Subaru: “– aah, está justamente como ela disse. Mas o que é isso? Isso não está completamente limpo”
Espiando o fundo da prateleira que ele tinha inclinado, Subaru fez uma careta para o seu trabalho mal feito.
Tendo retirado o seu paletó e arregaçado as mangas de sua blusa, Subaru tinha incorporado por completo o estilo de um limpador – todavia, os resultados de seus esforços mereciam ter o título de “aprendiz” ou “ruim” anexado bem no topo.
Demonstrando a pequena quantidade de destreza que ele naturalmente possuía, Subaru se tornou capaz de realizar seu trabalho na mansão com mais eficiência comparado a antes.
Em meio a esses pensamentos, ele sentiu seu orgulho ser repreendido.
Havia uma sombra observando por trás a auto-reflexão de Subaru, zombando-o com um “ah!”
Ram: “Ora, ora, se não é o Barusu. É só a Ram intensificar um pouco sua rotina de trabalho que você atinge esse estado deplorável. E pensar que tinha melhorado… você devia ter vergonha de si mesmo.”
Subaru: “É, eu não posso dizer nada contra isso… pera, eu posso sim! Como pode achar que tem o direito de vir aqui com uma atitude tão arrogante? Você não tem trabalhado o bastante para me dar sermão assim!”
Ram: “Diferente de você, Ram é muito habilidosa em ser bem organizada e eficiente. Então, desde que alocamos nossa carga de trabalho para a manhã, Ram se certificou de que ela se encarregaria da mínima quantidade de trabalho possível.”
Subaru: “Habilidosa o bastante não para trabalhar eficientemente, mas para evitar trabalhar, é!?”
A arte da guerra se resumia não em sair vitorioso de uma luta, mas sim em vencer sem lutar.
Era isso o que parecia, se dito de uma boa maneira, e era uma habilidade excelente para cabular trabalho se visto de uma maneira ruim, mas já era tarde demais, não importava o quanto Subaru quisesse dizer, porque ele não foi capaz de levantar a questão pela manhã.
Embora–,
Subaru: “O fardo do trabalho indo todo para a Rem… não é algo que nem eu nem você queremos, né!?”
Ram: “Hmm…você está sendo bastante descarado apesar de ser o Barusu. Mas você está certo.”
Enquanto Subaru coçava a cabeça num gesto de desapontamento, Ram estreitava seus olhos para ele. Assim, quando os dois viraram os rostos para a outra extremidade da sala, lá estava uma pessoa que se movia com pressa, com seus passos batendo no chão.
Uma garota de cabelo azul, limpando as partes triviais da sala, próxima às manchas úmidas do chão, enquanto balançava a bainha da sua saia de empregada –,
Subaru: “―Rem.”
Rem: “Ah, sim, desculpe-me. Eu estava um pouco absorta no meu trabalho. Como se saiu como fundo da prateleira, Subaru-kun!?”
A garota, Rem, sorriu suavemente enquanto se virava para responder ao chamado de Subaru, fazendo-lhe uma pergunta.
Quando o sorriso dela foi direcionado a ele, Subaru se desculpou por ter que dar uma resposta patética, mas ele aceitou seu destino, já que não era algo que pudesse esconder.
Sabaru: “É, está do jeito que você disse. Limpar com cuidado os lugares que não podem ser vistos facilmente… Sério, minha atitude de dar por “feito” limpando apenas a superfície não é nada boa.”
Rem: “Não, isso não é verdade. Quando se trata de fingir e maquiar algum trabalho, você é inigualável. Você é o melhor entre os melhores do reino!”
Subaru: “Falando assim vão acabar processando a gente por difamação!”
Ele sabia que Rem não quis ofendê-lo, mas aquela conclusão o apunhalou como uma agulha.
Ser bom em manter uma fachada e esconder seus problemas era uma característica do qual ele próprio estava consciente.
Ram: “Como esperado, você é boa em ver através da essência de várias coisas, Rem.”
Subaru: “Você está sendo barulhenta, Nee-sama. Eu tô um pouco ciente disso, então não me deixe mais desanimado do que já estou!”
Subaru olhou severamente para Ram, que estava cruzando os braços enquanto se sentava na cama. No entanto, ela o retribuiu com um olhar afiado, muito mais intenso que o dele, fazendo-o desviar deprimentemente.
Neste lugar, Natsuki Subaru era a pessoa com a mais baixa posição e com o menor poder.
Subaru: “Droga, é difícil ser vítima de bullying da empregada sênior… em compensação, Rem é gentil, né!?”
Rem: “Sim, é claro. Rem nunca vai dizer nada severo para você. Rem acredita que você vai entendê-la, mesmo que ela não diga nada.”
Subaru: “Sua gentileza vai fazer um buraco dentro de mim.”
Despedaçado por fora pela língua maldita da irmã mais velha, e estilhaçado em farrapos por dentro pelo doce, doce veneno da Rem.
Subaru tinha a impressão de que ficaria confuso, se ele estava em um ambiente favorável ou não, mas provavelmente também dependia de como ele via a situação.
Subaru: “Hey, não feche seus olhos para seus próprios erros, Natsuki Subaru. Deixando a Ram de lado, isso não diz respeito a corresponder às expectativas da Rem para ela? Eu consigo. Não é, Rem!?”
Rem: “Como esperado de você, esse é o espírito. Rem está profundamente impressionada!”
Subaru: “Ah, esse meu otimismo também é uma das minhas melhores qualidades. Então, com que eu devo começar?”
Rem: “Sim… primeiramente, as faixas das janelas não estão devidamente limpas, então vamos refazer isso. Para a parte de cima das prateleiras, não fique nas pontas dos pés, use uma banqueta para limpar adequadamente. Como você viu, não é preciso limpar diariamente a parte de trás da prateleira, mas vai ficar uma sujeira se for não for limpa de tempos em tempos.”
Subaru: “Ahh, estou sob fogo pesado aqui! Vai me fazer cair antes de começar!”
Enquanto Rem, numa velocidade transbordante, imediatamente listava um por um no que o Subaru poderia melhorar, falando num ritmo tão fluido como água, ele foi incapaz de acompanhar com seu bloco-de-notas mental.
No entanto, olhando para a sala da perspectiva do Subaru, que foi elencado como sendo o melhor entre os melhores do reino em criar uma fachada e esconder seus problemas, ele estava surpreso ao saber que ainda havia o que melhorar, mesmo parecendo moderadamente limpo.
Subaru: “Sério, você é muito observadora. Isso é tipo uma dedicação extra das empregadas?”
Rem: “É claro. Ah, mas, se você observar sob a perspectiva de outra pessoa, existem coisas que eventualmente você começará a ver. Rem está sempre pensando em você, Subaru-kun.”
Subaru: “Estou contente, mas as falhas na minha limpeza… as áreas empoeiradas estão sendo descobertas uma atrás da outra.”
Fechando seu punho, a resposta da Rem foi um tanto doce da parte dela, mas para Subaru foi estranho.
Entretanto, ela podia direcionar seu olhar atento mesmo para o menor dos detalhes e realizar minuciosamente o seu trabalho, o que era indicativo dela ter o básico de uma empregada, não importasse o quão humilde ela tentasse ser.
Ela indiscutivelmente fazia jus à reputação de empregada versátil.
Ram: “É natural que seja assim. Porque Rem é a adorável irmãzinha da Ram”
Subaru: “Espera, você que tá se gabando disso?”
Rem: “É porque a atitude ousada da Nee-sama lhe cai perfeitamente bem, é parte de seu charme.”
Enquanto Ram agia toda petulante e altiva sob a cama, descaradamente inclinando sua cabeça e alinhando sua postura, as palavras de Subaru e Rem flutuavam ao redor dela.
Era apenas mais uma cena na vida cotidiana das empregadas e do serviçal que trabalhavam na Mansão Roswall, e ――,
Subaru: “– — Gh, whoa!Hh, dah!”
A sensação de flutuar que durou um momento, e a dor de ser pego pelo chão firme e sólido.
Mesmo sabendo que ia cair, embora ele tenha enrolado seu corpo e rolado para frente para suavizar a queda, ele com certeza sentiu o impacto.
O ataque seguinte do galho grosso, que caiu justo no lugar onde ele tombou, foi especialmente além de suas expectativas. Atingiu seus ombros e a dor inesperada fez com que seus olhos lacrimejarem.
Subaru: “Ow ow.. ahh, pelo menos não houve nenhum ataque seguido além dos da Mãe Natureza. Tudo graças a essa faca……”
Erguendo-se enquanto enxugava uma lágrima de seu olho, Subaru suspirou fundo depois de devolver a faca na sua mão de volta à bainha.
Então ele girou em volta para observar o tronco da grande árvore em que estava pendurado até agora.
Uma longa vinha se estendia na direção do solo de um dos galhos grossos do tronco. Foi cortado ao meio pela faca, mas além da vinha cortada estava um —-,
Subaru:”Uma armadilha de laço… eu já vi isso antes em mangás e animes, mas esses tipos de armadilhas realmente funcionam, hein!?”
Ao dizer isto, Subaru retirou a vinha que estava enrolada e amarrada no seu tornozelo esquerdo.
A armadilha foi montada no solo, feita para agarrar o pé de qualquer um que tentasse passar por cima , deixando a pessoa suspensa no ar à meia altura ― sendo franco, mesmo que Subaru tenha caído na armadilha, ele não fazia ideia de como aquilo poderia ser possível.
Ele também não tinha tempo para procurar a resposta.
Subaru: “Mesmo que ela não tenha memórias, seu conhecimento e habilidades estão intactas, huh… estando nessa tarefa de persegui-la assim, eu percebo que Rem realmente é a irmãzinha da Nee-sama”
Isso era óbvio desde o começo, mas ele estava mais uma vez sendo lembrado disso à força. Claro que ele não queria que isso o enquadrasse dessa maneira, o que era bastante desagradável.
―― Mais de uma hora tinha passado desde que Subaru entrou na floresta na sua busca por Rem.
Seguindo o conselho do homem mascarado, a quem ele conheceu no outro lado da floresta, Subaru conseguiu detectar a tentativa de Rem de despistar a rota usada para escapar junto com Louis.
Graças a isso, podia dizer sem sombra de dúvidas que a distância entre as duas e ele estava diminuindo. No entanto, seu maior obstáculo em diminuir a distância para zero era a cautela de Rem.
Rem era cuidadosa com o cheiro da bruxa ― o miasma que o envolvia, não se limitando apenas a camuflar suas pegadas e as da Louis, mas também a montar armadilha por toda a floresta para atrasá-lo.
Desde que ele recebera aquele poderoso ataque no começo de toda essa situação, Subaru descobriu (você pode dizer que ele caiu) armadilhas que chegavam a um número além de uma dezena. Sabendo que Rem estava posicionando aquela quantidade de armadilhas enquanto corria com as pernas instáveis, levando também um peso morto nas costas, Subaru só poderia ficar profundamente impressionado com ela.
Subaru: “Se fosse algo como cavar um buraco raso ou amarrar um galho no outro, seria na verdade bem fofo, mas…”
Armadilhas menores com o propósito de fazê-lo tropeçar ou torcer o pé. Se fossem estes tipos de armadilhas, não seria tão perigoso, nem seria um obstáculo para continuar rastreando Rem.
Contudo, sua quantidade era anormalmente alta, e era problemático porque ele precisava estar procurando por elas, enquanto andava pelas áreas com consideráveis quantidades de gramas e folhas caídas.
Subaru: “É difícil pra mim lidar com a força da Rem, basta só uma tentativa para ela fazer um poço que pegue uma perna inteira….. a diferença entre as habilidades físicas com que nascemos estão evidentes.”
Junto às armadilhas menores estavam as armadilhas intermediárias, feitas de videiras e árvores caídas, parecidas com a que o arremessou ao ar, visando totalmente atrasá-lo.
Se Subaru não tivesse sido agraciado com o milagre de obter uma faca, quanto tempo teria levado para ele se libertar da armadilha de vinha? Também havia a probabilidade de atrasar ainda mais a sua perseguição por perder sua calma de uma forma ou de outra.
E o que principalmente fez o assustado Subaru hesitar foi ――,
Subaru: “Sh!”
Ele chicoteou com a sua Guiltywhip, que sacou da parte de trás da cintura, desferindo um golpe poderoso com a ponta da arma em um ponto suspeito no chão.
Depois, mirando para o ponto suspeito, dois ou três galhos desceram sobre ele, ricocheteando pelo ar com uma devastadora quantidade de poder. Aquilo tinha força o bastante para quebrar um ou dois de seus braços, se tivesse sido atingido diretamente.
Armadilhas largas, montadas apenas para se aproveitar da habilidade do Subaru de agir rápido ― não eram muitas, mas o fato dessas armadilhas terem sido deveras armadas estava diminuindo a velocidade com que ele avançava floresta adentro.
Ele poderia até dizer que o ataque recebido do grande galho no começo foi uma das grandes armadilhas de Rem.
Enquanto avançava pela floresta, o perigo e o poder das armadilhas maiores aumentava. Ao invés de pensar que Rem, ao ser perseguida, estava perdendo sua compaixão, mais parecia que a habilidade dela estava aumentando.
Subaru: “Ela está aprendendo e ficando cada vez melhor em fazer as armadilhas, enquanto as cria durante a fuga… Droga, era de se esperar, visto o quão esforçada você é, Rem. Só que eu não queria que isso fosse demonstrado contra mim.”
Ele sabia que Rem trabalhava duro, e que sempre dava seu melhor em tudo, e ele estava feliz que aquelas qualidades não haviam se perdido, mesmo na situação atual, em que suas memórias ainda não tinham retornado. No entanto, isso era irrelevante.
Resumindo, Rem estava evoluindo durante sua batalha. Levando em conta que a própria melhora de Subaru estava praticamente no limite, para piorar tudo de vez, a já grande diferença nas habilidades dos dois seria ainda mais perceptível.
Ele precisava capturá-la antes que essa diferença fosse definida, mas ――,
Subaru: “――――”
Desarmando a enorme armadilha à sua frente, Subaru segurou seu fôlego por um momento.
Observando inquietamente a área a seu redor, o que ele procurava era a próxima rota de fuga de Rem, que tinha criado a armadilha que ele acabara de desfazer. Para achar, ele precisava seguir a pequena quantidade de rastros que ela tentou esconder.
Claro, ele poderia pensar numa situação onde ela não deixaria nenhum rastro, mas a Rem de agora não tinha a habilidade ou o tempo necessário para fazer isso. Por causa disso――,
Subaru: “――Encontrei.”
No espaço entre as árvores, onde a armadilha tinha sido armada anteriormente, Subaru descobriu um pedaço arrancado da casca da árvore, embora apenas um pouco.
Não estava ligada à armadilha grande, e era um pequeno arranhão, mais parecido com um gato afiando suas garras numa parede de casa. Contudo, esses pequenos arranhões serviram para guiar Subaru até este ponto.
Afinal, a real identidade desses arranhões eram os rastros deixados pelo “obstáculo”.
Subaru: “――――”
Era algo irônico, mas o fator principal que entrou no caminho de Rem e permitiu que Subaru continuasse sua busca era a existência do Arcebispo do Pecado que ela levava consigo em sua escapada ― Louis Arneb
Rem e Louis; Subaru não sabia o quão compatíveis elas eram uma com a outra, mas o que ele deduzia dos pequenos arranhões era que Louis não era bem-comportada e cooperativa com as ações da Rem.
Não importasse o quanto Rem tentasse apagar suas pegadas, Louis arruinava todas as suas tentativas.
Subaru: “Merda……!”
Percebendo a boa notícia que usaria para continuar sua busca, seus sentimentos permaneceram nebulosos, com os raios da revitalização recusando-se a iluminá-los.
É natural que assim fosse. Sendo isso uma mãozinha da existência de Louis para Subaru, se pensasse a respeito de sua relação com a pérfida Arcebispo do Pecado, ele não poderia se alegrar menos.
Mesmo que não tenha sido Louis que diretamente tenha roubado o “nome” e as “memórias” de Rem, os três irmãos, os Arcebispos do Pecado representando a Gula, todos carregavam pecados no mesmo grau. Um deles tendo o peso de seus pecados abrandado não era algo que iria acontecer.
Não importava se ela não tinha um corpo físico que existisse no mundo real, ou que ela tenha se perdido do caminho correto na vida.
Era esta a conclusão de Subaru a respeito de Louis Arneb, que vinha discursando, gritando e berrando naquele mundo repleto de alvura.
Por essa razão, mesmo que Subaru alcance e convença a Rem, ele não tinha a menor intenção de se comprometer sobre como Louis seria tratada.
Primeiramente――,
Subaru: “Por que diabos… eu tenho que brincar de pega-pega com a Rem assim?……!”
Enquanto refletia sobre alcançar Rem e abordar o que eles fariam sobre Louis, Subaru mordeu seu lábio com a raiva que o infestou, apesar de ter deixado isso fora de sua mente até agora.
Ele tinha considerado a possibilidade da recém despertada Rem ter perdido suas “memórias” e seu “nome”.
É claro, teria sido melhor se a Rem completa e original tivesse retornado, mas já que casos como Crusch e Julius aconteceram, ele não poderia realmente esperar que Rem acordasse do mesmo jeito de antes.
Suas preocupações se confirmaram e, como resultado, Rem esqueceu sobre si mesma, assim como esqueceu de Subaru.
Mesmo se as coisas acontecessem assim, Subaru achava que poderia aguentar o problema e oferecer apoio à ela.
Emilia, Ram, Beatrice e os outros ― com os membros da facção ajudando uns aos outros, todos podiam apoiar Rem juntos. Era essa a razão que dava forças à Subaru.
No entanto, agora, numa floresta sem nenhuma das pessoas com as quais Subaru podia contar, ele perseguia a Rem em fuga.
Subaru: “Por que… sempre acaba desse jeito……? Por que tudo sempre……”
Impedia-o de resolver as coisas de modo rápido e sem problemas?
Rem acordaria depois de se lembrar de tudo, e embora ela ficasse surpresa com o tempo que se passou durante seu grande sono, eles escreveriam juntos a história que estava diante deles. Ele estava bem com isso.
Mesmo que Rem estivesse nesse mesmo estado de agora, se os aliados de Subaru, que dariam o seu melhor juntos como um grupo, estivesse lá por ela e permanecessem ao seu lado, então ele não estaria sendo atormentado por um desastre assim. Ele estava bem com isso, também.
O destino sempre reservou o mais difícil e cruel caminho para Natsuki Subaru.
E não só preparou isso para Subaru, como também direcionou para as pessoas que eram queridas por ele.
Subaru: “――Não acha que reclamou o bastante, Natsuki Subaru?”
Rangendo a parte de trás dos seus dentes, Subaru deu esbofeteou o próprio rosto com ambas as mãos.
A dor aguda e o impacto abalaram sua consciência, e Subaru temporariamente superou os pensamentos inúteis que até há pouco estava ruminando.
Sim, o destino o tempo todo o guiava pelo caminho mais brutal.
Era esse o porquê de Natsuki Subaru ser constantemente surrado pelas dificuldades e sofrimentos como se apanhasse de chicote, erguendo-se a cada vez que caía, apesar de sentir que estava prestes a vomitar sangue, e continuando a seguir em frente.
Subaru: “O homem que, por fim, transformou suas dificuldades em seu próprio chicote. Esse sou eu.”
Estritamente falando, Guiltylowe, a Majuu que forneceu a matéria prima para o chicote, não era exatamente o obstáculo que bloqueava seu caminho, e seu nível de dificuldade era inferior entre outras adversidades ele já enfrentou. Assim Subaru declarou.
Bravateando e tentando se animar, fazendo vibrar suas próprias emoções, concentrando sua mente perspicaz e procurando uma maneira de lutar. Era isso que Subaru vinha fazendo até agora.
Ele vinha lidando com isso num grau tolamente honesto. Ele não tinha outro modo de fazer isso. Então, por hoje, faria o mesmo também.
Subaru: “Pensa, pensa, pensa, eu. Mesmo que eu continue perseguindo a Rem, ela vai acabar percebendo que Louis está atrapalhando seu plano. Se isso acontecer, então os rastros serão desfeitos mais cedo ou mais tarde. Antes que isso aconteça……”
Ou ele as alcança, ou ele encontra um jeito de impedi-las de prosseguir.
Subaru: “――――”
Considerando a diferença nos seus poderes de luta, Subaru forçou seu cérebro o máximo que pode, tentando comparar as forças da parte adversária com as dele.
Nesse momento, as forças de Rem eram sua destreza e sua precaução, habilidades que não estavam perdidas mesmo com sua perda de memória. Ele queria se atentar a velocidade com que ela melhorava, enquanto ela se tornava mais hábil em montar armadilhas, a fofura da sua voz e do seu rosto, e no modo como ela agia, mas isso podia esperar.
Em contrapartida, a forças de Subaru estavam no manuseio do chicote e da faca, as pistas que Louis estava deixava pelo caminho, mesmo que fosse irritante pensar que ela estava o ajudando, e considerando a forma de seus olhos maldosos como parte de seu charme ― ele podia ressaltar que conhecia que tipo de pessoa Rem era, mais até que a própria Rem.
Subaru: “……Rem já deve ter notado que eu estou perseguindo-a.”
A existência das inúmeras armadilhas atestam isso, mas Rem tinha adivinhado que Subaru estava logo atrás dela.
Não fosse isso, então não haveria razão dela chegar ao ponto de preparar um número exorbitante de armadilhas. Ela poderia apenas ter armado algumas para garantir sua segurança, priorizando sua fuga.
Ao invés de fazer isso, ela continuou a armar várias armadilhas porque tinha certeza que Subaru estava atrás dela. E a razão do porquê ela tinha tanta certeza era o Miasma da bruxa, como ele havia imaginado.
Subaru: “Meu corpo tá fedendo tanto assim……?”
Subaru cheirou seu braço, mas embora ele pudesse discernir o cheiro de poeira e suor, não chegava ao ponto de ter espalhado um odor rançoso ao redor do corpo. Claro, as pessoas diziam que era difícil notar seu próprio cheiro, mas nesse caso, o problema era o miasma da Bruxa poder ser detectado apenas por aqueles que podiam detectá-lo.
Anteriormente, ele ouviu da Rem e da Beatrice algo a respeito do cheiro desaparecer dia após dia, mas sua podridão aumentaria drasticamente se fosse logo depois dele “Retornar pela morte”, ou dependendo da frequência de uso.
E, durante metade de um dia, os retornos de Subaru na Torre de Vigia empilharam aproximadamente o dobro de Natsuki Subaru, e então ele fora transportado para um lugar como esse.
O que significava――,
Subaru: “Na história da minha vida neste mundo, o homem que, atualmente, mais fede à Bruxa sou eu.”
Não se sabia se havia um limite para o miasma da Bruxa ou não, mas Subaru podia adivinhar que o seu eu de agora estava exalando uma considerável quantidade do miasma. Sendo esse o caso, então sua busca tinha já definitivamente sido descoberta.
Chegasse o momento em que Rem fosse incapaz de montar a distância entre eles, apesar de continuar fugindo, ela acabaria ficando impaciente.
Geralmente tapear o oponente e levá-lo a cometer um erro era um truque batido de Subaru, mas ele também queria criar uma nova e amigável relação com Rem, então ele queria evitar usar esse método.
Subaru: “O que é bom para um, pode ser ruim para outro… é impossível satisfazer os dois lados.”
O fato de que o ditado estava sendo trazido à vida real, mostrava o quão ruim era a situação dita de uma maneira direta.
Pensando, Subaru desfez duas ou três armadilhas menores e intermediárias, perseguindo a rota que Rem tomou enquanto seguia as pistas deixadas por Louis.
Ele genuinamente se sentiu como João e Maria, que apanhavam as migalhas de pão enquanto caminhavam. No entanto, a diferença era que Subaru estava sozinho, e também, nesse caso, era a dupla que fugia.
Subaru: “E está num lugar bem óbvio agora. Próximo…..”
Ao descobrir a casca arranhada da árvore, Subaru escolheu o próximo caminho a seguir…
Louis não pretendia deixar Subaru saber o paradeiro dela e de Rem, então se não havia nenhum senso lógico entre as marcas que viraram suas pistas, havia vários casos em que era difícil de encontrá-las.
Era bem possível que, enquanto Rem criava e armava as armadilhas, Louis, que era deixada sozinha, fazia apenas o que queria. Provavelmente era essa a verdade da questão.
As pistas deixadas por Louis continuaram a ser difíceis de serem encontradas por um tempo, mas foi muito útil quando ele descobriu uma óbvia.
Subaru: “Ainda bem que foi deixado ali. Se Rem encontrasse e apagasse, a trilha de pistas teria sido…..”
Interrompida, ele quase disse, antes de ter pausado suas palavras.
Então, ele retornou à árvore pela qual tinha acabado de passar, encarando onde a casca tinha sido arrancada. A árvore era grande e robusta, e a casca foi arrancada de um local um tanto destacado.
Rem falharia em notar algo assim?
Subaru: “――――”
Confuso por causa das pegadas no gramado, Rem gradualmente tornando-se hábil em montar armadilhas, e uma enorme quantidade de casca na árvore na frente dele, arrancadas de maneira exagerada.
Estas três peças combinaram-se dentro da mente de Subaru, completando o quebra-cabeça que o causava uma estranha sensação.
Eventualmente uma única resposta formou-se dentro dele.
Subaru: “Se é a Rem que eu conheço….”
Se fosse a Rem que ele conhecia, que era tática e boa em ser atenta, ela teria eliminado qualquer rastro visível.
Já que a pista diante dele estava largada, a não ser que Rem tenha perdido sua visão periférica――,
Subaru: “――Hah!”
Na direção do caminho pelo qual tentou se mover, Subaru arrancou um tufo de grama grossa bem debaixo dos seus pés e arremessou naquela direção.
A grama, com terra envolta entre suas raízes, fez um arco enquanto voava na direção da grama mais alta――,
Imediatamente depois, da grama alta ressoou um som terrivelmente grande na medida em que mergulhava, e um poço enorme engoliu a terra.
Subaru: “Nossa……!”
Um enorme buraco se materializou na frente dele, quase fazendo-o pensar para quê os outros buracos das armadilhas menores serviam. No entanto, as armadilhas não acabaram aí.
Visando o enorme poço que apareceu, as árvores ao redor rangeram enquanto quebravam e colapsavam. As árvores quebradas caíram dentro do enorme buraco uma após a outra, fazendo o buraco recém aberto encher-se imediatamente.
Tivesse Subaru caído naquele enorme poço, ele teria estado preso e sepultado agora, totalmente enterrado vivo.
Chegando nesse ponto, uma técnica poderosa e desafiadora foi executada, usando as outras armadilhas até agora como meros truques psicológicos.
As pistas que vinham guiando a busca de Subaru levaram-no a uma armadilha pronta para abocanhá-lo e enterrá-lo vivo.
Ele queria louvar o fato de ser uma medida com a cara da Rem, porém ――,
Subaru: “――A Rem que eu conheço não faria só isso.”
Se alguém montasse armadilhas psicológicas, então o melhor resultado seria o seu perseguidor caindo na armadilha e sendo forçado a parar de se mover.
No entanto, a Rem que ele conhecia era atenta, esforçada, com uma voz e rosto fofos, esquentava seu peito ao pensar o quão admirável ela era em suas ações, e ――,
Subaru: “…iniciaria um ataque caso se cansasse de esperar. ―― não é mesmo, Rem!?”
Subaru se virou depois de dizer isso, observando a árvore com a casca arrancada.
Foi nesse momento…
”――fh!!”
Que Rem rangeu os dentes, e pulou em cima de Subaru de um galho dessa mesma árvore.
Incapaz de despistar o seu perseguidor, com as armadilhas sequer servindo para atrasá-lo.
Se colocada nessa situação, o que a Rem que Subaru conhecia poderia fazer?
Sendo capaz de rastrear a localização de seu perseguidor por causa do cheiro, se ela também percebesse a ajuda das “migalhas de pão” que ele estava recebendo, ela usaria isto contra ele e o capturaria, erradicando a causa direta de sua fuga.
A previsão de Subaru estava precisamente certa.
O problema era ――,
Rem: “――Haaaaahh!”
A diferença no poder de luta de ambos, já que Subaru foi incapaz de parar a investida de Rem.
Enquanto gemia, “Gh, whoa!”, ele foi então arremessado por um soco da Rem.
De verdade, Rem movendo-se daquele jeito, apesar de não poder usar plenamente suas pernas, e seu corpo imediatamente se mover para tentar pegá-la, foram duas coisas para as quais ele não estava preparado.
Rem: “Você é tão persistente! Tão, tão persistente!”
Subaru: “Pe… pera, Rem, por favor, me escut……”
Rem: “Que insistente…!”
Ela girou seus braços, um deles atingiu Subaru, fazendo com que um filete de sangue começasse a descer pelo seu nariz. Ele implorou a ela, apesar dele estar sujo de sangue, mas Rem sequer ouvia, estando tomada pela fúria.
Rem parou com as mãos e pés no chão da floresta, seus olhos azuis encarando Subaru.
Rem: “Se você tivesse desistido antes, eu não teria ido tão longe. Ainda assim, você continua nos perseguindo… Por favor, pare!”
Subaru: “Machuca você dizendo de maneira tão simples…..”
Rem: “Meu nariz parece que vai cair fora. Quando você se aproxima, dá pra notar imediatamente. E o pior de tudo é que o cheiro só aumentou desde antes…..”
Com as mãos no seu nariz ensanguentado, Subaru cambaleou.
Subaru, que conseguia se levantar, e Rem, que não conseguia. A situação parecia favorecer Subaru, mas essa mera vantagem poderia facilmente ser desfeita por causa de um fator: força física.
Para piorar, se Rem começasse a se mover tão agilmente quanto um Teke Teke[¹] usando apenas seus braços, certamente Subaru seria nocauteado e jogado para dentro do enorme poço, e este seria o seu fim.
Ele teria de desfazer seu mal-entendido enquanto calculava a distância entre ela e ele, de pouco em pouco.
Subaru: “Rem, por favor, me escute. Eu sei que estou fedendo muito pra você…..”
Rem: “……Sim, você fede muito.”
Subaru: “Uma maneira nostálgica de dizer…..! Eu sei que tô fedendo, e eu sei que não parece algo muito amigável, mas eu não tenho má intenções com você!”
Erguendo suas mãos para cima, Subaru mostrou-a que ele não tinha nenhuma intenção má.
Entretanto, apesar do que ele disse, o rosto de Rem ainda mostrava cautela. A esse ponto, o miasma da Bruxa era o principal fator de suspeita da Rem.
Não importa o que ele dissesse, qualquer coisa que o ligasse à bruxa realmente não poderia causar uma boa impressão.
Subaru: “Tem a questão do meu cheiro, e eu sei que isso causou uma péssima primeira impressão. Mesmo assim, eu tenho aguentado viver comigo mesmo por 18 anos. Por favor, me deixe recomeçar isso!”
Rem: “……Recomeçar?”
Subaru: “A culpa foi minha. Você estava preocupada e ansiosa tendo esquecido de tudo. Eu não pude explicar nada para você. E tudo por causa dos meus sentimentos egoístas. Eu não te ouvi nem pensei nos seus sentimentos.”
Os pensamentos e sentimentos impacientes de Subaru: essas foram as razões dele não ter pensado na Rem.
A culpa foi inteiramente dessas duas razões ― era fácil para Subaru defender a si mesmo. No entanto, de que servia essa pobre tentativa de se auto-justificar?
Ele não precisava de palavras que o justificassem.
Ele precisava de palavras que tocassem Rem, que aliviassem a tensão em seu coração teimoso.
Subaru: “Você é importante para mim. Eu quero apenas te proteger. Então, por favor, me escute. Por favor, não me rejeite. ――Por favor, me dê mais uma chance.”
Rem: “――――”
Com as mãos ainda erguidas, Subaru curvou-se profundamente onde estava, suplicante à ela.
Ele não sabia se tinha sido capaz de ser sincero com todo seu corpo e alma, mas pelo menos ele colocou todo o seu sentimento na súplica. Se isso atingiria o coração de Rem mesmo que um pouco, ela daria uma chance dele se explicar――,
Rem: “――Isso é tudo que tem a dizer?”
Subaru: “……Eh?”
Rem: “É essa a explicação que você tem para me dar?”
Subaru timidamente levantou a cabeça após ouvir a resposta dela.
A emoção que preenchia sua voz era diferente do que ele esperava. Entretanto também não era o que ele esperava se tudo desse errado, e isto fez com que ele ficasse confuso.
A voz de Rem estava adornada de uma fúria silenciosa, uma insuportável quantidade de raiva.
Subaru: “Re, Rem……?”
Rem: “Você ter seguido a gente, e ainda estar exalando um cheiro horrível e maldoso, é suspeito, claro, e eu acho isso terrivelmente estranho. Mas,”
Cortando o que dizia ali, Rem apertou os lábios.
Com hostilidade brilhando em seus olhos azuis, parecia que do fundo de seu coração ela considerava Subaru, que não tinha certeza das respostas que receberia, um vilão imperdoável.
Rem: “Mas muito além disso, você não pode apagar o fato de ter tentado abandonar uma menininha. Como você pode me pedir para confiar em alguém tão horrível e desprezível assim?
Subaru: “――ah,”
Subaru ficou mudo ante o olhar que condenava um criminoso.
As palavras lançadas ao Subaru permeavam seu cérebro, e ele entendeu que fez a escolha errada em obter a confiança de Rem como sua primeira ação, ele tendo ganhado ou não a confiança de Rem não teria relação com o Cheiro da Bruxa.
Seus olhos de aparência má, que ele herdou de sua mãe, e o miasma que o incorporou à força, não foram as razões reais que quebraram a confiança de Rem.
Não foram as coisas que ele tinha em si, mas suas próprias ações que destruíram sua confiança nele.
Mesmo se Louis fosse um Arcebispo do Pecado, a encarnação do mal. Do ponto de vista da Rem, que nada sabia sobre o assunto, ela era apenas uma menina pequena e frágil, a qual Subaru ignorou.
Subaru: “――――”
Ele não conseguia encontrar a resposta.
Subaru superou várias dificuldades em incontáveis ocasiões. Às vezes ele perdera sua vida, incapaz de superar a dificuldade, e ele procurou ao seu redor por soluções de diferentes ângulos, mas a resposta para este exato momento não estava dentro dele.
O perdão, a justificativa, ou a verdade. Qual desses ele precisa priorizar?
Pedir perdão pelo fato dele ter tentado abandonar uma criança?
Justificar dizendo que ele tinha razões para isso?
Dizer a ela a verdade de que a “menininha frágil” era um monstro?
Não importasse qual escolheria, ele não sentiu que podia mudar o olhar de desconfiança da Rem, que estava à sua frente.
E esse foi o resultado das ações de Subaru, já definidas pelo “Retorno através da Morte”.
Rem: “――Não diga mais nada.”
Enquanto o olhar de Subaru divagava, suas bochechas enrijeceram, e nenhuma palavra saiu de sua boca, deixando Rem cansada de esperá-lo.
Ela levantou-se com um esforço tremendo, tentando distanciar-se dele. ―― Ela não parecia ter a intenção de acabar com ele ali, a fim de acabar com a fonte de suas preocupações futuras.
Talvez ela tenha pensado que o devastado Subaru não a perseguiria.
Isso não ia acontecer, claro. Mesmo que ele fosse renegado aqui, ele continuaria a estender sua mão até que ela pegasse.
Dizer adeus ― isso não ia acontecer. Isso não ia acontecer, mas ――,
Subaru: “――Re,”
Alterando a direção de seu corpo, Subaru tentou chamar e parar Rem, que estava prestes a sair da área.
Primeiro ele chamou seu nome, sem pensar em qualquer outra palavra para continuar a frase; simplesmente tentou chamá-la.
E então――,
Subaru: “――――”
Quando Subaru quase estendeu as mãos para as costas de Rem, que girou o corpo, algo mudou no seu campo de visão.
Era uma pequena sombra trêmula, além das árvores densas ― e ele reconheceu.
Subaru: “――Rem!!”
Está vindo. Mais rápido que o pensamento que emergiu na sua mente, Subaru jogou-se para as costas de Rem. Pegada desprevenida por essa atitude súbita, Rem retesou seu pequeno corpo.
Foi o momento em que ele abraçou seu pequeno corpo, como se estivesse enlaçando-a.
――Uma flecha que fora lançada de um poderoso e pesado arco passou por suas cabeças e uma árvore enorme explodiu, tendo o centro de seu tronco completamente perfurado.
Nota do tradutor original:
[1] – Teke Teke = Fantasma de uma lenda urbana. Se assemelha a uma garota do ensino fundamental, cuja parte inferior do corpo foi ferida por ter se envolvido num acidente.