“Obrigado por ter vindo.”
Depois de tomar um gole do meu latte olhei para o PequenaCobra que estava sentado de frente para mim.
Com os braços e pernas cruzadas, o PequenaCobra olhava para mim irritado.
“É melhor que isso seja importante. Porque levou meia hora para chegar aqui. E eu sou um homem ocupado…”
Pttffff
Cobrindo a boca, quase deixei minha risada sair.
“Para de se iludir. Tirando eu, você não tem mais nenhum cliente.”
“Eu…Ah…”
Sem saber o que falar, o PequenaCobra ficou parecendo um peixe fora da água abrindo e fechando a boca.
Era a verdade.
Na segunda metade da novel, quando ele encontra com o Kevin, o PequenaCobra ainda era desempregado. O que significa que, tirando eu, ele não tinha contrato com mais ninguém.
Por mais que não tenha mentido sobre ter levado trinta minutos, a parte dele estar ocupado é mentira. Ele só quer aparentar estar ocupado.
Com uma veia pulsando visivelmente na testa, o PequenaCobra estendeu a mão na minha direção.
“…vá direto ao ponto.”
Assentindo com a cabeça, minha atitude ficou séria. Juntando os dedos, descansei minha mão sobre eles.
Olhando direto nos olhos dele disse seriamente.
“Eu quero criar um grupo de mercenários.”
“…Ok, parabéns.”
“Obrigado, e você vai fazer parte dele.”
Balançando a cabeça algumas vezes um sorriso apareceu no rosto do PequenaCobra. Era o sorriso de alguém que já tinha perdido a sanidade.
“…Então, deixa eu ver se entendi. Você me fez vir até aqui para entrar em um grupo de mercenário que nem está oficializado e nem tem membros, é isso?”
“Claro.”
Como esperado de alguém esperto como ele, o PequenaCobra entendeu rápido.
“Quem disse que você é o único membro?”
“Tem outros?”
“Não, não ainda.”
O PequenaCobra me olhou com uma cara de taxo. Coçando a nuca, tomei um gole do meu latte e murmurei.
“…mas eles vão entrar.”
Haaa… Sem saber como reagir, o suspiro dele foi se prolongando.
‘É sempre assim com esse cara.’
‘Ele faz propostas que não fazem sentido e ao mesmo tempo consegue parecer confiante. Quase como se soubesse tudo que estava planejando daria certo.’
O PequenaCobra não conseguia entender.
De onde vinha essa confiança?
“Sigh, sinto muito, mas vou ter que recusar.”
…No fim, por mais que fosse um convite tentador, ele recusou.
Não era que não quisesse fazer parte do grupo, era mais que ele não podia se juntar…
Em primeiro lugar, se não fosse por sua situação atual ele nunca teria cogitado em trabalhar no Mercado Negro.
Tipo, por que alguém talentoso como ele trabalharia em um lugar de nível baixo como o Mercado Negro? Não fazia sentido.
“Você tem mais alguma coisa que queira dizer?
Nem um pouco perturbado pelo não, suspirei de forma exagerada e sussurrei em um tom que ele ainda conseguisse ouvir.
“Sigh, e eu aqui pensando que seria para seu próprio bem…”
Balançando a cabeça para os lados e terminando de tomar sua bebida o PequenaCobra se preparou para ir embora.
“Pelo visto você só me chamou aqui para gastar meu tempo…”
Encostando na minha cadeira e encarando ele, com um volume de voz que só ele poderia ouvir, eu disse.
“Eu sei que você está sendo procurado pelo Monolith.”
“Quê!?”
-Plack!
Se levantando de forma bruta, a cadeira do PequenaCobra caiu no chão. Apontando um dedo para mim, a voz dele tremeu.
“C-Como você sabe sobre isso!”
“Shhh…”
Colocando um dedo sobre meus lábios, falei para ele se acalmar e sentar-se.
“Primeiro, se acalme. Olha em volta, todo mundo está olhando.”
Olhando em volta, o PequenaCobra percebeu que todos o encaravam.
“Ah, sinto muito.”
Pedindo desculpas, ele respirou fundo e se acalmou massageando as têmporas.
“Ok, me acalmei.”
Depois de uma pequena pausa, ainda de pé, o cenho dele se franziu. Olhando na minha direção, perguntou.
“Como você sabe?”
Olhando para meu latte que já estava na metade, mexi o copo.
“Como eu sei? Bom, vamos apenas dizer que você não é o único que consegue descobrir sobre o passado dos outros.”
Bem, mas não foi bem assim que aconteceu né…
Se eu escrevi sobre eles então conhecia o seu passado.
“…De qualquer forma, se você se juntar, posso te ajudar com a situação com o Monolith.”
Franzindo o cenho e depois de pensar por um momento, o PequenaCobra não pode deixar de perguntar, para ter certeza.
“Quando diz Monolith. Está dizendo sobre o mesmo Monolith que estou pensando?”
Sorrindo de forma misteriosa eu assenti.
“Sim, aquele Monolith. O mesmo Monolith que você está pensando, que é equivalente a União, mas para vilões…”
“Tsssss…”
Se jogando na cadeira a expressão dele ficou tensa.
A reação dele era compreensível.
A razão pela qual o PequenaCobra estar trabalhando no Mercado Negro era por causa do Monolith.
…Uma organização secreta, onde abriga os vilões mais poderosos e cruéis do Domínio Humano.
Também conhecida como Anti-União.
Depois de ser descoberto tentando infiltrar-se nos ranks do Monolith uma enorme caça pela cabeça do PequenaCobra tinha começado.
Devido ao quão poderosa a Monolith é ele não tinha mais opção a não ser trabalhar e se esconder no Mercado Negro. A única organização capaz de oferecer o mínimo de proteção a ele.
Se não fosse pelo fato dele ter contanto com algumas pessoas de alto escalão no Mercado Negro o PequenaCobra já teria sido descoberto pela Monolith há tempos.
Com a ajuda deles, ele conseguiu garantir um trabalho como contador em uma agência onde poderia se esconder.
“…Se escolher confiar em mim como antes prometo que não irá se arrepender.”
Hesitando por um momento, o PequenaCobra olhou para mim antes de falar.
“C-Como você descobriu sobre a minha situação com a Monolith?”
Encostando na cadeira, eu sorri.
“Ah, confia em mim. Não existe ninguém que saiba sobre a Monolith mais do que eu.”
…bem, eu sou o autor desse mundo, então é óbvio.
Como eles se tornam uma peça importante no segundo volume da história eu tinha muito conhecimento sobre a organização.
Quais membros faziam parte; a localização da base secreta deles; e quais planos estavam em andamento.
Eu sabia de tudo…
E obviamente sabia sobre o ocorrido com o PequenaCobra. Além do mais, ele se tornou um personagem importante na segunda parte da novel…
Ficando calado por alguns segundos, ele me observava.
Ele tinha apenas duas opções: confiar em mim ou continuar com o trabalho atual.
No fim, a resposta iria depender do quanto ele confia em mim.
“Hmm…”
Após mais alguns segundos o PequenaCobra respirou fundo e estendeu a mão na minha direção.
“Nem sei o por que estou fazendo isso, mas… Muito bem, se manter sua promessa, eu me junto a você.”
“Haha, sabia que iria fazer a escolha certa.”
Também esticando a mão, selamos o acordo com um aperto. O primeiro membro do meu grupo mercenário estava oficialmente recrutado…
Depois do aperto a expressão dele se suavizou um pouco e pensando por um tempo ele olhou para mim e perguntou.
“Qual vai ser o nome do grupo?”
Sem nem pensar duas vezes, respondi.
“Caïssa.”
“Caïssa?”
“Sim, é inspirado na Deusa do xadrez.”
Franzindo o cenho, o PequenaCobra colocou a mão no queixo e fez uma cara de confuso.
“Deusa do xadrez? Por que xadrez?”
Sorrindo, ativei a função de imagem holográfica do celular. Logo, um tabuleiro de xadrez se materializou diante de nós.
Apontando para a imagem, expliquei.
“O grupo será composto de oito principais membros. Cada um de acordo com uma peça principal do tabuleiro.”
Pausando para ter certeza de que ele estava acompanhando, continuei.
“Terá um Rei, uma Rainha, duas Torres, dois Bispos e dois Cavalos. E os outros que entrarão serão os peões. O título irá depender da habilidade de cada um-“
Assentindo com a cabeça, o PequenaCobra me cortou no meio da explicação.
““Deixa-me adivinhar, você é o Rei, certo? Se sim, quem são os outros membros que está pensando em recrutar e quem será a rainha?”
Olhando para ele por um momento, assenti de forma séria.
“Entendi. Se você quer muito ser a Rainha não ligo de te dar o título.”
Concordando com a cabeça, ele manteve a calma. Sarcasmo e brincadeiras quase não funcionavam com ele mais, provavelmente porque ele já sofreu muita humilhação. Ter esquecido do seu ego deve ter sido difícil de primeira, mas depois de perceber que não levaria a lugar nenhum retrucar, o cara apenas começou a ignorar.
Principalmente, porque agora sou o chefe dele.
“Não, passo.”
“Tsk, sem graça.”
“Você é o primeiro membro e depois de pensar sobre isso, decidi te fazer Bispo.”
Fazendo uma careta, ele perguntou.
“Por que o Bispo?”
Sorrindo, me recusei a elaborar.
Não quero que ele perceba qual será o papel dele antes de entrar.
“Porque eu quero…”
Na verdade, não tinha muita ligação com o xadrez, mas, normalmente, bispos são pessoas que são confiadas a trabalhos com posição de autoridade e supervisão.
…exatamente o papel que o PequenaCobra terá no grupo.
Apesar de não ser forte, ele tem bastante conexões e uma cabeça ótima. Com o talento dele, o grupo será capaz de se expandir sem nenhum problema em questão de acharmos as conexões certas para adquirir materiais, poções e outras coisas que toda guilda ou grupo de mercenário precisa.
Se for para dizer de forma direta, ele vai ser a babá do grupo…
…..
Depois de explicar mais algumas coisas para ele, olhando para o meu relógio, verifiquei o horário.
-Plack!
Ao terminar de tomar minha bebida, me levantei.
“Muito bem, acho que por hoje é isso.”
Eu tinha muitas coisas para fazer ainda.
Estabelecer um grupo de mercenários não era uma coisa fácil. Ainda tem várias coisas que precisam ser feitas até o final do dia. Como por exemplo…
—Fazer uma lista das pessoas que quero recrutar;
—Achar um lugar para ser a sede;
—Registrar o nome do grupo.
Só depois de completar todos esses passos é que vou poder começar a recrutar o pessoal.
Felizmente, eu já tinha uma breve ideia de quem quero chamar, ou seja, minha prioridade no momento era achar uma localização boa e oficializar o nome e assim vamos ser considerados um grupo de mercenários de verdade.
Ao me levantar me despedi do PequenaCobra e me dirigi para a saída do café. Mas antes de me separar dele, falei.
“Me encontre amanhã e vou te passar uma lista de pessoas que quero que você as recrute.”
“Ok…”
Concordando com a cabeça, o PequenaCobra assistiu minha figura sair do café enquanto não pôde deixar de pensar.
‘Espero que eu tenha feito a decisão certa…’