Para Subaru, aquilo estava longe de apenas acordar de uma noite mal dormida.
Quando abriu as pálpebras, o que encontrou foi um brilho branco e tênue, aparentemente artificial. O teto lhe era estranho, os cristais presos a ele emitiam um leve brilho que iluminava o interior do quarto.
Subaru tinha a fama de acordar bem, então, uma vez desperto, ficava completamente alertado.
—…Esse travesseiro tá diferente.
Ao se virar de lado, notou que a sensação sob sua cabeça era diferente do habitual.
Além disso, a maciez da cama era algo impossível no futon em que costumava dormir. Na verdade, o chão embaixo do seu futon já estava desbotado, pois ele nunca o dobrava e guardava depois de acordar.
—E o cheiro tá bom demais também. Ha-ha-ha… tem cheiro de sol! Bem… na verdade é o cheiro de piolhos fritos pelo sol, né…?
Essa era uma das três informações que ele preferia nunca ter descoberto na vida.
Vou aproveitar esse fedor de morte ao máximo! pensou, antes de abrir os olhos de vez. Então se ergueu até a metade e deu uma olhada ao redor do quarto, que era inconfundivelmente um cômodo de classe alta.
A cama era espaçosa o suficiente para caberem umas cinco pessoas, e o quarto ao redor tinha pelo menos uns 30 metros quadrados. Usar um espaço assim só pra dormir parecia um baita desperdício.
—Considerando o tamanho da mansão… provavelmente não é exagero.
Agora totalmente desperto, Subaru desceu da cama e deu uma leve girada no corpo para verificar seu estado atual.
Primeiro, checou os ombros, depois as articulações dos braços e das pernas, testou o fôlego, a resistência levantando as pernas e fazendo agachamentos, por fim, ofegante por conta do esforço, levantou a camisa para ver se ainda tinha algum ferimento.
—O ferimento no estômago… sumiu! Sem hematoma, é claro, nem cicatriz de quando fui estripado. E zero pontos, então os médicos desse mundo são bons demais! Perfeito!
Ninguém ia se apaixonar por mim se eu tivesse cicatriz, afinal.
Cozinhar, lavar roupa, costurar e outras tarefas domésticas eram coisas que Natsuki Subaru preferia evitar, mas pelo menos tinha algum talento pra isso.
Subaru era até que resistente, graças aos exercícios que fazia em casa, e também comia bastante por causa disso. Será que algum nobre ou ministro rico me iria querer como esposa…?!?!
—Com certeza não quero isso… Enfim…
O quarto era mesmo simples, como ele tinha pensado. Além da cama, havia uma planta perto da janela, alguns móveis e quadros pendurados nas paredes.
Subaru não sabia se existia algo assim naquele mundo, mas não encontrou nenhum relógio nem nada que se parecesse com um e também não achou nada que lembrasse um calendário.
—A questão é… quanto tempo eu fiquei inconsciente…? Bom, talvez umas cinco horas?
Subaru tocou o queixo e tentou medir o tempo aproximado pelo estado da própria barba por fazer.
Era sua técnica secreta que permitia conferir as horas com certa precisão, mesmo sem relógio. Pelo seu “relógio de barba”, já fazia cerca de cinco ou seis horas desde a última vez que havia conferido. Em outras palavras, devia ser mais ou menos o fim do primeiro dia desde que foi invocado para outro mundo.
Pensando nisso, Subaru tocou novamente o próprio abdômen.—Então… quer dizer que eu evitei ativar o Retorno pela Morte dessa vez?
Essa era a pergunta que ele vinha evitando desde que acordou, mas por fim decidiu encarar a realidade da qual não podia fugir.
Até o momento em que perdeu a consciência, Subaru relembrou os eventos que levaram a cada uma das suas mortes.
— Na Primeira, eu morri de forma idiota, da segunda vez morri com bravura, na terceira morri feito um cachorro, a quarta morri por um projétil perdido depois de ser jogado numa luta de vida ou morte é o que eu diria se realmente tivesse morrido, mas fico feliz de ainda estar vivo. Se eu morresse assim de novo, estaria a um passo de virar figurante.
Todas as causas das mortes eram “encantadoras” assim.
Sentado de pernas cruzadas na cama daquele quarto espaçoso e desconfortável com os lençóis e cobertores jogados de qualquer jeito Subaru refletia em silêncio.
Sem dúvida, aquele lugar era diferente do ponto de reinício habitual, já que a ativação do Retorno Através da Morte havia sido evitada. Havia uma chance de uma em dez mil de aquele lugar ser a casa do dono da barraca de frutas onde ele sempre acabava voltando após morrer, mas o único pensamento que lhe ocorria no momento era. Ou é a casa do Reinhard, ou a da Emilia-tan.
Eram as únicas duas pessoas que foram gentis com Subaru e que davam a impressão de morar em uma mansão tão grande assim.
—Espero que seja a da Emilia, pensou Subaru, já se deixando levar pela esperança.
O tratamento da ferida no meu abdômen provavelmente foi graças à magia da Emilia. Se o tratamento não tivesse sido feito imediatamente ali mesmo, eu provavelmente teria morrido. E acima de tudo, minha mente masculina quer acreditar que foi a linda garota que me curou.
—Não tenho nada contra aquele cavaleiro bonitão ter me curado, mas ser curado por uma garota maravilhosa é o sonho de qualquer homem, né…? Ainda mais em outro mundo!
Em seguida, passou os dedos pelos lençóis e fez gestos femininos enquanto se perdia em devaneios.
Depois disso, Subaru saltou da cama e usou a mola do colchão para aterrissar no chão.—Por enquanto, o ideal seria descobrir onde estou — começou ele.—Então, é o começo de uma nova aventura… não, não, não, não, nada de temer mudanças! Volta pro eixo, eu! Você realmente quer voltar àqueles dias reclusos em que era um peso morto que não queria fazer nada por conta própria?! Você quer mesmo voltar àquela vida de só comer, jogar videogame, assistir anime, dormir a hora que quiser, ficar na internet e comentar de vez em quando…? Bom, pensando bem, até que seria bom, né?
Não é como se Subaru tivesse desejado ser invocado para outro mundo nem nada.
E também não é como se ele estivesse insatisfeito com a vida de recluso, no fim das contas. Ele nunca achou que aqueles dias eram entediantes ou desperdiçados, poder dormir o quanto quisesse já era o suficiente pra ele.
—Me sinto meio mal pelos meus pais, que tiveram que lidar comigo… mas, de certa forma, era como se eles só deixassem eu fazer o que quisesse sem atrapalhar.
Ele se exercitava, comia junto com a família na mesa, saía de vez em quando, até pedia mesada. Era uma vida relativamente normal para um adolescente, exceto pelo fato de não ir à escola. Então talvez fosse melhor chamar Subaru de “desistente escolar” em vez de “recluso”.
—Que revelação bombástica, hein. Se eu não tivesse tido a chance de olhar pra mim mesmo aqui nesse outro mundo, talvez nunca tivesse percebido que eu não era um recluso de verdade pro resto da vida… Não é possível, será que foi por isso que fui invocado pra cá…?
Subaru decidiu firmemente que, dali em diante, teria mais cuidado com os rótulos que usava pra se descrever. Vai que alguém o identificava como recluso e ele tivesse que lidar com a fúria da “Associação Mundial dos Reclusos”, ou algo assim.
—Supondo que todos os membros da associação também sejam reclusos… como é que eles colaboram entre si…?
Seus pensamentos davam voltas enquanto ele ponderava essa questão repetidamente. Com um giro de cabeça, Subaru jogou toda essa investigação no lixo com um “Tanto faz” e rastejou até a porta.
O ideal seria que ele tivesse um encontro com alguém que viesse vê-lo enquanto matava o tempo alguém que também pudesse explicar a situação em que ele se encontrava.
—Ou então, eu acordaria e ouviria um “Você acordou?” de uma garota linda sentada ao lado da cama, que cuidou de mim até eu melhorar. Tipo, isso não é o normal? Se você é invocado pra outro mundo e a garota linda que te invocou não está ao seu lado… é uma baita decepção pro invocado, quer dizer que algo deu muito errado…
De qualquer forma, o que ele devia valorizar é que, como prometido pelos clichês de histórias de Isekai, as pessoas que ele conhecesse seriam bonitas.
N/T: “Isekai” é um gênero de fantasia.
No fim das contas, só tinham cinco personagens com nome que ele conhecia até agora. Os três delinquentes nem contavam, já que eram figurantes sem graça. E outro era um velho de cara enrugada, mas…
—A Felt até que tinha potencial se fosse bem cuidada, sem falar da Emilia-tan e do Reinhard. A Elsa é… eeeeh, nem pensar, só de lembrar dela meus dedos já começam a tremer!
O medidor de trauma do Subaru disparou, então ele concluiu que ela estava automaticamente excluída da lista
Eu até consigo admitir que ela é bonita se for só pela aparência. Mas quando você soma a isso o vício dela em matar e as entranhas das pessoas…—Isso que a gente chama de “gap moe”! Não dá pra simplesmente ignorar isso só porque ela é bonita.
N/T: “Gap moe” é um termo japonês a que se refere a atração que surge quando alguém age de uma forma completamente diferente do que se esperava.
—OK! Agora que eu já decidi o que quero fazer, vou parar de enrolar e começar minha jornada… Começar algo novo é sempre super empolgante!
Depois de sussurrar isso casualmente, Subaru girou cuidadosamente a maçaneta e abriu a porta.
O ar gelado do lado de fora invadiu o quarto e percorreu os pés descalços dele, fazendo-o soltar um “Wah!”
Do lado de fora havia um longo corredor pintado com cores quentes. As paredes se estendiam em ambas as direções, e dava pra ver várias portas semelhantes ao longo do caminho. Todos os quartos provavelmente tinham sido construídos de forma parecida com aquele em que ele dormira.
Com tantos quartos nesse padrão de 30 metros quadrados, essa mansão era ainda mais luxuosa do que ele imaginava. Subaru não conseguiu evitar pensar no status do dono daquele lugar e pigarreou.—A única coisa que posso dizer é: uau. Isso aqui é muito espaçoso. Mas com todo esse espaço… cadê todo mundo?
Caminhando descalço pelo corredor, cujo chão era feito de um material liso e polido, parecido com o chão da escola dele, Subaru ergueu uma sobrancelha diante do silêncio absoluto do ambiente.
—Aqui tá mais quieto que o quarto. Quieto demais… a ponto de eu ter medo até de fazer barulho…
Normalmente ele já teria gritado: “Tem alguém aí?!” Fazia parte da natureza dele agir com tudo o que tinha, independentemente da situação, mas nas circunstâncias atuais, ele não sentia que podia fazer isso com segurança.
De qualquer forma, Subaru ainda não tinha o menor entendimento da sua situação naquele momento.
Ele estava certo de que havia acordado na casa de algum benfeitor, mas também não era impossível imaginar que, depois de ele ter perdido a consciência, a Elsa tivesse organizado um exército de cem mil soldados para se vingar e o tivesse capturado enquanto dormia.
Se fosse esse o caso, era o lado da Elsa que havia capturado Subaru, e aquela mansão deixaria de ser a casa de um milionário gentil para se tornar o esconderijo de um grupo de assassinos.
—Talvez seja melhor esperar alguma coisa acontecer, afinal? Talvez eu devesse voltar pro quarto agora mesmo e rezar pra Deus enquanto tremo de joelhos.
Enquanto observava os móveis e decorações do corredor, Subaru começou a planejar sua fuga, cantarolando nervosamente.
As pinturas em exibição lembravam um pouco as paisagens que estavam no quarto, mas várias das obras do corredor tinham um estilo mais excêntrico e abstrato. Ao observar os padrões geométricos, Subaru pensou:
— Hmm, então as pinceladas foram pra lá e pra cá… — fingindo entender alguma coisa, como se fosse um conhecedor da arte.
—Bom, eu não vou deixar a bandeira escapar por causa desse pensamento fraco. Eu já decidi o que vou fazer. Como se eu tivesse feito um juramento. Não lembro de ter jurado nada nem pra quem, mas vou manter isso em mente e agir de acordo com isso.
Apagando da mente a opção de voltar, Subaru seguiu em frente com o objetivo de encontrar alguém, por enquanto.
Direita ou esquerda, sem pensar muito, escolheu a direita. Isso porque ele lembrava de ter lido em um mangá algo como:
“Há muitas armadilhas à esquerda, hee-hee-hee” — o que já era razão suficiente.
A distinção entre direita e esquerda mudava dependendo de qual quarto você saía, mas Subaru só percebeu isso depois de já ter andado por um tempo, então acabou deixando pra lá.
—Ah, tudo bem. Tudo aqui é igual e eu ainda não vi sinal de ninguém.
Ele ainda nem tinha chegado ao fim do corredor, tampouco havia encontrado algum lugar onde pudesse virar. Depois de passar por mais cinco portas, Subaru estava confuso.
Tinha que haver um limite para o comprimento daquele corredor. Um ou dois minutos talvez não parecessem tanto tempo assim, mas a distância que ele já havia percorrido era facilmente de trezentos metros.
Não era normal um corredor ter trezentos metros de comprimento sem mostrar nem sinal de um fim.
—Não vou conseguir entender o que está acontecendo — resmungou, coçando a cabeça. O pior que podia acontecer era ele ter que voltar pro quarto de onde veio.
—Hã? — Subaru franziu a testa, inclinando o pescoço ainda mais, confuso.
Atrás dele, no caminho por onde tinha acabado de vir, o problema era que ele também não conseguia ver o fim do corredor naquela direção.
—Eu não já tinha visto essa pintura quando saí do quarto…?
Tinha quase certeza de que tinha feito uma piadinha sobre as pinceladas ou algo assim.
Era possível que o mesmo quadro estivesse exposto em todos os lugares, mas seria de extremo mau gosto colocar a mesma obra na frente de todos os quartos. Em outras palavras…—Quer dizer, falando de forma mais direta… Eu tô preso num looping infinito.
Talvez só parecesse que ele havia andado pelo corredor e, na verdade, estivesse só sendo transportado pro outro lado do mapa? Ou talvez houvesse algum tipo de mecanismo de piso móvel que subvertia os clichês de mundos de fantasia e operava de forma tão sutil que Subaru nem percebeu.
—Se for piso móvel mesmo, aí já bagunça todo o clima do período em que isso aqui se passa. E já que Retorno Através da Morte faz parte da história, será que esse mundo tem alguma afinidade com ciclos e loops?
Falando consigo mesmo com um ar esperto, Subaru abriu a porta do quarto mais próximo. Era um quarto simples de cerca de trinta metros quadrados, com uma cama e móveis básicos. Em outras palavras, exatamente o mesmo quarto de onde Subaru tinha saído.
—Mas que diabos isso significa? Que é inútil sair por aí e que eu deveria simplesmente ficar quieto aqui?
Então era assim que estavam limitando os movimentos de Subaru depois que ele acordou. Parecia um total desperdício de tempo e magia, mas talvez o plano fosse justamente esgotar sua vontade de resistir mostrando a diferença de poder.
—Bom, agora que entendi mais ou menos o que tá rolando aqui, até que é uma maneira bem esperta de minar meu espírito, né? Se eu pensar de forma normal, não tem como não me chocar com a criação de um espaço tão misterioso…
Ele esticou os braços, as pernas e os quadris com um “Hmmmm”. Depois, apoiou as mãos na parede para alongar bem os tendões de Aquiles, aquecendo com sucesso os músculos para o que viria a seguir.
—Normalmente eu pularia na cama dizendo “Vou só ficar de boa até alguém aparecer~”, mas dessa vez não! Se acham que isso é suficiente pra me fazer desistir, vão ter uma bela surpresa!
Abaixou-se no meio do corredor e assumiu posição de largada.
Preparar, apontar.
—Depois de dormir por meio dia, é claro que tô cheio de energia!
Com essa afirmação nada modesta sobre sua incrível disposição depois de dormir bastante, Subaru começou a correr o mais rápido que pôde.
Com certeza não era tão rápido quanto a Felt e, pra ser sincero, sentia que até o Velho Rom podia dar trabalho pra ele.
Sua resistência não era lá grandes coisas, e sua corrida de cem metros era tão desastrosa que ele ficava sem fôlego já nos setenta, mas naquele momento, pelo menos, ele sentia que podia correr como um velocista olímpico.
Corre, corre, corre. Ele repetia mentalmente, se forçando a seguir em frente.
O fim do corredor ainda não estava à vista, e não importava quanto corresse, ele sempre voltava ao mesmo ponto de partida. Era como se aquilo zombasse de sua determinação, dizendo “Resistir é inútil.”
Mas mesmo assim, Subaru não parou de correr.
Como se quisesse provar, com sua atitude, que o único poder que um homem comum tinha era continuar correndo em linha reta, sem parar, de novo e de novo.
Subaru não se importava se aquele corredor era só uma área esquecida e sem uso da mansão, ou se aquela era uma mansão de um completo estranho, ou se ele tinha sido eviscerado meio dia atrás, ou mesmo se já estava sentindo que precisava “resolver uns assuntos” logo logo.
—Não, essa última não é boa! Essa não é boa! Cara, tá dando uma vontade insana de fazer xixi! E parece que é o número um e o número dois querem sair ao mesmo tempo!
As partes de baixo do Subaru começaram a gritar, e aquela forma de velocista olímpico de antes já não existia mais. Sua postura durante a corrida se transformou em algo mais feminino, com o tronco balançando pra frente enquanto ele apertava as coxas uma contra a outra.
No entanto, nem essas diferenças triviais no jeito de correr foram o suficiente pra impedir o mundo de zombar de seus esforços.
A repetição dessa malícia eventualmente diminuiu a velocidade de Subaru.
Seus ombros tremiam visivelmente, e ele respirava com dificuldade. Uma batalha solitária, com suor escorrendo pela testa, e sem conseguir tirar nada disso, Subaru se agachou ali mesmo.—Desisto. Vai ser aqui mesmo.Ele largou tudo e levou as mãos até a roupa que protegia seu abdômen inferior.
Podia-se dizer que sua dignidade como ser humano estava prestes a ser perdida. Não conseguir ir ao banheiro no lugar certo o fazia se sentir pior do que um cachorro ou gato de rua.
Mas ele se recusava a pensar que estava perdendo sua dignidade. Aquilo não era suficiente para abalar seu coração.
—Além disso, acho que descobri um novo fetiche… Esse tipo de abuso dá uma sensação boa até…Disse isso com um sorriso genuíno no rosto, o primeiro desde que foi invocado para outro mundo. Agachado no corredor, pelo menos teve o bom senso de parar no final dele, o que mostrava que ainda restava um pouco de juízo.
E então…—Natsuki Subaru, pronto para mi—huh?
Assim que ia dizer “pronto pra mijar”, algo mudou diante dos olhos de Subaru.
A imagem do corredor, que se mantinha igual não importava o quanto ele corresse, de repente se distorceu diante de sua visão.
A transformação do mundo à sua frente era como amassar uma folha de papel e depois tentar alisar de novo.
Subaru piscou, como para confirmar se aquilo estava realmente acontecendo, e então se levantou, segurando a vontade de urinar que tinha recuado involuntariamente.
—Não entendi muito bem, mas… será que agora vai dar tudo certo?
Ao olhar novamente ao redor, pôde ver que o mundo havia mudado. Agora conseguia enxergar claramente o fim do corredor, além de outras passagens laterais para as quais podia virar.
A pintura abstrata que Subaru já tinha visto inúmeras vezes estava à sua frente, e o quarto onde ele havia acordado ficava bem ao lado da pintura.
Subaru tinha certeza de que havia retornado ao ponto inicial e parecia ter escapado do loop também. Não sabia ao certo o que causou aquilo, mas:—Então, basicamente, foi porque eu tentei mijar no corredor. Que tipo de flag complicada é essa…? É o tipo de coisa que você nunca notaria normalmente. Quem pensou nisso, com certeza é um gênio do mal.
—Bom, agora que escapei do loop, acho que vou só voltar pro quarto e tirar um cochilo…
Coçando a nuca, Subaru olhou de volta para a primeira porta mas, assim que fez isso, um calafrio repentino percorreu o corredor. Não era como se estivesse ouvindo palavras, mas os sentimentos por trás daquilo eram bem claros. —Era como se alguém estivesse dando um “facepalm” em algum lugar.
N/T: É uma expressão que descreve a ação de bater a palma da mão no rosto devido a algo que é considerado idiota, vergonhoso.
—Seja lá quem for, eu sei que tem alguém me mandando voltar!
—Tá bom, tá bom, já entendi! Eu vou!
Depois de soltar um grito irritado contra a causa do loop interminável, Subaru começou a caminhar novamente. Ele até poderia fazer o que precisava ali mesmo, mas isso não faria a história avançar, encontrar um banheiro era a prioridade no momento.
—Ou seja, pra proteger minha dignidade, não tenho escolha a não ser seguir em frente.
—Quer dizer, essa pessoa é boa demais nisso, então eu é que não vou desistir!
Com um olhar determinado, ele afirmou suas intenções. Sim, Subaru continuaria lutando por causa da sua vontade de fazer xixi.
Embora o mecanismo de repetição tivesse sido desativado, o corredor ainda estava envolto numa atmosfera estranha, como se dissesse que ainda não tinha acabado. Subaru sentia que aquela sensação era parecida com a que teve quando viu a Emilia usando magia. Era o melhor palpite que ele podia dar como alguém que não conseguia usar magia, mas parecia que o corredor estava completamente cheio dela.
Diferente de antes, quando lidava com o loop infinito, agora nem sequer havia tentativa de esconder isso. O usuário de magia devia ser bastante confiante em suas habilidades a ponto de armar suas armadilhas e dizer com orgulho: “Pode entrar, tem uma cilada aqui.”
—Dizem que não é seguro avançar no escuro. Mas ser cauteloso demais é o mesmo que ser covarde. E, acima de tudo, eu tenho um limite de tempo…
A maré tinha recuado bastante agora, mas não era segredo que logo voltaria como uma onda gigantesca.
Engolindo em seco e enxugando o suor da testa, Subaru deu o primeiro passo com determinação.
A porta estava à sua frente e, ao girar a maçaneta, disse:—O corredor sempre tá cheio de armadilhas depois de quebrar o loop. Num evento típico de dungeon, por incrível que pareça, a primeira porta quase sempre é a certa.
Com esse palpite intuitivo, ele abriu a porta, e a resposta que recebeu foi:
—…Que sujeito profundamente incômodo, eu suponho.
O olhar ressentido vinha de uma garotinha de cabelos cacheados, que o encarava em uma biblioteca desconhecida.