surpresas ainda não tinham acabado.
— Aliás, aconteceu alguma coisa?
— Ah, isso…
— Não que seja da minha conta me intrometer, mas os magos não deveriam se dar bem uns com os outros?
Ele não estava repreendendo ninguém. Fora apenas um comentário casual.
Mas, ao ouvir aquilo, Penia se virou e encarou Milan diretamente.
— Desculpe!
Ela pediu desculpas.
???
Todos os magos presentes ficaram boquiabertos.
A ideia de Penia, a famosa encrenqueira que parecia incapaz de pedir desculpas, abaixar a cabeça e se desculpar era surreal demais para acreditar.
Até Milan, que passara sete longos anos sonhando justamente com aquele momento, não conseguiu reagir ao finalmente receber o pedido de desculpas pelo qual tanto ansiara.
— Como… como isso é possível?
Liyan, ao lado de Alon, também estava completamente desnorteada, alternando o olhar incrédulo entre Penia e Milan.
Pouco tempo depois…
— Então nos vemos amanhã.
— S-sim, senhor…!
Penia assentiu com vigor às palavras de Alon e saiu quase correndo, como se estivesse fugindo. Naturalmente, todos os olhares se voltaram para uma única pessoa: o conde Palatio, o homem que não apenas domara aquela encrenqueira indomável, como parecia lidar com ela sem dificuldade.
Alon acompanhou Penia com os olhos enquanto ela corria para longe.
'Ela parece ainda mais tensa do que da última vez.'
— Hã?
Ao se lembrar de que os magos próximos e Liyan o encaravam de boca aberta, Alon não pôde deixar de se perguntar.
'Eu fiz alguma coisa errada?'
Um pouco constrangido, desviou o olhar, tentando entender a situação.
Depois que Penia saiu às pressas…
Os magos que observavam Alon também perceberam que ele era o conde Palatio e, depois de demonstrarem uma admiração perplexa(?), foram embora.
— …Chamam a Penia de encrenqueira?
— Sim.
— Que curioso.
Alon inclinou a cabeça enquanto ouvia Liyan falar sobre Penia.
'Eu sabia que Penia era bem arrogante no jogo… mas não fazia ideia de que era famosa o bastante para ser chamada de encrenqueira pelos outros magos… Bem, não era um ponto importante da trama, então faz sentido que isso nunca tenha aparecido.'
Pensando em como o protagonista a recrutaria como companheira dali a alguns anos, normalmente depois de metade do reino já ter sido destruída, Alon deu de ombros.
— Na verdade, quem deveria estar perguntando sou eu. Como é que essa encrenqueira fica tão quieta na sua frente, conde?
Diante da pergunta de Liyan, Alon ficou em silêncio por um instante.
O mais engraçado era que nem mesmo ele sabia direito por que Penia agia daquela forma perto dele.
Mas admitir simplesmente que não sabia parecia um pouco estranho. Enquanto pensava em como responder, a voz de Liyan trouxe sua atenção de volta.
— Chegamos.
Ao olhar para a frente, viu a estrutura diante deles.
— Isto é…
— O dispositivo de transporte entre andares.
Diante deles havia uma estrutura que lembrava um elevador de seu mundo anterior.
— O senhor disse que queria visitar a biblioteca do 38º andar, certo?
Alon assentiu, lembrando-se do pedido que fizera antes de chegar à torre dos magos.
— Sim. Posso entrar agora?
— Claro, mas preciso preparar algumas coisas, então não vou poder acompanhá-lo.
— Tudo bem. Só estou curioso para conhecer a biblioteca.
Na verdade, considerando o que pretendia fazer ali, era até melhor para Alon que Liyan não estivesse com ele.
Assim que ele assentiu, Liyan apertou um botão no lado direito da estrutura.
— E como exatamente o senhor consegue fazer Penia se comportar desse jeito, conde?
No exato momento em que Liyan repetiu a pergunta…
Vuuuum!
Com um som grave e ressonante, a porta do dispositivo de transporte entre andares, até então firmemente fechada, se abriu.
O sorriso no rosto de Liyan desapareceu no mesmo instante, e sua expressão se contorceu em desagrado.
Surpreso com a mudança repentina de humor, Alon acompanhou naturalmente o olhar dela e virou a cabeça.
Um homem que parecia ter reclamações contra tudo no mundo vinha andando na direção deles.
E então…
— Ora, ora, quem temos aqui? Não é a nossa querida Liyanzinha?
— …Baruch.
O tom de Liyan era abertamente hostil ao chamar o homem pelo nome. Ele, por sua vez, exibia um sorriso que não tinha nada de amigável.
— Veio me ver?
— Até parece.
— Sério? Eu queria ver você. Que pena.
O homem chamado Baruch soltou uma risadinha e desviou o olhar de Liyan, que o encarava com raiva, para Alon.
— E quem é esse? Nunca vi esse rosto antes.
— É o conde Palatio.
Ao ouvir Liyan, Baruch passou os olhos rapidamente por Alon com um ar desdenhoso, deixando claro que não estava nem um pouco impressionado.
Depois de pensar por um breve instante, pareceu se lembrar de alguma coisa e soltou um pequeno "Ah".
— Ah, é você, não é? Aquele que ajudou a dar conta do invasor vindo de fora que apareceu depois de centenas de anos?
Baruch assentiu devagar, com um sorriso presunçoso.
— Prazer em conhecê-lo, conde Palatio. Sou Baruch, mago da Torre Violeta. Tenho certeza de que vamos nos encontrar de novo.
Com isso, fez um leve aceno de cabeça para Alon e passou por ele.
Pouco tempo depois…
'Então ele é filho do mestre da Torre Violeta…'
Enquanto o dispositivo de transporte entre andares começava a se mover, Alon sentiu o corpo flutuar e relembrou a conversa que acabara de ter com Liyan.
'Mas ele nunca apareceu no jogo.'
Alon não acreditava em julgar o caráter de alguém pela aparência, mas, ao pensar em como Baruch agia exatamente do jeito que seu rosto desagradável sugeria, decidiu parar de dar atenção a ele.
Pelo que Liyan lhe contara, Baruch parecia ser do tipo que roubava resultados de pesquisas alheias para apresentá-los como próprios ou diminuía os outros pelas costas. Ainda assim, não era alguém importante para Alon.
Depois de algum tempo, um som grave e ressonante ecoou.
Vuuuum~!
— Oh.
Quando o som enorme reverberou, a porta antes fechada se abriu, e Alon não conseguiu evitar uma pequena exclamação.
Diante dele havia um espaço completamente tomado por livros, desde o chão em que pisava até o teto.
A extensão aparentemente infinita de estantes e volumes tornava aquele lugar quase irreal, digno de uma verdadeira torre de magos, e por um instante Alon ficou maravilhado.
'Há duas coisas que preciso encontrar aqui.'
Mas apenas por um instante.
Alon logo começou a se mover por entre as incontáveis estantes.
Apesar de impressionado, ele já estivera ali dezenas de vezes no jogo e avançava pelo lugar com facilidade, como se já o conhecesse. A realidade, porém, não era igual a um jogo, então levou um pouco mais de tempo do que esperava.
Ainda assim, não demorou muito para encontrar o livro que procurava.
Era um único volume de capa especialmente negra, escura a ponto de se destacar entre os demais.
'É este.'
Satisfeito, embora seu rosto continuasse inexpressivo, tirou o livro da estante e o examinou.
Não havia título nem nome de autor na capa.
Era um livro sem criador conhecido, mas Alon o abriu sem hesitar e começou a folhear as páginas em branco, tão escuras e vazias quanto a capa.
Sem demonstrar preocupação, continuou virando as páginas vazias uma a uma.
Quando chegou a cerca de um terço do livro, finalmente encontrou o compartimento oculto.
'Achei.'
Dentro dele havia uma joia semelhante a um anel, pequena o bastante para caber em um dedo: um "Ho Gaftu".
Assim como as roupas de Alon, o Ho Gaftu tinha um negro profundo e absoluto, como se fosse capaz de engolir até a luz.
Por instinto, Alon o guardou no bolso antes de devolver o livro ao lugar de onde o tirara.
'A primeira está resolvida. A segunda vai levar mais tempo, então por enquanto vou apenas deixar tudo preparado.'
Satisfeito ao sentir o Ho Gaftu no bolso, Alon começou a preparar o necessário para obter o segundo item.
'Pronto. Quanto ao resto… volto daqui a dois dias.'
Alon ajustou o enorme relógio quebrado no lado esquerdo da biblioteca, que já não era usado, para marcar 12 horas, ignorando o horário atual. Depois, voltou a mexer no Ho Gaftu.
'Eu queria usar isto agora mesmo.'
Pelas previsões de Alon, o Ho Gaftu melhoraria significativamente sua capacidade atual de usar magia, e por isso ele estava ansioso para testá-lo imediatamente.
'Mas não é como se eu só tivesse o dia de hoje.'
Lembrando-se de que já era tarde da noite, deu de ombros e deixou a biblioteca.
No dia seguinte, já tendo obtido o que queria, teve início a Conferência de Magia.
Depois da apresentação da Torre Verde, durante a competição amistosa à qual comparecia a maior parte dos magos, Alon recebeu um desafio.
— Gostaria de medir minhas forças com o famoso conde Palatio, que deu conta dos forasteiros do norte surgidos depois de centenas de anos. O que me diz?
Era um pedido de duelo.
Quem o fazia, com um sorriso ardiloso e claramente escondendo alguma intenção, não era outro senão Baruch, filho do mestre da Torre Violeta.