— Garoto, por mais que eu admire suas bolas gigantes, estou preocupado que essas mesmas bolas pendulares estejam bloqueando sua visão, cegando-o.
Essa não é uma boa ideia.
— Em uma reviravolta inesperada, me encontro concordando com o crânio — disse Yor. — Há muitos riscos envolvidos. Esses poderes estão muito além da sua compreensão. Talvez algum dia você consiga falar com seres como esses, mas esse dia ainda está longe.
Tyron derrubou a bolsa que estava vasculhando e virou o rosto para seus companheiros, com a testa franzida de raiva.
— Então o que vocês esperam que eu faça? — disse ele, com sua voz afiada e ríspida. — Eu não tenho tempo ilimitado, como você continua me dizendo, preciso me apressar, mas como? Preso no meio do nada, sem nada para caçar, incapaz de me mover sem ser pego. Se eu não avançar estou morto, mas eu não posso fazer nada.
Era incomum que as palavras de Tyron fossem tão duras, e ficou claro, até mesmo para Dove, que ele estava gradualmente perdendo suas emoções humanas, que ele estava prestes a sucumbir à pressão.
Recuar para esta caverna e avançar sua Classe havia sido um passo necessário, e um marco importante, mas também uma armadilha. Como o jovem Necromante havia dito, ele estava preso.
— Entendo o que você está dizendo garoto. Realmente entendo. Mas se vai correr riscos para sair desta situação, então eu posso sugerir alternativas menos perigosas. Por exemplo, correr nu pela planície com uma placa dizendo “Necromante” pendurada no pau.
Yor encarou o crânio.
— Isso não seria…?
— Tão vermelho e tão duro quanto um Cajado de Madeira de Ferro, sim. Seria um desafio, mas acho que o garoto conseguiria. Ele está à altura da situação. Na verdade, a experiência pode até endurecê-lo um pouco. Deixando-o saber que o mundo real não vai deixá-lo entrar sem resistência.
— Isso é divertido para você? — questionou Tyron, com raiva fervendo em seu tom.
— Não! Desgraça, não tem graça nenhuma! Você entende que o que está propondo é obscenamente perigoso, certo? Meu cadáver está a centenas de quilômetros e ainda o sinto se aproximando cada vez mais da porta.
Os olhos do crânio brilharam com uma luz roxa.
— Estou falando muito sério quando digo que tentar atravessar a planície e evitar ser capturado é menos arriscado do que isso. Você deveria considerar com seriedade.
— Mesmo se eu conseguisse atravessar, para onde iria? — perguntou Tyron, cansado.
Ele já havia considerado isso. Ele considerou tudo, esta era sua última escolha, não a primeira. As possibilidades diminuíam a cada hora como areia escorrendo por entre seus dedos. Se conseguisse passar furtivamente pelos Exterminadores e marechais espalhados pela planície, poderia então viajar para outra Fortaleza de Exterminadores e tentar a sorte caçando criaturas das fendas perdidas. Só que isso simplesmente demoraria muito.
Esqueça a dificuldade de esconder seus mortos-vivos, tanto durante a jornada quanto depois de chegar, ou se ele teria caça suficiente para subir de nível, ele nunca chegaria lá. Seus pais eventualmente seriam obrigados a buscá-lo, era apenas uma questão de quando. Ele tinha que agir como se tivesse menos de um mês.
— Qualquer outra fenda da província está muito longe para eu alcançar a tempo, como bem sabem — continuou ele —, eu não tenho escolha. Preferia não fazer isso, acreditem em mim, mas o que mais posso fazer? Não estou tentando me aliar ao Abismo, mas se, de alguma forma, eu puder negociar com eles, eles podem acabar me fornecendo uma resposta que me ajude. É uma escolha desesperada, eu sei, mas eu estou desesperado. Sem me entregar aos Deuses Antigos ou me transformar em um vampiro, não vejo outra saída.
Ele estava claramente frustrado. Tyron não queria ter que confiar em seus patronos, se pudesse evitar, mas as circunstâncias o obrigavam a recorrer a eles. Se algum dos três tivesse informações que pudessem ajudá-lo, seria o Abismo, e com o espírito de Davon aprisionado na pedra em seu bolso, ele tinha algo que poderia usar como pagamento sem ser sua servidão eterna.
— Minha presença pode ajudar, de certa forma — disse Yor —, mas está longe de ser uma proteção garantida. O Abismo não é conhecido por seguir regras ou etiquetas. As entidades que você busca podem despedaçá-lo no instante em que o virem.
— Mas você não? — questionou Tyron, estreitando os olhos.
— Não. Eu tenho meios de me proteger, mesmo naquele lugar. Eu não arriscaria a eternidade por você, Tyron.
Ele resmungou. Isso fazia sentido. A vampira estava feliz por tê-lo em dívida, mas não o suficiente para fazê-la se arriscar de forma desnecessária. Ele pensou em como ela havia intervindo para salvá-lo dos Sombrios. Ela estava com medo deles, embora tivesse escondido muito bem. Com a proteção de sua Senhora, Yor foi capaz de negociar com criaturas muito além do seu poder. Foi exatamente essa demonstração que o convenceu de que seu plano atual era possível.
— Bom. Vou preparar o ritual. Ele ficará pronto em duas horas, então prosseguiremos.
— Esse tempo é realmente suficiente para você? — perguntou Yor, arqueando uma sobrancelha elegante.
Tyron assentiu.
— Claro. Já realizei esse ritual antes, sei como ele funciona. Dito isto, tenho algumas ideias sobre ele. Dove? Está disposto a me ajudar com algumas coisas ou vai ficar de mau humor?
— Pelos peitos enormes da Santa Mãe, garoto. Você realmente sabe como testar a paciência de uma pessoa. Estou morto e você ainda consegue me irritar. Sim, eu te ajudo. Só quero que saiba que não estou feliz com isso. Você provavelmente está certo em fazer isso, mas, por minha própria cabeça de ossos brilhantes, eu não gosto disso.
— Tudo bem.
Ele se aproximou e pegou o crânio.
— Vamos trabalhar.
Pelas próximas duas horas, ele discutiu com Dove enquanto montava o círculo ritualístico. Várias vezes, o antigo Invocador o criticou por sua mão firme e olho perfeito, chegando até a tentar distraí-lo em alguns momentos importantes, para grande irritação de Tyron. Apesar de sua afinidade com tais tarefas, ele ainda era humano. Ele foi forçado a fazer correções várias vezes, perdendo um tempo valioso.
Apesar disso, para sua satisfação, o círculo foi concluído dentro do tempo alocado. Ele ainda carecia dos materiais para realizar o trabalho de maneira adequada, então desenhou o círculo na poeira de novo, mas, pelo menos desta vez, tinha experiência a seu favor. Com seu foco ritualístico e as modificações que havia feito, estava confiante de que ficaria seguro, particularmente com Yor ao seu lado.
A vampira observou ao lado enquanto ele conjurava o feitiço, um processo longo e difícil que exigia toda a concentração que ele conseguia reunir.
Quando terminou, a ruptura no véu pairou diante deles, uma perturbação no ar, como se uma pedra tivesse caído em uma lagoa diante dele.
Junto com a fenda vieram as vozes, suaves a princípio, cutucando sua mente enquanto sussurravam verdades enlouquecedoras.
Tyron apertou o foco ritualístico em uma mão, segurando-o em sua frente como uma proteção, enquanto o círculo brilhava sob seus pés. Ao lado, Dove observava enquanto a fenda começava a expelir pura escuridão, membros de matéria retorcida se projetando em uma realidade que jamais deveria tê-los contido.
Um abissal. Mesmo morto, Dove sentiu um arrepio de medo em sua alma. Tal criatura estava além de perigosa e ele jamais desejaria estar tão perto de uma, nem em sua vida, nem na vida, nem além dela.
— Bolas… — murmurou ele, sem ter nada melhor a dizer.
Uma carranca se formou no rosto de Tyron enquanto ele lutava com as vozes, incapaz de ver o perigo se aproximando. Antes que os tentáculos o encontrassem, Yor estava lá, com a mão levantada, apontando sua palma, projetando uma onda de luz vermelho-sangue. O abissal reagiu quando foi tocado pelo brilho maligno. A princípio, ele retraiu, como um animal cutucado inesperadamente, recuando para a fenda. Depois de um momento, avançou de novo, com incontáveis tentáculos flutuando e ondulando em direção ao brilho.
‘Ela está se comunicando com ele’, pensou Dove, maravilhado. ‘Isso não deveria ser possível.’
Ele olhou para a vampira novamente. Apesar do que sabia sobre ela, o que admitia não ser muito, ele não pensava muito da sociedade que ela alegava representar. Ela havia feito muitas promessas, mas não havia entregado nada tangível em termos de conhecimento magiko ou habilidade. Mas aqui, agora, estava a evidência do que ela e, por extensão, seu povo eram capazes. A capacidade de navegar e se comunicar com o Abismo… era impressionante. O que eles poderiam aprender? Que mistérios eles haviam desvendado?
Ele ansiava por conhecimento. Reconhecendo esse instinto em si mesmo, mas fez o possível para ignorá-lo. Ele estava morto e permaneceria assim. Se o deixasse se absorver em sua busca pela magika, fracassaria na única razão pela qual ainda permanecia neste plano: ajudar o garoto.
— Consegui a passagem — disse Yor, fazendo Tyron abrir os olhos de repente. — Você está pronto?
O jovem Mago engoliu em seco e assentiu lentamente, era evidente que ele ainda estava perturbado pelas vozes incessantes.
— Leve-me com você — disse Dove de repente.
Tyron olhou para o crânio antes de se abaixar e retirá-lo de um banquinho próximo com uma das mãos.
— Mudou de ideia? — perguntou ao amigo.
— Na verdade não, mas esta é uma oportunidade de ver algo que jamais imaginei ver. Além disso, não quero ficar preso nesta caverna com uma fenda assustadora no véu da realidade pairando na minha frente.
Embora não quisesse dizer isso, o Necromante ficou profundamente reconfortado com a presença de Dove. Ele respirou fundo e meneou a cabeça para afastar os sussurros, então se virou para Yor e assentiu.
— Estou pronto.
De repente, ela sorriu, revelando suas presas pontiagudas, antes de se virar para a fenda e começar a atravessá-la, projetando a luz vermelha à sua frente.
À medida que ela avançava, o abissal recuava, retraindo seus membros pela fenda.
Assim que a vampira entrou em contato com o véu, sua figura ficou borrada, se tornando indistinta e fragmentada perto das bordas, como uma tapeçaria se desfazendo. Tyron engoliu em seco e avançou atrás dela, evitando com cuidado o círculo de poeira.
O que viu além do véu era… nada. Escuridão, um vazio absoluto e completo que se estendia até a eternidade. Ele virou a cabeça para olhar para trás e descobriu que podia ver seu próprio ritual, uma pequena fenda no nada infinito, a luz tremeluzente da caverna além.
Agora, as vozes ficaram mais altas, insistentes e urgentes, exibindo flashes de imagens e pensamentos em sua mente, como espinhos penetrando diretamente em seus pensamentos. Ele rugiu e se concentrou, usando toda sua disciplina mental para afastá-los. Yor o observou com compreensão nos olhos.
— Não é tarde demais para voltar — disse ela.
— Não — disse ele, com a voz pesada. — Estou bem. Vamos continuar.
Ela assentiu e se virou para a fenda além deles. Com um movimento rápido, ela levou o pulso à boca e mordeu. Do ferimento, um fluxo de sangue escuro e pulsante começou a fluir, subindo de seu pulso e girando pelo ar como uma fita.
Tyron observou, maravilhado, o sangue fluir em círculos, criando uma forma complexa que envolvia a fenda, formando um escudo de proteção que brilhava com poder.
— Isso impedirá que qualquer um dos habitantes deste lugar consiga atravessar a fenda até retornarmos — disse ela —, assim que provam o gosto da liberdade do outro lado, raramente estão dispostos a desistir dela.
— Caralho, nem precisa dizer — comentou Dove, sarcasticamente, mas Tyron percebeu que ele não estava falando sério. Apenas metaforicamente.
— Você está bem, Dove? — perguntou ele.
— Este lugar me dá arrepios, garoto. Você não entende o que estamos vendo, senão estaria como eu.
— Acha que não estou assustado? Pelo menos você não tem vozes em sua cabeça.
— Verdade. Eles não parecem interessados nos mortos.
— Se já terminaram de conversar — interrompeu Yor —, devemos avançar. Não posso te proteger para sempre.
Pela primeira vez, Tyron percebeu que ela parecia enfraquecida, pois havia um leve tremor em seus movimentos e um leve sobressalto em sua voz. Era perceptível que o que ela havia feito por eles estava esgotando-a, massivamente.
— Tudo bem — disse ele —, como devemos prosseguir?
— Apenas caminhe. Quando estivermos longe o suficiente da fenda, aquilo que você busca se revelará a você, mas não poderá se aproximar de uma brecha no véu. Fazer isso danificaria a fenda e o seu mundo.
— Nós andamos? No quê?
Tyron não tinha palavras para explicar o lugar em que se encontrava. Não havia nada para ver, nada para escutar, ainda assim…
Ele conseguia falar, estava de pé sobre… algo, e lá fora, além do alcance da luz que Yor tinha criado, ele conseguia senti-los, os abissais, os circulando, como tubarões observando presas indefesas. Suas vozes eram audíveis, mas mudas, arranhadas nas bordas, como se falassem uns com os outros de perto, mas ao mesmo tempo de longe. Seus olhos giravam sempre que ele tentava se concentrar em qualquer coisa.
E as vozes sempre estavam presentes, sussurrando, insistindo.
— Honestamente não consigo explicar. Caminhe e tente não pensar sobre isso.
Assim fizeram. Hesitante no começo, afastaram-se da fenda, que logo desapareceu na escuridão atrás deles enquanto avançavam pelo vazio. Para ajudar a distraí-lo das vozes, ele iniciou uma conversa sussurrada com Dove sobre o abismo, embora não houvesse nada novo que o Invocador pudesse lhe contar.
Quando a fenda finalmente encolheu quase a ponto de desaparecer, Yor levantou a mão, repentinamente tensa.
Tyron congelou, com os olhos percorrendo inutilmente o ambiente, encontrando nada além de escuridão por todos os lados.
Então a escuridão se moveu.
Sua mente rangeu sob a pressão enquanto tentava processar o que continuava a acontecer ao seu redor, mas falhou. Dove foi mais articulado.
— Puta. Que. Pariu — disse o crânio, com a voz rouca.
A… entidade era enorme além da compreensão. Maior do que uma montanha, maior do que uma cordilheira, ela os envolvia, quase completamente, restando apenas uma pequena abertura até a fenda.
Ainda assim, ele não conseguia vê-la. Não havia nada para ver. Fosse o que fosse, ela não emitia nenhuma luz ou som. O Abismo era o vazio, o lugar entre os lugares, onde nada existia. O ser diante deles era esse nada manifestado, um estado terrível tornado quase real.
— Ele está escutando — sussurrou Yor para eles —, apresente sua oferenda.
Tyron permaneceu paralisado, quase sem ouvi-la. Isto havia sido um erro. Isso era algo que até mesmo os Deuses Antigos respeitavam. O que ele realmente esperava conquistar aqui?
Com as mãos trêmulas, ele retirou a pedra do bolso do seu casaco e a ergueu. Uma oferenda tão insignificante, comparada à criatura à sua frente. Ele não conseguia se sentir mais insignificante, mais inconsequente, do que neste momento. Esta entidade poderia esmagar toda a província ocidental com um golpe, se fosse capaz de tocá-la.
A escuridão ao redor deles se aquietou por um breve instante, então duas coisas aconteceram de uma vez.
Primeiro, a pedra na mão de Tyron se desfez em pó que se dissipou no vazio e desapareceu, consumida. Talvez tenha havido um grito, um lamento de desespero que ecoou ao redor deles, talvez não.
A segunda coisa que ocorreu foi uma explosão de dor lancinante que penetrou fundo na mente do Necromante. Ele jogou a cabeça para trás e gritou entre os dentes cerrados, enquanto imagens eram gravadas em sua consciência, brilhantes demais para compreendê-las.
A agonia foi curta, pois ele não conseguiu suportá-la por muito tempo. Antes que a presença terminasse, ele sentiu suas pernas cederem à medida que a dor diminuía e um abençoado esquecimento o envolvia.
Ele acordou assustado e se encontrou dentro da caverna, encarando Yor, que o olhava solenemente, com uma pitada de preocupação em suas feições esculpidas. Sua cabeça latejava e ele sentia como se seu sangue fervesse em suas veias.
— O que você acabou de fazer foi extremamente perigoso — afirmou a vampira —, espero que tenha conseguido o que queria.
Tyron recostou-se e fechou os olhos. Todo o seu corpo tremia, de alívio, ou choque, ou medo, ele não sabia. Ele tinha sido tão estúpido e, ainda assim, não havia falhado.
Ele assentiu, tremendo. De alguma forma, o ser havia compreendido o que ele precisava, de certa maneira.
No fundo da sua mente, o conhecimento queimava desconfortavelmente. Se ele levantasse a mão e apontasse, poderia identificar com precisão a localização de Monty e os demais bandidos de seu grupo.
…
Nota da Equipe
Hora de farmar XP!