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Warlock Apprentice – Capítulo 356

Encontro Numa Noite de Neve

Angor passou quase a noite toda procurando por uma pista e, finalmente, encontrou um livro que descrevia como um grupo de curandeiros salvava vidas em tempos antigos. Provavelmente para homenageá-los, todo médico carregava um cajado brilhante adornado com um objeto em forma de serpente.

Havia até sequências de imagens que narravam um episódio histórico. Um homem portando o cajado da serpente viu uma “nuvem brilhante” como um presságio, o que o levou a uma cidade assolada por uma doença grave. Ele foi até lá e conseguiu salvar os pacientes que sofriam.

Se não fosse superstição, Angor teria presumido que a “nuvem brilhante” era algum tipo de feitiço de cura em larga escala.

A imagem da “serpente no cajado” apareceu novamente no final do livro.

Desta vez, não se tratava de uma ferramenta médica, mas de uma estátua gigantesca situada no centro de uma praça, onde vários médicos, trajando vestes de cura, prestavam-lhe homenagens.

Abaixo da imagem, que retratava uma cena solene, havia uma frase escrita.

[Juramento do Médico]

O juramento do médico declarava que ele ou ela jamais abandonaria um paciente nem demonstraria desrespeito pela sua profissão.

No entanto, Angor ficou ainda mais confuso ao observar a imagem. De acordo com as ilustrações anteriores, o cajado era uma ferramenta de trabalho para os médicos. Mas, no final, ele havia se transformado em um símbolo de crença…

Ele supôs que houvesse existido um mago curandeiro, aclamado pelas pessoas que salvara. Após sua partida, o povo transformou suas histórias em lendas e, gradualmente, passou a considerar sua marca — o cajado da serpente — como um símbolo espiritual para os médicos.

Essa era a suposição mais plausível que Angor conseguiu imaginar.

No entanto… O que isso tinha a ver com Akeso? E com Pocratee?

O livro apresentava apenas informações sobre a mitologia antiga. Não havia nenhuma cobra real, nem qualquer significado oculto associado ao símbolo.

Além disso, Angor não descobriu nada sobre Pocratee, que era sua maior dúvida a respeito do assunto.

Tendo perdido seu tempo, Angor apenas suspirou, frustrado. Ele recolocou os livros no lugar e saiu silenciosamente da sala.

Ao retornar à praça externa, surpreendeu-se ao ver a neve caindo do céu.

Ele passou a infância em uma região litorânea com clima moderado, e o mundo dos espelhos sempre mantinha temperaturas agradáveis. Ele já havia visto campos nevados nas Terras Altas de Parmigi antes, mas esta era a primeira vez que via neve longe de casa. Mal se lembrava da época em que viu neve na capital do Império Rosa Dourada quando era criança. Reviver aquele clima incrível fez com que se sentisse extremamente reconfortado.

Parecia que a neve ao seu redor isolava todos os ruídos e incômodos. Com o espírito sereno e relaxado, Angor caminhou lentamente de volta pelo caminho por onde viera.

Cada estação tinha seu símbolo. Angor acreditava que aquela neve pura e sagrada era o símbolo do inverno. Seu sobretudo encantado sempre o protegia das variações de temperatura, mas, agora, os flocos de neve que flutuavam no ar finalmente o lembravam de que o inverno havia chegado.

Ele pensou em sua família, distante dali. Pensou em Leon e em Jon.

Ele partiu de cidade de Grue justamente durante o Mês da Terra Congelada. Naquela época, ele seguiu Mara e entrou em um mundo totalmente novo e incrível.

Dois anos já haviam se passado.

Dois anos não era muito tempo para magos, mas era para Angor, pois ele não havia se tornado forte o suficiente para proteger sua família ou salvar Jon.

Para piorar, ele nem sequer sabia onde estava naquele momento.

Ele vinha se consolando com a ideia de que retornaria em breve. Mas… será que conseguiria mesmo?

O Jardim da Purificação estava prestes a abrir. Será que ele chegaria a tempo?

Angor balançou a cabeça para afastar as preocupações aleatórias que poderiam influenciar suas decisões.

…

À medida que a noite escurecia, mais neve caía suavemente.

Angor não ativou o Campo de Purificação e deixou que os flocos de neve pousassem sobre ele. Em vez de lhe causar frio, aquelas delicadas partículas, derretendo-se em seu ombro, de certa forma acalmavam sua mente.

Através da cortina de veludo branco, ele viu uma loja no fim da rua que ainda estava iluminada.

Era uma pequena clínica, que ele já havia notado a caminho da biblioteca. Pela janela embaçada, via-se o interior com salas estreitas, lamparinas a óleo brilhantes e mesas e cadeiras simples. Uma jovem médica bebia algo quente enquanto observava a neve cair através de seus óculos embaçados.

Angor parou brevemente diante da janela, e a jovem médica logo o notou. Ela tirou os óculos e ofereceu a Angor um sorriso gentil.

Por instinto, Angor quis abaixar o chapéu e ir embora. Mas, ao lembrar do “Juramento do Médico” que acabara de ver na biblioteca, ele acenou com a cabeça para a mulher e entrou na clínica.

A médica ficou um pouco surpresa. Ela pousou a bebida e foi até a porta.

“O tempo está piorando. Entre e tome um chá.” Ela notou que o homem, que vestia um traje peculiar, não parecia ter a intenção de entrar até um instante atrás. Ele também não parecia doente. Ela presumiu que ele estava ali apenas para se proteger do frio.

Ela rapidamente pegou outro copo e serviu chá quente para Angor.

Angor pensou em recusar, mas mudou de ideia ao sentir o aroma de leite.

“Desculpe, só tenho chá com leite aqui porque eu adoro.” Ela parecia um pouco sem jeito. “Por favor, experimente. É de Winton; uma bebida perfeita para se aquecer neste inverno rigoroso.”

Angor hesitou um pouco antes de aceitar o copo.

Em vez de beber imediatamente, ele colocou o copo sobre uma mesa. Depois, tirou a cartola e sorriu para a mulher.

A mulher percebeu que acabara de chamar um adolescente de “senhor”. E um adolescente muito bonito, por sinal. O rapaz a fez lembrar de alguém que ela amara quando ainda estudava na academia. Ela imaginou quantas mulheres se apaixonariam por ele quando crescesse.

Então, ela balançou a cabeça, lamentando ter perdido mais uma chance perfeita de romance.

“Sou Sherry, a médica-chefe da Clínica Sherry. Acho que a neve pegou todo mundo de surpresa. Que tal passar a noite aqui até o tempo melhorar um pouco?”

Angor assentiu. “Doutora Sherry, a senhora se formou na Cruz Dourada?”

Sherry pareceu surpresa com a pergunta. Em seguida, falou enquanto corava um pouco.

“A Cruz Dourada é a melhor academia que um médico pode almejar no Domínio de Zeal. Eu nunca fui boa o suficiente para ser admitida. Eu vim de Folan. Não é tão famosa, mas mesmo assim já formou muitos médicos excelentes. A senhora Caroline, que acabou de chegar a Água Grasse, também já foi aluna em Folan.”

Angor assentiu com indiferença. Ele apenas queria puxar assunto.

“Ouvi dizer que todos os médicos precisam fazer um juramento quando se formam. Você poderia me contar algo sobre isso, senhorita Sherry?”

Sherry não sabia ao certo por que aquele cavalheiro perguntara algo assim. Como não era nada confidencial, ela aceitou conversar sobre o assunto de bom grado, para passar o tempo.

“Não esperava isso de um jovem viajante. Você também pretende estudar medicina?”

Angor apenas deu um sorriso gentil.

Sherry pensou consigo mesma:

Como um garoto consegue transmitir tanto carisma com um simples sorriso…’

“Você tem razão. Existe um ritual quando deixamos a escola e ingressamos oficialmente na profissão. Também o realizamos ao entrar na academia. E ainda me lembro daquelas palavras…”

Sherry recitou seu juramento.

Soava quase igual ao que Angor lera no “Juramento do Médico”. No entanto, a versão dela trazia uma linha a mais: “Desconsiderar a teologia”.

Angor estreitou os olhos ao ouvir esse detalhe interessante. Mesmo a civilização altamente desenvolvida da Terra, que se baseava na ciência, não “bania” completamente as mitologias de seus livros. Certos cientistas chegavam a declarar que o fim da ciência era a teologia.

Era muito interessante como o mundo mágico, que na verdade possuía “poderes não científicos”, afirmava renunciar à teologia em um juramento.

“Doutora Sherry, compreendo que os médicos devem ser responsáveis perante seus pacientes e a si mesmos. Mas por que eles se distanciam da teologia?”

“Porque deuses e divindades servem apenas para enganar as pessoas comuns. Não existem deuses neste mundo, certo? Se um paciente acredita em deuses, como devemos tratá-lo? Meu mestre certa vez me disse que a teologia desafia o verdadeiro trabalho dos médicos.”

Angor assentiu. Ele concordava parcialmente com Sherry. Era verdade que os governantes sempre precisavam de algo para controlar as massas, como crenças, padrões morais e leis. E Sherry tinha razão ao dizer que pacientes crentes em deuses às vezes rejeitavam médicos de verdade.

Mas ele não achava realmente que a teologia corromperia a medicina.

Para Angor, a teologia não significava necessariamente religião, mas sim algo além da compreensão humana. Deuses e demônios eram apenas símbolos imaginários criados pela humanidade para representar o bem e o mal.

No fim das contas, a teologia buscava o “desconhecido”. Algo desconhecido não poderia, de forma alguma, “desafiar” os médicos. O juramento parecia um tanto extremista nesse ponto, mas ele não pretendia discutir isso com Sherry.

“O Senhora acredita em algum fenômeno sobrenatural neste mundo, Doutora Sherry?”

“Eu… acho que não?”

Angor assentiu e encerrou o assunto ali.

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