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Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu – Arco 5 – Capítulo 40

Corrosão da Ira

Vinte e cinco abrigos por distrito, o que totaliza cem abrigos no total em Pristella.

Seguindo a sugestão de Al, eles começaram a busca na Primeira Rua, onde era mais provável que eles encontrassem aqueles que precisavam de ajuda. Eles estavam seguindo por um caminho prudente, além de estarem se movendo cautelosamente com o intuito de evitar lutar ao máximo possível.

Al: Ainda assim, acho que a gente tá exagerando. Afinal, tendo um cara como esse do nosso lado, você não imaginaria que precisaríamos agir de uma forma tão tímida, irmão.

Subaru: Não estamos exagerando. Nossas forças são limitadas, e nosso inimigo mal sofreu danos. Não podemos baixar a guarda nem por um momento. Sem falar que, a nossa única preocupação não é o inimigo, também devemos evitar criar uma comoção aqui.

Na Prefeitura, Anastasia tinha levantado a possibilidade de que caso uma comoção fosse causada, isso certamente resultaria em um tumulto. Embora ele não acreditasse que de fato fosse acontecer, era uma possibilidade.

Visitando os vários abrigos enquanto avaliava a situação e tentava recrutar poder de combate, Subaru acreditava que sua missão diminuiria sua crescente sensação de mal-estar.

Al: Sim, isso soa bem. Eu não vou reclamar sobre seguirmos pelo caminho mais seguro. Afinal, se nos metermos em uma briga, tudo que eu posso fazer é confiar nessa criança.

Subaru: Você… embora você negue ser capaz, você realmente não consegue lutar? Você conseguiu chegar em segurança até o prédio da Prefeitura.

Al: Se eu tiver que escolher entre “combatente” e “não-combatente”, eu teria que escolher a primeira opção. Entretanto, minhas habilidades são apenas as de uma pessoa normal. Se eu enfrentasse alguém com capacidade sobre-humanas, o resultado seria meu cadáver largado em um canto em menos de dois segundos. Não, de jeito nenhum, seria inútil e imprudente considerar lutar.

Al acenou com o braço direito, impotente diante da situação. Embora um pouco insatisfeito com sua atitude, a opinião de Subaru estava de acordo com a de Al. Havia um certo nível de habilidade que ele nunca seria capaz de alcançar. Quando se tratava de sobreviver naquele mundo, talvez a dificuldade fosse definida no momento do nascimento. Não importa o quanto Subaru treinasse, ele nunca conseguiria se equiparar a Julius ou Garfiel. Isso sem falar de Reinhard, no caso dele ninguém jamais seria capaz de chegar ao seu nível.

Subaru: Mas isso não deve ser motivo o suficiente para não lutarmos.

Al: Não deve? Pessoalmente, eu acho que ter as chances de vitória como sendo nula é mais que o suficiente para me convencer de nem tentar. Ahhh, deixar arrependimentos para trás é um assunto completamente diferente, bem, de qualquer forma, eu não sou esse tipo de pessoa.

 Subaru: ——

Al: Qual é? Não fique tão irritado, irmão. Eu acho essa sua atitude positiva ótima, é só que não combina comigo. É só isso, entende?

Tendo cada uma das partes já estabelecido sua postura, aquela discussão tomaria um rumo paralelo, seria inútil continua-la. Subaru manteve-se quieto, enquanto Al pedia desculpas, como se sentisse culpado. No instante seguinte, algo o fez erguer a cabeça, ele então olhou para Garfiel, que calmamente estava patrulhando estrada a frente. Garfiel então franziu a testa, enquanto agachava-se, colocando os braços e pernas no chão.

Garfiel: Parece que as próximas três ruas tão de boa. Tá um silêncio do caralho, como se num tivesse uma criatura viva no lugar. Assim, em teoria tá seguro, mas tá suspeito pra caralho.

Aquela era a impressão que o nariz torto de Garfiel apontava. Evitar qualquer tipo de confronto era o objetivo, entretanto não terem se metido em nenhum incidente também era desconfortável. Seja como for, eles não tinham tempo para hesitar.

Subaru: Nos preocupar por nada não nos fara bem nenhum. Nosso objetivo está bem a nossa frente. Vamos o mais rápido possível. Tudo vai ficar bem, certo?

Garfiel: Meu incrível nariz diz “não”, pelo menos. Caralho, nois não tem outra escolha.

Coçando seus cabelos loiros, Garfiel deu um pisão no chão, ansioso. Subaru acenou com a cabeça, enquanto Al apenas encolheu os ombros, claramente não demonstrando qualquer objeção.

Embora a jornada desde a Prefeitura já tivesse durado cerca de quinze minutos, graças ao cuidado e atenção que eles tiveram, tudo estava indo bem até agora. No pior cenário que eles haviam imaginado, o Culto da Bruxa teria posicionado tropas por toda a cidade, não seria exagero se deparar com eles a cada estrada.

Al: É um pouco estranho, mas não parece que o Culto da Bruxa trouxe poucos seguidores para essa invasão?

Enquanto eles corriam, Al soltou aquele comentário. Tentando entender seu ponto de vista, Subaru soltou um “Por que você acha isso?” em resposta.

Al: O motivo é muito simples: eles não tem gente o suficiente para vigiar as ruas. Você não percebeu, irmão? Comparado com os Arcebispos que estão nas torres, isso não parece muito relaxado da parte deles? Eles basicamente estão permitindo que seus inimigos se movam livremente. Se eles realmente quisessem que suas exigências fossem cumpridas, eles não estariam agindo assim.

Subaru: De fato, bloquear tudo pela cidade e fazer as exigências seria o mais natural a se fazer, não é? Mas você não acha que eles possam ter alguma outra coisa em mente?

Al: Ah, eu não sei dizer… mas se eu tivesse que adivinhar…

Embora Al provavelmente quisesse responder de forma casual, diante do olhar severo de Subaru, ele ficou em silêncio por um instante, provavelmente sorrindo de forma sarcástica por debaixo de seu elmo.

AL: Eles parecem não se importar se vamos ou não cumprir suas exigências.

Subaru: O quê?!

Al: Se eles realmente tivessem levando a sério as exigências, era de se pensar que eles fossem mais precisos e fornecessem mais detalhes. Tenho certeza que você concordaria, irmão… que eles realmente não pretendem insistir nessas exigências. Se nós cumprimos, ótimo. Se não cumprimos, tanto faz. Esta é a sensação que eu tenho.

Subaru: Isso significa que… é como se eles só tivessem brincando com a gente…!

Al: Eles tão fazendo alguma coisa além de brincar com a gente? Não é isso que esses malditos sempre fazem?

Em contraste com a forma apática e vazia com que Al falava, Subaru se viu incapaz até mesmo de proferir uma afirmação, ele estava sem palavras.

– O Culto da Bruxa estava apenas brincando com eles.

Considerando a natureza perversa do Culto da Bruxa, tal possibilidade não era uma piada, era realmente algo a ser considerado. Durante o ataque à Prefeitura, embora tivessem com a vantagem e tivessem tomado decisões táticas acertadas, em muitas situações, os movimentos do Culto da Bruxa foram imprevisíveis. Capella e Roy tinham sido pegos em uma emboscada, entretanto Sirius e Regulus estavam ausentes, o que significava que o Culto da Bruxa não contava com sua força total. Além disso, eles não mataram nenhum aliado de Subaru.

Agora, levando em conta que o Culto da Bruxa não fazia o menor esforço para defender a cidade que eles mesmo conquistaram, isso só reforçava que eles realmente não estavam levando aquelas exigências a sério.

Garfiel: Capitão, tu num precisa escutar o que um arrombado desse ai tem a dizer. Cê tu continuar falando merda, enchendo a cabeça do Capitão com essas ideia sem sentido, meu incrível eu vai te descer a porrada e te matar, tendeu?

Enquanto Subaru estava mergulhado em seus pensamentos, Garfiel voltou-se para Al, com um olhar feroz e ameaçador.

Garfiel: Só fica falando aí sem parar dessas merdas aí que nem importam, um arrombado que num tem espirito de luta feito tu só deveria calar a porra da tua boca! Foda-se o que esses filhos da puta tão fazendo, nós só vamos continuar batendo e derrotando esses arrombados! Nós só precisamos manter isso na cabeça e seguir em frente!

Al: Esta é uma forma bem exagerada e brutal de falar, não é? Embora seja verdade que eu não seria muito útil em uma batalha, isso não tem nada a ver com adivinhar o que aqueles malditos estão tramando. Falando nisso, qual o problema em tentar adivinhar as intenções deles?

Garfiel: Seu maldito…

Enquanto rangia os dentes, produzindo um som agudo, Garfiel subitamente parou de andar. Ao mesmo tempo, Al também parou, preenchendo a atmosfera entre eles com tensão e indiferença.

Subaru se colocou entre eles, segurando uma mão contra o peito de cada um.

Subaru: Calma ai! O que diabos tá errado com vocês dois? É realmente hora de brigar desse jeito com os próprios aliados?

Garfiel: Esse maldito ai num é aliado não, Capitão. Um merda desse ai num tem jeito não, seria melhor se nois acabassemos aqui e agora como esse arrombado.

Al: Não gosto muito de lutar, entretanto não bancarei o pacifista contra alguém que claramente quer meu sangue.

Garfiel estralou os pulsos, enquanto Al virou-se, preparando-se para a briga. Subaru, frustrado com a atitude deles, sentiu uma raiva, uma raiva crescente que estava fervendo dentro de si. Aquela raiva estava tomando conta dele, instigando-o a bater, espancar, chutar e socar aqueles dois homens que não estavam cooperando.

Subaru: Tem alguma coisa errada…

Sua cabeça estava confusa, estava superaquecendo e imediatamente pulando direto para o assassinato como resposta. Não importa, o fato é que sua raiva tinha aumentado muito rapidamente. E, afinal, por que todos estavam tão dispostos a se voltarem uns contra os outros? O conflito entre eles também parecia estar afligindo Subaru, o instigando a entrar na briga.

Subaru: Não pode ser, isso é….

Ser incapaz de dirigir o fluxo de seus pensamentos e sentimentos… Quando finalmente se deu conta disso, Subaru arrepiou-se. Afinal, aquela sensação de nojo e repugnância era incrivelmente familiar para ele.

Subaru: Aquela puta da Sirius… estamos sendo afetados… por causa da influência dela…?!

Dando tapas em seu rosto, Subaru tentou despertar sua consciência, enquanto olhava ao redor. Ele não avistou nenhuma figura estranha, e nem escutou nada anormal. No entanto, aquela sensação de nojo e repugnância estava impregnada em seu próprio ser.

Subaru: Ei, Garfiel, Al, Parem! Respirem fundo e se acalmem. Não é estranho que sua discussão esteja se intensificando tão rapidamente? Isso é provavelmente por causa da influência da Autoridade da Ira. Seus sentimentos tão se tornando incontroláveis.

Garfiel: Ah? Que cê quer dizer, Capitão? A extravagância desse maluco ai é o que tá me irri… pera ai…

Subaru:——

Ouvindo a afirmação de Subaru, Garfiel cerrou os dentes, enquanto pressionava a palma da mão contra sua cabeça. Lentamente, ele balançou a cabeça, piscando várias vezes.

Garfiel: Num vale apena mesmo lutar. Esse parada aí foi só um aborrecimento.

Subaru: Essa é a habilidade da Ira. Vamos garantir que não há inimigos ao nosso redor, ok?

Garfiel: O cheiro, o miasma… não tem nada de errado, mas…

Precisamente porque seus sentidos eram tão confiáveis, Garfiel começou a tremer. Em outras palavras, o alcance que o poder de Sirius tinha era muito além do que eles tinham imaginado. Se a teoria que ela estava ocupando a torre estivesse correta, então o alcance do poder dela cobria quase toda a cidade. É claro, havia uma diferença clara de intensidade se comparado ao incidente na praça, mas…

Al: Bem, então essa é a sensação de ter alguém brincando com as suas emoções… definitivamente não é algo que eu quero experimentar de novo, agora que eu passei por essa sensação horrível.

Assim como Garfiel, a torrente de raiva que estava tomando conta dele tinha se dissipado. Ele, então, olhou para Subaru enquanto levantava o queixo.

Al: Mas, irmão, se não nos apressarmos, estaremos com problemas, não é?

Subaru: O que… do que você tá falando?

Al: Você percebeu, irmão, e depois que você falou, nós também percebemos. O problema é que ninguém mais perceberia… se esse sentimento se espalhar pela cidade toda… uma pessoa comum, que não está ciente da situação… seria impossível se manter racional, não acha?

Subaru: —hk!

Enquanto ele considerava o que Al havia pontuado, o pior cenário possível passou rapidamente por sua cabeça. Subaru então trocou um olhar com Garfiel, que naquele instante havia imaginado aquele mesmo cenário. Instantaneamente, eles partiram para ação, correndo de forma imprudente, o destino era o abrigo mais próximo.

Al: Ah, esperem por mim!

Vendo aqueles dois dispararem, Al, o mais lento, se virou apressadamente para persegui-los por trás.

Imerso em sua ansiedade, Subaru esqueceu completamente de agir de forma cautelosa e discreta, ele apenas seguia em frente, de forma descuidada e negligente. Os passos de Garfiel eram ainda mais rápidos, em um piscar de olhos, ele deixou Subaru comendo poeira. Sua sombra tinha desparecido no cruzamento em forma de “T” que dava na próxima rua. De acordo com o mapa, deveria ter um abrigo bem na esquina onde Garfiel desapareceu.

Al: O caminho é seguro?!

Subaru: Garfiel foi sem nem pensar duas vezes. Não deve ter nenhum inimigo lá!

Respondendo aos gritos que vinham de trás, Subaru finalmente chegou na esquina, ainda muito atrás de Garfiel. Sem perder um único pingo de impulso, ele dobrou a esquina e viu uma cabana feita de pedra.

Correndo às pressas em direção à porta, ele adentrou o local confirmando que havia uma escada que se conectava ao solo; correndo freneticamente escada a baixo, quando ele chegou, seu campo de visão se abriu, ele, então, se deu conta do que estava vendo.

Subaru: Não pode ser… isso é brincadeira…

Poças de sangue envoltas em tristeza, uma visão do inferno se mostrava diante dele.

Al: Eles mataram e mataram… só um quinto deles ainda tá respirando, mas mesmo esses ainda vão precisar descansar muito para que possam se recuperar completamente. Esse é realmente o pior dos cenários possíveis.

Em relação aquela cena aterrorizante, Al conteve seus sentimentos e apenas suspirou. Subaru, sentado ao seu lado, se quer tinha energia para responder.

No abrigo que eles desesperadamente tinham adentrado, os refugiados se voltaram uns contra os outros, causando uma catástrofe.

Provavelmente, a discussão teria se iniciado a partir de um assunto trivial.

Forçados a se espremerem em um ambiente apertado e claustrofóbico, temendo as exigências que o Culto da bruxa fez na transmissão. Na hora, certamente pensamentos sombrios invadiram os corações de todos. “Se fizermos o que eles pedem, a situação vai melhorar, não é?” “Não deveríamos fazer alguma coisa?”

Aquelas ideias emergentes despertaram a vontade de agir nas pessoas, agir era algo que necessitava de contato com as outras pessoas. Entretanto, ao que parece o contato realizado não trouxe necessariamente bons resultados.

O conflito explosivo entre Garfiel e Al, no caminho, também era produto do que aquele contato poderia causar.

Dessa vez, não havia nenhum Subaru no abrigo para acalmar a todos. À medida que os sentimentos das pessoas se intensificavam, as abrigas também aumentavam, afetando toda a área ao redor.

As emoções das pessoas estavam se tornando cada vez mais instáveis, a ansiedade se tornava cada vez mais incontrolável, e o resultado foi aquela tragédia.

Garfiel: Nós não podemos deixar que os sobreviventes fiquem inconscientes, eu posso tratar dos feridos. O enterro dos mortos vai ficar pra depois. Capitão, tu já falou com eles?

Subaru: Sim. Os Presa de Ferro devem estar vindo já. Acho que vai dar certo se deixarmos os sobreviventes com eles. O problema é depois disso…

Subaru tinha subestimado o nível do desastre que um aumento não natural no temperamento poderia causar.

Naquele espaço claustrofóbico, era difícil dizer quais emoções estavam tomando conta das pessoas. É claro, ninguém conseguiria manter uma atitude positiva e otimista, entretanto mesmo entre as emoções negativas, as pequenas nuances poderiam resultar em tremendas diferenças 

Se o sentimento inicial fosse apenas tristeza, lamento ou desânimo, sem que ninguém tomasse qualquer inciativa e agisse, então era provável que as pessoas ficassem bem; se o sentimento inicial, contudo, fosse raiva ou qualquer coisa do tipo, o resultado seria aquele que eles estavam vendo.

Subaru: Ter que sair de casa e ser forçado a ficar enjaulado em um abrigo desses… alguns podem ter sentido até ódio.

Se a habilidade da Ira fosse algo como o compartilhamento de emoções, isso significava que quanto mais pessoas estivessem na área de influência, mais efetivo o poder seria.

Em resumo, se as pessoas fossem espelhos, qualquer feixe de luz que se originasse seria refletido infinitamente. Basta substituir a luz por emoções, e… mesmo o mínimo contato com os outros poderia resultar em fim terrível. Era um poder que forçava as pessoas a ficarem sozinhas, mesmo em meio aquela situação de medo e inquietação.

Subaru: Que nojento…

Garfiel: Capitão, como que nois vai dar conta dessa porra? Nós dissemos que íamos visitar todos os abrigos, mas se as coisas continuarem assim….

Tendo terminado de curar, Garfiel estava suando, com uma expressão perturbada. Compreendendo perfeitamente o motivo pelo seu desconforto, Subaru pensou cautelosamente em como iria responder.

No fim das contas, não importava; ele não conseguia organizar seus pensamentos. Visitar todos os abrigos, reunir forças e incentivar que todos não desistam não era uma má ideia. O problema é que dada as circunstâncias era simplesmente inviável viajar por toda a cidade.

Provavelmente, a causa da tragédia foi devido ao grupo de pessoas que ainda queria lutar, seus corações foram a causa do conflito. De certa forma, os abrigos haviam se transformado em um aglomerado de emoções, talvez convencer as pessoas a deixar os abrigos aumentasse suas chances de sobrevivência.

Subaru: Mas se nós fizermos isso e falharmos em reconquistar as torres, todos eles morrem.

Afinal de contas, todos aqueles abrigos ficavam na cidade de Pristella. Eles foram projetados para proteger os cidadãos de uma possível inundação, no caso de Subaru e os outros serem derrotados e as comportas fossem liberadas, as pessoas que deixassem os abrigos por medo de morrer ainda estariam fadadas a morte. Seja dentro ou fora dos abrigos, não haveria lugar seguro. 

Garfiel: Capitão…

Subaru: ——

Enquanto Subaru afundava em meio à indecisão, Garfiel chamou por ele. Aquela expressão e aquela voz pareciam buscar uma resposta, uma salvação vinda de Subaru. Aquele era o rosto de alguém que buscava por uma luz, uma luz que ele poderia contar em meio as trevas, em busca de orientação e segurança.

Como Subaru poderia responder aquela expressão? Procurando por soluções? Vendo uma luz em meio àquela escuridão? Ele estava na mesma situação, tão perdido quanto.

Entretanto, de nada adiantaria em ficar reclamando sobre sua fraqueza. Ter um acesso de fúria também não adiantaria de nada. Se ele tinha tempo pra reclamar, ele também tinha tempo pra fazer algo melhor, como dizer alguma coisa útil. Qualquer coisa já seria o suficiente, desde que fosse útil pra alguém.

Al: Capitão isso, capitão aquilo… Sério, você realmente tem muita fé nele pra continuar insistindo nessa sua obsessão, parece uma magia conveniente que resolve os problemas. Que atitude incrível, sério, vai me fazer chorar.

Ao invés de Garfiel, foi Al que interrompeu o silencio hesitante de Subaru. Encostado na parede, Al direcionou seu olhar daquela cena aterrorizante para Garfiel.

A forma fria e indiferente como ele falou deixou Garfiel chocado por um instante.

Garfiel: Ah? Que porra cê tá falando?! Seu maldito….

Al: Tu realmente não entende sem que eu explique? É exatamente como eu falei. Se recusar a pensar e deixar tudo na mão dos outros é fácil. Por acaso “Capitão” é algum tipo de magia para você? Ser capaz de elaborar soluções para todos os problemas… por acaso ele é algum tipo de super homem pra fazer isso?

Interrompendo Garfiel, Al continuava zombando.

Al: Só pelo pouco que eu vi, posso dizer o quão você depende dele, mas ele é realmente tão digno de confiança? Em termos de força, você o vence, sem dúvidas. Se tratando de inteligência, sempre vai ter alguém por aí melhor que ele. Sorte? Mesmo se você tiver a audácia de falar de sorte em uma situação como essas, ninguém acreditaria em você.

Garfiel: Cala a boca, porra! Quem tu pensa que é pra ficar falando merda do Capitão?! O que diabos tu sabe sabe sobre a força dele?! Esse cara aqui é foda pra caralho!

Al: “Ele é forte” “Ele é incrível”, por acaso você é só uma criança? Cadê a força dele, então? Se ele fosse mesmo o fodão como você tá dizendo, ele já teria feito alguma coisa. Ou por acaso tu tá dizendo que ele já pensou em uma solução e só tá se fazendo de idiota agora?

Mesmo quando Garfiel começou a gritar, Al não vacilou e continuou falando de forma irônica e zombando dele. Ele, então, olhou para o rosto de Subaru, mas não obteve nenhuma resposta. Ao ver esta reação, Al endireitou-se e continuo com um “Está vendo só?”

Al: Ser responsável por tudo, ter todas as soluções na palma da mão, é incrível, não é? É um privilégio que só um protagonista poderia ter. Entretanto, é uma missão que a maioria das pessoas normais não consegue arcar, eles simplesmente não são fortes o bastante. É claro, isso também vale pra mim, e da mesma forma pra ele. Então por que você o faz carregar toda essa responsabilidade? Não espere muito dele. Que lastimável…

Subaru: ——

Subaru não tinha a menor ideia do que Al estava tentando dizer. Poderia ser novamente o efeito da Autoridade da Ira? Se sim, que tipo de sentimento estaria dominando o coração de Al? Raiva? Tristeza? Algum outro?

Ele parecia estar furioso, mas ao mesmo tempo triste e irônico, saber o que ele estava sentindo no momento era impossível.

Al: Ei, irmão, o que tem incomodado você esse tempo todo?

Subaru: … “O que tem me incomodado?” Toda essa…

Como salvar a cidade. Como garantir que no fim ninguém nos abrigos se machuque. Como salvar Emilia. Como curar Crusch. Como trazer Rem de volta. Como expulsar o Culto da Bruxa. Como encontrar o melhor caminho, onde todos fossem salvos.

Al: Como melhor servir a sua venerada princesa — voce não consegue nem ao menos dar essa resposta de imediato?

Subaru: ——

Ouvindo a decepção na voz de Al, Subaru lentamente levantou a cabeça. Imóvel, Al examinava Subaru, com o rosto coberto pelo seu elmo, sua expressão era indecifrável. Mesmo assim, de alguma forma, Subaru sentiu-se incrivelmente ansioso…

Al: Eu me importo apenas com a princesa… com a Priscilla. Sendo bem sincero, eu não dou a mínima para os outros. Agir em conjunto com você, irmão, é apenas pra aumentar minhas chances de sobreviver e encontrar a princesa.

Subaru: Al…

Al: Eu realmente não entendo seus sentimentos, irmão. “Isso é importante”, “Isso é prioridade”… Se continuar pensando dessa forma, vai ser impossível pra você saber o que de fato é mais importante. Tentar resolver tudo e qualquer coisa… isso só não faz de você uma pessoa clichê que nem ao menos luta pelo que você considera mais precioso?

Estalando a língua, Al parecia estar omitindo algum resquício de emoção. Nem mesmo Garfiel conseguiu responder de alguma forma  àquele comportamento frio dele. Subaru, que havia suportado o peso daquelas palavras, não conseguia dizer nada.

Al: A senhorita de cabelos prateados é o que mais importa pra você, não é, irmão? Se você apenas tivesse focado em salva-la, apenas acabe com toda essa preocupação e hesitação e aja. Vai ser fácil.

Subaru: Nem precisa dizer. Com certeza eu matarei aquele maldito que sequestrou Emilia. De qualquer forma, no momento eu não tenho um plano, e mesmo assim não vai ser tão fácil como você disse.

Al: Mas é bem mais fácil que tentar salvar todo mundo. Se você reduzir a carga, seu corpo fica mais leve e você consegue ir ainda mais longe. Não é exatamente essa a situação?

A fraca resistência de Subaru foi facilmente negada pelas palavras de Al.

Al: Você tá tentando agir como um santo ou um herói? Se sim, você deveria ter um limite.

Encolhendo os ombros, Al ignorou a confusão de Subaru, tratando-a como algo ridículo. Subaru julgou sua atitude como sendo incompreensível.

Quando ele brigou com Anastasia na Prefeitura, insistindo em um posicionamento baseado meramente no impulso, foi ninguém menos que Al que ficou ao seu lado. Aquele que tinha o apoiado em sua luta desesperada baseada apenas em puro egoísmo também tinha sido Al. Entretanto, após chegar aqui, por que ele mudou de opinião?

Subaru: Por que o que você tá dizendo é completamente diferente de antes? Afinal, você é ou não meu aliado?

Al: Não, não, você entendeu errado. Não tó dizendo que ceder ao egoísmo seja algo errado. Mas o limite desse egoísmo é um assunto completamente diferente. Essa sua ideia, de tentar salvar a todos, irmão, foi negada no momento que você viu o horror nesse abrigo, correto? Nesse caso, já é o suficiente, não é? Se você só se importasse com aquilo que é mais importante, então fugir e simplesmente abandonar todo o resto não deveria ser uma ideia tão abominável, não acha?

Subaru: Você quer dizer… simplesmente fugir? Em uma situação como essa?

Al: Qual o problema? Em uma situação dessas onde você é tão impotente é realmente errado escolher fugir? Quando eu recuperar a princesa, vou sair na hora da cidade. Não tenho a obrigação, ou o motivo para lutar pelas pessoas daqui, também não ligo se é algo antiético ou coisa do tipo.

Enquanto coçava o pescoço com os dedos, Al voltou-se para o silencioso Subaru.

Al: Você poderia fazer isso também, irmão. Só pegue a senhorita… só pegue a Emilia e fuja, e você vai se dar bem. De qualquer forma, pragas como o Culto da Bruxa vão voltar, mesmo que sejam derrotados por agora. É como os bandidos na beira da estrada, não acha? Você vai sair perdendo só de interagir com eles.

Havia apenas uma resposta para aquela sugestão de Al.

O Culto da Bruxa era uma praga; Subaru compartilhava desse exato sentimento. Ele também não negaria que eles poderiam prejudicar até mesmo aqueles que não tinham nada a ver com a situação.

Entretanto, foram eles que causaram tamanha catástrofe. Era Subaru que tinha que controlar o crescimento daquela faísca. No entanto, da perspectiva de Al, ele não tinha o porquê interferir.

É claro, a situação de perigo eminente em que Emilia se encontrava era outra história. Mesmo assumindo que ela não tivesse nada a ver com a situação, Subaru não poderia escolher simplesmente fugir. O motivo? Bem, era porque —

Al: E mesmo que seja algo que precise ser feito, não precisa ser você, irmão. Então por que você insiste tanto?

Subaru: Quando uma criança corre em direção a um cruzamento movimentado em uma estrada, sem prestar atenção na luz… sem nem pensar no porquê, eu imediatamente a puxo de volta pra calçada… provavelmente é algo assim…

Al:——

Diante daquela resposta de Subaru, Al apenas suspirou. Sua resposta era muito simples, e alguns pontos ainda eram confusos. Mas quando ele parou por um instante para pensar, e finalmente pôde dar aquela resposta, o aperto em seu perto desapareceu.

Subaru: Eu não acho que seja um incomodo querer levar todos em consideração. Afinal, eu tô aqui, farei tudo que estiver ao meu alcance. Eu sei que tem muitas coisas que estão fora do meu alcance, é só olhar pra essas pessoas aqui, mas…

Não seria covarde e desprezível simplesmente dizer que as coisas estavam fora de alcance? Subaru lidava com seu objetivo como se fosse uma obrigação.

Garfiel: Capi…

Ao ouvir a resposta calma de Subaru, Garfiel quase o interrompeu. Naquele momento, Garfiel hesitou em dizer “Capitão” possivelmente pois Al havia apontado o problema de confiança dele, ele tentou resistir ao habito.

Subaru ficou satisfeito com a hesitação de Garfiel, porém ao mesmo tempo ele se deu conta de algo. Algo que seria muito conveniente, uma ideia, uma estratégia milagrosa que poderia ser usada para tirar vantagem da Autoridade da Ira.

Subaru: Garfiel, não hesite, ok? Só me chame como você sempre chamou.

Garfiel: ——

Subaru: No começo, era um pouco constrangedor, mas já passou. Não posso garantir que vou conseguir cumprir suas expectativas, mas farei o meu melhor.

Subaru não tinha ideia de como aqueles olhos cheios de expectativa de Garfiel de fato o enxergavam.Entretanto, quando Garfiel estava em desespero, sem esperanças, Subaru foi como o nascer do sol, isso por que suas ações lhe deram esperança. O mesmo aconteceu com uma jovem garota solitária, que havia negado tudo neste mundo. Por isso, Subaru não teve escolha a não ser assumir a responsabilidade por meio de suas ações.

Garfiel: Beleza, beleza, tendi, capitão. Meu incrível também vai fazer de tudo pra ajudar. Então, é so nós não ficar aí se lamentando que vai da tudo certo.

Subaru: Certo, então eu vou confiar em você. Depois que deixarmos os feridos com os Presa de Ferro, vamos voltar imediatamente à Prefeitura. Afinal, Anastasia provavelmente terá algumas objeções.

Levantando-se , Subaru foi até Garfiel, que ainda estava de cabeça baixa, e deu tapinhas em seus ombros.

Após ver Garfiel cerrando os punhos, como se estivesse se revigorando, Subaru voltou-se para Al, que estava em silencio.

Subaru: Eu já me decidi, apesar de que não foi exatamente como você tava esperando.

Al: … Faça como quiser, irmão. Se eu confirmar que não conseguirei achar a princesa, então não tem porquê eu ficar com você, mas até lá continuarei com você, irmão.

Embora sua proposta tivesse sido completamente rejeitada, Al respondeu sem qualquer desapontamento.

Mesmo perplexo com sua atitude, Subaru dirigiu-se para fora do abrigo, já preparado para agir assim que os reforços chegassem.

Atrás dele, junto de Garfiel, Al o seguia um pouco de longe

Ao olhar para aqueles dois que estavam seguindo em frente, Al apoiou seu pescoço, estendeu sua única mão para sua nuca. Ele então deu um suspiro profundo

Al: Agindo dessa forma… tentando atender às expectativas de todos, o que vai ser de você? Sem passar por toda essa dor, você não saberia.

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