Repetidamente, de novo e de novo, um calor escaldante preenchia seu ser.
Seu crânio, seus membros, seu torso, seus órgãos, sua carne e seu sangue. Cada pedaço de seu corpo estava esmagado, amassado, retorcido e quebrado. Sua mente se mantinha ativa pela angústia, era como se todos os seus nervos estivessem sendo beliscados, sua alma ardia em chamas. Os gritos que ele emanava eram acompanhados de uma febre inimaginável, junto de uma sensação de perda.
Dor, dor, dor, dor, dor dor dor dor dor dor dor dor dordordordordordordordor. Ele agonizava com a dor.
Havia apenas a dor, o mundo em sua volta era repleto de dor. Simplesmente pensar nisso já fazia com que mais dor recaísse sobre ele.
Seus pensamentos, sua mera existência era pintada de dor. Ansiedade, confusão, nervosismo, tristeza, raiva, desespero, emoções que se tornavam insignificantes perante aquela dor.
Insignificantes… Sim, elas eram insignificantes.
Pensamentos, ações, ponderações, opiniões, esperanças, memórias — todas eram igualmente insignificantes. Quando se tratava daquelas coisas que eram a encarnação da inutilidade, o que restaria para valorizar delas, quando no fim eram esmagadas, amassadas e perdidas?
Apenas a dor interminável encravada em sua alma tornava-o ciente de sua própria existência. Até que subitamente, aquela dor interminável começou a desaparecer…
Subaru: “AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!”
Ele acordou gritando. Agora, até mesmo o fato de sua garganta ter sido esmagada, afogando-o com seu próprio sangue, não passava de nada além de uma memória.
Subaru: “AAAAAAAAHHHHHHHH!!!”
Enquanto gritava, ele tentou se proteger do esmagamento usando seus braços e pernas. Seus braços deveriam estar quebrados, completamente inutilizáveis; entretanto eles se moviam. Embora se mexessem, ele perdeu o equilíbrio enquanto seu corpo ainda estava sobrecarregado pela sensação de leveza que sentia anteriormente, e então ele caiu em direção ao chão.
Subar: “……………………………….gh”
Ele tentava falar, porém nada que sequer lembrasse uma fala saia de sua boca. Ele rolava pelo chão, a sensação de estar no chão era estranha, ele sentiu como se uma corda estivesse puxando seu corpo. Ele abriu a boca, a qual gritava por oxigênio, e imediatamente sentiu uma dor ardente, o que ocasionou um ataque de tosse. Sendo incapaz de suportar a dor, ele vomitou. Seu estômago estava praticamente vazio. Uma água mal cheirosa com pedaços de vômito era expelida de sua boca seca em direção ao chão.
Subaru: “Blurgh, Blurgh! Gh, ghrrgh! Gbrugggghhhh!”
Tossindo violentamente, ele vomitava um pouco enquanto lágrimas e catarro cobriam seu rosto. Agachando-se e cobrindo o rosto, ele batia sua testa contra o chão violentamente. Repetindo esse movimento, ele finalmente percebeu…
… que a dor agonizante que sentia enquanto seu corpo era esmagado havia desaparecido.
Subaru: “ …ah?”
Ele foi surpreendido por o quão repentinamente sua dor havia sumido, que até agora ele não havia percebido que alguém acariciava gentilmente as costas dele.
????: “Está tudo bem agora?”
Refletida em seus olhos cobertos de lágrimas, era possível ver a pessoa que estava acariciando suas costas. Mesmo com sua visão turva, a imagem da garota era bastante vívida apesar do embaçado; ela possuía lindos cabelos brancos e olhos ametistas — no rosto dela havia uma expressão preocupada enquanto ela acariciava as costas do garoto. Subaru soltou um grito.
????: “Suba… “
Subaru: “AAAAAAAAAHHHHHHHHHH!!”
Ele virou seu corpo e afastou a mão pálida que tocava suas costas. Ao fazer isso, um traço de surpresa emanou pelos olhos da garota, que até então o acariciava. Mas a pessoa que mais havia tido seu espírito esmagado naquele momento era Subaru.
Suas costas… ela estava tocando suas costas.
Agora e antes, alguém havia tocado suas costas, e após isso… agonia…
Subaru: “Ah!”
Ele saltou para trás, em uma tentativa de escapar; ele sentiu os pelos de suas costas arrepiar. Porém, suas pernas desabaram, e ele caiu com as costas no chão. E enquanto caía, sua queda foi amortecida por uma presença escura abaixo de si.
Subaru: “………………..”
Ao olhar para baixo, ele se deparou com os olhos da criatura reptiliana que o olhavam de volta, enquanto ele reagia assustado. Olhando as longas e afiadas presas que se alinhavam na boca dela, ele logo percebeu que elas eram armas que poderiam ser usadas para dilacerá-lo.
Subaru: “AAAAAAAAHHHHHHHHH”
Mais uma vez, ele gritou. Ele tentou escapar indo para frente dessa vez. À frente de seus olhos, ele avistou a perna de alguém; ele não ousou olhar para cima e, ao invés disso, empurrou a pequena silhueta que bloqueava o caminho.
????: “Beatrice!”
Com um grito agudo, a voz da garota que soava como sinos prateados exclamava algo, porém o significado daquela fala não o alcançou já que ele cobria as orelhas. Imediatamente ele seguiu em direção ao vão localizado entre as folhagens daquele quarto. Com suas pernas tremendo ele correu para fora da sala, seguindo sem parar pelo corredor de pedras, seu corpo bateu em uma parede rochosa. Tendo seu caminho interrompido e a dor que fluía em seu corpo, sua visão era pintada de vermelho, em sua mente ele imaginava o eco de seus ossos se quebrando.
Subaru: “Aaaah… “
Seu braço direito esmagado ainda se movia normalmente, ele golpeou a parede para se certificar se esse realmente era o caso. Ele sentiu a dor novamente, e mais uma vez gritou, se apoiando na parede ele seguiu correndo cambaleante.
Subaru: “huff.. huff. huff… “
Ele estava sem fôlego, sua boca estava seca e suor escorria por sua testa, ele seguia correndo pelo corredor o mais rápido que podia. Atrás dele, sentia como se alguém o estivesse seguindo, e muitas vezes resistiu à vontade de olhar para trás. Se olhasse e percebesse que alguém de fato o seguia, isso seria demais para controlar sua palpitação e ele sentia que seu coração poderia explodir.
Sentia como se seu coração estivesse prestes a se partir, como se o sangue em seu corpo estivesse apodrecendo, era como se seu corpo fosse se despedaçar a seus pés como uma escultura de vidro. Se aquilo era uma premonição ou a verdade, apenas uma coisa era clara: o absoluto e indiscutível fato de que se continuasse ali, ele iria morrer.
Pessoas nascem para se arruinarem. A cada segundo se envelhece, a cada segundo se caminha em direção à eventual morte, a cada segundo se segue em direção ao fim. Embora ele não estivesse aplicando esse significado metafórico de Morte, naquele momento, a Morte se aproximava dele cada vez mais com uma marcha incansável, ela cercava o patético e vergonhoso “eu” dele enquanto ele se debatia para escapar, era como se fosse um esporte para ela.
Ele correu e correu, independente do quanto corresse a Morte continuava a segui-lo. Ele seria morto. Ele com certeza seria morto a esse ponto. Embora já tivesse sido morto antes, ele seria novamente. Ou considerando a pura agonia que sentia, seria possível para ele não morrer por conta dela? Aquilo seria o mistério da vida? Tudo isso era bastante doentio.
Embelezá-la como um “mistério” foi bastante inapropriado, estava mais para um apego repulsivo.
Do contrário, ele não deveria estar morto…?
“……”
As batidas do seu coração soaram como explosões que estremeciam seus ouvidos; sua visão piscava. Mesmo sua respiração se assemelhava a de um bebê respirando pela primeira vez ao nascer. Era completamente absurda a forma como ele aparentava enquanto escapava do seu medo da morte. Ainda, por mais cômico que aquilo fosse, não havia risadas. Tudo ali era algo que o causava medo.
*Tudo à sua volta*: “…….. “
Quase como se estivesse se perdendo da direção em que corria, todas as pedras naquele corredor pareciam iguais para ele. Se ele entendia alguma coisa, era que não deveria retornar de onde veio. Embora, se ele continuasse a tentar escapar na direção em que estava indo, ele gradualmente se perderia. Caso se perdesse, alguém iria pegá-lo. Se alguém o pegasse, ele perderia sua vida. Por quê? Por que sua vida? Esse questionamento era agora irrelevante.
Não havia tempo para ele decidir se iria virar em direção à direita ou esquerda. Enquanto escapava da Morte, que poderia pegá-lo a qualquer momento, ele colocou sua mão direita na parede, apoiando-se nela, enquanto freneticamente pedia por ar, completamente sem fôlego.
Sentia como se estivesse se afogando, como se estivesse se debatendo para alcançar a superfície da água, embora não houvesse água em nenhum lugar ali.
Afogava-se, debatia-se, vindo em direção a superfície da água, batendo seus pés enquanto seguia se debatendo, até que finalmente…
????: “VOCÊ! Que diabo ‘cê ‘tá fazendo aqui tão cedo de manhã, OY?!”
Subaru: “……………………”
Ele se viu parando de caminhar diante do que parecia uma presença monstruosa bem a sua frente… Não, seus pés não foram as únicas coisas que pararam.
Sua respiração parou, e seus batimentos barulhentos também pararam, assim como seus joelhos que antes tremiam de medo e cansaço. Era como se qualquer sinal de vida vindo dele houvesse parado.
Diante dele havia o que aparentava ser uma figura gigantesca, quase como se fosse uma ilusão. No entanto, após alguns segundos, ele lentamente entendeu que embora fosse bem mais alto, não havia chance de que a pessoa que estava a sua frente tivesse uma constituição que transcendia o que seres humanos poderiam ter. Ao mesmo tempo, permanecia o fato de que havia um ser humano, que emanava uma aura tão feroz e demoníaca.
????: “Uma pessoa sozinha? Cê é só um ninguém que nem vale a pena falar. Então ao invés de uma pessoa, talvez eu te chame de bicho? E mesmo como um bicho ‘cê não vale nem a pena. Vai encher o saco daquelas pessoas que ‘tavam com ‘cê ontem, e aquela garota sexy. Tá me ouvindo, ei?! Tu! OI, OI!”
A figura que estava parada na frente dele reclamava. Ele demonstrou traços de ser alguém extremamente violento, e sua maneira de falar era realmente vulgar, como se cada palavra o acertasse com força.
Sua respiração que havia parado anteriormente, assim como seus batimentos silenciosos e seus joelhos trêmulos, subitamente voltaram a se mover. Ele havia adentrado na cela da besta feroz, um local onde ele jamais deveria pisar.
Ele apenas havia corrido e corrido por sua vida.
Ele correu pelos corredores de pedra, tentando manter distância de qualquer lugar que ele considerasse familiar. Ele seguiu por uma escadaria que ele havia encontrado dentro de um quarto estranho, a qual o levou para o andar de cima. Talvez ele tivesse sido avisado sobre a escada no dia anterior, ou talvez tivesse sido avisado há algumas horas? Essa lembrança havia sido perdida nas profundezas de suas memórias.
Ele andou pela escadaria exuberantemente longa, quase sem fôlego; ele seguia subindo e subindo. E então ao chegar no fim, ele se encontrava sendo encarado pela mais terrível das feras.
????: “Tá me escutando pelo menos??”
Subaru: “…………”
Subitamente ele perdeu o fôlego novamente, diante de seus olhos ele notou que estava olhando diretamente para o rosto da pessoa a sua frente. Ele tinha cabelos longos e vermelhos, um tapa-olho cobria seu olho esquerdo. Usava um Kimono que deixava um de seus ombros e parte do seu peito expostos, enquanto roupas de linho cobriam parte de seu peito à mostra. O homem bateu abaixo de seu nariz com um bastão de madeira, mesmo que a ponta do objeto não fosse muito afiada, ele ainda assim percebeu que o que estava diante dele, significava Morte também.
Subaru: “……………”
????: “Hey, não me ignore, porra!”
Subaru: “O-o qu-, ah, eh?”
Sem hesitar, ele obedeceu seus instintos e tentou escapar dele. Ao fazer o movimento para tentar escapar da sala, ele esbarrou de cara com o peito do homem, que então empurrou Subaru usando seu bastão de madeira, fazendo-o cair. Sua nuca bateu no chão, flashes brilhantes cobriram sua visão. Lágrimas de dor fluíram de seus olhos. A dor de ser empurrado ao chão, a dor de bater a cabeça contra o chão, aquilo o lembrava da dor de ter sido esmagado.
Subaru: “aaaaahhhhh…. ahhhhhh…..”
????: “OYOY! Qual é, cê ‘tá chorando por quê? Brigou com o namorado lá em baixo? Tá chorando porque eu te repreendi?”
Subaru: “Guuh… uuuhhhhh!”
????: “Minha nossa, que idiota sem esperanças, OY!”
Enquanto estava caído com as costas ao chão, lágrimas começavam a escorrer de seus olhos enquanto ele percebia o horror que havia testemunhado. Observando esse espetáculo, o homem de cabelos longos coçava sua cabeça com força enquanto se abaixava na mesma altura da cabeça de Subaru, e então….
????: “Vamos lá, me diga o que houve, se quer perguntar alguma coisa, sou todo ouvidos.”
Subaru: “….. uh, ah?”
????: “Você correu isso tudo até chegar aqui, então deve ser grande coisa, sua peste.”
O homem dizia aquelas palavras com um suspiro. O significado delas era incompreensível para ele, e ele simplesmente respondeu piscando rapidamente. Naquele momento, ele sentiu como se aquele ser que era incomparavelmente violento, lentamente tomava uma postura mais compreensível. Não apenas agora ele havia assumido a forma de uma pessoa, mas as emoções de uma pessoa começavam a se unir em uma imagem concisa.
Com seus olhos cobertos de lágrimas, o rosto do homem que observava em sua direção, ficava gradualmente mais nítido…
????: “Não importa o que diga, cê é um tolo!”
Subaru: “Ahhhhhhhhhhh!”
–– Com uma aparência cruel, lembrando a de um tubarão sanguinário, o homem havia empurrado o pedaço de madeira bem no peito dele. Ele havia deslizado por dentro de suas costelas a ponta do bastão. Ele perfurou e mexeu os delicados órgãos internos por trás dos seus ossos, como se estivesse brincando. Agonia pura e simples percorreu seu corpo, fazendo com que desejasse vomitar sangue.
???: “Que que você pensa que tá fazendo correndo, seu merda!? Ainda pior, o que você tava tentando fazer, antes de arriscar se mandar, você veio pra mim, seu merda. Não sou teu guardião, nem teu chapa, seu merda. Não é ‘cê que tá escolhendo com quem vai andar, seu merda. Cê quer morrer, porra?”
Subaru: “Gh… Gah… Aaagh… Gghhhgya.”
???: “Eu não acho que a gente tem esse tipo de relação, que vai se dá bem ficando de conversinha, seu merda. Se as coisas ficassem jóinhas com isso, então não seria como se eu tivesse sido chamado pra cá da estaca zero. Chega aqui como se você tivesse afim de me matar. Vou brincar com tu. Finalmente.”
Com irritação e hostilidades evidentes, o grau de raiva aumentava com cada palavra que ele dizia. As mãos do homem que brincava com seus órgãos tinham uma certa delicadeza, e esbanjava uma precisão excepcional. Havia lhe sidoensinado a importância e o valor de seus órgãos, através de dores agudas e insuportáveis, então ele compreendia bem.
Se o homem tivesse sido alguém que estava no seu limite e tinha a tendência de deixar suas emoções tomarem controle, ou se seus braços tivessem sido outra coisa senão precisos e gentis, suas vísceras teriam explodido há muito.
Para que isso não acabasse ocorrendo, havio o talento desprezível do homem.
Sua imaginação incrível de alguém que oprimia os outros, extremamente abençoado com violência, assim como com o talento necessário para infligi-la.
Foi apenas graças a isso que este ato de barbárie foi possível de ser executado tão bem.
––Não. Este local era tão diferente se comparado ao que ele conhecia.
???: “Pica a mula, fracote.”
Subaru: “GH–“
A sensação perfurante em suas vísceras sumiu, e foi rapidamente acompanhada pelo pé do homem violentamente o chutando. Ao invés de tê-lo chutado com a lateral do pé, ele chutou como se chutasse uma bola de futebol. Seu corpo gira ao redor de si no ar, saindo da larga sala em que ele estava. Porém, o que o esperava enquanto ele voava para fora da sala era…
Subaru: “SEM CHAAAAaaaance……”
Ele rolou pelas escadas. Assistindo a essa cena em sua mente, instintivamente, ele cravou suas unhas no chão. Com um barulho guinchante horrível, as unhas de sua mão direita, as quais pertenciam a seu dedo anelar e médio, foram arrancadas da base. Os nervos ficaram expostos e sangue vermelho molhou o chão, mas de alguma forma ele conseguiu impedir-se de despencar.
Subaru: “GH, GHHHHH…..!”
Imediatamente após o breve momento de alívio, como se de alguma maneira ele houvesse evitado a queda, ele foi atacado por uma sensação de calor ardente na base de suas unhas. Quando ele olhou para a mão com a dor aguda, ele viu que suas unhas arrancadas, como a tampa de uma caixa; a unha do seu dedo mindinho também se soltava. Vendo isso, a dor levou seu cérebro a entrar em sobrecarga.
Subaru: “Tá doendo… tá doendo, tá doendo, tá doendo…”
Segurando sua mão esquerda com a mão direita, cujas unhas haviam sido arrancadas, ele aplicou pressão para aliviar a dor, mesmo que apenas um pouco. Caindo em gotas, o sangue que se esvaía de seus ferimentos descia pelos pulsos, deixando uma trilha de sangue nas escadas enquanto ele se colocava de pé.
Não havia mais coragem nele para olhar para trás. Não havia sinal de que aquela besta feroz estivesse virando sua atenção para ele. Se, digamos, ele houvesse percebido, ele teria caído das escadas desta vez com certeza absoluta, incapaz de lidar com isso.
Ele havia impedido a si mesmo de experimentar a pior situação, mas agora se encontrava na segunda pior. Então, o que ele iria fazer agora?
Subaru: “Por… quê?”
Por que ele estava em um local como este?
Ele não sabia como fugir, seus batimentos cardíacos encobertos por temor e paralisados, e, finalmente, sua mente havia se virado para o motivo sem-sentido e incrível do porquê dele estar ali.
Apesar de que ele deveria estar todo surrado, ele estava aqui. Apesar de que ele deveria estar encoberto por calor ardente e ter sumido, ele ainda estava aqui.
Teria sido legal se tudo houvesse sido um sonho ou uma ilusão, algo do tipo.
Subaru: “Sonhos… precognitivos…”
Ele havia assumido que era isso o que ele vinha experienciando. O espetáculo que ele tinha visto, as pessoas com quem havia falado, as conversas que haviam procedido justo como ele se lembrava, os eventos que deviam ter ocorrido… porque ele havia visto tudo com seus próprios olhos.
Portanto, ele pensou que iria tentar criar alinhar uma teoria do porquê teria acontecido à sua própria maneira.
Com certeza, em alguns aspectos, ele até pensou com uma certa imprecisão, como se não fosse da sua conta, como se fosse nada lhe importasse.
Ele não sabia que a maneira com a qual ele seria recompensado por tamanha imprudência e pensamento simplista seria sentir uma dor tão intensa.
Subaru: “………………”
Percebendo que tinha se agachado, ele pôde ver gotas de sangue escorrendo e molhando a escadaria de pedra abaixo, com uma coloração vermelha.
Uma sensação de esforço desperdiçado, uma sensação de perda, uma sensação de confusão… de maneira geral, muitos pensamentos negativos rodavam em sua cabeça. Mesmo se ele investigasse as conclusões que rodopiavam em sua mente, ele iria descobrir que todas resultavam no mesmo pensamento –– ele não sabia o porquê de ter passado por tais coisas.
Subaru: “………………”
Justo algumas horas atrás, ele estava vivendo sua entendiante vida. Não havia perigo lá, no máximo, ele ficava se preocupando sobre o futuro. Não tinha ninguém o ameaçando, nada para se levar realmente à sério.
–– Ele tinha estado em um lugar onde apenas precisava enfrentar o olhar de sua mãe e seu pai.
Isso era tão errado assim? Ele pensou.
Ele continuava a ser uma inconveniência para sua mãe e seu pai. Ele continuava a desapontá-los. Ele não tinha sido um bom filho. E por isso, ele provou o gosto de uma morte dolorosa. De qualquer forma ele havia sido levado a uma situação agora na qual ele não tinha morrido. As unhas que foram arrancadas doíam, ele tinha sido torturado por um homem estranho, ele tinha sido deixado sozinho na escadaria… ele estava chorando?
Em retrospecto, se ele tivesse pensando bem… Ele teria feito de uma maneira melhor.
Subaru: … “Pelo menos eu devia ter dito, ‘Vejo você depois’.”
Tinha sido uma vida cheia de arrependimentos. Tudo tinha dado errado, resultando apenas em falhas. Se ele voltasse a pensar nisso, as coisas que ele queria refazer pareciam impossíveis de serem feitas com seus próprios pés e mãos. Pela primeira vez ele havia se tocado de que…
—Quando eu saí de casa, eu escutei a voz da mamãe dizer, “Tome cuidado”, e eu não respondi. Por quê?
—Porque eu não lavei os copos na pia da cozinha.
Subaru: “Gh, ff…”
Eu não lavei os copos. Eu não me importei de lavar as manchas marrons que estavam coladas neles, depois de tomar aquele chocolate quente. Se eu tivesse respondido a voz dela, eu teria começado uma conversa com ela, talvez ela me mandasse lavar os copos.
Eu ignorei as palavras da minha mãe porque eu não quis lavar os copos. Eu não falei nada. Eu saí de casa sem falar nada e fui até a loja de conveniência gastar o dinheiro que não ganhei. E e então eu percebi que estava aqui.
Eu não falei nada para a mamãe ou o papai, eu não lavei os copos, e eu acabei aqui.
Sem lavar os copos, sem nem falar uma palavra para minha mãe de coração generoso, eu devo morrer aqui neste lugar. Eu vou morrer, tendo sempre causado problemas, sem dar nada em troca, sem nem lavar uns copos.
Morrer, eu vou morrer. Eu vou morrer. Com toda a certeza eu vou morrer. Se eu cair daquela altura, não vai ter nada que me salve. Eu definitivamente vou morrer.
Subaru: “…Eu vou morrer.”
Eu vou morrer. Tudo que vive algum dia morre, e eu vou morrer aqui. Sozinho nesse lugar. Sem minha mãe ou pai, rodeado por completos estranhos, eu vou acabar como uma massa suja, sangrenta e morrer.
Subaru: “Eu vou morrer. Eu vou morrer. Eu vou… morrer. Morrer, morrer, morrer…”
Ele murmurou isso. Enquanto ele murmurava, apesar de estranho, parecia cada vez mais distante e distante. Era apenas uma paz de espírito temporária. Ele estava distraído. Quando colocado em palavras, não é como se algo fosse mudar drasticamente.
Morte não mudaria, vagando enquanto sorria como se para deixar o destino alcança-lo.
Agora mesmo, parecia tomar a forma de uma pessoa. Uma sombra escura surgiu, gargalhando para ele como se debochasse.
Aquela face, colada àquela sombra escura que parecia familiar. De quem era o rosto que ele reconhecia nesse lugar? Pensando nisso, ele notou…
Morte, com a sua face nela, ria enquanto apontava para o corpo dele tremendo.
Subaru: “Para de rir”
Ele encarava a sombra, e disse isso com uma raiva sombria. A sombra continuava a sorrir. Ela não havia parado de apontar seu dedo para ele.
Subaru: “Para de rir. Para de rir de mim! Isso não é engraçado…!”
De pé e rangendo seus dentes ele se aproximou da sombra que se mantinha contra a parede. A sombra ainda continuava a sorrir. Ela ainda não havia parado de apontar seu dedo para ele.
Subaru: “Não ri. Eu vou morrer. Mas não pra você. Você não vai me matar.”
A expressão facial do corpo da Morte mudou pela primeira vez. Parecia que tinha se irritado que sua própria coisa não fez o efeito esperado. Parecia que esse era o ponto fraco da sombra, era aqui que ele lançaria um ataque incessante contra ela.
Subaru: “Eu não vou morrer pra você. Eu vou morrer. É certo que eu vou morrer! Eu vou morrer! Eu estou morto! Eu já estou morto! Eu morri e voltei pra cá, mas eu–”
––não vou morrer pra você.
Naquele momento ele havia tentado falar aquelas palavras claramente.
Subaru: “……………………”
Seus lábios haviam parado de se mover de acordo com sua vontade. A próxima coisa que ele percebeu era que seus olhos, que estavam encarando a sombra, pareciam paralisados e a sensação de estar completamente separado de seu corpo. Por quê, até a sua capacidade de questionar havia sido selada, ele simplesmente sucumbiu a esta transformação repentina em seu corpo.
Ele não pôde se mover. Seu corpo… Não, não era só seu corpo que havia parado de se mover. Foi o mundo a seu redor. A sombra negra que estava de pé na sua frente também havia parado de se mover, sua expressão distorcida de raiva permanecia estática em sua face.
Neste mundo em que ele não podia se mover, havia uma única coisa que se movia. E era…
???: “––Eu te amo.”
––Talvez parecesse com uma mulher de preto.
Escuridão, era uma mulher com membros finos, cujo corpo inteiro estava tingido de preto. Ele não sabia se a forma dessa mulher era feita de escuridão pura e simples, ou se era uma mulher vestida de preto. Ele não estava certo de qual dos dois casos era –– não parecia fazer sentido escolher um dos casos. De qualquer modo, era uma mulher de preto. Era como se vestisse um vestido negro, com um véu da mesma cor, que tornava impossível ver tanto dentro quanto fora dele. Esse véu negro escondia sua face completamente.
???: “––Eu te amo.”
Porém, as palavras que surgiam dos lábios da mulher que estava encoberta por trevas continha uma emoção inimaginavelmente forte. Quantas emoções ele podia encontrar lá dentro, para se aproximar das palavras que escapavam de seus lábios.
Naquelas palavras existia qualidade, existia quantidade, existia a sensação de tempo corrido, existia peso, existia valor, e esse era apenas a ideia geral. Ele não sabia quantas pessoas aproximadamente pronunciaram “Eu 0te amo” no mundo – mas se ele fosse pegar todos esses “Eu te amos” e agrupar todos, certamente seria algo similar ao “Eu te amo” desta mulher.
E lentamente, a mulher que havia começado a sussurrar gentilmente suas palavras de amor, moveu seu braço negro em direção ao peito dele. Dedos finos passaram por seu peito, sua pele, sua carne, atravessando seus ossos e afagaram seu coração que batia.
Subaru: “…………………”
Diversos minutos, dúzias de minutos, ele não sabia quanto tempo havia passado. Seu coração estava ciente da presença dela desde que despertou…mas, naquele momento ele nem havia pensado que achava a presença dela irritante. Porque…
???: “––Eu te amo.”
Ela havia acariciado seu coração com a mesma paixão que se encontrava em seus sussurros. Mas repentinamente, um grande choque passou por ele, seu corpo, temendo a dor, estava completamente entregue. Seu corpo esmagado pela queda, sua alma queimando até deixar de existir, até a dor de seu coração culpado quando ele havia pensado na sua mãe –– todas essas dores pareciam insignificante se comparadas a essa dor.
Ele queria que ela o deixasse gritar. Se pudesse gritar até perder a voz, ele poderia aliviar um pouco a dor. Ao invés de enfrentar apenas a dor, ele era capaz de fugir um pouco disso ao pensar em coisas além da dor que sentia. Agora ele não podia fazer isso. Ele podia apenas enfrentar sua dor.
???: “––Eu te amo.”
O amor dela não irá largar seu coração. É como se ela possuísse um desejo sem-fim de não permitir que ele tire a atenção dela por qualquer motivo que seja.
–– É como se ela estivesse com ciúmes de tudo ao redor dele.
Subaru: “…Aah”
Ele havia sido libertado de repente.
Subaru: “……………”
Ofegante, ele caiu no chão. Com lágrimas escorrendo dos olhos, ele não conseguia se conter. Ele sentiu algo quente e úmido perto de sua virilha, e urina começa a escorrer pela escadaria. A sombra negra que havia parado, continuava a apontar para aquela cena vergonhosa, e estava a gargalhar alto.
Enquanto assistia à figura que estava rindo, ele percebeu que foi enganado. Já que ele demonstrou um comportamento que havia indicado fraqueza, ele havia sido levado a pisar no rabo do tigre que não deveria ser pisado.
Subaru: “Eu…”
Ele não conseguiu terminar de falar. Ele segurava a cabeça, beirando a insanidade. Sangue ainda fluía de suas feridas das quais suas unhas haviam sido arrancadas. Até suas lágrimas e a urina que gotejam pareciam uma punição por sua fraqueza e estupidez.
––Só me mata.
Ele disse dentro de sua cabeça. Quanto a ser morto, seria ele mesmo “morto”?
Ele escutou os passos subindo as escadas, e o som das vozes ansiosas correndo até onde ele estava. Até lá, ele continuou a chorar como uma criança estúpida, manchado por sua própria sujeira e frustração.
As ruínas de Subaru Natsuki continuaram a chorar.