Switch Mode

Book of the Dead – Volume 2 – Capítulo 19

Passos de Bebê

Os esqueletos se moveram com a usual falta de alacridade enquanto lutavam. Um silêncio assustador cercava os lacaios, avançando e cortando as criaturas das fendas sem que um único som saísse de seus crânios brilhantes.

Tyron já estava acostumado com isso, mas de vez em quando se lembrava de quão assustadores seus mortos-vivos eram em combate. Sem dúvidas isso havia funcionado muito bem contra os bandidos; os antigos trabalhadores rurais jamais tinham visto – muito menos lutado contra – algo tão perturbador em suas vidas.

Contra inimigos mais determinados e experientes, não faria diferença. Contra monstros enlouquecidos como as criaturas da fenda, não fazia qualquer diferença. De braços cruzados, ele assistia seus esqueletos lutarem para imobilizar seus inimigos mais ágeis. As criaturas das fendas menores não eram verdadeiras ameaças aos seus lacaios, e o dano mínimo que elas causavam agora poderia ser reparado com a Reparação Óssea, mas os mortos-vivos ainda sofriam para acompanhar o ritmo.

Tyron os observou se atrapalharem até finalmente conseguirem encurralar a última delas e perfurá-la até a morte. No entanto, ele balançou cabeça.

Sem sua interferência e ajuda, seus esqueletos ainda eram lutadores relativamente fracos. Se ele não os direcionasse com seus pensamentos, os fortalecesse com seus feitiços ou utilizasse magika nos oponentes deles, por meio de suas maldições ou ao dominar suas mentes, eles tinham dificuldade até mesmo contra criaturas mais fracas do que ele.

E ele era fraco.

Embora talvez não fosse tanto quanto antes. Ele olhou para as mãos na sua lateral e fechou os dedos em um punho. Agora havia uma força que ele nunca experienciou antes.

Um aumento de dez em todos os seus atributos podia não parecer muito, mas representava quase o dobro em alguns deles. Ele era mais forte e mais rápido do que jamais foi. Mesmo que só um pouco, isso ajudou a equilibrar o quão desproporcional ele havia se tornado, com sua constituição e inteligência muito acima da média.

— Você parece pensativo, garoto. Precisa cagar?

— Só estava pensando quão diferente me sinto depois de avançar.

— É bom, não é? Você pode ser um Mago magricela, mas agora pode chegar perto de qualquer garoto de dezessete anos no Império e quebrar seus braços como gravetos. Também é ótimo para lutadores. Eles recebem um bônus extra em suas capacidades cerebrais para que não sejam completamente estúpidos o tempo todo.

— Também estava pensando em quão fraco meus esqueletos são. Se eu não os ajudar, eles ficam bem decepcionantes.

— Decepcionantes? Você está sendo muito gentil. Eles são um completo lixo. Mesmo com sua Costura Óssea no nível em que está, eles não são coordenados, nem pensam com rapidez. Com números suficientes, eles podem cercar seus inimigos e espancá-los até a morte, mas é só isso.

— Eu esperava que eles estivessem… melhores agora — suspirou Tyron. — Eu me esforcei tanto para torná-los os melhores. Parece que eu desperdicei meus esforços.

Para falar a verdade, ele estava muito mais do que decepcionado. Ele estava ajudando seus mortos-vivos em batalha, direta ou indiretamente, às vezes os direcionando sem ter consciência disso, desde que começou sua jornada como um Necromante. Só agora ele começou a pensar no que eles eram capazes de fazer sem sua interferência.

— Olha, garoto. Você fez um bom trabalho com eles. No que diz respeito aos mortos-vivos, esses ossudinhos que você reuniu são bons. Mantenha isso em mente, você acabou de passar pelo seu primeiro avanço. Você agora é oficialmente o pior Exterminador, o fundo do poço, o pedaço de esterco inútil, por aqui. Você acabou de sair da academia, se achando o máximo, mas todos sabem que você é um lixo, só são educados demais para dizer isso.

— Obrigado, Dove — respondeu Tyron, ironicamente.

— Só estou dizendo que ainda há um longo caminho a percorrer! Espere até ver os talentos, feitiços e habilidades que serão oferecidos conforme você aumenta o nível da sua nova Classe. Eu prometo que haverá algumas coisas boas. Sem falar que você precisa descobrir novas maneiras de avaliar e criar mortos-vivos. Quando essas habilidades básicas chegarem ao nível vinte, seus ossudinhos serão muito mais fodas do que são agora.

— Ainda há um longo caminho a percorrer.

— Absoluta-pra-caralho-mente.

O jovem Mago suspirou e mentalmente reuniu seus vinte esqueletos. Enquanto se aproximavam, ele apertou um pouco mais o casaco para se proteger contra o vento cortante.

Nas colinas das montanhas ocidentais, o clima era sombrio quase o tempo todo, e agora não era diferente. Nuvens cinza pairavam à frente, ameaçando desencadear um aguaceiro que, sem dúvida, logo começaria. Um vento congelante soprava, assobiando entre as rochas salientes e fazendo a grama alta se agitar, como o oceano em uma tempestade.

Por um breve momento, ele invejou os esqueletos, e Dove, por sua indiferença ao frio, mas o sentimento desapareceu rapidamente. Ser capaz de sentir não era algo negativo apenas porque estava frio. Se tornar um lich não estava em seus planos.

Embora tenha perguntado, por um instante, se vampiros sentiam frio.

— Não acho que encontraremos muitas mais — suspirou ele —, não há muitas criaturas que vieram tão longe. É provável que eu nem tenha matado o suficiente para subir um nível.

— Duvido. As opções por aqui são escassas, com certeza. Você acha que está na hora de nos movermos para algum lugar com mais movimento? Talvez voltar para Woodsedge?

Tyron balançou a cabeça. Voltar para o local da ruptura seria um desastre. Vários Exterminadores o tinham visto lá, junto com seus lacaios, o suficiente para garantir que algum tivesse sobrevivido. Ele não tinha dúvida de que estavam procurando por ele.

‘Não que haja muitas opções. Não é como se houvesse fendas em cada canto e atrás de cada porta.’

Havia uma mais ao sul, acompanhada por um Fortaleza de Exterminadores, mas a jornada até lá levava quase uma semana, e provavelmente era para lá que esperavam que ele fosse. Havia rumores de fendas instáveis nas montanhas, embora remotas o suficiente para que ninguém tivesse investigado.

Até que uma fenda se tornasse forte o suficiente apara permitir a passagem das criaturas, o Império não se incomodava com elas. Ele poderia procurar nas montanhas, mas sua completa falta de experiência em montanhismo poderia significar que tal expedição resultasse em sua própria morte.

‘Não há para onde ir a não ser o interior da província.’

Exceto que ele também não podia ir para lá, não até que os Exterminadores e marechais terminassem a varredura e voltassem para seus serviços normais. Ele estava frustrado, mas não tinha muitas opções.

— Vamos lá então, Dove. Vamos voltar.

— Por que você fala assim como se eu tivesse alguma coisa a ver com isso? Você está literalmente me carregando. Acha que posso decidir simplesmente ir embora e partir no meio da noite? Eu sou um crânio!

— Tá! Tudo bem. Então esteja presente enquanto eu volto para o acampamento.

— Muito obrigado. Eu me recuso. Vou dormir.

— Que os deuses te amaldiçoem, Dove.

Mas a luz já havia sumido das órbitas enquanto o outrora Invocador retornava para um estado de semiconsciência equivalente ao sono para um morto- vivo.

Tyron suspirou profundamente enquanto começava a voltar. O chão estava lamacento e a grama alta molhada, o que tornava a caminhada extremamente desagradável. Ele teria gostado de conversar um pouco, mas não podia realmente negar ao amigo o pouco controle que ele de fato tinha. Conversar ou não conversar, dormir ou não dormir, essas eram as únicas opções que Dove tinha agora.

Novamente, Tyron se sentia culpado pela posição em que havia forçado o homem. Dove não havia pedido por essa existência amaldiçoada e tolerou com uma paciência notável, considerando tudo. Já havia passado o prazo que Tyron prometeu para libertá-lo, mas ele sabia que estaria morto sem a ajuda de Dove. Ainda assim, ele pretendia cumprir sua promessa e liberá-lo, mas nunca parecia o momento correto.

O Necromante suspirou e vasculhou sua mochila, sentindo algo duro e redondo envolto em um pano rasgado. Segurando-a em sua mão, ele a estudou por alguns longos instantes.

— Imagino que você provavelmente não esteja com vontade de conversar… — disse ele, arrastando suas palavras no fim.

Não houve resposta da pedra, e Tyron suspirou mais uma vez antes de guardá-la de novo.

— Provavelmente é melhor assim. Não acho que você queira saber para onde está indo.

As circunstâncias estavam conspirando para prendê-lo mais uma vez, e Tyron chutava e se debatia com todas as forças para impedir que isso acontecesse. Sem uma forma segura de progredir, e com as planícies perigosas demais para atravessar, ele estava preso sentado em uma caverna, esperando seu tempo acabar.

Sentia a tentação de sair para caçar, como fez antes. Ele poderia encontrar mais bandidos e matá-los, coletando os materiais necessários para criar lacaios, ao mesmo tempo que progredia sua Classe através do combate. Monty ainda estava por aí, junto com o restante do seu grupo de bandidos. Se alguém merecia morrer sob a lâmina de um esqueleto era aquele bastardo.

Mas ele desistiu dessa ideia. Era simplesmente perigoso demais para ele descer até lá, mas a falta de opções o pressionava. Ele teria que fazer alguma coisa que não queria para tentar encontrar um caminho. Só podia esperar que valesse o preço.

A pedra embrulhada pesava muito em sua mochila enquanto ele continuava a caminhar de volta. Ele ainda conseguia se recordar, provavelmente nunca esqueceria, da noite em que a conseguiu.

—

Tyron continuou sentado na escuridão depois que Elsbeth saiu. Amanhã, ele precisaria sair da fazenda e seguir para a natureza de novo. Yor ficaria irritada. Este conjunto de casas era um farol brilhante de civilização em comparação às vilas nas colinas e, por algum motivo, ele tinha a impressão de que ela não apreciava muito as condições precárias. Yor estava acostumada a um tratamento ligeiramente melhor.

Ela teria que lidar com isso, assim como ele. Esse seria um período perigoso, no meio do nada.

Ele se recostou em sua cadeira, permitindo seus feitiços de luz se apagassem e a escuridão o envolver. Como as coisas haviam chegado a esse ponto?

Amaldiçoado com uma Classe que não escolheu, partindo na esperança de conquistar seu lugar e agora se encontrava no centro de uma disputa cósmica da qual nada sabia.

Os Sombrios. A Corte Escarlate. O Abismo. Ele sabia pouco sobre qualquer uma dessas facções, e ainda assim elas eram poderosas além da imaginação, além de cada uma possuir interesse em controlar seu destino.

Por quê? Por que ele importava tanto? Ele era apenas um peão, destinado a dançar para o divertimento deles? Ele percebeu que eles achavam suas dificuldades divertidas, uma diversão para distraí-los do tédio eterno, mas havia algo mais?

Essas questões o frustravam, e a única forma para conseguir as respostas era cedendo coisas que ele não estava preparado para dar.

Que escolha ele tinha?

De todos os preços que foram pedidos, havia um que ele podia pagar. Embora pudesse ser condenado por fazê-lo.

Tyron fechou os olhos e respirou fundo. Quando os abriu de novo, uma luz fervorosa queimava dentro deles. Se alguém estivesse aqui, teria reconhecido o olhar em seu rosto como o mesmo que ele tinha quando recriou Dove como um crânio.

Quando os primeiros raios de luz começaram a surgir no horizonte, Tyron se viu diante de um espírito maligno, que o encarava de dentro do seu turbilhão de energias distorcidas. Em uma mão, ele segurava uma pedra do tamanho de uma palma, enquanto a outra permanecia ao lado de um corpo com um sorriso congelado no rosto.

— Que bom te ver de novo, Davon — disse ele.

{Você vive…}

O fantasma o respondeu com aspereza, com uma fúria gélida e uma raiva ardente subindo como o vapor em uma chaleira.

— Você não achou mesmo que eu seria morto por alguém como você, pensou, Davon? Seus ossos lutaram bem, devo admitir. Quantos dos seus próprios camaradas você acha que o seu próprio esqueleto matou?

{Você vai morrer em breve, verme. Você entrará nesta névoa ímpia e eu me banquetearei com seu espírito.}

O sorriso sumiu do rosto de Tyron, mas o brilho insano em seus olhos não se apagou. Ele ergueu a pedra na mão.

— Eu não acho que isso vá acontecer — disse ele, quase num sussurro. — Sinto muito por isso, Davon, sinto de verdade.

{O que… você está dizendo? Está me ameaçando, quando já estou morto?}

Tyron olhou para baixo, então assentiu.

— Acontece que existem lugares piores para uma alma estar. Sinto muito por isso, mas está na hora de levarmos você para sua nova casa.

O espírito gritou, quase no fim, mas foi aprisionado na pedra pelo ritual de Tyron, e não havia ninguém para ouvi-lo.

…

Comentários

5 1 voto
Avalie!
Se Inscrever
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais Antigo Mais votado
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários

Opções

Não funciona com o modo escuro
Resetar