――Ao remover vagarosa e gradativamente os seus grilhões, o ardor em seu corpo foi se elevando.
Ela sentia o sangue fervendo e todos os músculos de seu corpo esguio estavam sendo espremidos.
O físico da jovem parecia macio ao toque, até efêmero e desamparado, mas tanto o sangue que fluía em seu interior quanto a carne e osso que o constituíam eram os da mais formidável espécie do planeta.
E, mesmo dentre eles, ela era tida como o primoroso segundo advento do『Deus Oni』――:
Rai: “Essa é a Nee-sama~! Aah, que coisa mais maravilhosa~! Você irradia~! Não importa o que faça, a Rem jamais iria conseguir nem iria alcançá-la nem iria rivalizá-la, assim que é a Nee-sama~!”
Ram: “Faça o favor de não cuspir. Que desagradável. Ram também pede que pare de compará-la a algo.”
Rai: “Hãã, o que isso quer dizer?”
Ram: “Parece óbvio, não? ――Que, para a Ram, qualquer alcunha que não seja ‘Nee-sama da Rem’ é desnecessária.”
Disse Ram com o que parecia indignação, então girou e perfurou o ar com uma cotovelada.
Demonstrando, sem relutância, uma arte marcial aterrorizante que rasgaria a pele caso passasse raspando, despedaçaria os ossos caso os atingisse e atravessaria até mesmo as entranhas, ela disparou uma combinação de golpes enquanto fazia uso integral de cada membro seu.
Não se podia dizer que era uma arte que se tratava meramente de pura técnica ou aptidão física.
Se fosse devido a plena habilidade, significaria que Batenkaitos ― aquele que recriava todo tipo de arte, de qualquer tempo e de qualquer lugar, com base nas『Memórias』de oponentes devorados — seria capaz de corresponder.
No entanto, as técnicas de combate utilizadas por Ram demarcavam uma diferença clara.
“…”
Ram investiu adiante e fez com que as cotoveladas e joelhadas disparadas por ela acelerassem e desacelerasem livremente na metade do caminho. Isso porque revestiu-se com magia de vento, sua especialidade, e entreteceu o verdadeiro ao falso no calor da batalha.
Com o vento, em um momento ela acelerava sua velocidade e no outro a desacelerava, confundindo como bem entendia a noção de Batenkaitos, que tentava revidar. Ao fim, Ram utilizou o vento, dispersou para todos os lados cada indício seu e, enquanto se esgueirava no ponto cego de seu adversário com uma movimentação ágil, desferiu diversos ataques fatais.
Rai: “Haa! Como é irresistível~!
Enquanto esquivava dos ataques de Ram por pouco, Batenkaitos a ovacionava, aparentando felicidade.
Enquanto sangue escorria de sua bochecha direita rasgada, o『Gula』sacudia seu cabelo castanho escuro, comprido e desgrenhado há tempos, e estava se divertindo ao comparar sua habilidade à de seu oponente.
Rai: “Que spice picante e irresistível! Que trick amargo e com brio! Perfeitamente dynamic com uma explosão de deleite! Nee-sama é um manjar ideal pro paladar requintado da gente!”
Saltando pela escadaria em espiral, Batenkaitos ria conforme um trocava de lugar um com o outro.
Quando colidiu as adagas de ambas as mãos contra a varinha de Ram e distanciou-se, saliva pingou de sua boca aberta.
Rai: “Como é bom, é tão bom, um tanto bom, muito bom, já que é bom, não seria bom, deve ser um tanto bom, deve ser muito bom, já que deve sim ser bom~! Bebendo como um glutão~! Comendo como um glutão~!”
“…”
Rai: “O que é bom, acima de tudo, é o aroma dessa fúria. Um adversário que oferece esse tanto de ódio a nós indivíduos… com que tipo de iguaria será que iremos poder nos deliciar quando saborearmos isso sobre a nossa língua, heein!?”
Batenkaitos bateu palmas e tremeu incontrolavelmente por causa de um incompreensível pressentimento de prazer.
Enquanto presenciava isso, Ram soltou um longo suspiro e verificou o estado do próprio corpo.
Ram: “Embora esteja bem distante do estado original…”
Ram não transparecia isso no rosto, mas estava maravilhada do fundo do coração.
Dizer que se conhecia melhor do que qualquer outro era o bordão de certos humanos que não se conheciam, porém, ao contrário de tolos como esses, Ram possuía total entendimento dela própria.
Após perder o chifre da tribo Oni e se tornar『Sem-Chifre』, seu corpo ficou sendo constantemente esmagado por um fardo colossal dia após dia. Portanto, havia colocado grilhões em sua própria consciência.
Ela geralmente mantinha todos os grilhões quando trabalhava como serviçal.
De vez em quando, havia também emergências nas quais ela precisava necessariamente empregar magia e derrubar por terra o ocorrido. Nessas ocasiões, ela removia um grilhão e permitia a si mesma uma utilização mínima de magia.
E se as circunstâncias ainda assim não fossem resolvidas, Ram removia um segundo grilhão e, em batalhas breves e decisivas, conseguia demonstrar cerca de vinte por cento de sua performance original.
Quando ela travou uma batalha contra Garfiel no『Santuário』há mais ou menos um ano, foi bem por volta disso.
Ram acreditava que aquele era o máximo que ela conseguia trazer à tona como uma『Sem-Chifre』, que seu corpo seria incapaz de suportar mais que aquilo e acabaria deixando de ser funcional.
Ram agora já estava tentando remover mais outro desses grilhões, que eram uma espada de dois gumes.
“…”
Naquela fração de segundo, o peito dela foi contorcido por uma hesitação incomum.
Como dito anteriormente, Ram tinha total entendimento de si própria.
Para ela, não sentir nenhuma consequência em si mesma após tanta luta era algo que não acontecia desde que ela era realmente criança, com menos de dez anos.
Caso a consequência de tanta luta repercutisse, a cabeça de Ram doeria como se estivesse se partindo ao meio, sangue verteria sem parar tanto do nariz quanto dos olhos e ela teria que se preparar mentalmente para o seu corpo parando de funcionar por um tempo.
Esse não era o caso. ――Pois estava tudo fluindo a Subaru, fadado ao mesmo destino que ela.
Ram: “…Se eu demorar demais, o Barusu vai morrer, não?”
Caso tudo estivesse de acordo com o que conversaram, por volta de agora, Subaru deveria estar se empenhando em lidar com Shaula, desenfreada, ou com as manadas de Majuus que irrompiam.
Com ele estavam Beatrice e provavelmente Meili. ――Emilia, que fazia a memória dela latejar, dirigiu-se ao alto da torre e devia estar lutando só.
Curiosamente, estava preocupada com o que se sucederia para aquela garota otimista de cabelos prateados. Ela, sem nem sombra de dúvida, estava penando bastante antes de ser destituída de seu『Nome』.
Sem Ram, nenhum deles tinha qualquer amparo.
Portanto:
Ram: “Ram pede que você tolere a vontade de morrer, Barusu. ——Ou a Rem irá chorar.”
Ao soltar estas palavras inaudíveis, Ram, depois de dez anos, removeu o terceiro grilhão.
――Naquele momento, Natsuki Subaru cerrou os dentes devido à resposta do『Cor Leonis』.
Subaru: “――Gah.”
Como se estivesse a vomitar sangue — não, veio a ele realmente o fardo de vomitar sangue.
Num só instante, Subaru sentiu que uma das luzes tênues no interior da torre havia crescido de tamanho e o acometido logo em seguida.
Beatrice: “Subaru!”
Subaru: “――hk!”
Com sangue misturado à tosse, a postura de Subaru ruiu e Beatrice, na dianteira do peito dele, o deu suporte.
No momento, eles infelizmente não estavam montados em Patrasche, com quem já haviam se acostumado, e sim em um Rei Cavalo Faminto, um Majuu que não se imaginava sendo montado por um ser vivo.
Subaru não tinha muita experiência em cavalgar sem a『Proteção Divina da Quebra de Vento』e, já que não havia uma sela na qual colocar as nádegas nem estribos para firmar os pés, ele seria muito provavelmente arremessado caso se descuidasse por um único instante.
Isso ainda não aconteceu por estar usando o Guiltywhip, enrolado na parte superior do Majuu, como rédea substituta e por Beatrice estar mantendo o peso de Subaru sob controle através de uma magia minuciosa.
Ele não podia deixar esse esforço contínuo ir por água abaixo.
Beatrice: “A Ram repercutiu em você, eu suponho.”
Subaru: “Bem isso que você presumiu… foi mal, vou dar um jeito de aguentar… hk.
Agarrando o chicote com firmeza mais uma vez, Subaru assim respondeu a Beatrice, boa em discernimento.
A ânsia que lhe subia a garganta tinha gosto e cheiro de ferrugem, causada pelo fardo de alguma parte do corpo que ele não fazia a mínima ideia de qual fosse.
Seus órgãos internos gritavam de agonia ou algo em seu interior havia se quebrado, seria esse o tipo de dano?
Seja como for, era prova de que Ram estava agindo a sério.
Subaru: “Se a Ram puder se livrar de uma das partes do『Gula』…”
Ele não diria que, com isso, a situação sossegaria de uma só vez.
Primeiro que ele não conseguia sequer ter confiança de que esmagar o『Gula』resultaria na devolução dos『Nomes』e『Memórias』roubados. Apenas que o fardo de Subaru seria reduzido.
―― Caso fosse assim, ele seria capaz de se concentrar em tomar o fardo de Meili somente.
Meili: “Arf, arf… hk.”
Agarrada à metade superior do Rei Cavalo Faminto, Meili estava lançando ordens aos Majuus com tudo de si.
Para agir contra o escorpião gigantesco, que brandia suas garras e seu ferrão da cauda enquanto tinha Subaru como alvo, essa luta arrojada de Meili era crucial.
Compensando a falta de poder bélico por meio de recursos, Subaru e cia. fabricaram à força uma demora que não existia.
Por isso que o berro de Subaru, de que apreciar Meili como se ela fosse uma princesa era de suma importância, não foi brincadeira nem piada, foi um comentário sério.
No momento, embora o poder de Emilia, Ram, Julius e dos demais fosse indispensável para transpor cada obstáculo dentre os cinco que tinham em vista a Torre de Vigia Plêiades, a peça chave em preservar os outros campos de batalha era ninguém menos que Meili Portroute.
Como consequência, já fazia algum tempo que Subaru estava tomando para si o retorno da Proteção Divina que incidia nela.
Meili: “Touperazinhas Aladas! Ursinhos Florais! Em conjunto!”
Com uma voz estridente, Meili os levava a uma morte quase certa enquanto tinha uma visão aérea do campo de batalha.
Ela dava ordens batendo palmas, estalando os dedos ou verbalizando o que deveriam fazer; esses métodos variavam de Majuu para Majuu, mas a Proteção Divina estava a máxima capacidade para fazer todos acatarem.
Subaru percebeu que isso causava um fardo considerável, pois sentia como se o seu próprio cérebro também estivesse latejando e inchando.
“…”
As bênçãos trazidas pela『Proteção Divina da Linguagem da Alma』de Otto ou pela『Proteção Divina da Manipulação de Majuus』de Meili passavam fortes ares de que, ao invés de algo mágico, estavam mais para uma extensão das capacidades humanas.
Por assim dizer, lembravam poderes da área da paranormalidade, não da magia.
Sendo assim, também era compreensível que o retorno dela fosse maior quando comparado ao de outras Proteções Divinas.
No sentido de as Proteção Divinas não terem os arredores ou os outros como centro, operando somente no próprio indivíduo.
Subaru: “Já que tanto as Proteções Divinas quanto as Autoridades fazem parte de um sistema não tem um significado que dê pra entender…”
Autoridades, que costumavam ser utilizadas por Arcebispos do Pecado,『Bruxas』e, por alguma ironia do destino, Subaru também.
Ou Proteções Divinas, que acabavam sendo concedidas ao acaso àqueles que nasciam neste mundo.
Os poderes tinham todos alguma serventia, e mesmo que até Subaru reconhecesse que era verdade de certo modo…
Subaru: “Não é de ter essas coisas…”
Que nascem tragédias? ― Era o que não conseguia parar de pensar.
As circunstâncias nas quais temiam-se os Arcebispos do Pecado e as『Bruxas』, e nas quais eles conseguiam brandir esses seus poderes egomaníacos, estavam bastante relacionadas ao poder das Autoridades, que claramente não permitia que os outros se aproximassem.
Proteções Divinas também, caso não houvesse coisas desse tipo, muitos terminariam com um destino que não seria distorcido.
Por exemplo, ninguém menos que Meili havia sido vítima do aspecto negativo das Proteções Divinas.
Por possuir de nascença a habilidade de se comunicar com Majuus, ela foi abandonada pelos seus pais biológicos. ――Ele não sabia se era essa a verdade. Todavia, era uma teoria convincente. Uma lógica autoevidente.
Ao menos dentro de Meili, essa era a verdade.
Era exatamente por isso:
Subaru: “Eu sou um sujeitinho que realmente tem dois pesos e duas medidas…”
Por mais que pensasse não querer depender de Autoridades ou de Proteções Divinas, não hesitaria em usá-las até a última gota caso fosse preciso. As opções de um ser humano fraco serem limitadas era um fato, mas ele não queria que isso o tornasse ríspido até o coração.
Ele não queria acabar se esquecendo e achando graça de que um caminho que não deveria ser caminhado lhe foi imposto.
Meili: “Moço! Você ‘tá prestando atençãooo!? Se o moço ou a Beatrice-chan saírem machucados, vai estar tudo acabado, sabeee!?”
Subaru: “Eu tô sabendo. ――Olha, Meili. Quando tudo acabar, você iria querer ser a minha filha?”
Meili: “――hk! Que nem eu disse, presta atençãooo!!”
Rugiu Meili novamente em resposta a Subaru, que fez essa pergunta enquanto suportava o peso de sua cabeça.
Nenhum dos dois tinha folga. Era capaz de eles durarem um só instante caso perdessem o foco.
Ainda assim:
Subaru: “Depois de passar por todo esse sofrimento, não vai cair bem se você não achar que um amanhã alegre te aguarda.”
Isso, enquanto vomitava sangue, era no que pensava Natsuki Subaru.
Enquanto dava continuidade à sua batalha acima da areia, Meili sussurrou a si mesma: “Tem algo de errado comigooo”.
Claro que muitas coisas podiam ser tidas como ‘algo de errado’.
O mesmo também valia para Shaula, que diante de seus olhos estava transformada em um escorpião gigantesco; o mesmo também valia para a meia-elfa de cabelos prateados, que estava repleta de vigor e de vontade; o mesmo também valia para Ram, Julius e os demais, que estavam a lutar contra diversos oponentes dentro da torre de vigia; e o mesmo valia em particular para Subaru e Beatrice, que estavam lutando junto dela.
Entretanto, quem mais tinha algo de errado consigo era definitivamente:
Meili: “Eu, não é mesmooo?”
Nem a própria Meili entendia a si mesma, por que havia ficado deste jeito?
Para início de conversa, ela achava que tinha começado a agir de uma maneira que não lhe era típica desde o momento em que veio acompanhar Subaru e cia. na jornada deles às Dunas de Augria.
Conforme se deixava levar, conforme era preciso, sem se importar se estava correta ou equivocada, ela vinha obedientemente fazendo o que lhe era ordenado.
Já que esse era o segredo de Meili para se dar bem na vida, ela planejava fazer a mesma coisa aqui também.
Apesar disso:
Meili: “――É que existe o『Livro dos Mortos』e coisa do tipooo.”
Ao ouvir que era possível sentir na pele as emoções dos mortos, Meili sucumbiu à curiosidade dentro de si.
Não teve outra opção senão romper o lacre de seus sentimentos por Elsa Granhiert, os quais vinha remoendo sem parar; como resultado, deu-se que Meili acumulou idiotices que lhe eram tão pouco típicas quanto qualquer outra coisa que já fizera em vida.
No fim, ela foi pega em flagrante e até acabou recebendo um tremendo sermão de Subaru.
No entanto, ela estranhamente não foi capaz de debochar da queixa dele.
De algum jeito, ela havia sido obrigada a prometer inclusive que cooperaria dali em diante como forma de reparação.
Subaru tinha até lhe dito que ela sempre teria a quem seguir, mas Meili se perguntava a que ponto ele tinha a intenção de assumir a responsabilidade e se ele era do tipo de gente que falava coisas inconsequentes e depois se arrependia.
No que dizia respeito a se deixar levar com facilidade, muito lhe vinha à memória.
Entretanto, o que diferenciava Subaru de Meili era não falar só da boca para fora.
Se Subaru disse que faria, provavelmente tentaria fazê-lo; e mais, no local dessa promessa estava presente… Beatrice? Ela também provavelmente tentaria fazê-lo manter a promessa.
Sendo assim, ela se sentia incomodada por estar sendo mimada arbitrariamente e, apesar de ter vontade de ajudar em algo, até agora não lhe pediram nada.
“…”
Bandos de Toupeiras Aladas, que se arremessavam em resposta aos gestos de Meili, ainda eram fatiados pelo ferrão caudal do escorpião gigantesco e em um instante estraçalhados.
Toupeiras Aladas eram tímidas e geralmente não se lançariam em um oponente mais poderoso que elas sob hipótese alguma; mesmo Meili, capaz de decretar ordens que passavam por cima desse instinto deles, não conseguia deixá-los mais fortes.
Meili: “Aaah! Acabou de vez pra elaaas!”
Ao sacudir suas garras colossais, a violência do escorpião gigantesco desenfreado foi matando os Majuus um seguido do outro.
O sangue derramado dos Majuus que haviam sido talhados, esmagados e trespassados permeou a areia sedenta, mudando o aspecto do mar arenoso, de amarelado para algo vermelho-escuro.
Meili: “――hk.”
Enquanto cerrava os dentes com força diante dessa realidade, Meili agilmente vigiou seus arredores e os vasculhou atrás de indicativos de Majuus nos céus, sobre a areia e até mesmo sob ela para então domar tudo o que podia ser domado.
Não podia dar importância às qualidades deles. No momento, era preciso qualquer recurso que fosse, uma quantidade inesgotável em mãos.
Meili: “Poxaaa, poxaaapoxaaapoxaaa! Depois dessa aqui, eu definitivamente vou fazer o moço dar ouvidos pro que eu bem entendeeer!”
Sem folga para sequer enxugar o suor de sua testa, Meili criticou grosseiramente Subaru, que também estava distraindo o escorpião gigantesco à devida distância.
A garupa do Rei Cavalo Faminto não era uma montaria agradável nem para ela. Entretanto, no caso de Meili, ela havia atravessado o manto que envolvia seu corpo com uma faca e a fincado nas costas do Majuu, ancorando seu corpo à força.
Era um Majuu que estava sob seu controle. Ele aceitava este tanto de violência sem quaisquer problemas.
O problema não era o Majuu, era em maior parte Meili, que havia sido colocada nessa situação.
Primeiro que isso de lutar na hora H não era o jeito próprio com o qual Meili fazia as coisas.
O jeito com o qual Meili lutava tinha preparação prévia como a pedra angular ―― ela efetuava um disciplinamento para colocar os Majuus dos arredores sob seu controle, posicionava-os no campo de batalha e assistia de longe a ofensiva generalizada.
Era exatamente essa a especialidade de Meili Portroute, a『Encantadora de Majuus』.
Claro que comandar diretamente do campo de batalha aumentava a precisão do ataque e da defesa dos Majuus, entretanto, Meili não faria isso enquanto tal coisa também a colocasse em perigo. Por ter se equivocado nessa tomada de decisão, ela perdeu para Subaru e cia. em batalha e foi aprisionada.
Meili: “A Elsa foi…”
A morte dela também teve como causa o acúmulo desses erros.
Claro, Elsa não devia querer que Meili se autocondenasse nem nada do tipo jamais, era possível que ela nem tivesse dado alguma bola para a própria morte. Por isso, acabava ficando ansiosa.
Do mesmo modo que não entendia os sentimentos de Elsa, não entendia bem os próprios sentimentos.
Primeiro que, embora Meili fizesse parte desta batalha para atrasar o escorpião gigantesco e estivesse se empenhando em ganhar tempo usando as vidas dos Majuus como moeda de troca, ela nunca tinha feito as coisas desta forma.
Meili Portroute era bem jovem, porém uma assassina de aluguel.
Ceifar a vida de alguém às ordens, às instruções e ao pedido de outrem era o seu ganha-pão.
Por isso que esta era a primeira vez.
―― Que precisava lutar para salvar e para proteger a vida de alguém.
Meili: “Esse aqui não é o meu jeito de fazer as coisas nãooo!”
As palavras que Subaru havia dito agora há pouco, que pareciam contrassensos, foram intensamente enfurecedoras.
Você iria querer ser a minha filha? ― que coisa a se dizer para Meili.
Uma atitude quase como a de quem não tinha noção de que era odiado, irritante de fato.
Mesmo que seu oponente imediato tivesse sido Garfiel, foi Subaru quem construiu aquelas circunstâncias. Até aqui na Torre de Vigia Plêiades, ele havia construído as circunstâncias à vontade dele.
“…”
Assim, apesar de ter uma ideia negativa a respeito do comportamento de Subaru, a própria Meili, segundo as instruções dele, estava se movimentando tal qual uma peça, compondo o tabuleiro da mesma maneira que os demais.
Caso essas circunstâncias tivessem sido moldadas pela capacidade de previsão de Subaru, seria até que convincente.
Entretanto, não importava de que jeito você olhasse, Subaru não era desse calibre. O que havia em Subaru era somente desespero, expectativas impositivas e fé enlouquecida similar a confiar a própria vida:
Meili: “Tô sentindo que até eu virei uma idiota de um jeito ou de outrooo.”
Enquanto falava, Meili alçou os Majuus que havia apanhado do subsolo e os fez se voltarem ao escorpião gigantesco.
“…”
O mar de areia que havia sido tingido de vermelho partiu-se violentamente e do subterrâneo irrompeu uma Minhoca da Areia chacoalhando seu enorme corpo. Torcendo o corpanzil que ultrapassava a casa dos dez metros, ela tombou sobre o escorpião gigantesco de modo faraônico.
Se sob ela fosse esmagada e pela areia soterrada, seria uma vitória inesperada —— mas as coisas não iriam correr tão bem assim.
Emitiu-se uma luz alva e o tronco roliço da Minhoca da Areia foi dissipado em um instante.
A Minhoca da Areia, partida ao meio, vinha caindo enquanto suas duas metades despejavam fluidos corporais em conjunto com ruídos esquisitos; ela foi despedaçada com ainda mais minuciosidade pelo ataque que o ferrão da cauda disparou em sequência.
Essa era, no entanto, uma distração de carne e sangue feita com a vida da Minhoca da Areia.
―― Os campeões eram os três Reis Cavalo Faminto que surgiram do subsolo do qual a Minhoca da Areia irrompera.
“――――ϡϡ”
Elevaram um rugido similar aos berros chorosos de um recém-nascido e, pegando fogo com metade homem e metade cavalo, direcionaram um ataque suicida ao escorpião gigantesco.
Diversos Majuus haviam sido confirmados nas Dunas de Augria, ainda assim, o poder de fogo individual que mais se sobressaía era nada menos que o destes Reis Cavalo Faminto.
Tanto as Toupeiras Aladas — numerosas, porém incapazes de dar o golpe da vitória — quanto os Ursos Florais, que careciam de resiliência, e as Minhocas de Areia, que tentavam esmagar tudo de uma só vez com seus corpos enormes, serviram de fachada para que Meili mantivesse os campeões preservados.
Atraídos pelos indícios desta batalha, estavam se reunindo os três Reis Cavalo Faminto.
Estes Majuus perdiam para o escorpião gigantesco no quesito poder de combate, mas eram neles que a oponente mais estava de olho. Por assim dizer, era evidência de que ela estava sentindo que o poder de fogo dos Majuus era uma ameaça.
Meili: “Parece que eu ainda tô em bom estado.”
O Rei Cavalo Faminto sendo montado pela própria Meili, aquele sobre o qual Subaru e Beatrice cavalgavam e os três que ela havia preparado para este ataque: o fardo de movê-los ao mesmo tempo devia ser consideravelmente pesado.
Essa repercussão, entretanto, não estava sendo sentida por Meili no momento, por incrível que parecesse.
Era possível que isso estivesse ocorrendo por causa do entusiasmo da batalha, se fosse esse o caso, estava prestes a tirar proveito disso.
Ela não estava planejando abater o inimigo.
Todavia, caso viesse a desferir um golpe ainda que um pouco grave, já facilitaria para Subaru conquistar a meta dele.
“…”
―― De certo modo, esta poderia ser a terceira vez que a menina de nome Meili, esta que se deixava levar e era assim que seguia com a sua vida, desejou fazer algo por vontade própria.
A primeira foi vagar pela torre de vigia à noite, buscando salvação no『Livro dos Mortos』.
A segunda foi aproximar-se, com o psicológico encurralado, das costas de Subaru, que estava em pé na escadaria em espiral.
E a terceira foi buscar resultados que transcendiam o esperado para assim cumprir a meta de ganhar tempo.
Subaru: “Meili!!”
Assim que os três Reis Cavalo Faminto chegaram perto do escorpião gigantesco, um brado cuspindo sangue chamou por Meili.
Foi o grito de Subaru, cujo sangue literalmente escorria do canto da boca.
Meili ficou encucada, pois não havia sido de júbilo, de alegria nem de fascínio.
Mesmo com ela fazendo tudo direitinho, o que aconteceu para se irritar desse jeito?
Porém:
Meili: “――Hã?”
Empunhando lanças de fogo, os três Reis Cavalo Faminto saltaram fervorosamente no escorpião gigantesco.
Não importava o quão habilmente fizesse uso das garras ou do ferrão caudal, imaginava-se que ela não conseguiria se defender de tudo ―― ao ver a mudança ocorrida no corpo do escorpião gigantesco, isso caiu por terra.
Era quase como se ela tivesse sido tostada pelas chamas ou se embebido de sangue do mesmo modo que a areia.
A crosta, que tinha um brilho apagado igual o de aço enegrecido, mudou de cor como se tivesse despertado. No instante que se seguiu, a carapaça negra como a noite mudou para um vermelho similar a sangue.
―― Alguns dos Majuus ativavam uma transformação denominada『Coloração de Ataque』.
Era uma transformação na qual se alterava claramente a forma como se comportavam até então, tornando-os agressivos e mais ferozes.
Sendo uma mudança fácil de se entender, o exterior se alterava na maioria das vezes. As chamas dos Reis Cavalo Faminto se avolumando, os inúmeros olhos surgindo ao longo de toda a Baleia Branca e outras coisas do tipo também estavam incluídos.
E era algo em que o escorpião gigantesco ―― não, em que o『Escorpião Carmesim』também estava incluído.
Mais agressivamente, mais destrutivamente, mais aniquiladoramente:
Meili: “――Ah.”
Uma luz branca foi disparada em todas as direções, desintegrando os Reis Cavalo Faminto que haviam saltado.
Ao mesmo tempo, o impacto posterior da luz alva, que havia se dispersado para tudo quanto é lado, tumultuou o mar de areia desgovernadamente, quase como se o fatiando.
Então:
“…”
Engolida pela enxurrada explosiva de luz, a pequena figura de Meili rodopiou pelos ares junto de um jorro de sangue.
―― A euforia que transbordava de uma sensação de sangue fervilhando era algo que ela detestava desde muito pequena.
Um sentimento de onipotência que parecia capaz de reinar sobre tudo que há neste mundo.
Supondo que o tempo em que viveu embriagada naqueles devaneios tivesse perdurado, não importava o quão firme fosse a espiritualidade que lhe havia sido agraciada, era inquestionável que o tempo a faria desandar.
Ela tinha consciência de que se sobressaía. Mas não superestimava isso.
Ela também cometia erros. Tinha apenas uma vontade de tentar não cometê-los e uma conduta de retificá-los.
Ela conseguiu se ater a uma conduta dessas em virtude de não ter se inebriado com o sentimento de onipotência.
Não cometeu o engano de se achar algo maravilhoso, conforme diziam os enaltecimentos ao seu redor, em virtude de não ter virado um pau-mandado dos que louvavam velhos costumes retrógrados e misticismos ultrapassados.
E acabou não sendo esmagada por tais fatores externos em virtude de quê?
Ela entendia que era definitivamente em virtude de algo faltando, algo que não conseguia recordar.
Pois:
Ram: “――Afinal de contas, Ram não só é fofa, como também sagaz.”
Deixando para trás palavras de autoelogio, a pisada de Ram esmigalhou a diferença em degraus da escadaria em espiral.
Nesse momento, a Oni com cabelo cor de pêssego, rodeada pelo vento, balançou o seu braço e quebrou de frente o do oponente, que havia tentado apará-lo.
Em um só instante, torcendo-o do pulso ao cotovelo e seguindo até o ombro, ela o rompeu.
Rai: “――Gah~.”
Ela não permitiria que ele tivesse tempo para gritar de dor.
Ram meteu o punho na lateral do rosto que estava a meio caminho de soltar um guincho e os dedos alvos dela se transformaram em chumbo grosso.
Inúmeros golpes foram disparados por todo o corpo de Batenkaitos, que voou para longe vomitando sangue. Perseguindo-o, Ram subiu no vento que ela fez ser gerado sob a sola de seus pés e saltou ao alto.
Rai: “Hihi~.”
Batenkaitos, jogado no ar, balançou ambos os pés como se estivesse a enfrentar Ram.
Logo em seguida, a distorção espacial produzida encostou no ombro de Ram e rasgou superficialmente sua roupa e sua pele. ――Foi uma lâmina invisível deixada de presente no ar, uma armadilha irreverente originada por magia de vento.
Ram: “Uma coisa desse nível…”
Rai: “Vai levar ela embora com o vento, você diz? Nananinanão, é inútil, é inútil! Porque ela ‘tá toda fixada no espaço, é~! Nem Nee-sama vai conseguir mandar embora com um chute, que pena~!”
Antecipando o plano dela com um sorriso tingido de sangue estampado no rosto, Batenkaitos chutou o nada.
Não significava que ele estava realmente chutando o nada, era um pequeno artifício para andar no ar no qual as lâminas que haviam rasgado o ombro de Ram serviam de sustentação —— apoiando-se naquilo cuja posição somente ele conhecia, voou com total liberdade pela escadaria em espiral que ocupava grande parte da torre.
Entretanto:
Ram: “――『Clarividência』.”
Mesmo que sua percepção não fosse capaz de captar essa coisa, caso conseguisse sobrepor seu campo de visão ao do humano que a montou, Ram saberia o paradeiro dela com alterações irrisórias na própria consciência.
Conforme o『Gula』tentava fugir mais e mais às alturas com as arapucas servindo de sustentação, Ram as detectou quando sobrepôs seu campo de visão ao do oponente, utilizou-as da mesma forma e partiu no encalço dele.
Rai: “Há~! Ah, há, há, há, há, há, há! De verdade, Nee-sama? Serião!?”
Ram: “Que jeito Barusuesco de se falar. ――Ajuda a dissipar a hesitação de Ram em esmurrá-lo.”
Ram saltou pelos ares com ainda mais velocidade do que a ascensão de Batenkaitos, surpreso, e baixou o olhar para a face detestável dele.
Então enfiou impiedosamente a sola de seu pé no rosto cuja boca aberta possuía presas afiadas que estavam enfileiradas.
Rai: “Bh.”
Ram: “Está bem, vejamos quantas vezes você será capaz de provar o solado da Ram até cair lá embaixo.”
Batenkaitos teve o focinho esmagado e seu corpo diminuto deu cambalhotas em pleno ar.
Com o embalo de sua subida amortecido, o『Gula』desta vez foi derrubada para logo abaixo de si pelo poder do chute de Ram.
Indo atrás dele, Ram ergueu ambas as mãos em direção aos céus, mergulhou produzindo vento de seus punhos e, em direção ao rosto de Batenkaitos, que estava despencando, ela desengatilhou um segundo chute ―― não, seguiu desengatilhando um terceiro e um quarto.
O calcanhar de Ram chutou e partiu o nariz, os dentes, o queixo e a testa dele com cada disparo.
A cara sorridente e a boca que vinha chamando Ram de “Nee-sama” várias vezes lhe eram desagradáveis.
Querendo arruinar ambas, prosseguiu ainda mais em queda.
Diga-se de passagem:
Ram: “Mesmo que seja atingido pelas arapucas que você mesmo montou, não será de Ram a culpa. Aqui se faz, aqui se paga.”
Rai: “Gh! Gyah! Higii~!”
Em meio a ser derrubado pelos chutes, as lâminas invisíveis que Batenkaitos havia deixado no ar talharam o corpo dele.
Sangue estava escorrendo e também haviam feridas profundas nas quais a carne parecia ter sido arrancada, mas Ram não deu importância.
Deliberadamente se dar ao trabalho de atormentar e torturar o adversário não era algo que ela gostava de fazer.
Entretanto, estamos falando de casos em que o adversário possuía aspectos dos quais sentir compaixão, caso o adversário fosse um inimigo abominável, Ram não hesitaria em fazê-lo guinchar como um porco.
Ram: “Então? Está arrependido?”
Ram freou habilmente o corpo em pleno ar e o interrogou com suas pernas ainda estando no rosto e no peito dele.
Com a face lentamente se encardindo de sangue, Batenkaitos não respondeu ao questionamento de Ram, em vez disso, tentou erguer ao alto as adagas de ambos os seus braços.
Nesse instante, ambas as mãos de Ram golpearam os ombros do oponente com a palma em forma de lâmina, deslocando à força as articulações.
Rai: “――Aoh.”
Ram: “Então? Está arrependido?”
Não importava o quão ilustre fosse a técnica detida por ele, não conseguiria balançar seus braços com os ombros fora do lugar.
Enquanto olhava de cima o rosto espantado que estava de olhos arregalados, Ram repetiu novamente a pergunta.
“…”
Ram tentou encontrar pavor se formando nos olhos de Batenkaitos, que lhe olhava.
Sua intenção era entalhar. Seja pavor, seja dor, seja uma sensação incontrariável de derrota. Em prol de sua vingança —— não, não era um motivo mesquinho como esse.
Ram: “Rem――”
Era para recuperá-la.
Além de Rem, uma quantidade copiosa de vítimas havia sofrido infortúnios nas mãos do『Gula』até agora. Era para recuperar aqueles que, privados de seus『Nomes』e『Memórias』, foram usurpados da história com a qual tiveram contato.
Se matá-lo fosse o bastante, Ram seria capaz disso até mesmo neste exato momento.
Bastava acoplar uma lâmina de vento à sola de seu pé e degolá-lo com o mesmo esforço que fez ao quebrar a face dele aos chutes. Não importava se você era um dos Cultistas da Bruxa, conhecidos pela maneira imunda com a qual viviam, ou não; já era comprovado que você morreria caso seu pescoço se desprendesse do tronco.
Num processo de retribuição advindo do vilarejo do clã Oni que ardeu em chamas àqueles que o destruíram.
Afinal, ela estava ciente de que a índole dos Cultistas da Bruxa e afins não era nada senão asquerosa, de que eram um amontoado de tolos e de fracotes.
Portanto, ela o estava interrogando para matar seu coração ainda antes de sua vida.
Ram: “Então? Está arrependido?”
Rai: “――kh,『Eclipse Solar』~!”
Ao ouvir o questionamento pela terceira vez, uma sutil trepidação misturou-se em meio à cor do sangue.
Ele, entretanto, desapareceu diante de Ram em um piscar de olhos, literalmente.
O sumiço não foi no mesmo nível de ele ter se movido à alta velocidade nem nada do tipo.
A textura do corpo e da face do oponente sendo amassados pela sola do pé dela sumiram. No entanto, Ram imediatamente adivinhou o lugar ao qual Batenkaitos havia sumido.
Ram: “――『Clarividência』.”
Contanto que Ram estivesse com o campo de visão do adversário apossado, ninguém conseguiria escapar dela.
“…”
Seguindo o campo de visão que lhe era visível, ela identificou em que ponto da escadaria em espiral estava o oponente. Quando se revestiu de vento e lá chegou, encontrou a figura de um idoso careca enrolado no que parecia ser um hábito.
Essa transfiguração talvez fosse capaz de confundir qualquer um, tirando Ram.
No entanto, devido à visão compartilhada, ela estava confiante de que, independentemente de qual fosse o aspecto do oponente, esse era Batenkaitos.
Ram: “Ouvi dizer que mudar de forma é a estratégia da『Luxúria』, mas que tipo de outros artifícios você possui?”
Rai: “Ah, Ahhhh, merda~! Nós não tínhamos a intenção de usá-lo… não, nós não devíamos ter tido, ainda assim… kh!”
Ram: “——? O que está dizendo?”
Quando chegou na escadaria em espiral, lá havia um idoso prostrado — Batenkaitos — gemendo de aflição.
Ram franziu as sobrancelhas diante dessa atitude dele, que não dava indícios de fingimento, contudo, abandonou instantaneamente o esclarecimento de suas dúvidas.
O importante era que o adversário ainda estava respirando e o coração dele não havia sido fraturado.
Além do mais:
Ram: “——Ram não pode demorar.”
Murmurou somente para si, mesmo já tendo passado mais de um minuto desde que ela retirou seu enorme grilhão ―― nesta situação, por mais que também houvesse um fardo sutil sobre Ram, a maioria estava indo para Subaru.
Ela havia mandado Subaru fazer leves ajustes, porém, como tinha imaginado, ele estava arbitrariamente assumindo por completo o fardo de Ram. Ele se fazia de maneiro aonde quer que fosse.
Ele deveria fazer uma coisa desse tipo apenas por Rem ou por aqueles que amava.
Ram: “――. Ram ainda não compreende a situação, mas você estaria disposto a ouvir as exigências da outra parte agora? Ram pede que você devolva tudo que comeu como o『Gula』até o momento. Se fizer isso…”
Rai: “…Se fizer isso, fica como? ‘Cê vai fazer vista grossa pra gente ou o quê?”
Ram: “Não. Se fizer isso, Ram irá matá-lo de imediato. É um ótimo negócio, não concorda? Ram lhe fará o favor de redimir de uma única vez o que merece uma infinidade de mortes.”
Rai: “Pff, há.”
Batenkaitos, que estava até usando um pronome idoso, deixou escapar uma risada igualmente idosa.
Enquanto observava a conduta dele, Ram supôs sobre a transformação: que essa talvez fosse uma etapa necessária para utilizar em totalidade as habilidades dessa pessoa.
Ele ter desaparecido completamente diante de Ram pouco tempo atrás foi uma técnica que devia ser chamada de salto espacial de curto alcance.
Quem o utilizava era provavelmente o idoso careca que Batenkaitos havia assumido a forma.
Ram: “Mas é esquisito, não? Se você tinha uma carta dessas na manga, seria estranho não tê-la usado mais cedo. Ainda assim, por que será que você a manteve em segredo?”
Rai: “…”
Ram: “Tem algum motivo para não querer usá-la? O recipiente arrastá-lo consigo ou algo similar?”
Rai: “Pombas… a gente realmente nunca topou com uma moça pavorosa desse jeito, uai… Nunca, é~. Na moral, Nee-sama, você dá medo.”
Após essa suposição, surgida da possibilidade com a qual fora ornamentada, a figura do idoso vagarosamente tornou-se de baixa estatura.
Esta foi uma confirmação do que Ram havia destacado e também prova de que a mudança de forma não o livrava necessariamente dos ferimentos que sofrera. Batenkaitos estava ensanguentado, sua face também estava em terrível estado.
Ram: “E os ombros?”
Rai: “A gente encaixou batendo contra a parede. Não é uma coisa que dá certo de primeira, sabe~… que dor, ah~, que dor.”
Como se para verificar a sensação, Batenkaitos girou bastante os ombros que ele havia reencaixado. Tendo visto isso, Ram ponderou que não devia ter deslocado os ombros dele, e sim ter decepado os braços na altura do ombro.
Ou será que, se ela tivesse esmagado as extremidades dos membros dele, seriam esmagados os seus artifícios ridículos também?
Rai: “Seja isso, seja aquilo, tudo e tudo e tudiiinho que fazemos e montamos, você antecipa… incrível, Nee-sama. Será que a Nee-sama também ‘tá usando uma autoridade que nem o Onii-san?”
Ram: “Inimaginável. Essa é apenas a excelente perspicácia da Ram. Por obséquio, não a coloque na mesma categoria que o instinto incompreensível do Barusu. É desagradável. Ram pede que morra.”
Rai: “Ah, há, há, há~, que mordaz~. Mas é que, mas é que… será mesmo, será mesmo, então é mesmo, é?”
De sua boca com presas quebradas, Batenkaitos suspendeu languidamente a língua, partida, e estampou um sorriso ensanguentado. Ram arregalou os olhos após esse gesto sinistro e preencheu de vigor os próprios ombros.
Caso ele fizesse algum movimento estranho —— não:
Ram: “Antes que faça algo, Ram pede que você tome essa.”
Antes que ele pudesse fazer algum movimento estranho, Ram optou por arrancar fora os membros do adversário com lâminas de vento.
Havia como impedir o sangue. Não havia como impedir a dor, porém o interrogatório teria continuidade enquanto ele não morresse. Após tirar essa conclusão, ela desferiu lâminas de vento sem se conter.
Entretanto:
Rai: “――A aposta em jogo é a nossa vitória!!”
Enquanto se banhava nas lâminas de vento, o homem barbado, redondo e rechonchudo saltou para trás. As lâminas de vento — que, por mais grossa que fosse a pele, deveriam ter sido capazes de bisseccionar não somente os membros, como também o tronco roliço — foram repelidas sem deixar nada a não ser vermelhidão na pele do homem rechonchudo.
Rai: “Ain, Nee-sama, será que não está havendo um leve mal-entendido? ――Já vamos avisando que ficar de olho no adversário não é uma coisa só sua, sabe?”
Ram estava a caminho de tentar impedir esse gigante de escapar quando esta voz a atingiu.
Logo em seguida, Ram teve o pescoço levemente cortado por uma das lâminas deixadas de presente e seu avanço tardou por meio passo. E foi nessa brecha de meio passo que Batenkaitos se espremeu:
Rai: “Do nosso approach, lá vem um tiro nosso!!”
A figura do idoso desapareceu com a mesma velocidade do piscar de um olho, amplificou-se então a presença intimidadora que surgiu na retaguarda dela. Sem dar tempo para que ela sequer virasse a cabeça, um punho potente foi cravado na lateral de Ram, levando o seu corpo esguio pelos ares.
Enquanto Ram era arremessada e soltava um “Kah.”, caso olhasse, veria que ela havia sido surrada por um homem de aura violenta que possuía um físico musculoso —— era uma ligação na qual, mudando instantaneamente entre as formas dos três, suas individualidades eram empregadas com perfeição:
Ram: “Ainda assim, se pensa que uma técnica já vista antes vai funcio――”
Rai: “Não pensamos. Não pensamos não. Não pensamos mesmo. Não pensamos, de fato. É porque não pensamos. É justamente porque não pensamos. Conforme já foi dito, não pensamos!”
A forma de Batenkaitos, berrando, mudou-se para a do idoso novamente e ele cobriu um de seus olhos com a mão.
Atemorizada por esse movimento, Ram esticou suas longas pernas, chutou a parede em um só instante e tentou se posicionar para então voar no adversário.
No entanto, não conseguiu a tempo.
Rai: “A gente sabe. ――Que a Nee-sama da Rem não consegue continuar se mexendo desse jeito sem truques baratos.”
Ram: “…”
O que causou essa resposta não foi o movimento de Ram, e sim o conhecimento de Rem.
Tendo visto a movimentação de Ram, que havia transcendido as barreiras de uma『Sem-Chifre』, Batenkaitos firmou essa suposição e, quando ela retornou à diferença em degraus da escadaria, ele consumou a sua maldade.
Ou seja――:
Rai: “Nee-sama, é que nós não exatamente queremos competir com a Nee-sama em força, sabe~?”
Assim, o sorriso astuto sumiu como se estivesse se dissolvendo em nada.
Teletransporte por intermédio de uma distorção espacial de curto alcance —— se for utilizado em sequência, abandonar o campo de batalha era simples. Por mais que ela não tivesse achado que ele fosse parar e brigar até a morte:
Ram: “Rápido em escolher fugir. Não, em vez disso…”
Se ele sabia da『Clarividência』de Ram, então não deveria estar achando que conseguiria simplesmente fugir.
Ele se afastou estando consciente disso, pois se deu conta da restrição de tempo colocada sobre Ram. E, embora fosse frustrante, Ram estava sendo privada de quantidades consideráveis de tempo.
O fardo colocado sobre Subaru crescia a cada segundo.
Ela tinha que descobrir o quanto antes o paradeiro de Batenkaitos, que havia se escondido no interior da torre.
Assim que teve tais pensamentos, ela percebeu de súbito.
Que aquele Arcebispo do Pecado, a encarnação da maldade, jamais iria se embrenhar na torre somente para fugir.
Ele entendia a fundo qual o método para melhor atormentar a Ram que o estava confrontando.
Que era――:
Ram: “――Rem.”
Por fim, o campo de visão do homem perverso foi apossado novamente e compartilhado com o de Ram.
Nele projetado estava a cauda de um dragão terrestre negro que corria com a『Bela Adormecida』montada sobre ele.
Nota de Tradução:
O Rai sempre usa 僕たち (Boku-tachi) ou 俺たち (Ore-tachi) para se referir a si mesmo (nós/a gente), mas ele usa 儂たち (Washi-tachi), 俺っちたち (Orecchi-tachi) e あたしたち (Atashi-tachi) ao longo do capítulo, provavelmente refletindo a personalidade das três pessoas em que ele se transforma.
Dito isso, o “nós”, “nosso, ou “a gente” que estiver em itálico, em negrito ou riscado representa Washi-tachi, Orecchi-tachi ou Atashi-tachi, respectivamente.
Um adendo: Washi é estereotípico de idosos, Orecchi é bem masculino e Atashi é bem feminino.