SSS-Class Suicide Hunter – Capítulo 206

Easter Egg (2)

“Entendo. Não passou de um mal-entendido então.” Depois de ouvir minha explicação desesperada, Raviel acenou.

Estávamos em um fast-food. Eu queria ir para um café, mas a linha do tempo dessa [história secundária] passava no passado. O tempo onde cafés iriam ser espalhados por todo o país como ervas daninhas ainda estava bem, bem longe.

Infelizmente, isso significava que não havia muitos lugares para sentarmos e conversarmos.

“Bem, eu devia saber que você nunca ficaria com outra pessoa. Na verdade, escutar que as leis da física foram desmentidas faria mais sentido. Acabei exagerando por um momento.”

“Não. Fico feliz que acredite em mim…” Honestamente, pensei que o mundo iria desmoronar.

“Na minha opinião, a Mestra Dragão Negro é uma pessoa capaz. Mesmo que ela tenha nascido no Império, não duvido que teria se tornado uma nobre. Ser amigo de uma pessoa como essa é uma decisão sábia. Você é bastante sortudo. Apesar de que…” Raviel semicerrou os olhos enquanto olhava para a janela frontal da loja “Nunca imaginei que você voltaria com uma criança goblin.”

Do lado de fora, Uburka estava em pé com os braços cruzados e de costas para nós. Embora o gigante hobgoblin estivesse parado no meio da cidade, as pessoas não pareciam estranhar nenhum pouco a sua presença. Alguns pareciam surpresos com o seu tamanho, mas ninguém o reconheceu pela sua raça.

“Tem algum tipo de feitiço de alteração de percepção na gente?”

“Talvez.”

Raviel mexeu o copo com Coca-Cola, fazendo os cubos de gelo se chocarem.

“As roupas que estou vestindo são bem diferentes das outras pessoas. Normalmente, isso iria me destacar na multidão, mas apesar deles estarem lançando olhares para o meu rosto, ninguém parece ligar para a minha vestimenta.”

A mulher estava usando um vestido no estilo do Império. E ainda assim, o atendente não demonstrou reação a isso mais cedo. Mesmo que a beleza estonteante da Raviel fosse o suficiente para abalar o mundo.

“A conclusão é óbvia. Aos olhos deles, parecemos estar vestidos com roupas normais.”

“Uma alteração da percepção em escala… que ridículo.”

“Isso apenas significa que a pessoa que deu a você essa oportunidade é onipotente. Você tem o talento de ser apreciado pelos poderosos, Gong-ja.”

“Haha.”

No restaurante, os clientes de todos os gêneros e idades continuavam  a olhar para Raviel. Isso mostrava que a alteração funcionava para a vestimenta, mas a nossa aparência ainda era a mesma.

Se estivéssemos numa era com smartphones, eles poderiam estar tentando tirar fotos escondidas de nós.

“Traga essa criança que chama de filho aqui.”

“Tá tudo bem mesmo?”

“Sim. Mesmo que ele não seja o seu filho biológico, a relação que construíram é sincera. Nunca se sabe. Posso até reconhecê-lo como membro do Ducado de Ivansia.”

Ela raramente fazia esse tipo de favor. Antes que o Duque mudasse de ideia, me levantei e fui buscar o goblin.

Uburka tomou duas cadeiras ao sentar. Ainda de braços cruzados, ele olhava de cima para a mulher, que era muito menor do que ele.

O silêncio reinou.

O que estava acontecendo? Por que só eu estou nervoso?

“Cabelos prateados como a luz da lua, e olhos vermelhos como os lírios do vale.” Por fim, o hobgoblin quebrou o silêncio. “Olhando pra você, me lembro de alguém de uma lenda. Ugor. É a Raviel Ivansia?”

“Hoh. Apesar da sua aparência, você usa bem as palavras.”

“Estou apenas repetindo as palavras que o papai me disse.”

“Gong-ja falou sobre mim no seu mundo?”

“O papai criou cinco lendas. A quarta é sobre você, Raviel Ivansia. O lírio prateado. A lua cujo coração foi roubado por um espelho. Não há um goblin que não a conheça.”

“Hmm.” Os cantos da boca da mulher se ergueram, o que me fez relaxar um pouco. Segurando o pequeno canudo, ela lentamente começou a mexer a bebida.

“Ouvi dizer que você é uma Constelação.”

“Ugor.”

“Já fui uma também. Não porque quis, mas não fez mal ter o mundo girando em torno de mim. Você está em um nível completamente diferente dos outros. Não acha estranho ter o Gong-ja como o seu pai?”

“Essa é uma pergunta estúpida. Mesmo quando os goblins eram bestas imaturas, o papai fez o seu papel como nosso pai. Relações não são formadas baseadas em níveis, mas quando você desconsidera tais diferenças.”

“Você não tem dignidade?”

“Ugo. Dignidade precede qualificações. O papai merece isso. Na verdade, não sei de nenhuma outra pessoa além dele que tem o direito de ser honrado pela raça goblin.”

“Uhum.” Ela concordou.

Quando eu, aquele que a amava, vi isso, soube que era um bom sinal. Mais do que isso, esse cara sempre agia como uma criança perto de mim, mas agora estava mantendo uma atitude madura. Que diferença era essa? Isso me fez sentir triste. Isso que dava criar filhos…

“Como vocês se conheceram…?”

“Ugor, foi na guerra que estourou no Império Slime…”

Logo, os dois engajaram numa conversa amigável. Sem mim.

A tristeza me dominou por ser ignorado tanto pela minha esposa quanto pelo meu filho, ao mesmo tempo. Esse era o sofrimento de um pai de família…

‘Hein?’ Olhando para a janela ao lado, minha atenção foi capturada por um pedestre que passava. Ao vê-lo, fui pego por um estranho déjà vu. “….?”

À primeira vista, o que me fez virar o rosto foram as roupas da pessoa, que usava um uniforme do Colégio Shinseo. Mais especificamente, aquele era o uniforme da Escola Secundária.

Os estudantes de lá estavam entre aqueles que fizeram bullying com Kim Yul. Independente de gênero. Talvez essa seja a razão de eu ter conseguido identificá-lo na multidão.

‘Nunca vi esse aluno antes.’

Teria sido apenas um déjà vu?

Quando maximizei a minha visão com a aura, notei vários pontos estranhos naquela pessoa. Primeiro, o cabelo.

‘Loiro.’ Não era pintado, parecia ser a cor natural do cabelo. Sempre que caminhava na calçada, o seu cabelo balançava pelo vento.

Achei que poderia ser um estrangeiro, mas considerando o fato de estar vestido com o uniforme da escola, aquela possibilidade era muito pequena.

‘A roupa dele está suja e… ele tá carregando uma pasta?’ O sujeito não tinha uma mochila escolar. Em vez disso, carregava uma pasta semelhante a aquelas que funcionários de escritórios levavam. O objeto estava velho e desgastado. O couro estava quase descascando. Era seguro afirmar que já tinha passado do ponto de ser jogada no lixo.

A última coisa que notei foi…

‘Ele marcha firme.’ Não havia hesitação nas suas passadas, nem mudanças de direção. Aquele fato sozinho já era o suficiente para me deixar desconfiado.  ‘Ele não mudou o passo desde o começo.’

Não seria tão difícil fazer aquilo se tivesse treinado o seu corpo e seus movimentos até certo nível, mas o jovem não mostrava nenhum sinal de praticar exercícios físicos, pior, traços de aura. Em vez disso, parecia fraco se comparado a  pessoas da mesma idade.

O garoto passou em frente ao fast-food a passos lentos. E por um momento, nossos olhos se encontraram.

O tempo pareceu ir mais devagar. Não, não era o tempo que tinha mudado. A expressão dele era totalmente nula. Como se nunca tivesse demonstrado qualquer sentimento desde que nasceu. O seu rosto era uma escultura perfeita, mas os seus olhos…

Os seus olhos eram de um infinito transparente.

O mundo estava em meio ao verão, mas aquele jovem não parecia ser afetado pelo calor das ruas ou os suspiros nervosos das pessoas. Era o tipo de transparência que não tolerava impurezas.

VRUMMM—

O motor de um carro roncou a distância. O sinal piscou na interseção. Mesmo a visão da luz amarela se tornando vermelha não refletia em seus olhos. Era o mesmo ritmo, a mesma caminhada. Como um ser absoluto passeando através do mundo.

Os seus [passos] eram a única prova da sua existência naquele mundo.

Mas ele não era um transeunte. Ele era alguém que podia rejeitar o mundo inteiro apenas caminhando. Uma vez em um passo; duas vezes em dois; três vezes em três, quatro…

Era interminável.

“Gong-ja?”

De repente, percebi que tinha levantado do meu lugar.

“O que foi?’

“Desculpe.” Os dois pararam de conversar e olharam para mim. “Esperem aqui um instante, preciso sair.”

Enquanto me desculpava, mantive meu olhar fixo  nas costas do jovem que estava se distanciando.

“Irei deixar minha aura aparente, assim poderão me seguir depois, Uburka deve ser capaz de fazer isso facilmente.”

“Papai?”

“Filho, cuide da Raviel.” Depois dessas palavras, corri para fora do restaurante.

‘Pra onde ele foi?’

O pedestre estava cruzando a rua. O sinal tinha mudado para verde, mas já estava começando a piscar, apressando aqueles que atravessavam.

VROOOM—

Já que estávamos no verão, não havia muitas pessoas na rua, e apenas uma pessoa caminhando sobre a faixa. Apesar de ainda estar aberto para os transeuntes, os motoristas ignoravam o sinal. Os carros dirigiam na estrada, atrás e na frente do pedestre solitário.

‘Quando… de onde o conheço?’ Eu o segui. ‘Quando visitei o Colégio Shinseo?’

O jovem adentrou um beco.

‘Não. Eu não teria esquecido de um estudante que caminha desse jeito, Mesmo que tivesse o visto apenas uma vez, teria lembrado.’

As árvores alinhadas na rua faziam sombra nela.

‘Essa é a primeira vez que estou vendo ele. Então, por quê…?’

O sol brilhava alto no céu. O limite entre os lugares ensolarados e sombreados era bem definido. Enquanto o pedestre caminhava debaixo da sombra, ele parecia uma miragem, tentando escapar da estação.

Chirp chirp. 

Os grilos cantavam.

‘Quem é ele?’

Tump.

O estudante parou no meio da sombra. Não tive escolhas a não ser parar também.

Ele lentamente deu a volta.

Senti de imediato uma atração invisível. Naquele curto momento em que se virou, senti como se o tempo estivesse mais lento novamente. Parei de respirar e meus pensamentos ficaram acelerados.

Nesse tempo desacelerado, fragmentos de memórias começaram a fluir.

[Quero aprender como as torres são construídas.]

A Paladina disse antes de entrar no 35° andar.

[Precisa haver alguém vivendo a vida mais infeliz naquele mundo.]

A voz da Senhora respondeu.

[A Torre é construída pelo Mestre. O Mestre vive em prol da vida pessoa mais infeliz no mundo. A Torre é construída em um mundo onde o Mestre já viveu e morreu. Mundos sem Torres são aqueles que o Mestre ainda continua vivo.]

Meu nariz sentiu algo quando ele se virou. Um certo odor que eu conhecia.

[Estou indo pra escola um pouco mais cedo hoje.]

Kim Yul

[Preciso ir para a fazenda e alimentar os coelhos.]

O cheiro dos velhos animais alimentados que estavam no armazém há bastante tempo.

[A propósito, não temos mais um clube de cuidado aos animais. Os Representantes de classe da Escola Secundária são encarregados de se revezar para alimentá-los, mas… nenhum aluno quer fazer esse tipo de coisa, não é? Então o guarda, eu…]

[E alguns estudantes estamos nos revezando para fazer a tarefa.]

Uma Torre tinha sido construída no nosso mundo.

Se as palavras da Senhora estivessem corretas, isso queria dizer que o Mestre da Torre tinha vivido no nosso mundo antes. Em prol da pessoa mais infeliz existente.

Então, isso significa que alguém tinha sido mais infeliz do que Kim Yul.

[Kim Gong-ja.]

Então, era isso.  As palavras do representante de classe ressoavam na minha mente novamente.

[Você o chamava de perdedor do 2° ano da Shinseo ou coisa assim.]

O pedestre olhou para mim. Eu estava debaixo do sol e ele na sombra. Havia um espaço, uma lacuna. O choro das cigarras era a única coisa que preenchia o vazio entre nós.

“Quem é você—?”

Um choro incessante. Apenas depois dele ter aberto a boca que eu percebi a verdadeira origem do sentimento de déjà vu. Era a voz que eu apenas tinha escutado na Torre.

“E se possível…”

“….”

“Me explique por que está me seguindo.”

O Mestre da Torre.

O Mestre de Manseng estava olhando para mim.

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