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Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu – Arco 7 – Capítulo 24

Arrogância

――Com a aproximação do banquete, a tensão aumentava.

???: “――――”

Na sala de espera onde os cinco haviam se reunido, reinava um silêncio absoluto.

Ninguém conseguia dizer uma palavra sequer. Nem Abel, imerso em sua concentração, nem Subaru. Até mesmo Flop, mantinha-se em silêncio, tornando o ar denso e carregado.

Eles já tinham chegado até ali. Não havia mais com o que se preocupar.

Ou, ao menos, era assim que deveriam se sentir. Mas os seres humanos não eram tão simples assim. Por mais perfeita que fosse o crossdressing, a ansiedade crescia conforme o momento decisivo se aproximava.

Por mais que seu coração gritasse, por mais que o suor frio escorresse por suas costas, o tempo não perdoava. O instante prometido chegaria, inexorável.

???: “O banquete está pronto. Está na hora.”

A voz do soldado de guarda ressoou, rompendo a tensão acumulada.

Trocando olhares rápidos, Subaru e os demais pegaram seus instrumentos e seguiram o soldado para fora da sala de espera. Submeteram-se a uma inspeção física rápida, mas, vestindo apenas trajes leves, não tinham como esconder armas.

Passaram pela revista, recebendo olhares curiosos e pervertidos, antes de serem conduzidos ao salão do banquete.

Mas então――,

Taritta: “――Hk.”

Subaru: “Taritta-san?”

Subaru ergueu uma sobrancelha ao notar o rosto rígido e os passos pesados de Taritta.

Ele sussurrou para que os soldados à frente não o ouvissem, e, mesmo que suas palavras tenham chegado até Taritta, ela não respondeu. Seus olhos diziam tudo.

A tensão extrema petrificava seu corpo.

Deixar sua aldeia, não poder contar com sua irmã, a chefe da tribo, e infiltrar-se quase desarmada em território inimigo… o peso da situação era esmagador.

A respiração dela estava entrecortada, o corpo tremia. Parecia prestes a desmoronar. Subaru quis encorajá-la, mas as palavras lhe fugiram.

Seria fácil dizer algo como “não se preocupe” ou “deixe comigo”.

Mas palavras vazias bastariam para acalmar Taritta naquele momento?

Enquanto Subaru hesitava em dar um passo adiante――,

Abel: “――Taritta.”

Taritta: “――――”

Abel: “Não há nada com o que se preocupar. Apenas olhe para mim.”

A voz dele soou arrogante, quase imperiosa, mas carregada de uma confiança absoluta.

Não havia lógica em suas palavras. Eram tão vazias quanto as que Subaru pensara momentos antes. No entanto, o impacto que causaram foi avassalador.

Taritta piscou, como se despertasse de um transe.

Sem perceber, ela havia prendido a respiração, seu rosto estava pálido, mas as palavras de Abel a puxaram de volta. Simples frases, mas com um peso que atingia direto o coração.

Os que nascem com certas dádivas sempre ultrapassam aqueles que se esforçam.

Subaru já havia sentido essa diferença inúmeras vezes. Agora, testemunhava isso mais uma vez, de forma dolorosamente clara.

Subaru: “Acho que minha raiva passou.”

Murmurou isso para si mesmo, quase como um consolo. E logo percebeu que, além de Taritta, ele próprio também havia relaxado. Não pôde evitar um sorrisinho irônico.

Claro que não iria dizer isso a Abel. O homem certamente se vangloriaria.

E então――,

???: “――Bem-vindos. Ouvi dizer que vão nos brindar com uma bela apresentação de música e dança.”

No grande salão onde o banquete estava preparado, cerca de trinta homens imponentes os aguardavam.

Havia sido dito que nenhum soldado comum teria acesso ao evento naquela noite, o que significava que aqueles reunidos ali eram oficiais de alto escalão e generais do Império.

Sentado no fundo do salão, um homem os encarava de sua cadeira. Foi ele quem lhes dirigiu a palavra.

Subaru: “…Esse é Zikr Osman, o Segundo-General?”

Murmurando para si mesmo, Subaru lançou um olhar discreto a Abel, a “dançarina” do grupo, que escondia o rosto sob um véu. Com um leve movimento de queixo, Abel confirmou silenciosamente sua suspeita.

Diante dessa confirmação, Subaru voltou a encarar Zikr e franziu suas sobrancelhas bem cuidadas.

Zikr Osman, comandante das tropas imperiais estacionadas na Cidade Fortaleza de Guaral.

Como Segundo-General do Império, esperava-se que fosse um guerreiro formidável. Mas sua aparência… bem, ela desafiava completamente as expectativas de Subaru.

Para começo de conversa, ele era baixo. Muito baixo. Chegava a ser meia cabeça menor que Subaru, que já não era alto. Provavelmente ficaria no mesmo nível de Kuna, caso ela se endireitasse.

Claro, Subaru conhecia Garfiel, que apesar da estatura reduzida era um monstro em combate, então tamanho não era motivo para subestimar ninguém. Mas ainda assim… Zikr não passava a impressão de ser alguém verdadeiramente influente.

O detalhe mais marcante, porém, era seu cabelo volumoso e esférico.

Se tivesse que descrevê-lo em palavras, Subaru diria que era um afro. Mas o simples fato de tal penteado estar sobre a cabeça de um homem tão pequeno lhe dava um certo ar de mascote.

Sabia-se que Zikr era um estrategista militar. E, de fato, ele não tinha a aparência de alguém cuja ascensão se deu pelo puro poder marcial.

Zikr: “Estamos diante de um problema complicado. Ficamos tempo demais enclausurados nesta cidade, e o desânimo só cresce. Por isso, organizamos esta festa. Vocês sabem o papel que devem desempenhar, não?”

Subaru: “――Sim, senhor. Estamos extremamente honrados pelo convite.”

Diante das palavras exageradas de Zikr, que repousava o queixo no braço da cadeira, Subaru se ajoelhou.

Flop, Taritta e Kuna o imitaram. Apenas Abel, na ponta da formação, permaneceu de pé.

Por um breve instante, os olhos de Zikr se estreitaram. Uma leve inquietação se espalhou entre os generais.

Como era de se esperar, um dos soldados, que tinha uma taça de saquê ao lado do pé, levantou-se. Pousando o copo de álcool próximo ao próprio pé, lançou um olhar severo a Abel.

Soldado: “Por que não se ajoelha? Sabe que está diante do Segundo-General…”

Zikr: “Espere. Não seja tão rígido. Este salão foi aberto para beber e festejar. O que queremos daqueles que vivem da arte não é formalidade, mas um conforto sem fim.”

Soldado: “Mh… Se o senhor diz, General…”

Foi Zikr, de todos, quem repreendeu o soldado que tentava intimidar Abel.

Com relutância, o soldado se sentou, cedendo à atitude generosa de seu superior. Durante todo esse tempo, Abel manteve o rosto oculto sob o véu, sem demonstrar qualquer sinal de hesitação.

Zikr: “Nem mesmo vacila diante da presença de um guerreiro? Parece ter bastante confiança na sua dança. Mas sua primeira impressão não foi das melhores. Espero que consiga revertê-la.”

Subaru: “Agradecemos por sua generosidade… Mas, por favor, não se preocupe.”

Zikr, intrigado com a postura desafiadora de Abel, ergueu uma sobrancelha ao ouvir Subaru que continuava ajoelhado e respondeu com um “Hm?”.

Pensar no que viria a seguir era doloroso, mas aquela era a oportunidade que Subaru havia recebido. Ele faria bom uso dela. Iria garantir que Zikr experimentasse uma derrota completa.

Subaru: “――Quem vocês estão prestes a ver, é a bela dançarina que vem além da Grande Cachoeira. Seu cabelo negro e sedoso, que absorve a luz do sol, junto com sua pele pálida e abençoada pelos espíritos, sua beleza imensurável é comparável à de seres divinos, e esta noite, ela irá presentear todos vocês com uma performance esplêndida.”

De pé, Subaru enunciou suas palavras de abertura.

Como se para provar que seu discurso exagerado não era apenas um blefe, o véu que ocultava o rosto de Abel foi erguido lentamente.

No instante em que seu semblante majestoso foi revelado, um suspiro uníssono escapou dos presentes.

Zikr: “――――”

O impacto foi particularmente intenso em Zikr, cujo olhar se perdeu no de Abel.

Talvez, desde o princípio, ele estivesse disposto a lidar com a situação de maneira indulgente. Ou, talvez, o choque que recebeu tenha sido comparável a um golpe inesperado.

Era como se tivesse esquecido completamente como respirar ou falar.

Subaru: “— Por favor, conceda-nos a honra de apresentar o espetáculo de nossa dançarina.”

Subaru curvou a cabeça em respeito enquanto fazia seu pedido a Zikr. Da mesma forma, Flop inclinou-se e ergueu seu instrumento, aguardando a permissão para dar início à apresentação.

Em resposta, Zikr assentiu, e Subaru trocou um olhar com Flop.

Eles então se entreolharam, confirmando que estavam prontos, e começaram a tocar.

Subaru: “――Esta noite, o que testemunharão é uma dança vinda da terra natal de nossa dançarina, uma dança de além da Grande Cachoeira. Uma dança que atravessou as fronteiras do mundo para chegar até aqui. Por favor, apreciem-na ao máximo.”

Dizer que vinha de além da Grande Cachoeira era, obviamente, um exagero.

Mas não era mentira no sentido de que se tratava de uma dança desconhecida pelos soldados imperiais. Tanto a música quanto a coreografia não pertenciam a este mundo, mas ao de Subaru.

Claro, haviam sido adaptadas, mas a essência ainda era distinta. E só isso já bastava para capturar a atenção do público.

Porém――,

Abel: “――――”

Uma dançarina que enfeitiçava com sua beleza e movimentos fluídos talvez nem precisasse da ajuda de uma dança exótica vinda de outro mundo.

Abel: “――――”

Se existe um conceito de aperitivos para bebidas, então isso aqui não era apenas comida servida durante o banquete. Qualquer forma de entretenimento que incentivasse a degustação de álcool poderia ser considerada um aperitivo.

Naturalmente, espetáculos como aquele também se encaixavam. E as chamadas danças de banquete serviam justamente para isso. Mas dificilmente se via algo com um efeito tão avassalador.

A dança da dançarina cegava os olhos dos soldados, queimava-lhes a garganta e fazia suas almas ansiarem por mais álcool.

Seus copos eram esvaziados com uma velocidade crescente, enquanto seus rostos ruborizavam sob a influência da bebida e da hipnose da dança.

No meio deles, o Segundo-General Zikr se destacava. Tentando dissipar a dormência que se alastrava por seu corpo, levava a taça à boca num ritmo alarmante, entregando-se à embriaguez de corpo e alma

Com o juízo turvado pelo álcool e pela dança, ele cometeria erros que normalmente não cometeria.

Por exemplo, o erro sem precedentes de ceder ao desejo de assistir a uma dança com espadas—e, por conta disso, entregar sua própria lâmina, atendendo ao pedido da dançarina.

Abel: “――Você perdeu, Zikr Osman.”

Portanto, mesmo com a ponta da espada pressionada contra seu pescoço e com uma voz inconfundivelmente masculina escapando dos lábios da dançarina, os olhos do Mulherengo Zikr Osman ainda não conseguiam se libertar da euforia que o dominava.


— “Conseguimos!” Subaru gritou internamente, agora que a vitória estava assegurada.

A lâmina na mão de Abel pairava, pronta para perfurar a garganta de Zikr a qualquer instante.

Zikr, com o pescoço exposto ao inclinar-se para trás, não tinha chance de revidar. Sem dúvida, o comandante inimigo havia sido capturado com sucesso.

E, para melhorar, tinham conseguido isso antes do planejado, no momento exato.

Inicialmente, o plano de Subaru era se estabelecer na cidade como uma trupe itinerante e, aos poucos, se infiltrar no círculo de confiança de Zikr Osman. A ideia era que, eventualmente, fossem convocados para o quarto do comandante, onde poderiam pegá-lo desprevenido, prendê-lo e forçar a rendição dos soldados imperiais em Guaral.

Mas a realização desse banquete mudara completamente o jogo.

Abel: “— Durante o banquete, neutralizaremos todos os soldados restantes na cidade.“

Essas foram as palavras de Abel ao anunciar a mudança de estratégia quando receberam o convite para a festa.

Era um plano de alto risco e alta recompensa. Se desse certo, os frutos seriam imensos; se falhasse, o desastre seria inevitável. Subaru concordou com a alteração, sob a condição de que voltariam ao plano original caso a situação saísse do controle.

Ele não esperava que desse tão certo

Zikr: “――――”

Abel: “Vou dizer de novo, Zikr Osman. Você perdeu. Renda-se agora e mande seus homens deporem as armas. Caso contrário, sua taça será preenchida não com álcool, mas com sangue.”

Mantendo a lâmina apontada para o imóvel Zikr, Abel repetiu sua exigência.

No entanto, não havia medo nos olhos do general, apesar da ameaça direta à sua vida. Não eram os olhos de um soldado imperial resignado à morte.

Em vez disso, havia algo diferente neles.

Hesitação, dúvida… e talvez até outra emoção.

Zikr: “Dançarina, você… Não, você é…”

Aquela hesitação brilhava nos olhos de Zikr, como se estivesse diante de algo grandioso. Não era a reação de alguém que via apenas uma simples artista.

General: “— Hk! Seus bandidos! Vocês não têm o direito de…!”

Um dos generais, até então atônito, recuperou os sentidos e se lançou contra Abel sem pensar.

Mas, antes que pudesse alcançá-lo, suas pernas e braços foram perfurados por lâminas afiadas.— Facas foram lançadas por Kuna, até então escondida.

Kuna: “Foi mal, mas a Chefe me mandou proteger o rosto de Abel.”

Disfarçadamente, durante a dança de Abel, ela havia escondido facas entre o pandeiro que segurava.

O general caiu no chão, com os membros perfurados, e os outros hesitaram diante da cena inesperada.

No entanto, uma figura distinta se moveu rapidamente, desviando-se da lâmina de Kuna antes que pudesse atingi-lo.

??? “Parem de brincar! Acham mesmo que podem deter soldados imperiais com algo assim?!”

O homem, um gigante barbado, rugiu furioso ao receber uma das facas no braço e simplesmente afastá-la como se fosse um incômodo menor.

Então, puxando sua enorme espada, avançou diretamente contra Abel, seus olhos fervendo com sede de sangue.

Subaru: “Abel――!”

Abel, ainda focado em Zikr, apresentava suas costas magras e despreocupadas.

Subaru gritou seu nome, mas a dançarina mascarada nem sequer piscou.

Se as coisas continuassem assim, a lâmina pesada desceria sem piedade sobre ele—

Taritta: “— Kuh!”

No mesmo instante, Taritta cerrou os dentes e arrancou um arco das mãos de um dos soldados.

Com um movimento rápido e preciso, puxou a corda e apontou a flecha para o gigante barbado que se lançava contra Abel.

Seus olhos verdes brilharam com determinação assassina.

Ela estava pronta para matar.

Se precisava tirar uma vida para proteger Abel e interromper o ataque, então assim seria.

Flop: “Não mate ele!!!!”

Taritta: “――Hk!”

Mas, no instante antes de soltar a flecha, Flop gritou em desespero.

Ao ouvir isso, os olhos de Taritta vacilaram e sua mira oscilou levemente. Assim, a flecha não atingiu as costas do homem, mas sim seu ombro direito.

General Barbado: “Gah!?”

O homem soltou um grito de dor ao ser atingido, tombando com o impacto violento. Mas o ímpeto da enorme espada em suas mãos não foi completamente detido. A lâmina girou no ar e seguiu direto para as costas de Abel.

A espada desceria, esmagando a cabeça de Abel por trás. No entanto, por uma margem ínfima, a ponta da lâmina apenas roçou a parte de trás de sua cabeça antes de atingir o chão com um estrondo ensurdecedor.

Por um triz, Abel escapara da morte.

E então――,

??? “…Ah.”

Com um leve esvoaçar, os cabelos trançados de Abel se soltaram e se espalharam.

A lâmina da grande espada cortara o prendedor de cabelo, desfazendo o penteado. ――Na verdade, não parara por aí. A peruca, agora desfeita, perdera sua função, e os falsos fios negros caíram no chão.

A longa cabeleira da dançarina desapareceu, substituída pelos próprios cabelos negros de Abel.

――Junto com o acessório, a ilusão delicada da dançarina foi despedaçada, revelando o implacável Imperador.

??? “Segundo-General! Agora é nossa chance de pegar esses desgraçados…!”

Zikr: “――Parem! Não me desobedeçam!”

Enquanto os soldados feridos ―― um com as pernas e braços perfurados por facas e outro com uma flecha no ombro ―― gemiam de dor, Zikr silenciou o apelo do general que ainda tentava resistir.

Se avançassem imprudentemente, por mais que lutassem, acabariam esmagados pelo grupo de Subaru. E esse era o contra-ataque que mais desejavam evitar.

Mas Zikr não permitiu que seus homens continuassem a luta. Ele sabia que, agora que ele próprio estava sob a mira da espada e seus generais haviam sido subjugados, o desfecho já estava decidido.

Então――,

Zikr: “Se eu fizer o que pedem, podem garantir a vida dos meus homens?”

Abel: “Isso também depende da sua atitude, Covarde.”

Zikr: “Guh… Hk.”

Zikr, com o rosto avermelhado e os lábios mordidos de raiva, demonstrou sua disposição para se render, ainda que sentisse repulsa do insulto impiedoso de Abel.

Não era apenas a humilhação de ter caído numa armadilha e ter seu pessoal capturado. Era algo mais profundo, algo que corroía sua alma.

Abel, observando-o de cima, soltou um riso pelo nariz.

Abel: “Ouvi falar sobre você, Zikr Osman. Antes de ser chamado de Mulherengo, já era conhecido por outro nome: o Covarde.”

Zikr: “…Um epíteto indigno para um Soldado Imperial. Foi por isso que escolheu essa estratégia?”

Abel: “――――”

Zikr: “Se sou o Covarde, além de ser Mulherengo, então eu deveria me render a uma mulher sob a ponta de uma espada…”

Que humilhação seria essa.

Ou talvez fosse pior ―― talvez fosse o tipo de vergonha que levaria um homem à morte. Mas a razão pela qual Abel considerou essa abordagem viável era diferente daquela que Subaru e os outros tinham em mente.

Pois――,

Abel: “Um estrategista que, através do uso hábil e meticuloso de suas tropas, conquistou poucos feitos marcantes, mas também evitou grandes baixas entre seus aliados. Um comandante excelente, porém carente de agressividade. Por isso, Covarde.”

Zikr: “Sim, isso também está correto. Mas…”

Abel: “O que o deixa tão confuso?”

Zikr: “Eh?”

Os olhos de Zikr se arregalaram ao ouvir a pergunta, enquanto Abel os estreitava, encarando-o.

Com a confusão ainda estampada no rosto de Zikr, Abel manteve a espada firme em sua mão e continuou.

Abel: “Quando outros te chamam de covarde, ou estão fingindo enxergar os resultados ou são tolos incapazes de vê-los. Eu fiz uso desse raciocínio para vencer.”

Zikr: “――――”

Abel: “Você abomina baixas desnecessárias. Por isso, concluí que você, como o Covarde e estrategista militar, não resistiria nesta situação. ――Ou vai me decepcionar?”

Com o olhar afiado e a lâmina ainda pressionada contra o pescoço de Zikr, Abel lançou-lhe essa pergunta.

Para quem não conhecia sua verdadeira identidade, suas palavras poderiam soar como um devaneio sem sentido.

Confiar na covardia do inimigo e incorporá-la ao plano para garantir a vitória?

Não havia certeza se dizer algo assim tão abertamente não aborreceria seu oponente. Era como se ele estivesse tentando provocar a raiva de seu oponente, o que poderia realmente piorar a situação

Mesmo vestido como uma mulher, Abel não demonstrava nem um pingo de humildade.

Mas, diante dele, Zikr Osman prendeu a respiração.

O que brilhou em seus olhos era difícil de definir ―― se tivesse que colocar em palavras, era uma surpresa que beirava a excitação.

Era uma reação nova e inesperada, como a de uma donzela recebendo algo de quem ama.

Zikr: “――Vamos depor as armas. Ordenarei estritamente que meus homens façam o mesmo.”

Abel: “Sábia decisão.”

Abel assentiu calmamente diante da resposta silenciosa de Zikr, que abaixou a cabeça.

Mesmo trajado como uma dançarina, sua postura era inabalável. E quando Zikr, o comandante, declarou sua rendição, um a um, os soldados imperiais deixaram cair suas armas.

E então――,

Abel: “O que você ainda está fazendo aí parado? Suba e queime a bandeira no telhado.”

Subaru: “Ueh? O quê? Eu?”

Abel: “Sim, você. Só você. É o único que não fez absolutamente nada desde que começamos.”

Os olhos gélidos de Abel perfuraram Subaru, que piscou, apontando para si mesmo em descrença.

Com aquelas palavras, Subaru olhou ao redor do salão.

Kuna havia neutralizado os inimigos com facas arremessadas. Taritta havia acertado o gigante com uma flecha. Flop havia impedido  a morte do homem e, com isso, garantiu a realização do Cerco Sem Sangue. E Abel que havia desarmado o general.

De fato, o único que não havia feito nada… era ele. Afinal, Subaru apenas caiu de bunda no chão quando aquele colosso avançou contra eles.

Abel: “Ande logo. Não poderei desarmá-los corretamente sem Mizelda e os outros.”

Subaru: “Tá bom, tá bom, eu entendi! Já vou! Foi mal!”

Resmungando, Subaru se dirigiu ao balcão e, com cuidado, escalou até o telhado.

De lá, a visão da cidade de Guaral sob o manto da noite era simplesmente espetacular.

Respirando o ar frio da noite, Subaru pegou uma tocha da parede, ergueu-a contra a bandeira do Império hasteada no telhado da Prefeitura ―― o estandarte do Lobo da Espada ―― e ateou fogo.

――Aquele era o sinal incontestável de que a Cidade Fortaleza de Guaral havia caído.


O primeiro a notar que havia algo errado foi Jamal, que vinha mantendo os olhos atentos à Prefeitura.

Ele lançou um olhar ao redor, preocupado com aqueles que havia deixado no edifício. Todd, por outro lado, já cansado da ingenuidade do companheiro, continuou sua patrulha pela cidade.

Uma cidade com tanta história como aquela oferecia inúmeras maneiras de transpor suas muralhas, que deveriam ser uma barreira imponente. Túneis subterrâneos escondidos em casas particulares, buracos usados por crianças para atravessar sorrateiramente… contrabandos e esquemas não faltavam.

Enquanto desvendava essas passagens uma a uma, Todd mantinha a guarda alta, atento a qualquer possível ataque.

Todd: “Eles não vão simplesmente desistir. Se for assim, vão tentar derrubar a cidade de qualquer jeito. Podem usar um caminho secreto e tomar a Prefeitura de uma só vez… ou incendiar tudo… Hmm, existem outras possibilidades?”

Se o objetivo fosse apenas fazer a cidade cair, ele conseguia imaginar inúmeras formas de massacrar soldados e civis indiscriminadamente.

Afinal, bastava fogo, água ou terra para ceifar vidas. Dado os meios certos, os seres humanos podiam ser tão cruéis quanto desejassem.

Que tipo de atrocidades o garoto de cabelos negros estaria tramando?

À primeira vista, não parecia ser seu estilo ―― mas o fato de que era tão habilidoso nisso tornava tudo ainda mais assustador.

Por mais que ele tentasse esmagá-los, sempre parecia haver um caminho oculto, uma passagem não descoberta.

Então, mesmo que tivesse um buraco no estômago, Todd não conseguiria dormir tranquilo em seus aposentos.

Todd: “Esses caras são todos uns broncos e negligentes…”

Nem todos eram tão descuidados quanto Jamal, mas boa parte deles simplesmente não sabia prestar atenção aos detalhes.

Todd não se considerava um gênio ou alguém excepcionalmente astuto, mas sabia que, ao estar ciente de suas próprias limitações, havia muitas maneiras de compensá-las.

O que ele não compreendia era como algumas pessoas conseguiam viver sem jamais questionar a própria ignorância.

Cada ser humano era um idiota em certo nível ―― e, exatamente por isso, deveria fazer de tudo para minimizar suas falhas.

Jamal: “――Ah?”

Pensando nisso, Todd estava prestes a entrar em mais uma casa quando, de repente, foi interrompido pela voz surpresa de Jamal.

Ele parou e olhou para trás, encontrando Jamal com uma expressão estupefata, o olhar fixo na Prefeitura ao longe.

Todd franziu a testa, desconfiado.

Jamal: “Ah, qual é… isso só pode ser brincadeira.”

Todd: “O que foi, Jamal? O que tá acontecendo na…”

“Prefeitura”, ele faltou dizer.

Parando ao lado de Jamal, Todd também voltou o olhar para a mesma direção.

Ele tinha certeza de que, naquele exato momento, um banquete estava acontecendo na Prefeitura, com as dançarinas convidadas entretendo e confortando os Generais.

Por isso, não seria surpreendente se alguns deles já estivessem bêbados e passando vergonha.

Nada disso seria estranho, mas――

Todd: “――Nem a pau.”

Por mais que pudesse imaginar várias situações absurdas, ver a bandeira do Império queimando no topo da Prefeitura era algo que ultrapassava qualquer limite.

Aquele ato bárbaro ia muito além da insolência ―― até Todd, com toda sua frieza, ficou momentaneamente sem reação.

A bandeira, consumida pelo fogo, tremulava ao sabor do vento quente, com suas chamas tingindo o céu noturno de um vermelho feroz.

E ali, bem ao lado da bandeira em chamas, ele viu a figura de uma mulher que já conhecia da Prefeitura.

Uma musicista de longos cabelos negros e olhos penetrantes.

Ele se lembrava do nome dela――

Todd: “――Natsumi Schwartz.”

Foi assim que ela havia se apresentado quando perguntaram seu nome.

Uma mulher frágil, que se encolhera apavorada quando Jamal a cercou.

Mas agora, diante dele, aquela mesma mulher segurava uma tocha firme em suas mãos, queimando a bandeira do Império sem hesitação.

Não havia mais sinal da fraqueza que ela demonstrara antes.

Certamente, aquilo não era uma simples excentricidade causada pela embriaguez.

Sem dúvida, era um ataque direto contra o Império. E se a bandeira do posto de comando estava sendo reduzida a cinzas, significava que o local havia caído nas mãos do inimigo.

E então, enquanto ponderava sobre isso, uma possibilidade surgiu de repente na mente de Todd.

Todd: “Sem chance… é você?”

Com os olhos arregalados, Todd analisou cada detalhe da silhueta da mulher de cabelos negros ―― Natsumi Schwartz ―― enquanto uma hipótese improvável tomava forma em sua cabeça.

Uma hipótese tão absurda que sua mente se recusava a aceitá-la de imediato.

Mas quanto mais pensava nela, mais fazia sentido.

E, ao mesmo tempo, mais destoava.

E era exatamente isso que tornava tudo tão extraordinário.

Quem, em sã consciência, pensaria em algo assim?

Quem conceberia uma estratégia tão insana para atravessar as defesas do inimigo de frente e tomar sua base de operações?

Todd: “Achei que fosse impossível. Não acredito que tentaram entrar pelo portão principal.”

Quem apostaria em um método tão suicida?

Claro, ele já havia considerado a possibilidade de alguém se infiltrar escondido entre cargas ou dentro de carruagens de dragão.

Por isso, os postos de controle haviam sido reforçados.

Mas uma invasão a pé, de maneira tão chamativa, era algo que simplesmente não passou pela sua cabeça.

Ainda mais depois da primeira infiltração, que havia levado a uma vigilância ainda mais rigorosa.

O que qualquer um faria numa situação dessas seria optar por um caminho mais furtivo ――.

Jamal: “Você não acha que isso tudo foi só uma distração, acha? Será que eles nos encontraram de propósito, só pra nos fazer acreditar que um ataque frontal era impossível?”

E então, no fim das contas, eles conseguiram entrar na cidade, foram convidados para a Prefeitura como artistas, derrubaram o centro do comando inimigo e incendiaram a bandeira imperial.

――Exatamente como Natsumi Schwartz planejou.

Todd: “…Isso é ruim.”

Que plano meticuloso, pensou ele, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.

Achava que havia feito tudo ao seu alcance para garantir a vantagem, mas, do outro lado, o “Filho da Guerra” o superara e ridicularizara com espantosa facilidade.

Todd ficou surpreso ao perceber que estava tremendo.

Jamal: “Merda! Que porra que tá acontecendo aqui?! De qualquer forma, a gente tem que voltar pra Prefeitura…”

Todd: “Deixa de ser burro. Pra quê, pra morrer também?”

Jamal: “Hã?”

Diferente de Todd, Jamal não sabia quem tinha incendiado a bandeira imperial.

Devido à distância, seus olhos não conseguiam distinguir os detalhes do que acontecia no telhado da Prefeitura. Todd, por outro lado, via claramente, graças à sua visão peculiar.

E justamente por isso, segurou Jamal.

Agora que a bandeira imperial havia sido incendiada, a queda da cidade já estava selada.

Todos os generais que participavam do banquete, incluindo Zikr, provavelmente já estavam mortos. Se tentassem voltar, acabariam mortos também.

Jamal: “Você tá morrendo de medo, né? E ainda se acha um soldado imperial, ein?”

Todd: “Você não pode vencer e se manter vivo apenas sendo orgulhoso. Além disso, já sabemos que a Prefeitura caiu. O Segundo-General tá morto. Os Surdrakianos vão invadir a cidade a qualquer momento.”

Jamal: “――――”

Todd: “Se não sairmos daqui antes disso, a única escolha que restará pra gente vai ser morrer também.”

Jamal não era do tipo que aceitava o desgosto de se render sem resistência.

A alternativa seria se lançar contra o inimigo com a arma em punho, ostentando bravura, e morrer levando uma dezena consigo.

Seria, sem dúvida, uma morte digna de um Lobo da Espada ―― mas, na visão de Todd, não passava de uma morte inútil.

A vida era como uma mão de cartas finita.

Usá-la para vencer era justificável, mas gastá-la em uma derrota amarga era um desperdício.

Ele e Jamal já se conheciam há um tempo. Talvez houvesse proximidade suficiente para se aconselharem mutuamente. Talvez.

Todd: “Tá vendo aquele buraco que eu tampei no muro? Eu vou passar por ele. E você?”

Jamal: “Gu, gu… Tá querendo me humilhar de novo?”

Todd: “Se você estiver vivo, vai ter a chance de lavar sua vergonha. Mas se morrer, acabou. Então, eu tô indo. Não entro numa luta que eu sei que vou perder.”

Ele realmente evitava entrar em qualquer combate com chances baixas de vitória. Muito menos numa com cem por cento de chance de derrota. Mas não tinha tempo para discutir os detalhes com Jamal.

Ele rapidamente virou de costas para ele e começou a correr. Atrás dele, Jamal hesitou por um instante antes de soltar um “Droga!” e sair correndo atrás de Todd.

Se ao menos todas as pessoas fossem simples assim… Mas o mundo não funcionava desse jeito.

De qualquer forma――

Todd: “Acho que, por ora, vou me lembrar de você como Natsumi. ―― “Filho da Guerra.”


Assim que perceberam que a bandeira imperial havia sido incendiada e que a Prefeitura caíra, os soldados imperiais surpreendentemente acataram o chamado à rendição.

O mesmo aconteceu com os guardas que protegiam a cidade, o que foi uma grande ajuda para Subaru, cujo objetivo era tomá-la sem derramamento de sangue. Ainda assim, era uma reviravolta inesperada.

Subaru: “Sempre achei estranho que, nos dramas históricos sobre o período Sengoku, a batalha terminasse assim que a cabeça do general adversário fosse cortada…”

Se o general morresse, o próximo na hierarquia deveria assumir o comando e a luta continuaria.

Um leigo imaginaria que a guerra só acabaria quando um dos lados fosse totalmente dizimado ou se rendesse em desespero. Mas, na prática, as coisas não eram assim.

Afinal, o Exército Imperial, que possuía uma vantagem esmagadora em números e força, entregou as armas no instante em que soube que seu comandante, Zikr, havia sido capturado.

Mizelda: “Bem, isso foi um feito e tanto, Subaru… Não, Natsumi.”

Subaru: “Mizelda-san.”

Subaru levou uma mão ao peito falso, aliviado pelo sucesso da operação e pelo desfecho da batalha. Foi então que Mizelda se aproximou, tomando goles generosos de álcool diretamente de uma garrafa.

As mulheres que haviam ficado escondidas fora da cidade como força destacada também entraram, logo após avistarem a bandeira imperial em chamas.

Os guardas, ao perceberem que os soldados imperiais haviam sido derrotados, nem sequer tentaram impedi-las de marchar pela cidade com orgulho.

Graças à cooperação dos Surdrakianos, conseguiram capturar a maior parte dos soldados inimigos.

No salão onde antes ocorria o banquete, as mesas repletas de comida e bebida haviam sido limpas, substituídas agora por soldados imperiais amarrados, alinhados em fileiras.

Era um desperdício simplesmente jogar tudo fora, Subaru pensou. Mizelda e as outras bebiam animadamente, mas, àquela altura, mais pareciam bárbaras saqueadoras do que guerreiras vitoriosas.

Subaru: “Com essa quantidade de gente… Teria sido complicado enfrentá-los de frente.”

Mizelda: “Não importa quantos inimigos haja, o orgulho dos Surdrakianos não vacila. Para nós, não existe algo como ‘inimigos demais’… Mas sim, há momentos em que a diferença numérica é intransponível. Porém, você e Abel os derrotaram.”

Subaru: “――――”

Mizelda: “Estou orgulhosa de você, Natsumi. Demonstrou coragem através da sabedoria. Isso era algo que nós não poderíamos ter feito.”

Com um tapão vigoroso no ombro de Subaru, Mizelda lhe lançou um sorriso confiante antes de se afastar.

Logo depois, caminhou na direção de Taritta e Kuna para parabenizá-las por sua contribuição na queda da Prefeitura.

Mesmo à distância, a forma como os olhos de Taritta brilhavam ao receber os elogios da irmã fez Subaru sorrir.

Enquanto isso, Kuna, confirmando que estava bem, foi abraçada por Holly, parecendo mais um peixe enrolado em folhas do que uma guerreira.

Subaru: “Se continuar assim… seria bom se a vida de Kuna não fosse ceifada tão cedo, depois dela ter feito tantas proezas…”

??? “――――”

Com uma sensação de alívio, Subaru deixou escapar um sorriso leve.

Então, ao se virar, quase esbarrou em alguém que estava bem atrás dele.

Essa pessoa era――

Subaru: “R-Rem…”

Rem: “…Sim.”

Olhando para ele de perto, Rem o encarava diretamente, fazendo Subaru recuar instintivamente.

Apoiando-se em sua bengala de madeira, ela percorreu Subaru de cima a baixo com seus olhos azul-claros.

Desconfortável sob seu olhar minucioso, Subaru pigarreou e disse,

Subaru: “O que foi? Eu tô bem, viu?”

Rem: “Sim, foi o que me disseram. Mas tive a sensação de que, mesmo que estivesse machucado, esconderia isso e diria a mesma coisa.”

Subaru: “Você realmente não tem nenhuma confiança em mim… Mas olha, eu sou péssimo com dor, então se eu tivesse um arranhão sequer, contaria na hora. Sério, de verdade.”

Rem: “Isso também soa suspeito.”

Subaru: “Tch ha ha…”

Os ombros de Subaru caíram sob o olhar desconfiado de Rem.

Mas então, ele parou e se deu conta de algo. “Hã?” murmurou.

Ela podia até ser um pouco ríspida, mas, no fundo, parecia preocupada com ele.

Subaru: “Você… tá preocupada comigo, né?”

Rem: “Hã?”

Subaru: “Ah! Me desculpa! Me empolguei! Claro que não! Não pode ser que a Rem esteja preocupada comigo…”

Rem: “Sim, eu estava.”

Subaru: “O quê?”

Subaru agitava as mãos no ar, tentando consertar seu mal-entendido, mas foi interrompido pela resposta inesperada de Rem.

Seu rosto não demonstrava muita coisa, mas o brilho em seus olhos vacilou levemente.

Rem: “Eu disse que estava preocupada. É claro que estava. Não importa o quanto esse plano fosse absurdo, eu fui a pessoa que te colocou nessa situação. Como eu poderia não me preocupar? Como você acha que eu seria capaz de ser tão insensível?”

Subaru: “Não, não, não! Não é isso, eu jamais pensaria que a Rem é insensível! Nunca! A Rem é carinhosa, um pouco mandona, um tanto reservada até conhecer alguém direito… mas essa diferença também é um dos seus maiores charmes…”

Rem: “――――”

Subaru: “Rem… não me diga que ficou tocada?”

Rem: “Não, só achei estranho.”

Com uma única frase, ela perfurou o peito falso de Subaru, arrancando um “Ugh!” dele.

Rem suspirou, entediada, enquanto Subaru se afastava, segurando o próprio peito como se realmente tivesse sido atingido. Então, ela deu um passo à frente e declarou:

Rem: “Só para constar, independentemente do que tenha dito ou feito, você conseguiu. De verdade, você derrubou essa cidade. E sem causar nenhuma morte.”

Subaru: “… Se pelo menos tivéssemos mantido o ‘sem sangue’, eu queria que ninguém tivesse se ferido também. Mas será que eu estava pedindo demais?”

Rem: “Quem sabe? No entanto, se for você e Abel-san… talvez consigam fazer isso um dia. …Por que está me olhando assim?”

Subaru: “…Por nada, nada, nada, tá bom?”

Rem ergueu uma sobrancelha ao ver a expressão emburrada de Subaru.

Na verdade, ela tinha razão. Sem Abel, esse plano jamais teria sido possível, e era inegável que ele possuía uma inteligência assustadora.

Ainda assim, ouvir Rem elogiando outro homem fez o coração de Subaru se revirar desconfortavelmente.

Subaru: “Mesmo com esses peitos falsos, ainda tem algo que impressiona, não é…?”

Rem: “Tenho a sensação de que você está falando besteira de novo…”

Rem começou a encará-lo com um olhar de desconfiança, e Subaru rapidamente acenou as mãos no ar, soltando um “Não, não, não” para disfarçar.

Se contasse a ela sobre seu ciúme, provavelmente ela só ficaria confusa.

Era inevitável, mas isso não tornava menos doloroso. A afeição unilateral doía.

Subaru: “Não, nesse caso, é só impressão…? Mesmo que não sejam tão impressionantes quanto os da Emilia-tan, eles ainda parecem bem realistas, não acha…?”

Medium: “Oh! Natsumi-chan, aí está você! Ouvi dizer que vocês mandaram muito bem, parabéns!”

Subaru: “Ah, Medium-san.”

Medium entrou no salão com sua voz animada e passos pesados.

Subaru instintivamente recuou diante da aproximação repentina da mulher alta, mas seu passo para trás foi inútil ―― ela simplesmente inclinou o corpo para frente e reduziu a distância entre os dois.

Com um enorme sorriso no rosto, Medium olhou entusiasmada para os soldados amarrados no salão. Em seus ombros, duas pequenas figuras estavam montadas―― Utakata e Rui.

Medium: “Então foi você e o pessoal que capturaram toda essa gente, Natsumi-chan? Tô chocada! Então, então, cadê minha irmã? Ela se saiu bem?”

Subaru: “Irmã? Ah, sim. A Flora está…”

Flop: “――Estou aqui, minha querida irmã!”

Medium: “Oh!”

Os olhos já grandes de Medium se arregalaram ainda mais quando viu Flop surgir no salão.

Depois de tanto tempo juntos, estava acostumada a vê-lo trajado como uma belíssima mulher, então vê-lo agora, sem o disfarce, era algo inusitado.

Mas Flop não perdeu tempo em reafirmar sua presença, dando uma única batida firme no chão com seus sapatos.

Medium: “Espera, espera! O irmão mais velho não é minha irmã? Então minha irmã era, na verdade, meu irmão esse tempo todo!?”

Flop: “Hahaha! Não faço ideia do que está dizendo, minha querida irmã! Mas, no fim das contas, eu estou aqui. Então, seja como irmão ou irmã, isso não muda nada!”

Medium: “Isso faz sentido! Então, talvez eu também não seja uma irmã, mas um irmão! Afinal, eu sou bem grandona!”

Flop: “Irmã mais nova ou irmão mais novo, irmão mais velho ou irmã mais velha, no fim das contas, ainda somos família!”

A conversa dos irmãos O’Connell era peculiar, mas seguia seu ritmo único até encontrar uma conclusão.

Flop, rindo, envolveu Medium em um abraço pela cintura. E, com as duas meninas ainda empoleiradas em seus ombros, Medium começou a girar em círculos, acompanhando o movimento do irmão.

O resultado? As pernas de Flop flutuaram no ar, e os dois iniciaram um giro extravagante no salão, enquanto as gargalhadas felizes dos irmãos e das crianças ecoavam pelo ambiente.

Subaru: “Isso é… surreal, não é?”

Rem: “Tenho certeza de que Medium-san também estava preocupada com Flop-san… Então, por quanto tempo você pretende continuar vestindo isso? Pelo resto da vida?”

Subaru: “O resto da vida é um exagero, né!? Por mais adorável que eu esteja, essa aparência é só temporária… Mais cedo ou mais tarde, eu vou ter que voltar ao normal.”

Rem: “Então isso significa que, por enquanto, você vai continuar assim?”

Subaru: “Eu só não tive tempo de trocar de roupa ainda!”

Subaru não era mentalmente forte o suficiente para suportar suspeitas daquele tipo ―― ou melhor, para aguentar o olhar de Rem, que o avaliava como se ele fosse um completo pervertido.

Na verdade, a única razão pela qual ele ainda estava vestido de mulher era porque estava ocupado com pequenas tarefas ―― como incendiar a bandeira imperial e dar as boas-vindas aos Surdrakianos que entravam na cidade.

Simplesmente, a situação ainda não lhe permitira voltar às suas roupas normais. Não era como se ele quisesse continuar sendo Natsumi Schwartz.

Subaru: “Ou será que eu quero…?”

Rem: “Ah, é. Se está procurando por Abel-san, ele está na sala dos fundos com o comandante.”

Subaru: “Você tá falando como se não acreditasse em mim!”

Subaru apontou para Rem, que lhe devolveu um olhar indiferente, antes de se virar e seguir na direção mencionada.

Ele gostaria de celebrar a conquista do Cerco Sem Sangue com Rem e os outros, mas não podia simplesmente relaxar e comemorar sem pensar no que vinha pela frente.

Afinal, a queda de Guaral era apenas um ponto de passagem. Ainda havia a guerra civil que abalaria o Império e a questão de qual seria a posição que Subaru tomaria no meio desse caos.

Para isso――

Subaru: “Com licença.”

Dizendo isso, Subaru empurrou a porta de um dos cômodos nos fundos do salão.

Originalmente, aquele deveria ser um escritório particular, pertencente ao administrador da cidade, o antigo mestre da Prefeitura. Mas agora, o antigo mestre havia sido afastado, e o novo regente ocupava sua cadeira.

Antes, Zikr, o Segundo-General, era quem sentava ali. Mas agora, um homem ainda mais pomposo assumia o lugar.

Abel: “――Você. Ainda está vestido assim.”

Com o rosto apoiado na mão, Abel resmungou com desdém.

Diferente de antes, ele já se livrara da fantasia de dançarina e vestia trajes bem mais condizentes com sua figura masculina.

Diante dele, Zikr permanecia ajoelhado, a cabeça baixa e desalinhada. Fora eles dois, não havia mais ninguém na sala.

Subaru: “Dá pra ignorar meu traje por um segundo? Além disso, você tá sozinho com o Segundo-General, sem nenhum guarda? Tá querendo morrer?”

Abel: “Se ele tivesse qualquer intenção de resistência, eu já teria enfiado minha lâmina em sua garganta. Mas ele não tem. Não é verdade, Zikr Osman?”

Zikr: “――Sim. Está correto, Vossa Excelência.”

Ao ouvir a pergunta de Abel, Zikr levantou o rosto e respondeu com prontidão.

O respeito em sua voz e a maneira como se dirigia a Abel deixavam claro que ele não via mais aquele homem como um simples bandido travestido.

Em outras palavras, Zikr reconhecia a verdadeira identidade de Abel ―― e, por isso, ajoelhava-se diante dele.

Subaru: “Você contou pra ele?”

Abel: “Não precisei. Pelo visto, esse sujeito percebeu durante a dança. Ou melhor, devo dizer que, depois da dança, entendeu qual era o curso de ação correto.”

Subaru: “――?”

Sem compreender o que Abel queria dizer, Subaru inclinou a cabeça.

Mas, enquanto isso, Zikr abaixou ainda mais a cabeça, como se reforçasse sua submissão.

Pela primeira vez, alguém reconhecia Abel como Imperador sem hesitação.

Abel: “Bom, conveniente que você tenha chegado a essa conclusão sem precisar que eu dissesse nada. Zikr Osman, me siga. Você não será prejudicado.”

Zikr: “Sim! Se for por Vossa Excelência, eu, Zikr Osman, darei minha vida!”

Subaru: “Espera, espera, espera! Você tá falando sério? Nem sequer ouviu direito do que se trata, não é?”

Zikr jurou lealdade a Abel no instante em que este solicitou sua vassalagem, sentado majestosamente na cadeira.

Era conveniente, sem dúvida. Mas conveniente até demais.

Ainda assim, em resposta à pergunta de Subaru, Zikr balançou a cabeça.

Zikr: “Sua Excelência está diante de mim e precisa da minha ajuda. Sendo assim, como General do Império, é meu dever responder ao seu chamado. E, acima de tudo, juro ser ainda mais leal do que já fui até agora.”

Abel: “Oh? E por quê? Se encantou tanto assim com a minha dança?”

Zikr: “Foi uma dança belíssima, sem dúvida. Mas não é só isso.”

A intensidade no olhar de Zikr contrastava com a frieza de Abel, que sequer esboçava um sorriso ao fazer sua piada.

O General pressionou os punhos contra o chão, e, em seu rosto, havia uma alegria ardente, quase descontrolada.

Zikr: “Estou surpreso por Vossa Excelência lembrar dos dois nomes que carreguei… Nomes que amaldiçoei como uma vergonha. Mas o senhor os reconheceu, afinal.”

Abel: “É claro. Se alguém deseja governar o Império, precisa conhecer sua terra. O mesmo vale para aqueles que o servem. Nunca sei quando precisarei usar um General como minhas próprias mãos e pés. Você acha mesmo que um imperador pode trilhar seu caminho sem conhecer seus próprios membros?”

Zikr: “De forma alguma! E é exatamente por isso que me sinto profundamente honrado!”

Tremendo de felicidade, Zikr jurou sua lealdade a Abel com fervor absoluto.

Para falar a verdade, olhando apenas os acontecimentos, era uma virada boa demais para ser verdade.

Mas a maneira como Zikr se comportava era tão intensa e genuína que até Subaru teve dificuldade em duvidar de seus sentimentos.

Ao mesmo tempo, Subaru ficou impressionado com a força do carisma de Abel, assim como com seu orgulho inabalável e sua convicção como Imperador.

Ele não sabia quantos Generais existiam no Império. Mas, se Zikr era um dos melhores, será que Abel teria mesmo conhecimento suficiente sobre cada um deles para garantir que conseguiria tomar a cidade, não importando quem estivesse no comando?

Bem… Mesmo que outro General estivesse no lugar de Zikr, Abel parecia convicto de que o resultado seria o mesmo.

O Imperador, uma figura que pairava acima das nuvens, conhecia Zikr, sabia suas forças e fraquezas e, a partir disso, teceu uma estratégia perfeita, entrelaçando-o em suas expectativas e derrotando-o.

Talvez fosse semelhante a um arremessador de beisebol colegial tendo sua melhor jogada esmagada em um home run por seu jogador profissional favorito.

Mas guerra não era um jogo. A realidade era muito mais brutal.

De qualquer forma――

Abel: “Se Zikr Osman estiver ao nosso lado, seus Generais também o seguirão. Com a Cidade Fortaleza em nossas mãos, finalmente reunimos um exército de verdade.”

Zikr: “Entretanto, se nos colocarmos contra o restante do Império, nossa força ainda será insuficiente. Em primeiro lugar, deveríamos permitir a entrada dos reforços enviados da Capital Imperial e… forçá-los à rendição.”

Com a adição de aliados experientes na política e no cenário militar do Império, a conversa logo tomou um tom estritamente estratégico.

Diferente de Abel, que aceitou a discussão sem hesitar, Subaru sentiu um desconforto imenso ao ver os preparativos para uma guerra em larga escala começarem.

Antes que esse tipo de debate avançasse, ele queria conversar com Abel sobre o que fazer com ele e Rem após a tomada da Cidade Fortaleza.

No entanto, infelizmente, o assunto que Subaru queria abordar foi deixado de lado.

Pois――

Abel: “――Reforços da Capital Imperial.”

Abel murmurou em resposta à sugestão de Zikr, e o ar na sala mudou drasticamente.

Subaru e Zikr arregalaram os olhos ao vê-lo se levantar bruscamente da cadeira, os passos firmes e apressados, dirigindo-se ao salão principal.

E então――

Abel: “Fechem o portão principal da cidade imediatamente! Não deixem ninguém entrar, seja mensageiro ou não!”

O brado de Abel fez todos no salão se sobressaltarem.

Assim como Subaru e Zikr, que estavam conversando com ele até instantes atrás e não conseguiam compreender a situação, Mizelda e os outros também não tinham ideia do que Abel estava pensando.

Porém, o olhar urgente do Imperador deixava claro que aquilo não era um mero capricho.

Mizelda: “Taritta, vá ordenar que fechem o portão principal.”

Taritta: “Mas, irmã, o que está acontecendo…?”

Mizelda: “Vá! Não desonre o nome de Surdrak!”

A voz feroz de Mizelda golpeou Taritta como uma lâmina.

Seus olhos se arregalaram diante da intensidade da ordem ―― um tom que beirava o instinto assassino. Sem hesitar mais, ela disparou para fora do salão.

Com isso, o portão principal seria fechado, e a ordem de Abel seria cumprida.

Mas――

Flop: “Chefe da aldeia-kun, o que está acontecendo? É raro ver você mudar de expressão assim.”

Abel: “Agora não é hora das suas bobagens, mercador. Zikr Osman, convença os Generais. Mizelda, você deve…”

??? “Uuuuuuuh―― Hk.”

Antes que pudesse terminar de dar suas ordens, Abel foi interrompido por um choro estridente de criança.

Medium: “Ei, ei, ei, o que tá acontecendo!? Rui-chan, o que foi!?”

Rui: “Uuh! Uuh! Aauh!”

Utakata: “Ruu! Calma! Uu tá aqui!”

Medium virou-se surpresa, sentindo os puxões desesperados em seus cabelos trançados.

Montada em seus ombros, Rui se debatia violentamente, enquanto Utakata tentava acalmá-la.

No entanto, o surto de Rui não diminuía ―― pelo contrário, seus olhos estavam arregalados de pavor, e lágrimas escorriam pelo seu rosto, manchando suas bochechas coradas.

Rem: “Rui-chan, por favor, se acalme! O que foi? Se tem algo errado, me diga, eu vou ouvir, então não chore…”

Rui: “Uuh!”

Rem: “Hã? Ali, o que está acontecendo?”

Rem se aproximou, incapaz de assistir impassível ao pranto desesperado de Rui.

E, assim que percebeu a presença dela, Rui estendeu a mão trêmula, apontando para um canto do salão, as lágrimas escorrendo sem controle.

Subaru e Abel acompanharam seu olhar.

Mas… não havia nada ali. ――Não deveria haver nada ali.

Abel: “Mizelda!”

Mizelda: “OOHHHH――!!”

Foi Abel quem percebeu primeiro.

E, como se já estivesse esperando a ordem, Mizelda sacou seu arco num instante, puxando quatro flechas de uma vez e as encaixando na corda.

A líder dos Surdrakianos disparou.

Quatro flechas voaram impiedosamente, cravando-se naquele vazio para o qual Rui apontava.

Cada um daqueles disparos tinha o mesmo peso esmagador do golpe do Caçador ―― aquele que havia matado Subaru na selva.

Se tivessem atingido Subaru, teriam feito seu corpo em pedaços sem hesitação.

As flechas atingiram as paredes e o chão, que deveriam ser mais resistentes do que qualquer alvo vivo, destroçando tudo ao impacto e levantando uma densa nuvem de poeira pelo salão.

Enquanto os soldados se abrigavam e respiravam ofegantes, Subaru e os outros observavam atentamente a fumaça para verificar se havia de fato uma causa para Rui fazer tal agitação

??? “Algo assim não vai me matar.”

De algum lugar, uma voz lânguida deslizou suavemente pelo salão tomado pela fumaça.

A princípio, Subaru identificou que pertencia a uma mulher.

Seus ouvidos captaram um tom lento, despreocupado, quase sem emoção, e de volume modesto.

Era um som fora de lugar, que destoava completamente da tensão que dominava o ambiente.

No entanto――

O impacto daquela voz foi avassalador.

Mizelda: “――――”

Num piscar de olhos, o corpo inteiro de Mizelda foi consumido por chamas violentas. Sem aviso, o fogo irrompeu, envolvendo-a por completo.


Mizelda: “――Tchtch!!”

Num piscar de olhos, Mizelda foi envolvida por uma onda de chamas, soltando um grito abafado e distorcido pelo calor.

O corpo da guerreira, agora uma silhueta em chamas, paralisou todos ao redor. A cena era brutal demais para que alguém reagisse de imediato.

Kuna: “――Tch, Holly!!”

Holly: “E-entendido~!!”

Assim que Kuna gritou, Holly correu apressada até um grande recipiente cheio d’água.

Erguendo-o com sua força monstruosa, lançou-o com toda a brutalidade contra a incendiada Mizelda.

A água se espalhou no impacto, envolvendo Mizelda e derrubando-a no chão.

As chamas a consumiram por meros instantes ―― mas imaginar a dor de ter o próprio corpo inteiro incinerado era algo além da compreensão.

A situação se desenrolou rápido demais para Subaru processar o que diabos havia acontecido.

No entanto, em meio ao caos, ele percebeu uma nova presença no centro do salão.

E Subaru não era o único.

Pouco a pouco, todos os outros também notaram a nova figura ali presente.

――Uma bela garota, de pele acobreada quase totalmente exposta.

Seus cabelos prateados reluziam sob a luz do fogo. Seu olho esquerdo estava coberto por uma venda.

Uma cauda farta e peluda balançava atrás dela, e em suas mãos havia um simples galho, como se tivesse sido colhido no meio do nada.

Seu rosto sem expressão passava uma sensação estranha. Havia algo desbalanceado nela ―― pois, apesar da aura fria e distante, seu corpo exuberante transbordava juventude feminina.

Mas, sem dúvida alguma, foi ela quem causou tudo aquilo.

Quem era ela? O que queria? O que havia feito?

Nada disso era claro. Mas, então――

??? “――Você, Arakiya.”

Enquanto todos permaneciam estáticos, alguém pronunciou o nome da garota.

O olhar afiado que a encarava pertencia a um único homem ―― o Imperador deposto do Sacro Império de Vollachia.

Aquele que Zikr jurou servir imediatamente, agora encarava Arakiya de frente.

Mas ela, sem qualquer hesitação, apenas balançou o galho em sua mão, despreocupada.

Arakiya: “Quanto tempo, Vossa Excelência.”

Abel: “Vejo que continua em boa forma.――Chisha também não está pegando leve.”

Arakiya: “Claro que não. Isso seria perigoso, afinal.”

Da parte de Arakiya, a conversa não parecia nem um pouco tensa.

Mesmo que pudessem trocar palavras, a expressão tensa de Abel deixava claro que ela não era alguém com quem se podia conversar livremente.

Para começo de conversa, quem era essa mulher que tratava Abel com tamanha casualidade, mesmo após reconhecê-lo como Imperador?

Zikr: “General de Primeira Classe… Arakiya…”

Subaru: “…O que você disse?”

Parado ao lado de Zikr, Subaru sentiu a tensão se acumular ao ouvir aquelas palavras abafadas.

Esperava ter escutado errado. Mas o olhar sério de Zikr apagou essa possibilidade por completo.

E, como para dissipar qualquer dúvida, Zikr repetiu:

Zikr: “General de Primeira Classe, Arakiya… Uma das mais fortes do Império. Uma dos Nove Generais Divinos!”

Abel: “E ocupa a segunda posição entre os Nove Generais Divinos. O que significa que é a segunda pessoa mais forte de todo o Império.”

Subaru: “A segunda mais forte do Império…!?”

O grito abafado de Zikr, seguido pela afirmação de Abel, fez Subaru prender a respiração.

No centro do salão, cercada por olhares atônitos, Arakiya ergueu o galho em sua mão e――

Arakiya: “Exatamente!”

Ela estufou o peito com orgulho.

Subaru: “――――”

Pouco a p,ouco, os Surdrakianos que estavam no salão começaram a cercá-la.

Mizelda havia sido derrubada no primeiro ataque, restando apenas dezessete combatentes ―― incluindo Utakata, que nem sequer era uma guerreira. Então era difícil dizer se isso seria o bastante.

No entanto――,

Surdrakiana: “Não podemos deixar você estragar tudo agora que a vitória está ao nosso alcance――!”

Uma das guerreiras cuspiu um xingamento, agarrando uma das espadas que Subaru havia confiscado.

Se conseguissem afastá-la ou derrubá-la e capturá-la, garantiriam de vez a queda de Guaral.

Mas――

Arakiya: “Tentem o quanto quiserem, não vai adiantar.”

No instante seguinte, um vento violento varreu o salão, desordenando tudo em seu caminho.

Subaru, os Surdrakianos e até os soldados imperiais amarrados foram arremessados juntos, sem distinção entre aliados e inimigos.

Arakiya: “――――”

O mundo virou de cabeça para baixo.

Subaru perdeu completamente a noção de espaço ―― cima, baixo, esquerda, direita, frente, trás ―― tudo se tornou um caos indistinto. Seu corpo foi jogado contra o chão, contra as paredes, contra o teto, e a dor lancinante quase o fez desmaiar na hora.

Subaru: “Kah!”

Deitado no chão, ofegante, Subaru olhou para o teto destruído e sua mente tentou desesperadamente processar o que havia acontecido. ――Um tornado, talvez.

Em um único instante, um tornado colossal irrompeu dentro do salão, engolindo Subaru e todos os outros, atirando-os como meros pedaços de papel em uma tempestade.

O tornado de Arakiya aniquilou o ambiente, sem distinguir entre pessoas ou objetos, aliados ou inimigos.

Mesmo assim, Subaru ainda se agarrava ao fio da consciência.

E então――

Zikr: “Não… vou deixar… que você a machuque ainda mais…”

Segurando Subaru, Zikr soltou um gemido, abrindo os braços para protegê-lo.

No instante em que o tornado explodiu, Zikr puxou Subaru para perto de si, tentando amortecer o impacto. O efeito foi limitado, mas impediu que Subaru perdesse a consciência completamente.

No entanto――

Subaru: “Isso… só pode ser uma piada, né…?”

Olhando ao redor, Subaru cuspiu aquelas palavras com um gosto amargo de desespero.

Pessoas e objetos estavam espalhados por todo o salão, um cenário de caos absoluto.

Os Surdrakianos, que mal haviam erguido suas armas momentos antes, estavam todos caídos.

Os que haviam demonstrado hostilidade foram justamente os mais atingidos.

Ele se perguntava se o tornado de Arakiya realmente escolheu quem atacar no meio de tanta destruição.

Subaru: “――Re…m.”

Ignorando a dor que consumia seu corpo, Subaru vasculhou o salão em busca de Rem.

Assim como os Surdrakianos e os outros, ela poderia ter perdido a consciência com o impacto. Se tivesse sido atingida no lugar errado, o pior poderia ter acontecido.

Mas então, enquanto olhava ao redor, seus olhos pousaram em alguém.

Não em Rem. Não era Rem. Mas, ainda assim, aquela pessoa capturou sua atenção.

Pois, mesmo após ser arrastado pelo tornado, ele se reergueu, escapando até a varanda semi-destruída. Com as costas apoiadas no parapeito e os olhos fixos em Arakiya, Ele se mantinha de pé.

Subaru: “Abel…”

Ele não fazia ideia de como Abel sobreviveu àquele tornado. Suas feridas eram mínimas ―― mas ainda assim, o sangue escorria de sua testa e um de seus braços pendia inerte ao lado do corpo.

No entanto, o olhar do Imperador continuava inabalável.

Abel: “Uma marionete obediente… ousando agir de forma tão grandiosa. Você esqueceu por que se juntou às minhas fileiras?”

Arakiya: “…Vossa Excelência mentiu. Me enganou. Por isso… nunca vou perdoá-lo.”

Abel: “――Foi Chisha quem colocou essa ideia na sua cabeça?”

Ele exalou um suspiro pesado, o fôlego manchado de sangue, os olhos ligeiramente baixos.

O rosto de Arakiya permanecia inexpressivo, mas em seu olhar, havia raiva.

Uma raiva nítida.

Pisando firme no chão arruinado, ela começou a avançar.

Seus passos aproximavam-se de Abel sobre a varanda destruída.

Abel não parecia ter fugido até ali apenas para manter as aparências.

Mas, ferido e desarmado, ele tinha algum trunfo escondido?

Cada passo de Arakiya soava como a contagem regressiva para a morte de Abel.

Um passo.

Dois passos.

Arakya se aproximava de Abel

Cada vez mais perto.

E então――

??? “Uh, AAAAAAAAAAAAAA―― HK!!”

Um grito estridente ecoou pelo salão. E no instante seguinte, uma pilastra desabou violentamente, atingindo o exato ponto onde Arakiya estava prestes a pisar.

O impacto foi avassalador.

O rugido da pedra se despedaçando ecoou pelo salão, e uma pilastra maciça, que certamente pesava centenas de quilos, caiu violentamente sobre Arakiya.

Foi Rem quem desferiu o ataque.

Ela havia se escondido atrás de uma coluna, esperando o momento exato para agir.

Mesmo após ser engolida pelo tornado, permanecera consciente e à espreita ―― e Abel sabia disso.

Do seu ponto de vista, ele provavelmente conseguia vê-la.

Com sua presença oculta, Rem aguardou a deixa do olhar de Abel.

E no instante certo, empurrou a pilastra.

Foi a última cartada que ele conseguiu arranjar naquela situação desesperadora, confiando na força de Rem.

O golpe foi certeiro.

A colossal coluna desabou com brutalidade, esmagando o corpo esguio de Arakiya ――

Arakiya: “Hmm?”

Rem: “――Não pode ser.”

Sem sequer olhar para o próprio pé, o chão sob Arakiya se contorceu, como se fosse feito de caramelo derretido, erguendo-se para sustentá-la.

A pilastra caiu sobre esse novo suporte, como se fizesse parte de uma obra de arte bizarra.

Todo o impacto do ataque de Rem… havia sido completamente anulado.

Toda a força de Rem não atingiu Arakiya, nem sequer a distraiu

Rem, ainda ajoelhada ao lado dos destroços, Arakiya olhou para suas costas Depois de dar uma olhada em Rem, seus olhos se arregalaram levemente.

Arakiya: “Oh… uma oni. Isso é raro.”

Rem: “Você é…”

Arakiya: “…Não se meta no meu caminho. Não quero que meu povo se machuque.”

Rem: “Seu… povo?”

O rosto de Rem ficou vermelho de indignação.

Que absurdo era aquele que ela estava dizendo?

Mas, lamentavelmente, raiva era apenas um sentimento ―― e diante de uma oponente tão superior, vontade de resistir não significava nada.

Ainda assim, Rem não desistiu.

Ela agarrou um pedaço de entulho, e dessa vez tentou lançar pedras, declarando sua intenção de atacar.

Porém――

Arakiya apenas balançou o galho em sua mão.

E uma rajada varreu tudo ao redor de Rem.

Literalmente, tudo foi levado pelo vento.

Não apenas as pedras no chão.

As paredes e o teto atrás dela também.

Os andares superiores da Prefeitura ruíram um após o outro.

Arakiya: “Não sou boa em controlar minha força. Se continuar assim, você também vai voar pelos ares.”

Rem: “Se é assim, então por que não faz isso logo? Depois de tudo o que já fez, ainda tem algo pra hesitar? Não é como se…”

Arakiya: “…Decepcionante.”

A resposta entre dentes de Rem fez os ombros de Arakiya caírem, como se estivesse frustrada.

Porém, apesar do gesto fofo, suas ações eram brutais e diretas.

Lentamente, o galho em sua mão foi erguido.

E num instante, um fenômeno de outra dimensão esmagaria Rem por completo.

――Natsuki Subaru jamais permitiria isso.

Subaru: “AH, AHHHHH―― Hk!”

Com um grito, seu corpo se lançou para frente, espantando a dor que lhe castigava.

Medo sufocante.

Ansiedade esmagadora.

Todos esses sentimentos se dissiparam naquele momento.

Subaru abandonou qualquer hesitação e seguiu seus instintos, interpondo-se entre Rem e Arakiya.

Se pudesse protegê-la, isso bastaria.

Se fosse preciso, ele morreria por isso.

Ele não queria morrer.

Se morresse aqui, tudo estaria perdido.

Mas, ainda assim, não se importava em morrer ali.

Vestido como uma mulher.

Com seios falsos, maquiagem no rosto, peruca nos cabelos, pele clareada para buscar beleza em meio ao disfarce ridículo.

Mesmo assim――

Com o gosto do sangue subindo à garganta, Natsuki Subaru se colocou diante da garota que precisava proteger.

Rem: “――Hk.”

Com Rem segura às suas costas, ele abriu os braços.

Pôde ouvir o som engasgado que escapou dela ao perceber que Subaru se colocou entre ela e Arakiya.

Mas o que ela pensou ou sentiu sobre sua ação――

Subaru jamais saberia.

Pois essa oportunidade nunca mais viria.

Ela foi arrancada em um piscar de olhos, diante da destruição que se chamava Arakiya――

??? “――Que cena ridícula. Mas devo admitir que tem seu charme.”

Essa voz atingiu os ouvidos de Subaru no momento em que ele estava pronto para perder tudo.

Quando fechou os olhos, esperando o fim iminente…

Nenhum calor.

Nenhuma dor.

Nenhuma perda.

Nenhum sofrimento.

Nenhuma sede.

Nenhum dos sinais que levavam à morte recaiu sobre seu corpo.

E então, ele abriu os olhos lentamente.

Diante dele, que tinha os braços estendidos, protegendo Rem às suas costas――

Havia outra pessoa em sua frente.

Não era Arakiya.

Ela estava do outro lado daquela presença, ele conseguia vê-la parada lá, atordoada, com espanto estampado em seu rosto.

Aquela que havia interrompido a destruição e feito Arakiya congelar no lugar girou nos calcanhares, cortando tudo aquilo que deveria ter acontecido, enquanto segurava uma espada incandescente na mão direita.

Olhos escarlates, carregando uma arrogância inabalável.

Seios fartos, que saltavam suavemente conforme ela cruzava os braços.

Seu olhar transbordava desprezo e beleza cruel, como uma rainha destinada a ter o mundo aos seus pés.

Subaru simplesmente engasgou com a aparição de uma uma presença que não deveria estar ali.

Subaru: “――Ah.”

Olhando para ele, a dona daquele rosto deslumbrante ―― a personificação da palavra “carmesim” ―― arqueou os lábios em um sorriso zombeteiro.

E então――

??? “Não há necessidade de você dizer o seu nome, tolo. Mas permitirei que pronuncie o meu.”

Com um sorriso tingido da cor do sangue, Priscilla Barielle dizia essas palavras.

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