Eiro voltou para a sala. Ele tinha que limpar os danos que havia causado, enquanto os guardas já estavam se dirigindo até Solomon.
— O q-O que… O que acabou de acontecer…? — questionou Gabria enquanto encarava Eiro, e o Demônio virou a cabeça para ela.
— É simples. Merlin era um capanga do Rei dos Monstros, mas você provavelmente já sabia disso, ele destruiu sua vila não por acidente, mas de propósito, pois odiava o fato e que vocês tinham sangue de monstro, e sim, isso é basicamente tudo o que você precisa saber agora — explicou Eiro sem pestanejar.
A Elfa o encarou e depois olhou para o chão.
— Ah… Entendo… então foi isso que aconteceu… — ela olhou para as mãos com olhos lacrimejantes. — Você sabe, e-eu não queria me tronar ‘a pessoa que criou a barreira’, mas… Merlin me pediu para…
— Ele poderia ter tentado jogar a responsabilidade em você caso as coisas dessem errado. Ele não poderia ser responsável pela falha na barreira se não foi ele quem a criou — comentou Eiro. — Mas bem, o que você fará agora? Vai continuar com essa farsa? Ou retornar ao seu país natal?
— Eu não sei… tenho que perguntar aos outros… — respondeu Gabria. — Conseguimos nos estabelecer aqui… não quero tirá-los disso…
— Então não tire. Solomon é razoável. Eu falo com ele para que vocês possam resolver a situação. Especialmente se você cooperar conosco e nos dizer tudo o que sabe. Mas precisa estar ciente de que pode não escapar impune. Os outros sobreviventes da sua vila também ajudaram Merlin de alguma forma? — questionou Eiro, mas ela meneou a cabeça.
— Não, nenhum deles… a maioria é criança, afinal, então…
— Ainda precisaremos falar com eles para garantir que realmente não saibam de nada. Porém, não se preocupe, principalmente com as crianças, elas ficarão bem.
— M-mas como sabe que tudo vai ficar bem…? Somos Elfos, mas somos um clã especial… Por séculos, nós… servimos um monstro que pensávamos ser um deus, simplesmente devido à quantidade exorbitante de poder que ele tinha… Mas na verdade era apenas um Nobre que achava divertido ser tratado como um deus, apesar de ser… — disse Gabria, e Eiro levantou as sobrancelhas, surpreso.
‘Um Nobre?’ Eiro se aproximou de Gabria e analisou seu cheiro em mais detalhes.
Como antes não se importava a que tipo de monstro pertencia a linhagem no sangue dela, já que não era importante, ele não deu atenção. No entanto, uma coisa se tronou muito clara quando analisou o cheiro. Era o cheiro de um Demônio. Não parecia que o sangue de Demônio em Gabria estivesse se manifestando, mas isso não importava agora.
Embora ele não fosse o único Nobre ‘Demônio’ que existiu ao longo dos últimos séculos, o fato de isso soar exatamente algo com que ele faia… fez Eiro pensar em apenas uma criatura: <O Diabo>, e o que existia atualmente.
— Você é descendente de <O Diabo>? — perguntou Eiro, e Gabria o olhou para ele, aparentemente incerta.
— E-Eu não sei, talvez? Não tenha ideia de qual Nobre era, mas… um deles é meu bisavô — explicou Gabria.
— Entendo… — respondeu Eiro, terminando de limpar a bagunça que havia causado aqui, enquanto Gabria o encarava, confusa.
— Como você não está assustado com isso…?
Eiro olhou para ela como se fosse estúpida, enquanto Bavet se separou da cabeça do Diabrete.
— Eu mesmo sou um Demônio, o que você quer dizer com ‘não está assustado’?
— S-Sim, mas estamos falando de um Nobre.
— Eu me tornei um Barão porque matei um Nobre, por que acha que eu me assustaria com isso?
—… Você realmente fez isso…? Isso não era apenas uma mentira contada para que o Rei tivesse uma desculpa para transformá-lo em um nobre? — questionou Gabria, e o Demônio resmungou alto enquanto Bavet transformava novamente sua cabeça em sua forma humana.
— Claro que não é uma mentira, eu realmente matei <A Morte>, entendeu? Bom, então só fique quieta e venha comigo, temos que explicar algumas coisas a Solomon — disse Eiro, revirando os olhos. No caminho para o escritório do Rei, Nelli retornou. O Demônio olhou para ela com uma leve carranca. — Onde ele foi?
— Ele está se afastando da cidade, em direção ao norte… ele desapareceu em algum ponto, mas me certifiquei de lembrar da mana dele — disse a Náiade a Eiro, que olhava para ela com um sorriso.
— Obrigado. Parece que ele está tentando fugir completamente — concluiu ele, enquanto abria a porta do escritório de Solomon, sem nem bater. Ele não prestou atenção aos guardas na frente da porta e simplesmente entrou.
Além de Solomon, havia os guardas que Eiro havia enviado para contar ao rei o que havia acontecido, e seu conselheiro aparentemente também foi chamado e veio às pressas para esta parte do castelo.
— Eiro! O que aconteceu lá dentro?! Merlin é- — exclamou Solomon, e Eiro acenou a cabeça.
— Merlin fugiu. Ele está do lado do Rei dos Monstros e trabalhou junto com <O Mago> para roubar algo que muito provavelmente estava escondido dentro da biblioteca da Academia. Seu objetivo era se tornar mais forte, pois sentia inveja dos seus antigos companheiros que alcançaram o grau de Mestre enquanto ele atingiu seu limite — explicou o Diabrete de imediato, respondendo a qualquer pergunta que Solomon pudesse ter por ora.
— E onde e-
— Ele escapou para o norte, e eu presumo que ele não retornará em breve. Eu ainda posicionaria mais guardas ao redor das torres de vigia e os faria reportarem qualquer situação anormal que ocorresse no perímetro da muralha externa — disse Eiro, quando o conselheiro finalmente chegou no cômodo. Antes mesmo que ele pudesse falar, Eiro se virou para ele.
— Você, reúna imediatamente todos os membros do corpo docente da Academia para interrogatório. Isso inclui principalmente professores, chefes dos guardas e aqueles que trabalham na biblioteca — comentou Eiro. — Por precaução, crie uma ‘Missão de evento’ na Guilda dos Aventureiros para incentivar aqueles vagando do lado de fora da muralha reportaram qualquer atividade incomum ou suspeita.
O conselheiro olhou confuso para Eiro.
— O que, por que eu deveria fazer isso?!
— Porque aventureiros normalmente possuem conjuntos de habilidades mais especializados do que os guardas para coletar informações mais precisas e de forma mais eficiente. Eles conhecem o exterior das muralhes melhor do que os guardas e serão capazes de dizer se algo está estranho. Mais importante, porque fui em quem disse — respondeu Eiro. Em vez de lutar com ele, o conselheiro olhou para Solomon, que rapidamente acenou com a cabeça.
— Faça exatamente o que Eiro lhe disse — disse o Rei, e o conselheiro cerrou os dentes enquanto se virava.
— Ah, antes de sair, também ligue para o dono da livraria que eu vou te informar — adicionou o Demônio enquanto escrevia o endereço em um pequeno pedaço de papel e o entregava ao conselheiro.
Rapidamente, ele se virou e saiu, antes que Eiro olhasse para os guardas que havia mandado avisarem Solomon.
— Vocês podem sair. Ou melhor, devem sair. Gabria e eu precisamos falar com Solomon em particular — ordenou o Diabrete, antes que os guardas saíssem sem discutir. Eiro olhou para o Rei e começou a explicar toda a situação. Ele não escondeu nada sobre Merlin, sua própria relação com ele ou o fato de Gabria ser uma descendente direta de <O Diabo>.
Solomon ficou em choque, em completa e pura descrença.
— M-mas como… Por que Merlin…?
— Como eu disse, ele desprezava as ‘Pessoas’. Não sei exatamente o porquê, mas sei a quem posso perguntar, então vou fazer isso e te mantenho informado. Agora, eu já perguntei para Gabria algumas das dúvidas que eu tinha, então você também pode perguntar o que quiser. Tenho bastante certeza de que ela deseja genuinamente ajudar a resolver esta situação, já que ela não queria fazer tudo isso em primeiro lugar. Tal situação foi simplesmente imposta a ela.
—… Entendo. Mas ela ainda cometeu traição. Não posso deixá-la impune por isso — comentou Solomon, e Eiro assentiu.
— Claro. Mas ainda peço que aplique uma punição que leve em consideração a situação dela e a dos outros sobreviventes de sua aldeia.
— Hmm… Pensarei em algo. Até lá, você está presa e vamos prender os outros em sua aldeia. No entanto, não se preocupe, contanto que eles não tenham conspirado com você ou Merlin, nenhum mal será causado a eles. Isso é algo para protegê-los — disse Solomon em um tom sincero, e a Elfa olhou para os dois homens, completamente confusa. Eles foram os primeiros que não pareciam se importar nem um pouco com o que ela era.
Um Monstro e um Humano, parados lado a lado, trabalhando juntos para alcançar um objetivo em comum. Ou melhor, eles eram amigos. Gabria não sabia como algo assim era possível, mas era… Ela sentia que, talvez, houvesse uma pequena possibilidade de que ela e seus amigos pudessem encontrar a paz aqui neste país.
…