―― Ela se recordava de estar rodeada por chamas que, em vermelhidão e rubor, inflamavam toda e qualquer coisa.
Os dias depravados, pacatos e estagnados subitamente chegaram ao fim.
Diante dessa violência enlouquecida, nada mais detinha qualquer sentido: seja o título de espécie demi-humana mais forte, seja a posição do mais temido líder da vila, seja o amor universal dos pais que protegem seus filhos.
Ela ter tardado a perceber a propagação do massacre foi algo pesaroso.
―― Não, neste caso, talvez o ótimo desempenho do inimigo que devesse ser elogiado.
Eles eram execrados, marginalizados, rechaçados e perseguidos pela sociedade.
Como consequência, ocultavam-se nas sombras, extinguiam suas presenças, abafavam seus ruídos e conheciam a arte de se aproximar sorrateiramente.
Podia-se dizer que, assim que houve a emboscada inicial, o desfecho já estava decidido.
A sutil estagnação misturou-se à mana atmosférica e, quando o chifre dela notou a anormalidade, já era tarde demais.
Primeiro que, com o despontar, a vila tivera um desfalque de metade da população, cortando pelo menos ao meio o número daqueles que conseguiam lutar. Além do mais, embora tivessem sentido a anormalidade, a outra metade não percebeu o caráter urgente por matutarem se haviam se enganado de alguma forma.
Em poucas palavras, a paz e tranquilidade havia apodrecido completamente seus corações.
Chamavam-os de raça demi-humana mais forte e até diziam que eles teriam mudado as circunstâncias do Reino de Lugnica caso tivessem participado da『Guerra Demi-Humana』, o clã Oni —— mesmo que, hipoteticamente falando, essa história alternativa tivesse ocorrido, era inquestionável que eles, ainda assim, não teriam conseguido colher frutos bons e significativos.
A todo modo, depois de serem reduzidos à metade pelo primeiro ataque, foram novamente reduzidos à metade pelo segundo que veio logo em seguida.
Neste momento, quando chamas se elevaram de diversos locais da vila e gritos moribundos ecoaram pelo céu noturno iluminado em tom rubro, todos os Onis do vilarejo sentiram a anormalidade.
Só que, na ocasião, apenas duas pessoas chegaram a perceber que o clã Oni viria a ruir――:
“――Ram! Escapa do cerco! Vai estar tudo bem contanto que você viva!!”
Assim rugiu o ancião, que fizera seus dois chifres enormes crescerem e todos os músculos de seu corpo se avolumarem.
O ancião, carregando a espada longa com a qual tinha maestria, zarpou de sua casa e declarou isso a Ram, que estava dilacerando os combatentes rasos com vento. Ele não a havia mandado viver por estar preocupado com ela.
Era por ter a mais cega e sincera convicção de que Ram, em especial, era o promissor futuro do clã Oni.
A segunda vinda da antiga glória do clã Oni, do『Deus Oni』que reinara supremo na época da『Bruxa』.
Esse era o encargo que se esperava da criança-prodígio conhecida como Ram e que deveria ser o fervente desejo do último patriarca do clã Oni, quem já havia se esquecido de como lutar.
“Há!”
Ela achava isso ridículo, sentia vontade de desmerecer a ideia com uma risada debochada.
Tendo chegado a esse ponto, o desejo do Oni que representava o vilarejo era confiar ao futuro a concretização de seu sonho irrealizado? A lista do que ele podia fazer era interminável, como, por exemplo, reunir agilmente seus companheiros e tentar contra-atacar o inimigo.
No entanto, Ram não pretendia sugerir esse tipo de coisa ao patriarca.
Não havia sido por causa desta noite.
Pois já fazia muito tempo que Ram havia desistido de seu clã.
“Isso de glória dos Onis…”
Fútil. Fútil. Fútil.
O fato de o mais puro sangue daquele clã Oni estar correndo em suas veias também lhe era asqueroso.
Claro que, quando desejava força, seu sangue fervilhava, entusiasmo tomava conta de todo o seu corpo e ela era preenchida por uma sensação de onipotência, como se toda e qualquer coisa existisse em favor dela.
Realmente, caso Ram tivesse crescido com saúde, essa sensação de onipotência poderia ter se realizado.
Porém ela não desejava isso.
Ao invés de fingir ser a filha de deus em um mundo diminuto, havia um futuro que Ram queria escolher.
Algo com muito mais mérito do que ser aclamada como a segunda vinda do Deus Oni e coisas do tipo, muito mais mérito do que viver toda a sua vida como o palanquim de parentes que continuavam apegados a uma glória que já havia se extinguido por inteiro.
―― Viver como a ■■■■ da ■■■.
“…”
Ela concentrou-se na própria testa e, com o seu chifre branco, inseriu em seu corpo mana que brilhava calorosamente.
Ao rogar com intensidade, a percepção de Ram expandiu-se muitíssimo, apoderou-se do campo de visão de todos os seres vivos presentes nos arredores e pôde compreender perfeitamente o incidente que ocorrera no vilarejo diminuto.
Os inimigos eram muitos e estavam em uma formação de cercamento para que ninguém fugisse da vila.
A resposta inicialmente demorou a vir e a metade da metade foi capaz de oferecer uma resistência digna, mas o número deles já havia caído tanto que podia-se contá-los numa única mão, o espírito do clã Oni estava exaurido.
Solitário, o ancião parecia estar lutando bastante, com unhas e dentes, mas os inimigos ali reunidos eram bastante hábeis ―― os vestígios do ancião, que acabara em desvantagem, estavam rodeados de pesada『Morte』.
“――■■■.”
Ram revestiu de vento o seu corpo pequenino e disparou pelo vilarejo igual um vendaval.
Tanto aquilo que seus lábios haviam articulado quanto aquilo que ocupava sua mente eram, unicamente, a sua amada e singular ■■■■. Não significava que ela fosse insensível. Apenas que estava mudando de foco.
Pois os pais de Ram acabaram incluídos na metade que fora perdida no início e já não havia mais como salvá-los.
―― Ela não odiava os próprios pais.
No entanto, ambos haviam — seja isso bom ou ruim — nascido neste vilarejo, crescido neste vilarejo e escolhido morrer neste vilarejo como parte do clã Oni após terem aceitado inconscientemente a vagarosa ruína, assim acreditava ela.
Portanto, eles terem perdido a vida nesta noite havia sido uma espécie de inevitabilidade.
Entretanto――:
“――Não quer dizer que não haverá retaliação.”
Sombras negras a obstruíam, inimigos enrolados da cabeça aos pés em robes.
Ram atacou com vento, sem se segurar, esses tolos que brandiam punhais cruciformes.
Será que faziam pouco caso dela por ser uma criança ou só careciam de habilidade?
Não conseguindo suportar as lâminas de vento de Ram, as sombras foram fatiadas, uma seguida da outra, e transformadas aos montes em cadáveres deploráveis. Em seguida, Ram ainda revestiu-se de vento e, quase que dançando em meio às labaredas, prosseguiu com o massacre.
Talvez pudesse até ser visto como um lindo espetáculo de dança.
Na realidade, Ram ceifava uma vida a cada balançar de seus braços e, cada vez que ela, deste mesmo modo, desformava o que possuía forma, uma alegria sombria gritava de júbilo em seu íntimo juvenil.
Ela rugia e delirava: mate mais.
O seu eu interior a pressionava: tome deles o sangue, a carne, os ossos, a alma, a vida.
Não foi esta noite a primeira vez que escutou esse apelo.
―― Há muito tempo, desde o instante em que nascera, essa voz a tentava sempre que via a oportunidade.
Ela buscava o despertar do eu interior: dê o seu sangue, sua carne, seus ossos, sua alma, sua vida.
Você consegue matar ainda mais, você consegue destruir ainda mais: assim apelava ela.
Ram não parecia capaz de compreender o que é que havia de tão maravilhoso naquilo.
Sejam os anciãos, sejam os seus pais; ninguém seria capaz de compreender. Ram nem se importava de transmitir isto àqueles que queriam incumbi-la de ser algo diferente de si mesma.
Meio que era como se ela estivesse sendo controlada pelo chifre.
Caso não possuísse algo suficientemente firme do qual chamar de si mesma, sua identidade juvenil teria sido facilmente dominada e destruída, seria bem aí que ela provavelmente teria se tornado o segundo advento do Deus Oni, assim como desejavam aqueles ao seu entorno.
No entanto, ela não acabou assim. Pois――:
“――■■■■!!”
Ela foi chamada por uma voz estridente e, ao olhar para trás, viu ■■■ iluminada pelas chamas.
Num instante, o vento jorrante varreu a multidão de sombras que vinha avançando, dispersando-as de uma só vez.
Então, Ram foi até a sua ■■■■ a passos rápidos.
“■■■…”
Com um olhar apavorado e sem força nas pernas, ■■■ caiu sentada ali mesmo.
Ram esticou a mão até a sua amada ■■■■ e a ajudou a tentar se levantar. Conforme o desejo do ancião, Ram precisava sobreviver. Só que não sozinha, junto de ■■■――.
―― Foi esse o momento.
Ao verificar-se que ■■■ estava em segurança, Ram relaxou sua atenção por um único segundo.
Quando se deu conta dos indícios, estava cercada e em uma situação na qual seria complicado abrir uma rota de fuga. Por conta própria, não seria impossível. No entanto, se fosse para se salvar sozinha, seria a mesma coisa que morrer.
Ela precisava vencer a situação de algum modo.
Para tal, removeria todos os grilhões que estavam restringindo a sua força e lançaria um vento desenfreado nos inimigos――:
“…”
Houve, provavelmente, uma brecha em seu coração causada pela sensação de onipotência que ela abominava.
Uma sombra safou-se das lâminas de vento e disparou um só lampejo que atingiu a testa de Ram com força e arrebentou o campo de visão dela.
Enquanto arqueava-se para trás devido ao impacto potente e provava uma intensa sensação de perda, Ram o viu.
Um chifre branco, rodopiando em círculos, voava dando voltas e mais voltas em direção à noite, iluminada em vermelho pelas chamas que incineravam a vila.
Compreendendo que se tratava de seu chifre, a garganta esguia dela soltou um grito agudo por causa da dor e do luto.
Durante o grito, no entanto, ela percebeu.
Que aquela voz, a que vinha sempre minando Ram desde o dia de seu nascimento, não lhe era mais audível.
Ah, era tão simples assim? ― entreteu-se ela com a própria idiotice.
Enquanto observava o chifre desenhar uma parábola na noite avermelhada――:
―― Ah, ele finalmente quebrou.
Assim pensou ela.
―― O dragão terrestre negro fugia fervorosissímamente do campo de visão que estava sendo compartilhado através da『Clarividência』.
Em suas costas estava a jovem que, para Ram, deveria ser a sua outra e preciosa metade.
Uma asa ausente, incapaz de ser lembrada e que deixara somente o oco da perda――:
Ram: “――Rem.”
Ao compreender o que significava isso, o coração de Ram estremeceu de raiva.
Era irritante admitir, mas ela havia recuperado parte da força que possuía em seu auge graças à colaboração de Subaru, então esmagou Rai Batenkaitos, Arcebispo do Pecado da『Gula』, com essa mesma força, e o encurralou em uma situação desvantajosa.
Ela mesma era capaz de afirmar que, se fosse para simplesmente matá-lo, houveram inúmeras oportunidades em que poderia tê-lo feito.
No entanto, a existência do poder que devorava as『Memórias』e o『Nome』dos outros — da Autoridade incômoda que ele possuía ― fizera Ram hesitar em imprudentemente tirar a vida desse profanador.
Uma decisão induzida não por boa-vontade, e sim por necessidade. Entretanto, deu no que deu.
Deu-se que Batenkaitos fez bom uso de sua Autoridade, escapuliu diante dela e, desse mesmo modo, foi assegurar-se do próprio corpo de Rem, a outra metade de Ram.
Seu objetivo era óbvio ― já que, mesmo que enfrentasse Ram honestamente, ele acreditava não ser capaz de vencê-la.
Lutou frente a frente e então, ao dar-se conta da desvantagem, recuou e mudou sua abordagem.
Arcebispos do Pecado não eram guerreiros de modo algum. Eram entidades que viviam agindo gananciosamente e somente com o intuito de satisfazer os próprios desejos, não tinham motivo nenhum pelo qual se preocupar com que método usar para ganhar.
Portanto, ele planejou vingar-se da Ram que o humilhara, e, baseando-se nas『Memórias』de Rem que ele havia tomado, encolher o limite de tempo imposto sobre a sem-chifre.
Essa tática, enfurecedora como era, tratava-se da solução ideal.
Caso o corpo de Rem fosse apreendido por ele, Ram seria facilmente desapoderada.
Mesmo que isso não ocorresse, a força da chapa deles sofreria enormes perdas caso ele ganhasse mais tempo. No decorrer do tempo, a possibilidade de vitória ia minguando.
Portanto――:
Ram: “É preciso alcançar a Patrasche o quanto antes.”
Por sorte, Patrasche, a quem Rem havia sido encarregada, era um Dragão Terrestre tão inteligente que, dentre o quadro de combatentes que vieram a esta torre, podia-se dizer que ela perdia somente para Julius.
Subaru e Beatrice eram inconstantes e, tratando-se de Echidna e Meili, existiam múltiplas incógnitas. Alguém como Emilia, cujos ares faziam os outros hesitarem em contar com ela, era absurda.
Era complexo, mas Batenkaitos estava evidentemente provocando Patrasche.
Por mais que ele pudesse encurralá-la em um instante caso pensasse em fazê-lo, estava relaxando a investida propositalmente, dando brecha durante a perseguição e divertindo-se em caçar e debilitar a sua presa.
Era tudo com o propósito de compartilhar o seu campo de visão e fazer Ram gravar este espetáculo.
Ela não iria permitir que ele continuasse fazendo aquilo que bem entendesse――:
Ram: “――Ah.”
Ocorreu no momento em que tentou partir em arrancada enquanto revestia-se de vento às pressas.
Sua visão ao tentar dirigir-se ao andar superior através da escadaria espiralada ficou borrada e a『Clarividência』se desmanchou por um instante. Projetando o campo de visão de Batenkaitos no olho direito e mantendo o próprio no olho esquerdo, a paisagem borrou-se ainda mais.
Não era só isso. Estava recaindo sobre Ram a forte exaustão que ela não sentia até pouco tempo atrás, além de dor e desconforto que eram como uma mão invisível revirando as suas entranhas.
Eram, incontestavelmente, frutos da fadiga que ela experimentava em seu dia-a-dia.
Era aquilo que Subaru havia feito alarde dizendo que assumiria com algum tipo de Autoridade, a reparação que deveria carcomer eternamente a『Sem-Chifre』Ram ――Ela que estava repercutindo sobre Ram.
O que lhe veio à mente por um segundo foi a possibilidade de que Subaru havia morrido em vão de forma miserável.
No entanto, Ram conseguia concluir que estava enganada com base na leveza do fardo que havia repercutido sobre ela. Foi só por alguns minutos, mas, levando em conta a força que ela trouxera à tona, a reparação não seria esta.
Era para ser uma aflição que não causaria espanto nem mesmo se fizesse ela literalmente vomitar sangue ou se retorcer de dor.
Isso não ter acontecido significava que, por mais que imprevistos tenham ocorrido, não seria por causa deles que Subaru abandonaria o fronte por inteiro.
Ou podia-se supor que houve um desdobramento completamente contrário aos acontecimentos.
Mais precisamente que, além do fardo do corpo de Ram, um infortúnio que Subaru precisava assumir para si havia recaído sobre alguém.
Ram: “Beatrice-sama ou a Meili, o cavaleiro Julius…”
Era o que conseguia pensar, porém não havia sentido em se afixar a essa resposta.
O crucial deste instante era que Ram teria dificuldades em demonstrar uma força similar à que usou para avassalar Batenkaitos pouco tempo atrás. ――Tratando-se dos grilhões, apenas um podia ser removido.
Talvez fosse possível remover o segundo caso se obrigasse a isso, no entanto, por mais que não passasse de uma estimativa, ela deveria ser capaz disso por algumas dezenas de segundos.
Sendo assim, conseguiria ela vencer Rai Batenkaitos…?
Ram: “Por que ficar abatida agora? ――Não há outra opção senão tomar providências em prol da vitória.”
Mesmo nesta pausa de agora, a chance de êxito que sua chapa tinha ia minguando.
Ram mais uma vez colocou os pés nos degraus, por pouco não pisando em falso, e subiu a escadaria espiralada a galope.
―― Tudo enquanto sentia latejar a dor da ausência, como se, tempos atrás, ela estivesse ofegante por ter ido apressada ao lado de sua irmã mais nova, que estava sendo perseguida desta mesma maneira.
“――ϡϡ!”
Rai: “Há, há~! Como é bom~! Mesmo sendo um Dragão Terrestre~, você segue firme~!”
Enquanto suas escamas eram feridas pelos punhais propelidos, o Dragão Terrestre negro, que corria em disparada pelo corredor apertado, recebia louvores.
Desses sulcos, sangue vertia lamentavelmente; contudo, ele, que havia sabiamente obstinado-se em fugir, estava indo até o fim, sem deixar de lado as condições de vitória.
A『Proteção Divina da Quebra de Vento』era uma peculiaridade que todas as espécies de Dragão Terrestre detinham.
Contanto que continuasse correndo, a maioria dos fatores externos, tais como o vento ou mau apoio para os pés, eram ignorados e a ação de『Correr』em prol de uma meta era efetuada.
A graça era até estendida à carruagem conectada ao Dragão Terrestre ou à pessoa montada em suas costas.
Em suma, a『Bela Adormecida』, que estava amarrada à sela enquanto desacordada, não acabou jogada para fora em boa parte graças à influência da『Proteção Divina da Quebra de Vento』.
Caso ela não existisse, a『Bela Adormecida』já deveria ter caído nas mãos de Batenkaitos.
Rai: “É incrível, incrível, é louvável, louvável~!! Mesmo com a gente, até agora, te atrapalhando aqui e ali nessa correria, nos admira você insistir em não parar de correr. Mas, bem, a『Proteção Divina da Quebra de Vento』vai ser cancelada se você parar, a gente sabe por que você ‘tá tão em desespero, sabe bem~!”
“――ϡϡ!”
Rai: “Perseverantes e leais aos seus mestres, como são bons os Dragões Terrestres, né? Temos quase certeza de que, se você fosse humano, já teria virado um prato de dar água na boca pra gente do『Gourmet』! Porém, porém porém, porém porém porém porémporémporémporém! Que triste um Dragão Terrestre não encher o nosso estômago~!”
Havia vontade, havia alma, havia『Memórias』e havia『Nome』.
Não obstante, a Autoridade da『Gula』não conseguia comer『Isso』que fugia do escopo de ser humano.
Portanto, Batenkaitos não se via capaz de, da forma que para ele era a melhor, amar o Dragão Terrestre que estava corajosamente enfrentando um inimigo de difícil oposição com tamanho desespero e avidez.
Ainda que ele babasse por causa do quão apetitoso parecia, não podia comer.
Era quase como uma refeição retratada em um quadro pelo mais sublime dos pincéis. ――Mas parecia haver uma expressão do tipo, de que você não consegue comer um moti desenhado.
Rai: “Ah~, é bem isso mesmo, bem isso! É realmente isso! Quando dá fome fome fome fome fome e não tem o que fazer~! Uma pintura de comida apetitosa dessas nos tortura. Esse negócio aqui não é realmente o que chamam de maus-tratos infantis~?”
Enquanto perseguia o Dragão Terrestre que corria em disparada, ele expeliu um coágulo sanguíneo que estava entupindo seu nariz.
Na batalha de pouco tempo atrás, seu rosto havia sido achatado e algo no globo ocular esquerdo o incomodava, talvez pelo fundo de seu olho ter se estilhaçado. Suas presas foram quebradas, sua língua partiu-se e o sangue que escorria interminavelmente encharcou sua mandíbula, no entanto, ele não se importava.
―― Ao imaginar que Ram estava vendo este espetáculo no presente momento, estremeceu-se o íntimo de seu peito.
Rai: “Nee-sama――”
Uma entidade plena e irretocável, perfeita, imaculada e de alta categoria.
Era o que clamavam as『Memórias』adormecidas no interior de Batenkaitos e o que ele pensava ser um julgamento sensato após ter sido deixado meio-morto sem ser capaz de fazer nada a respeito.
Batenkaitos não seria páreo a uma Ram agindo com seriedade. ――Não, seja qual for o Arcebispo do Pecado, é provável que ele fosse facilmente esmagado por uma Ram séria.
Quem sabe com Regulus pudesse haver alguma disputa devido à natureza absoluta de sua Autoridade――:
Rai: “Bem~, duvidamos que aquele idiota fosse dar um jeito de matar a Nee-sama, sabe~. No máximo, se não desse pra ela matar, ela não ia e ia terminar só jogando ele da Grande Cachoeira ou coisa do tipo, não é?”
Mesmo sem poder matá-lo, existiam incontáveis maneiras de, em vez disso, contê-lo.
Assim como a『Bruxa da Inveja』não pôde ser morta nem pelos Três Heróis e vinha sendo aprisionada no Santuário da Pedra Seladora do Mal até os dias de hoje.
Resumidamente, seja como for――:
Rai: “Vai ser falta de educação se a gente não fizer as devidas preparações pra atender à nossa grandiosa e perfeita Nee-sama, sabe~!”
Batenkaitos abriu bem seu olho esquerdo tremelicante e um sorriso atroz do qual pingava sangue estampou-se em seu rosto.
A velocidade do Dragão Terrestre era considerável, contudo, usar essa mobilidade em espaço fechado era um desperdício. Sem contar que Batenkaitos cruzava o espaço com um jeito de andar que fazia uso intermitente das『Memórias』, podendo até zerar a distância entre os dois.
Rai: “Como a irmãzinha da Nee-sama, temos que crescer sem timidez.”
Com uma sensação de dever alastrando-se pelo peito, Batenkaitos trouxe à tona as『Memórias』que haviam em seu interior.
Um dos tipos de Autoridade da『Gula』era uma habilidade denominada『Eclipse』. Ela podia ser sucintamente dividida em duas,『Eclipse Solar』e『Eclipse Lunar』, mas utilizá-la era extremamente complicado.
『Eclipse Lunar』era um fenômeno no qual a lua parecia sumir. ――Por outro lado, era retirar as『Memórias』dos adversários devorados e reproduzi-las na carne do próprio Batenkaitos.
Ele geralmente averiguava uma grande variedade de『Memórias』, combinava-as e as utilizava na forma de uma ultramescla de artes marciais; podia-se dizer que esta era a especialidade do『Eclipse Lunar』.
Enquanto isso,『Eclipse Solar』era um fenômeno no qual o sol parecia se esconder. ――Por outro lado, era um método que encobria o indivíduo, não só das『Memórias』dos adversários devorados, como também de suas existências em si, utilizando-as conforme as especificações originais.
Naturalmente, a técnica se fortalecia no corpo dos antigos usuários devido à perícia.
Entretanto, ao transformar sua carne na do adversário, corria-se o risco de sofrer fortíssima influência da mente dele, havendo a possibilidade de grandes repercussões no futuro. Era por isso que Batenkaitos e Alphard náo o usavam com frequência, a não ser em casos extraordinários.
O que Rai Batenkaitos e Roi Alphard usavam principalmente era o『Eclipse Lunar』.
O que Louis Arneb usava principalmente era o『Eclipse Solar』. ――Já que Louis não possuía um corpo próprio nem uma individualidade suficientemente firme, era uma carta na manga que ela utilizava sem titubear.
No entanto, Batenkaitos foi deixado meio-morto em sua batalha contra Ram e saiu de sua concha assim que ressurgiu como Dorkell, o『Saltador』, com o『Eclipse Solar』.
Ele dominou o『Eclipse Solar』, que não estava utilizando por receio de perder-se, e descobriu uma técnica com a qual preservar um firme eu.
Ele agora podia, mais perfeitamente e sem desperdícios, saborear o prato principal denominado『Vida』do adversário.
Rai: “Amadurecer no decorrer da batalha é uma coisa que jamais ia acontecer com um velho coroca que nem eu, num é? Há, há~! Iss’aqui é uma baita duma obra prima! Não concorda, Nee-sama!?”
Ele firmou uma individualidade resiliente e, graças a isso, sentiu-se extremamente revigorado.
Queria mostrar o estado desperto dele à sua maravilhosa Nee-sama de maneira adequada. Para isso, também precisava optar por um método que instigaria nela ainda mais ódio.
O cheiro da fúria, o sabor da fúria, a textura da fúria; uma refeição completa de fúria.
Que『Gourmet』seria ele se não desse tudo de si e se deleitasse com cada sensação vinda de um ente querido da qual fosse capaz?
Para isso, ao seu『Eu』que estava nas costas do Dragão Terrestre diante dele――:
Rai: “Por falar nisso, é uma coisa que, surpreendentemente, nunca fizemos~. Será que iremos descobrir um novo conjunto de valores matando a nós mesmos?”
Patrasche: “――ϡϡ!!”
Assim que ele piscou, o mundo transmutou-se devido ao salto espacial de curto alcance.
Com um ganido irrompendo do fundo de sua garganta, o Dragão Terrestre espantou-se com o surgimento de Batenkaitos, que deveria estar na retaguarda, e tentou passar correndo ao lado dele sem nenhuma parada.
Valente, genuinamente valente. No entanto, essa valentia não serviria de nada a não ser de tempero para a tragédia vindoura.
Rai: “――Palma do Rei do Punho.”
O punho que fora balançado cravou-se com potência no flanco do Dragão Terrestre.
O golpe era geralmente desferido pelo corpo diminuto de Batenkaitos; contudo, não foi o caso, pois ele havia despertado após olhar a morte nos olhos, saindo de sua concha e adquirindo nova força.
O impacto que transpassou o tronco do Dragão Terrestre foi o do corpo original de Neiji Rockhart.
O punho do Rei do Punho, este que, em inúmeros duelos até a morte na Ilha dos Gladiadores, havia abatido em um único golpe até mesmo armaduras colossais de corpo inteiro.
Atingido por ele, o Dragão Terrestre deixou escapar um ruído fúnebre e foi batido violentamente contra a parede do corredor. Entretanto, ele, ainda que desabando, seguiu protegendo a garota em suas costas tanto do punho quanto da parede, do chão e de seu próprio corpo enorme.
Com sua cauda estendida, segurou suavemente o corpo da garota que caíra e o desceu até o chão do corredor.
Por mais que deveria ser uma fêmea, sua atuação foi tão hábil que faria todos os cavalheiros quererem seguir os seus passos.
Até Batenkaitos acabou aplaudindo-a inconscientemente.
Rai: “Coontuudoo~! Mesmo que você se bata pra colocar ela gentilmente no chão, agora vamos cordialmente decapitá-la e oferecer de presente pra nossa Nee-sama.”
Patrasche: “――ϡϡ!!”
Rai: “‘Tá bem, ‘tá bem, não vamos ser violentos, não vamos, é a sua recompensa por tanta perseverança.”
Ele chutou por baixo a mandíbula do Dragão Terrestre que, mesmo caído de lado, estava tentando mordê-lo.
Por mais que ele parecesse se comover com essa devoção, infelizmente, Batenkaitos e o Dragão Terrestre eram inimigos mútuos. Apesar de poder enaltecê-la pelo embate afincado, não poderiam contemplar o mesmo ceú triunfoso.
Caso um lado saísse vitorioso, o outro sairia derrotado. Triste, porém é o que chamam de realidade.
Rai: “Tenhamos! Isso! Firme~! Em! Mente! É!”
Ele cuidadosamente martelou no Dragão Terrestre, uma a uma, cada palavra, cada pausa e cada enunciação.
Juntamente da dor, ele devia ter entalhado uma lição no Dragão Terrestre que, agachado, teve as patas dianteiras e os ossos da bochecha despedaçados. Por sorte, Batenkaitos não podia comer as『Memórias』do animal.
Portanto, também não havia motivo para tirar-lhe a vida. Ele queria que ambos se recordassem deste dia.
O que restava――:
Rai: “Em prol da Nee-sama, a preciosa Rem da Nee-sama vai ser, pelas mãos da Rem…”
???: “――Pare, por favor, de proferir coisas estranhas.”
Assim que uma voz nítida e requintada fez-se ouvida, o semblante que estava pairando sobre Rem foi repelido intensamente.
O rosto ergueu-se em direção à voz que escutou e foi atingido em cheio pela planta de dois pés que vieram logo de sua dianteira. Tendo sido rechaçado para trás imensamente, Batenkaitos deslizou de costas pelo chão.
Então——:
Rai: “Ahh, há, há, há, há, há~… Você finalmente nos alcançou, Nee-sama. Nós… hã? Nós… A gente…? ――Nós, Rem, a estivemos aguardando~.”
Estirado no chão, ele vagarosamente ergueu-se usando somente a força dos pés.
Ao fitar, cara a cara, sua amada outra metade, Ram fez uma cara nunca antes vista.
Ram: “…Você se tornou terrivelmente feio em tão pouco tempo, é?”
Ram: “…Você se tornou terrivelmente feio em tão pouco tempo, é?”
Era a opinião franca de Ram, que o havia alcançado neste pega-pega de extremo mau gosto.
Com o campo de visão de Batenkaitos em mãos, Ram confiou no empenho de Patrasche e veio correndo ao local, arrastando consigo seu corpo em estado de imperfeita emancipação.
Nesse corredor, que ficava meio distante da escadaria em espiral, ela encontrou o Dragão Terrestre flagelado até a exaustão e, ao lado dele, a figura adormecida de Rem.
E aquele que estava pairando sobre Rem――:
Rai: “Nos chamando de feio, que Nee-sama sem-coração~… Nós nos importamostamostamos~amosamosamosmosmosmos profundamente com a Nee-sama! Tanto, mas tanto, mas tanto, é~!”
No seu jeito de agir e falar, o tom de voz estava irregular; as palavras, desarticuladas; e o pensamento, desnorteado.
Que era por ele estar transtornado mentalmente, Ram ―― não, qualquer um deveria entender isso com uma única olhadela.
Dado que a figura de Batenkaitos estava distorcida à altura.
Rai: “…”
Recriar em sua carne as『Memórias』trazidas à tona e, dessa forma, imitar a aparência dos adversários deveria ser a arma secreta dele, vista há pouco.
Contudo, parecia muito bem ser uma jogada proibida até para Batenkaitos, e a forma do『Gula』diante dos olhos de Ram, de todas as『Memórias』trazidas à tona, não era de nenhuma.
Elas estavam flacidamente misturadas.
Uma parte pertencia ao idoso careca que saltava através do espaço, outra ao gigante encorpado que não havia se ferido com as lâminas de vento de Ram, outra ao artista marcial cujas habilidades de luta atingiram o divino, além de traços corporais de diversos seres humanos: assim estava composta a sua forma sinistra.
O comprimento e o tamanho de suas mãos direita e esquerda eram discrepantes e partes do rosto também destoavam porcamente, dando a impressão de que estavam prestando referência ao de outrem.
Se fosse preciso dizer, o que havia restado dos traços do antigo Batenkaitos parecia ser o olhar, mas até isso já podia ser de segunda mão.
E o próprio Batenkaitos aparentava estar alheio a esse seu estado distorcido.
Rai: “――?”
Ele estava à beira de ser alguém que já não era mais ninguém.
O ser que originalmente se especializava em usurpar as『Memórias』dos outros talvez carecesse de um alicerce firme daquilo conhecido como individualidade. Sendo assim, ele ruiu.
E o que nasceu em seu lugar foi――:
Ram: “――Um monstro fazendo-se de Rem. Sendo sincera, é a primeiríssima vez que Ram se sente tão furiosa.”
Enquanto olhava de cima o rosto da irmã mais nova, compreendendo-a como sendo uma lasca de um lar destruído, Ram nutria abominação por Batenkaitos, que também havia adicionado características dela em parte de seu rosto.
Como é que ele conseguia estressar os outros tão cirurgicamente assim?
Subaru e ele serviriam de ótimos competidores em uma disputa para ver quem era mais habilidoso em irritar as pessoas.
Ram: “Você persistiu bem, Patrasche. Pegue a Rem e retire-se.”
Patrasche: “~~ϡϡ”
Ela resguardou a Patrasche que, sangrando, estava fragilizada até na voz com a qual respondeu.
Enquanto arrastava vagarosamente o seu enorme corpo, Patrasche pegou a nuca de Rem com a boca e recuou. Desejava se afastar assim do campo de batalha, no entanto――:
Rai: “Não vai dar~, Nee-sama. Esse é um importante hors d’oeuvre… Antes de apreciar o prato principal, jamais pode faltar a guarnição, não…?”
Ram: “――Ram pede que morra.”
Ele deu um passo adiante com um pé tão grande quanto uma cabeça humana e Ram apontou a palma de sua mão ao rosto que estava prestes a afirmar irracionalidades.
As lâminas de vento que então brotaram eram uma tempestade diminuta que escondia um poderio capaz de rasgar em pedaços tudo aquilo do pescoço do adversário para cima. ——Tendo chegado a este ponto, Ram desistiu de se segurar.
Por tentar sondá-lo em busca de um método de pegar as『Memórias』de volta, Ram havia ocasionado esta situação em que o corpo de Rem quase saiu gravemente ferido, enquanto Patrasche de fato saiu.
Ela assimilou isso custosamente. ――Era preciso pedir solenes desculpas a Subaru.
Para não repetir o mesmo erro duas vezes, ela efetivou sua intenção assassina.
Mesmo que levasse em consideração o comentário de uma mente desequilibrada feito há pouco, a probabilidade de conseguir uma resposta adequada de Batenkaitos era baixa. Com tudo isso em mente, esta escolha era a correta.
Esmagar Batenkaitos e tomar de Subaru o fardo do corpo dela. Além disso, Ram provavelmente precisava devolver Patrasche e Rem à Sala Verde e ir correndo prestar auxílio aos outros lá embaixo.
Ela havia pensado até aí.
Ram: “…”
Prestes a arrancar fora o rosto dele com a tempestade, Ram contemplou a transformação ocorrida.
Era pífia. Novamente, era uma transformação que ocorrera somente no exterior de Batenkaitos.
Todavia, para Ram exclusivamente, era uma transformação difícil de fazer vista grossa.
―― Na testa dessa face que reunia características de diversas pessoas surgiu um único chifre branco.
Ram: “Esse é…”
Se ele estava agindo por instinto, então era, genuína e sinceramente, de se tirar o chapéu.
Pois as ações de Batenkaitos, em totalidade, não eram nada a não ser ultrajes que davam nos nervos de Ram.
Rai: “――Nee-sama.”
Por um instante, ela foi chamada por uma voz que ela acredtiava ser uma que Rem soltaria, por uma face certamente idêntica à de Rem.
No rosto de uma Ram petrificada fincou-se o golpe do braço colossal de Batenkaitos.
Não foi fatal.
No entanto, também não foi um golpe leviano sobre o qual ela podia ficar otimista.
Seu cérebro vibrava e sangue pingava de seu nariz.
O suporte de seus pés ter se desestabilizado enquanto o fardo em si era irrelevante atestava que ela havia sofrido danos monstruosos.
E quem o havia causado foi uma doce moça com um semblante gentil e cabelos azuis —— neste local estavam reunidos três rostos cuja aura era idêntica, que tipo de piada era essa?
Rai: “Por favor, chore, Nee-sama.”
Ele brandia o punho enquanto lágrimas se acumulavam nesses seus olhos azul-claros e uma aura de súplica pairava pelo ar.
Com cada golpe dele, o impacto alcançava o tutano dos ossos dela ou, quem sabe, a alma que havia em seu âmago.
Rai: “Por favor, irrite-se, Nee-sama.”
O estômago foi golpeado, a cabeça baixou-se e sua mandíbula foi espetada por baixo. Acabou não mordendo a língua, mas foi golpeada novamente no estômago e levada a recuar para trás, sendo vítima de uma combinação de cotoveladas contra sua cabeça.
Rai: “Por favor, ria, Nee-sama.”
O profundo afeto com o qual a voz estava carregada arranhava o coração de Ram com cada palavra.
A Rem que vinha dormindo há muito tempo na percepção de Ram. A irmã mais nova que teve as『Memórias』apagadas; aquela que, apesar de dever ter ficado ao seu lado a vida toda, encontrava-se em lugar nenhum e que dela havia sido roubada.
Mal podia esperar para chamá-la pela primeira vez quando ela, algum dia, abrisse os olhos.
Será que, nessa ocasião, Ram iria recuperar as memórias que tinha de sua irmã mais nova? Ela não fazia ideia.
Mesmo se elas voltassem, mesmo se não voltassem, suas primeiras palavras naquele momento seriam, definitivamente, tão especiais quanto o primeiro choro de um recém-nascido.
Isso estava――:
“Por favor, chore.” “Por favor, irrite-se.” “Por favor, ria.” “Por favor, sofra.” “Por favor, sorria.” “Por favor, padeça.” “Por favor, zangue-se.” “Por favor, agite-se.” “Por favor, acanhe-se.” “Por favor, adormeça.” “Por favor, core.” “Por favor, amole-se.” “Por favor, surpreenda-se.” “Por favor, parabenize.”
“Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” “Nee-sama.” ――
Ram: “Pare… gh.”
De chamar a Ram assim ― a boca que estava prestes a rugir isso foi tapada pela base da palma dele e ela não foi capaz de entoar nada.
Ram o encurralou e o criou sem querer, um monstro ―― a força dele era avassaladora.
Não havia hesitação. Não havia restrições ao que ele trazia à tona. Não havia a ciência de que estava perdendo a si mesmo. E, ainda assim, seu aspecto não desassemelhou-se daquele pertencente à preciosa outra metade de Ram.
Apesar de tanto a lua quanto o sol estarem obscurecidos, a escuridão havia recoberto perfeitamente o『Gula』.
Claro que Ram não iria se deixar ser atacada. Ela contra-atacou.
Ela removeu seus grilhões até o limite culminante daquilo que Subaru podia assumir, saltou por cima da restrição de algumas dezenas de segundos que ela havia imposto sobre si mesma e, desta vez, empenhou-se em lhe ceifar a vida.
Foi um passo maior que a perna.
Rai: “Nee-sama, Nee-sama, a impressão é a de que esse rosto não condiz com a Nee-sama.”
Ram: “…gh.”
Seu erro foi retificado pelos punhos de sua irmã mais nova, que fazia bico com uma expressão facial que parecia mimosa.
Com a face tendo sido perfurada e batida contra a parede atrás de si, Ram tinha orgulho de, de alguma maneira, não ter desabado diante o profanador. Era, porém, tudo o que podia fazer no momento.
Mas quanto tempo foi que se passou desde que ela começou a batalhar contra este monstro?
Ram, sem sombra de dúvidas, já havia extrapolado a restrição de tempo que estabelecera a princípio em dez, vinte segundos. Sua noção do tempo não era confiável e a liberdade para contar quanto tempo realmente havia se passado inexistia.
No entanto, o mais crucial era se ela iria conseguir um jeito de fugir ou se iriam cortar a sua fuga.
Obstinou-se em ser uma marionete saco de pancadas e auxiliou na retirada de Patrasche e de Rem.
Esse era provavelmente o seu objetivo, mas ela não tinha certeza, já que havia levado pancadas demais na cabeça.
Seu corpo estava pesado. Sua respiração, ofegante. Sua cabeça, doendo; sua garganta, ressecada; seus membros, dormentes; e, da ferida em sua testa, sangue escorria. Da cicatriz branca em que faltava o chifre, sangue escorria como se ele tivesse cortado longitudinalmente o rosto dela.
Rai: “――Essa imundície não é nada boa.”
A face tracejada de sangue foi novamente esmurrada pela palma da mão dele.
Ela levou o golpe, seu corpo deslizou e os seus joelhos finalmente deixaram de ser capazes de aguentar o peso do corpo. No instante em que estava prestes a cair de lado, uma voz baixa intrometeu-se dizendo “Não vai, não.” e um chute foi então desferido.
Ram foi atingida em seu peito indefeso e colidiu violentamente contra a parede enquanto o seu esterno rangia.
Sem que percebessem, a Torre de Vigia Plêiades, que devia ser de material sólido, veio perdendo a robustez e se tornando algo que não possuía força senão a do material bruto.
Resumidamente, ao ser acometida pela agressão junto de Ram, a parede finalmente esfacelou-se.
Ram atravessou a parede de pedra e saiu rolando até o outro lado do corredor.
Nuvens densas de fumaça encobriram os seus arredores e ela tossiu com força sangue e algo de textura farelenta. Nesse mesmo instante, os ossos fraturados e a carne esborrachada deram início a um grande coral de uivos, ambos brigando pelo primeiro lugar.
Ela virou a cabeça para tentar confirmar aonde é que havia sido jogada.
Ram: “――Ah.”
Escapou dela um fôlego baixo e rouco.
Talvez ele estivesse misturado a decepção ou a alguma sentimentalidade insatisfatória.
No campo de visão de Ram, adiante no corredor em que ela havia caído, estavam as figuras de Patrasche e de Rem.
A uma distância de, no máximo, uma dúzia de metros ―― tratando-se do tempo que Ram havia ganhado, ela sentiu que os meros dez segundos foram longos, tendo sido prolongados muitíssimo pela angústia que provara.
Rai: “Nee-sama, Nee-sama, encontra-se sã e salva?”
Enquanto perguntava cinicamente sobre o bem-estar dela, Batenkaitos não transpôs a parede despedaçada e optou por contorná-la para chegar lá.
Nesse meio-termo, enquanto agarrava-se ao próprio braço, Ram ali levantou-se de algum modo.
Apoiou o seu corpo contra a parede e trocou olhares com Patrasche, que estava exausta.
Patrasche: “――ϡϡ”
Ram: “…É, entendido. Assim que tudo estiver acabado, nós duas vamos castigar o Barusu.”
Na verdade, ela não fazia ideia do que Patrasche havia dito.
Contudo, o Dragão Terrestre negro não ter corrigido Ram provava que a resposta dela não estava nem um pouco equivocada.
Ram: “…”
Ram se via obrigada a reconhecer que os julgamentos dela haviam saído pela culatra.
Ela não ter matado Batenkaitos no início serviu de gatilho para tudo.
Na tentativa de corrigir esse erro, em seguida, ela o combateu com a intenção de extinguir a sua vida de imediato, mas Batenkaitos, que sobreviveu estar à beira da morte, obteve o discernimento necessário para encontrar a solução ideal.
Consequentemente, o corpo material da irmã que deveria estar adormecida foi tomado por ele, já Ram, abalada, fora golpeada.
Sua mão de jogo estava esgotada e as cartas que havia tirado acabaram a traindo.
Por mais que Ram tivesse ciência de que se sobressaía em todos os quesitos, havia um quesito que ela sabia não possuir e que não havia o que ser feito.
―― Sorte.
Desde o dia em que o seu chifre fora partido e ela abandonara o jeito de ser do clã Oni, isso não mudou.
Ainda assim, ela não tinha muito apego a esse jeito de ser e coisas do tipo. Pois, nesse mundo inteiro, a pessoa que mais achava detestável o chifre branco que crescia em sua testa era ninguém menos que a própria Ram.
Apesar disso, ela acabou imaginando como seria bom se estivesse agora com o chifre que perdeu.
―― Não, não exatamente. Para ser mais exato, ela possuía o chifre, ele em si.
Mesmo agora, o chifre em si estava ao alcance de Ram. A sua varinha predileta, aquela que estava sempre carregando junto a si ―― o chifre partido dela estava sendo utilizando como base para essa varinha.
O chifre era um órgão essencial para reunir Mana de forma eficiente, Mana essa que os corpos resilientes dos Onis exigiam.
Portanto, tratando-se de catalizadores para o emprego de magia, para Ram, não havia nenhum com o qual estava mais acostumado.
Para isso, Roswaal deu-se ao trabalho de recuperar o chifre e encomendou esta varinha.
Esteja esse chifre na varinha, esteja ele na testa, só de estar em outra posição já era tão――:
Era tão――:
Ram: “…”
De repente, enquanto matutava sobre o chifre, um determinado pensamento passou pela cabeça de Ram.
Foi o resultado de ter mobilizado completamente aquilo que sabia para ligar as possibilidades e vencer esta situação, também do fato de que havia sobrepujado Batenkaitos uma vez, assim como da ponderação sobre a presença/ausência do chifre.
Ram, cujo chifre estava partido, e Rem, que seguia adormecida.
A segunda havia sido de tabela, mas e a primeira? ――Por que foi que Roswaal resgatou Ram?
Ela estava ciente do encargo que Roswaal queria que ela assumisse.
Também estava ciente do plano que Roswaal tentaria realizar durante o processo.
Ram tinha ouvido falar que, para isso, ela seria necessária e que, quando chegasse a hora, também saberia naturalmente o que fazer.
Portanto, ela planejava não xeretar até que chegasse a hora necessária.
No entanto, emergiu neste momento uma ideia necessária para a sobrevivência de Rem, que seguia adormecida, de Patrasche, que vinha lutando pelas irmãs, e da própria Ram.
Era uma possibilidade assombrosamente absurda.
Mas ela, ao mesmo tempo, orgulhava-se de que era uma dedução convincente.
Se tratava-se de Roswaal L. Mathers, o amado de Ram――:
Ram: “É algo que ele, antecipando que seria tachado de desumano, muito provavelmente faria.”
Assim resmungou Ram, que retirou, com as mãos tremendo, a varinha engatada à sua coxa.
Encarou fixamente a varinha que vinha utilizando a dez anos e, então, chocou ela contra a parede vigorosamente.
Do interior da varinha esmigalhada, voou algo que ela não via há muito tempo.
―― Assim como naquele dia, ele rodopiou tanto em círculos que chegava a doer nos olhos.
Vagarosamente abanando com a mão as nuvens brancas de poeira que encobriam o corredor, Batenkaitos deu um passo em frente.
Não fazer mais barulho do que o necessário com passos delicados e um porte gracioso eram os modos de uma empregada, o mínimo de consideração para não envergonhar seu amo.
Adiante da fumaça era para estar caída a sua amada irmã mais velha.
Ele queria ver as diversas faces que ela faria. Queria devolver, cara a cara, o olhar daqueles olhos rosa-claros que cintilavam ardentemente e que abrigavam intensas emoções.
Era um desejo singelo que já até parecia amor.
Rai: “Céus.”
Patrasche: “――ϡϡ!!”
Mais à frente da poeira, a primeira coisa que viu foi um Dragão Terrestre negro se arrastando.
Durante a conversa e contato mútuo que tivera com Nee-sama, o Dragão Terrestre sumiu de vista sem que percebesse. Ele não lhe despertava nenhum interesse em especial, mas haviam negócios a serem tratados com o ser que estava sendo levado pelo dragão.
Queria apagar esse ser que chamava a atenção de Nee-sama imprudentemente.
Ele era o único que podia chamar Nee-sama de Nee-sama. Nee-sama era só sua.
Rai: “Ah~, aí está você.”
Doutro lado do Dragão Terrestre se contorcendo, estava apoiada contra a parede a figura da『Bela Adormecida』.
Com o corpo levantado na medida certa, seria fácil mirar com precisão no pescoço ou no coração. Iria tirar-lhe a vida prontamente e então precisaria dar início ao prato principal, Nee-sama.
Sim, Batenkaitos estava para se aproximar da『Bela Adormecida』quando percebeu.
―― Que a cabeça da jovem cabisbaixa, com seus cabelos azuis, estava brilhando sutil e tênuemente.
Por um mero instante, ele ficou em dúvida do que se tratava esse brilho.
Porém ele negou a resposta que viera de sua própria percepção, dizendo que não podia ser.
Isso que a jovem ainda adormecida devia estar fazendo era――:
Ram: “Ram irá se retificar.”
Rai: “――kh, Nee-sa…”
Ram: “Ram pensava estar sem sorte. ――No entanto, não é bem assim.”
Ele tentou chamar a detentora da voz a qual ouviu, porém não conseguiu.
Um golpe de velocidade ainda maior espetou o rosto de Batenkaitos. Ele espantou-se e, no instante seguinte, a onda de choque o trespassou, fazendo-o sair voando na direção oposta ao corredor pelo qual caminhara.
Rai: “~~gh!?”
Sem conseguir amortecer o ímpeto deste poderio excessivo, Batenkaitos parou depois de esburacar duas paredes.
O assombro antecedeu à dor e agonia, ele levantou-se para então cair de joelhos por causa da gravidade dos danos. Um golpe tão profundo que era como se ele tivesse estilhaçado o seu corpo até o cerne.
Perguntando-se o que é que havia ocorrido, Batenkaitos esboçou espanto em seu doce rosto――:
Ram: “Ao que parece, até os céus estão perdidamente apaixonados pela fofura da Ram e da Rem.”
Pó encobriu o buraco na parede que ele despedaçara e, assim que tentou forçar a vista nessa direção, seu rosto foi agarrado pela palma de uma mão com uma velocidade que deixava até o som comendo poeira.
Então, viu de perto o adversário que estava fazendo os seus ossos da bochechas e da mandíbula rangerem devido à força com a qual os agarrava.
Era――:
Rai: “Nee… sama…”
Ram: “É uma pena, mas a irmã mais nova de Ram está dormindo por dentro. Ram entende isso claramente por causa da『Sinestesia』.”
Rai: “Sines… te…?”
Ram: “É『Sinestesia』. Pelo visto, Ram e Rem eram irmãs chegadas, não? Alegria e raiva, tristeza e dor, podíamos compartilhar esse tipo de coisa. ――A reativação de um chifre partido e o fardo disso também.”
O significado disso não era algo que ele entendesse claramente.
Era só que aquilo que Batenkaitos vira com os próprios olhos havia sido confirmado.
Antes de ser arremessado, viu um chifre branco na testa da『Bela Adormecida』que estava apoiada contra a parede ―― era a única posse que a jovem Oni possuía de nascença que prevalecia sobre sua irmã mais velha.
Por ele existir, por ele brilhar, por ele transmitir, do que se tratava?
Ram: “Ainda que a estratégia do Barusu ter servido de dica seja irritante, está tudo bem.”
Rai: “O que o… Subaru-kun…”
Ram: “――Ram pede que pare de dizer o nome do Barusu com esse rosto e essa voz.”
Rai: “――gh!!”
Naquele instante, o corpo de Batenkaitos foi erguido pelo rosto, que estava sendo agarrado, e ele foi jogado contra o chão com vontade.
Amedrontado, os membros de Batenkaitos tremiam. Frente a ele, Ram abriu e fechou o punho como se para averiguar e, da cicatriz em sua testa, derramava-se uma quantidade copiosa de sangue.
Contudo, ao invés de se incomodar com esse sangue derramado, ela lambeu os beiços como se o desse boas-vindas.
Quase como se essa dor e esse sangue fossem evidências da conexão de um laço perdido.
Ram: “Àqueles que nasceram em local escuro, Ram pede que retornem ao local escuro. Caso tenha nascido aos prantos, Ram pede que morra em meio aos prantos.”
Enxugando gentilmente o sangue de sua testa com a palma da mão, seus olhos rosa-claros desceram até Batenkaitos.
Desejando ver o ardor abrigado nesses olhos, ele havia feito muito até então.
―― Esse Arcebispo do Pecado da『Gula』foi encarado de cima por Ram com olhos que pareciam gélidos.
Ram: “A segunda vinda do Deus Oni. Ainda que Ram não goste, ela terá que exercer esse papel por hoje. ――Desta vez, Ram vai rasgar em pedaços a cópia barata da adorável irmã mais nova dela.”