Quando cheguei à propriedade dos Redgrave “sem motivo específico”, o próprio Sr. Vince — pai da Angie — veio me receber pessoalmente.
“Que prazer tê-lo aqui. Voltei para a capital assim que soube que você viria.”
“Ah… certo…”
Normalmente, o Sr. Vince e o Sr. Gilbert se revezavam entre a capital e seus territórios, mas, desta vez, o próprio duque fez questão de estar presente. Era, no mínimo, surpreendente.
Depois de entrar, fui conduzido até uma sala onde aguardaria. Não demorou muito para que o Sr. Vince trouxesse um visitante. O homem me observava com expectativa; embora eu soubesse que teria uma reunião, não fazia ideia de quem ele era.
“Hum… e este é…?”, perguntei.
“Alguém que eu estava ansioso para apresentar a você.”
O homem inclinou a cabeça respeitosamente.
“É um prazer conhecê-lo, duque Bartfort. Sou o conde Dominic Fou Mottley.”
O “Fou” no nome indicava que ele era um senhor regional e, sendo um conde, provavelmente governava um território considerável. Ainda assim, parecia jovem — talvez na casa dos trinta. Tinha cabelos loiros bem cuidados, barba impecável e um porte esguio, mas firme. Não era um sujeito desagradável à vista.
“Eu e o conde Mottley nos conhecemos há bastante tempo”, explicou o Sr. Vince. “O território dele é uma ilha flutuante, e ele é um dos responsáveis por proteger as fronteiras do reino.”
“As fronteiras, é?”, repeti, observando-o com mais atenção.
O conde sorriu.
“Naturalmente, minha família não atua sozinha. Nós, senhores regionais, operamos sob o comando de um marquês. Infelizmente, essa responsabilidade me impediu de atender à sua convocação durante a última crise, duque Bartfort.”
“Entendo…”
Era um bajulador habilidoso, isso era evidente. Na época daquela guerra, minha reputação não estava exatamente em alta. Talvez não fosse tão terrível, mas certamente não inspirava confiança. Ninguém em sã consciência teria atendido prontamente ao meu chamado.
“O conde Mottley é seu admirador, sabia?”, acrescentou o Sr. Vince.
“Hã?”
Antes que eu pudesse reagir, o conde segurou minha mão com firmeza.
“As notícias de suas conquistas causaram um impacto profundo em mim. Já o observava desde o incidente com o príncipe herdeiro e seu grupo, mas o que você realizou depois superou qualquer expectativa.”
“Superou… o quê?”
Meu cérebro travou tentando acompanhar.
O conde sorriu ainda mais.
“O senhor foi quem pôs fim àqueles costumes vis aos quais o reino estava preso.”
“Ah… sim, claro…”
Então ele era mais uma vítima daquele sistema infernal envolvendo as garotas problemáticas da academia. Pelo jeito, acertei em cheio.
“Na época em que estudei na academia, ainda éramos viscondes”, continuou ele. “Minha noiva… era uma mulher desprezível.”
“Ah… sinto muito…”
Por um instante, achei que aquilo ainda o afetasse profundamente, mas logo percebi que não era o caso.
“Ela mantinha vários amantes antes mesmo de termos um filho. Nem sei de quem era a criança que pretendia gerar… mas enfim. O importante é que o senhor destruiu aquele sistema insuportável. Sou sinceramente grato!”
“Hã? Hein?!”
Enquanto eu ainda tentava processar, o Sr. Vince explicou com naturalidade: “O conde Mottley conseguiu se divorciar por causa da infidelidade dela.”
“Sério?!”
Na sociedade nobre, um casamento não era apenas uma união entre indivíduos — era uma aliança entre casas. Dissolvê-lo por motivos pessoais era praticamente impensável, e, no passado, nem mesmo a infidelidade bastava como justificativa. Só depois das mudanças recentes é que isso se tornou possível.
“Também devo muito ao duque Redgrave”, acrescentou o conde. “Não tenho palavras para agradecer o que ele fez por minha atual esposa.”
Esposa?
Inclinei a cabeça.
“Casei-me novamente”, explicou. “Ela era uma serva que esteve ao meu lado por anos. No entanto, por causa de sua posição, não podíamos nos casar. Foi então que recorri à ajuda do duque Redgrave.”
O Sr. Vince complementou: “Uma família de cavaleiros a adotou, depois um visconde a acolheu oficialmente. Após receber a educação apropriada, ela pôde se casar com o conde.”
Isso… não era basicamente uma fraude elaborada?
Quer dizer, era como se ele tivesse comprado uma posição social para poder se casar com quem queria. Mesmo que não houvesse dinheiro envolvido diretamente, algum acordo certamente existiu.
Enquanto eu refletia sobre isso, o conde continuou: “Sei que ainda estou longe de me equiparar a alguém do seu nível, mas ouvi sobre seu papel no recente incidente na capital. Controlar toda a cidade em uma única noite… é impressionante. Afinal, não é surpresa vindo de um duque de primeira geração e herói do reino.”
Seria muito mais fácil dizer que tudo aquilo só foi possível graças ao Luxion, mas optei por uma resposta mais neutra. Ou melhor, eu teria optado — se ele não tivesse me interrompido.
“No entanto, creio que foi um tanto… indulgente.”
Meu queixo caiu.
“Como assim?”
Para minha surpresa, ele pareceu igualmente perplexo.
O Sr. Vince colocou a mão no meu ombro.
“Peço desculpas. O conde Mottley assumiu seu título muito jovem, então ainda lhe falta refinamento.”
O conde assentiu com um sorriso.
“De fato. Tudo aconteceu tão rápido que minha etiqueta ainda deixa a desejar. Ainda assim, muitos considerariam minha posição invejável.”
A conversa deles começava a fazer menos sentido para mim, então sinalizei discretamente para Luxion.
“Ele acredita que você está alinhado com os Redgrave e pretende se voltar contra a família real. Sua reação o deixou desconfiado.”
Ah… então era isso.
O conde voltou a me encarar.
“Duque Bartfort, que tal unirmos forças para ver a capital ser consumida pelas chamas?”
“Isso não tem graça nenhuma.”
“Graça? O senhor é um nobre regional, não é? Deve compreender. Fomos oprimidos por gerações por um reino que nos trata com hostilidade. Não deveriam pagar por isso?”
Ele me observava atentamente, tentando medir minha posição. E, pelo olhar, era evidente que falava sério.
“Conde Mottley”, interveio o Sr. Vince, “não seja precipitado. Um pouco mais de discrição, por favor.”
“Minhas desculpas. Acho que me deixei levar… afinal, estou diante do herói que tanto admiro.”
***
Depois que o conde foi embora, restamos apenas eu e o Sr. Vince.
Ele soltou uma leve risada.
“Como era de se esperar de alguém que vive nas fronteiras, ele é… intenso. Espero que possa relevar a falta de tato dele, por minha consideração.”
Decidi ir direto ao ponto.
“O senhor realmente pretende entrar em guerra contra o reino?”
O sorriso dele não vacilou.
“Parece que você e Angie tiveram um pequeno desentendimento recente. Sinceramente… o que aquela garota está pensando?”
Como ele sabia disso?
Ignorei a mudança de assunto.
“Por favor, me responda. Se o senhor estiver falando sério… eu vou impedir isso.”
A voz dele se tornou mais baixa.
“Mesmo que você consiga proteger o reino pela força, a insatisfação do povo continuará crescendo até romper. Seria arrogância da minha parte tentar reduzir ao máximo as perdas inevitáveis?”
“Insatisfação…?”
“Você ouviu o conde Mottley. Ele e outros senhores regionais foram oprimidos por gerações. A situação melhorou, sim — mas isso é suficiente? Você acha que eles simplesmente vão esquecer tudo e aceitar?”
Eu… não tinha resposta.
Só porque as coisas melhoraram não significava que o ressentimento desapareceria. Pelo contrário, muitos aristocratas pareciam ansiosos para se vingar da família real enfraquecida.
Então era isso. Ele me mostrou o conde justamente para provar que a ameaça era real.
“Esse sacrifício é necessário”, continuou o Sr. Vince. “Se outra rebelião descontrolada ocorrer, Holfort será dividido, e nossos inimigos nas fronteiras aproveitarão. Precisamos evitar isso a qualquer custo.”
Ele me deu um leve tapinha no ombro.
“Tenho grandes expectativas em você. Com seu Item Perdido, podemos reduzir significativamente o derramamento de sangue. Quanto à Angie… falarei com ela.”
Então era isso que ela estava enfrentando esse tempo todo…
***
Depois de deixar a propriedade Redgrave, voltei ao dormitório e me joguei na cama, encarando o teto.
“Minimizar as perdas… já que a rebelião é inevitável, hein…”, murmurei, relembrando as palavras do Sr. Vince.
Luxion flutuava ao meu lado, como sempre.
“Embora seja uma solução eficaz, os Redgrave são parentes da família real. Muitos aristocratas não aceitariam vê-los liderar uma revolta. Um único erro, e eles podem acabar sendo destruídos junto com a coroa.”
Ele tinha razão. Com os laços próximos ao trono, havia muitos que também nutriam ressentimento contra os Redgrave. A única forma de sobreviver seria liderar a rebelião e reconstruir o reino sob uma nova ordem.
“Eles poderiam simplesmente proteger a coroa”, sugeri.
“Se não fossem movidos pela ambição. Vince e Gilbert desejam o direito de governar.”
“Não consigo me identificar com isso.”
“Ainda assim, o desejo deles de reduzir baixas é genuíno. E, para os senhores regionais, você é um herói de verdade, Mestre.”
Suspirei.
“Por causa de eu ter quebrado aquele sistema de casamentos absurdos?”
“Esse é um dos fatores. Além disso, você forçou o reino a mudar onde ele se recusava a fazê-lo. Para eles, você é o campeão que sempre desejaram.”
“Que campeão…”
“Ao se casar com Angélica, você inevitavelmente se alinhará aos Redgrave. Neste mundo, o indivíduo não existe separado de sua família.”
Eu já tinha ouvido isso antes. Em épocas antigas, quando a morte era constante, a prioridade era preservar a família e a linhagem. Comparado a isso, viver em um mundo que valorizava o indivíduo parecia muito mais confortável.
Eu conhecia essa diferença.
Angie não.
Talvez fosse por isso que nunca conseguíamos nos entender completamente.
“E então? O que você acha?”, perguntei.
“Sobre o quê?”
“Unificar o reino sem derramamento de sangue. É possível?”
Eu queria uma solução milagrosa — algo que resolvesse tudo sem sacrificar ninguém.
Luxion respondeu sem hesitar: “A forma mais rápida seria você assumir o controle da capital. Isso forçaria os senhores regionais a recuarem. Depois, poderíamos reunir aliados como Dominic e reconstruir o reino. Esse seria o caminho com menos perdas.”
Fiquei em silêncio por um instante.
“Ou seja…”
“Você deveria se tornar rei, Mestre.”
“Nem pensar.”
Eu, rei?
Algumas pessoas poderiam desejar isso, mas definitivamente não era o meu caso. Eu preferia muito mais me esconder no campo e viver uma vida tranquila.
“Você rejeita minha proposta, mesmo sendo a que causaria menos mortes?”
“Se eu usar seu poder para governar, não serei diferente dos Redgrave.”
Suspirei profundamente.
“Foi erro meu ter perguntado.”
Luxion avançou até ficar praticamente na minha cara.
“Devo lembrá-lo, Mestre, que você pediu minha opinião justamente por não ter uma solução própria.”
“Sim. E é por isso que estou admitindo que foi um erro perguntar.”

Além disso, Luxion não se importaria nem um pouco se Holfort deixasse de existir. Na verdade, ele provavelmente até ficaria satisfeito em ver o fim de um país erguido pelos novos humanos. Sempre que surgia um problema desse tipo, era ele quem vinha com sugestões como “Por que não queimamos tudo de uma vez?” e coisas do gênero.
“Acho que vou ter de perguntar a outra pessoa. O problema é que a Angie costuma ser minha primeira escolha para esse tipo de assunto… e justamente nela é que não posso confiar agora.”
“De fato. Sua confiança nela é incessante e excessiva.”
“Ah, cala a boca.”
Enquanto encarava o teto, pensei em quem poderia procurar. Vários rostos me vieram à mente, mas minha atenção acabou se fixando em uma pessoa em especial — alguém que já tinha passado por algo parecido.
Encontrei Hering do lado de fora, regando um dos canteiros perto do dormitório. Quando desabafei com ele sobre minha situação atual, não fui ridicularizado nem recebi qualquer risada debochada. Em vez disso, o rosto dele se fechou num semblante pesado.
“Uma diferença de valores? Isso é complicado. Desde que reencarnei, já fui confrontado com esse mesmo problema várias vezes.”
“Você também?”, perguntei.
“É o preço de trazer as memórias da vida anterior.”
As sombras em seu rosto ficaram ainda mais densas quando ele suspirou e inclinou a cabeça para trás, olhando para o céu.
“Depois que me tornei cavaleiro, fui forçado a participar da guerra.”
“Entendo…”
O tom com que ele falou bastava para eu imaginar o peso do que carregava. Nem cavaleiros nem nobres tinham permissão para fugir da guerra. Um desertor perdia o nome, a posição, tudo. Eles eram criados para acreditar que lutar era uma honra, e aqueles que massacravam mais inimigos no campo de batalha eram celebrados como heróis.
Por isso, nem eu nem Hering gostávamos de ser chamados assim. Ser tratado como “herói” era quase o mesmo que ser chamado de assassino em massa.
Hering coçou a nuca, como se entendesse exatamente o que eu sentia.
“Nós dois já passamos por muita coisa. Talvez fosse melhor se pudéssemos apagar nossas memórias antigas, mas…” Ele fechou os olhos por um instante. “Não. Sem elas, eu nunca teria percebido a situação terrível em que a Mia estava.”
Era verdade. Talvez não estivéssemos enfrentando esse tipo de conflito se não carregássemos o passado conosco, mas esse mesmo passado era a razão de eu ainda estar vivo. E, no caso do Hering, sem essas memórias, ele jamais teria encontrado a Mia.
“É… se não fosse pelas minhas memórias, eu provavelmente já estaria morto há muito tempo”, respondi.
A partir do momento em que a Zola me vendeu, meu destino teria sido o pior possível. Eu realmente devia minha sobrevivência à reencarnação com memória intacta.
Hering forçou um sorriso.
“Você realmente deve ter passado por maus bocados.”
“Só de ter você aqui já ajuda bastante. Não dá pra ir até aquela brigada de idiotas com esse tipo de preocupação.”
“Mas você ainda tem a Marie, não tem?”
De certa forma, era verdade que Marie estava no mesmo barco que nós, mas havia uma diferença importante entre ela e Hering.
“Ela nunca matou ninguém numa guerra”, eu disse.
“É… verdade.” Hering desviou o olhar. “Acho que esse tipo de assunto realmente não é algo que você possa discutir com ela. Melhor que as mãos dela permaneçam limpas.”
Concordei com um pequeno aceno. Não importava o quanto eu pensasse nisso, Marie e campo de batalha não combinavam nem um pouco.
Hering levou a mão ao queixo, pensativo.
“Se estivéssemos em Vordenoit, poderíamos pedir conselho a Sua Majestade Imperial.”
Meu queixo caiu.
“Você quer dizer… o imperador? Nossa, vocês devem ter uma relação bem próxima pra você dizer isso com tanta naturalidade.”
Só o fato de ele sugerir aquilo tão casualmente já parecia absurdo.
Os olhos de Hering se arregalaram quando ele percebeu.
“Ah. Eu ainda não tinha te contado, tinha? O nosso imperador — quer dizer, o pai da Mia — também reencarnou aqui.”
“Tá brincando comigo?!”
Aquilo estava começando a ficar ridículo. Quantas pessoas exatamente tinham reencarnado nesse mundo?
Enquanto eu ainda tentava digerir a revelação, Hering continuou: “Ele pode ser um velho chato, mas é confiável em momentos assim. Não viveu tanto tempo à toa. Além de compartilhar esse tipo de experiência, ele já teve uma vida inteira para acumular sabedoria. Se ao menos houvesse alguém assim no reino com quem pudéssemos conversar…”
As palavras dele fizeram uma ideia surgir de repente na minha cabeça.
“Erica…”, murmurei.
***
Fui atrás de Erica imediatamente. Por ser dia de semana, ela estava cercada por uma comitiva enorme, mas o grupo abriu caminho assim que me aproximei. Consegui convidá-la para um dos salões de chá, onde nos acomodamos para conversar sobre o problema que vinha me atormentando.
“Então, tio… só para ter certeza de que entendi corretamente: o senhor está profundamente preocupado com a diferença entre os seus valores e os da Srta. Angélica, certo?”
“Isso mesmo.”
Sinceramente, era meio constrangedor pedir conselhos amorosos para minha sobrinha, mas eu não tinha muitas alternativas. Entre todas as opções, ela parecia ser a mais confiável.
Como se quisesse debochar da minha hesitação, Luxion tratou de comentar: “Embora ela seja sua sobrinha, tem muito mais experiência de vida do que você.”
“Você nunca pensou em demonstrar um pouco mais de respeito pelo seu mestre? Eu até poderia ser mais gentil com você se mostrasse um mínimo de compaixão.”
“Desnecessário. Não preciso da sua ‘gentileza’.”
Erica riu ao nos observar.
“Vocês realmente têm uma amizade próxima.”
Ótimo. Mais uma pessoa confundindo hostilidade constante com intimidade saudável.
“Erica, você não percebe o quão rude e desrespeitoso esse idiota é?”, perguntei.
“É importante ter amigos com quem se possa falar livremente, tio.” Ela sorriu com doçura. “E, da mesma forma, dá para ver o quanto a Srta. Angélica é importante para você.”
Por mais que eu tentasse encarar aquilo com leveza, Erica tinha uma serenidade que tornava difícil lembrar que, fisicamente, ela ainda era mais nova do que eu.
Desviei o olhar.
“Bem… já passamos por muita coisa juntos.”
“O senhor deveria simplesmente ser honesto e dizer que a ama. Tio, o senhor realmente não é do tipo que se abre, é?”
“Me abrir? Eu vivo sendo honesto. Falo tudo o que penso assim que passa pela cabeça, e é justamente por isso que todo mundo se afasta”, respondi, soltando uma risada.
Erica continuou sorrindo, mas seu olhar permaneceu fixo em mim de um jeito desconcertante, como se enxergasse diretamente através da minha superfície. Apressei-me em desviar os olhos outra vez. Felizmente, em vez de me repreender, ela decidiu me oferecer um caminho.
“Se o senhor realmente deseja ficar ao lado da Srta. Angélica, então tratá-la apenas com gentileza não vai trazer o resultado que espera.”
“Hã?”
Virei o rosto de volta para ela. O sorriso havia desaparecido; agora, Erica falava com total seriedade.
“A Srta. Angélica quer apoiá-lo. Não… mais do que isso. Ela quer permanecer ao seu lado como sua igual e construir conquistas próprias.”
“Sério? É isso que a Angie quer?”
“Tio, o senhor esqueceu? Por um tempo, a Srta. Angélica estava destinada a se tornar a rainha de Holfort.”
Era verdade. Se Marie não tivesse interferido, o noivado com Julius a teria levado diretamente ao posto de rainha. Eu sabia disso. Não era como se tivesse esquecido.
“Não, eu sei muito bem disso”, respondi.
“Então o senhor ainda não compreendeu o que isso significa.” Erica baixou um pouco a voz. “A Srta. Angélica foi criada e educada para reunir todas as qualidades exigidas de uma rainha. Para alguém como ela, ser apenas protegida e mimada é sufocante.”
Então era isso. Ela não queria simplesmente ficar sentada enquanto eu a protegia. Na verdade, eu já tinha ouvido algo parecido dela antes. O problema era que nós dois pensávamos de forma muito diferente. Eu me contentava em escolher o caminho mais fácil, deixando tudo que pudesse nas mãos do Luxion.
“Ela quer estar ao seu lado — ver o que o senhor vê, sentir o que o senhor sente, confiar no senhor, sim, mas também fazer com que o senhor confie nela. O problema é que o senhor consegue resolver tudo sozinho.”
“Eu não chamaria isso exatamente de ‘sozinho’…”, murmurei.
Um leve sorriso voltou aos lábios de Erica quando ela inclinou um pouco a cabeça.
“Deixe-me lhe ensinar um truque — um que talvez ajude a resolver perfeitamente seus problemas de relacionamento.”
***
Poucos dias depois do encontro desastroso com Leon, Angie caminhava pelo corredor da academia após o fim das aulas. Para ser mais exato, quem a puxava era Livia, e, embora Angie não demonstrasse o menor interesse em seguir adiante, Livia não parecia disposta a desistir.
“Angie, já passou da hora.”
“Calma, Lívia. Assim que eu terminar mais algumas coisas, eu vou…”
Livia balançou a cabeça na mesma hora. A desculpa de Angie era tão transparente que nem valia a pena fingir que acreditava.
“Não. Você está planejando manter distância do Sr. Leon e não fazer nada, não é?”
“Como eu poderia encará-lo?”, perguntou Angie, envergonhada. “Não quero que ele me odeie ainda mais do que já deve odiar.”
“Então isso é motivo de sobra para se encontrar com ele! Tenho certeza de que todo mundo já está lá.”
Livia continuou puxando Angie até chegarem ao destino: uma sala de aula.
Naquele horário, as salas já deveriam estar vazias e silenciosas, mas não era exatamente isso que acontecia ali. A voz de Leon atravessava a porta com força.
“Eu já disse que não, não e claro que não!”
Outras vozes também se misturavam ao tumulto. Angie e Livia trocaram olhares.
“Que tipo de reunião é essa?” Angie estreitou os olhos. “Você sabe, não sabe, Lívia?”
Livia balançou a cabeça.
“Não. Só sei que isso tem a ver com o Sr. Leon tentando compensar você.”
“O quê?”
Só de ouvir que Leon queria consertar as coisas, o coração de Angie se agitou. Ainda assim, antes que pudesse organizar os pensamentos, a voz dele voltou a ecoar do outro lado da porta.
“Vão embora! Saiam daqui! Estou implorando!”
Leon estava praticamente urrando, pedindo para quem quer que estivesse ali dentro sair. E, pelo barulho, o alvo daquilo tudo não parecia nem um pouco disposto a obedecer.
Reunindo coragem, Angie abriu a porta.
Assim que espiou para dentro, deu de cara com os suspeitos de sempre.
Noelle estava ali. Hum? O príncipe Jake e os amigos dele também? E até os estudantes de intercâmbio do império… espera, a princesa Erica também?!
A sala era um auditório, com fileiras de carteiras dispostas em níveis elevados. Leon estava em pé no centro, junto ao púlpito, batendo repetidamente a mão aberta contra ele. Bem à sua frente estavam Marie e seu alegre bando. Era como se, naquele momento, os papéis habituais tivessem se invertido: Leon era quem implorava.
“Eu não chamei vocês aqui! Por favor, só vão embora! Eu pago pra vocês saírem daqui!”
Mesmo diante da oferta em dinheiro, Marie e os outros se recusavam a ceder. Em circunstâncias normais, bastava Leon acenar com alguma quantia que todos obedeciam na hora.
“E deixar vocês se divertirem sozinhos?!” Marie berrou, agarrando-se ao púlpito como se fosse uma tábua de salvação. “Nem pensar! Absolutamente não!”
Logo atrás dela, Julius avançou com os olhos injetados.
“Leon, nós somos amigos, não somos? Então leva a gente junto!”
“Desde quando a gente é amigo?!”
“Desde agora!”
“Cala a boca e dá o fora!”
E Julius estava longe de ser o único insistindo.
“Leon”, disse Jilk, “nós somos seus subordinados. Não acha frio da sua parte dispensar a nossa ajuda?”
“Já te ocorreu que eu não pedi ajuda justamente porque não quero vocês aqui? Cai fora!”
Brad empurrou Jilk para o lado.
“Mas esta é claramente a minha chance de brilhar, não é? Minha habilidade com magia me torna essencial para essa missão. Não precisa ficar tímido — é só dizer que quer me levar.”
“Eu não preciso de você! Vai pra casa e aproveita pra refletir sobre a própria vida!”
Greg também não quis ficar para trás. Depois de afastar Brad com uma cotovelada, tomou a dianteira.
“Vamos, Leon, você tem que me levar. Esses caras são todos amadores, mas eu tenho experiência nesse tipo de coisa. É só me incluir. Eu não vou te decepcionar!”
“Vai pra casa, idiota.”
“Heh heh, então isso foi um elogio? Ou seja, eu estava certo.”
“Desculpa, retiro o que disse. Vai pra casa.”
Leon estava claramente perdendo as forças para continuar resistindo.
Greg fez pose diante dele, tentando exibir os músculos, mas acabou levando um chute rápido de Chris, que tomou a frente em seguida para defender sua própria causa.
“Leon, eu vou ser útil, juro. Nós passamos um tempo juntos na República de Alzer, lembra? Somos uma equipe! Compartilhamos o mesmo destino. Somos camaradas que confiam a própria vida um ao outro. Por favor, permita que eu acompanhe essa aventu—” No instante em que Angie ouviu aquela palavra, disparou para a frente e empurrou Chris para o lado.
“Vocês vão sair numa aventura?!”
“Uau?!” Chris gritou ao cair.
Angie simplesmente não tinha margem emocional para se importar com o que acontecia com ele.
Leon recuou diante da intensidade da empolgação dela.
“S-sim. Bem… eu estava pensando em ir caçar um tesouro, e pretendia usar o dia de hoje para planejar a viagem.”
Quando Angie olhou melhor ao redor, percebeu um mapa extremamente detalhado pregado no quadro-negro. Pelo visto, Marie e seu grupo tinham se intrometido bem no meio da preparação e transformado tudo em confusão.
Ela avançou, empurrando Marie e Julius para fora do caminho no processo.
“E o fato de você ter me chamado significa que pretendia me levar junto, certo?”
O rosto dos dois ficou vermelho quando ela se aproximou tanto que seus narizes quase se tocaram. No caso de Leon, era puro constrangimento. No de Angie, ansiedade.
Leon deu um passo para trás, recuperando algum espaço, e pigarreou.
“Claro. Eu pretendia acertar isso com você. Vou levar o Einhorn para que possamos viajar até a ilha flutuante onde esse tesouro supostamente está.”
Ele bateu com o punho no mapa atrás de si.
Angie se aproximou do quadro-negro, concentrando o olhar no desenho.
“Isso é muito detalhado. Até o papel parece novo. É autêntico?”
“Sim, sem dúvida. Foi o Luxion que conseguiu.” Leon inclinou o queixo na direção do parceiro.
Seguindo o olhar dele, Angie voltou-se para Luxion. A lente vermelha subiu e desceu, como se ele estivesse assentindo.
“Correto. Peguei um mapa antigo e melhorei sua apresentação geral.”
“Você realmente é capaz de qualquer coisa.”
Devidamente impressionada, Angie tornou a observar o mapa.
“E este prédio aqui? Uma fortaleza antiga?”
“Uma masmorra dentro de uma fortaleza antiga em ruínas!” Marie interrompeu. “Vai ter pedras mágicas e um monte de tesouros. Se a gente limpar tudo, acaba essa vida miserável de pobre! Não vou mais precisar implorar pro Big Br— quer dizer, pro Leon… por restos também!”
A fala animada de Marie reacendeu o interesse de Julius e dos outros.
“Então isso significa que a Marie vai passar menos tempo com o Leon”, disse Julius. “Se encontrarmos esse tesouro, teremos mais tempo com ela. Eu me odiaria se deixasse passar uma oportunidade dessas!”
Marie e seu grupo falavam como se o tesouro já fosse deles, o que irritou Angie profundamente. Mesmo assim, ela escolheu ignorá-los e pressionou Leon por mais detalhes.
“Eu vou”, declarou. “Então, quando faremos isso? Quando partimos?”
Tão concentrada na perspectiva da aventura, Angie esqueceu por completo todo o constrangimento entre eles e agarrou Leon pelos braços, puxando-o para perto num abraço.
Leon enrijeceu.
“Eu chamei você aqui justamente pra decidirmos a data, mas aí esses parasitas apareceram sem ser convidados.”
Ele lançou um olhar na direção de Jake e do grupo dele.
Jake cruzou os braços diante do peito, sorriu e declarou com toda a pose: “Eu dificilmente poderia me considerar um homem da nobreza de Holfort se ouvisse falar de uma aventura tão empolgante e me recusasse a participar.”
Então olhou por cima do ombro.
“Eri, você também vem, não é?”
Ah, então é isso, pensou Angie. Ele só quer se exibir na frente da garota de quem gosta. Hmph. Que decepção. Esse espírito aventureiro dele é completamente falso.
Sua impressão do segundo príncipe despencou na mesma hora.
Erin uniu as mãos diante do peito.
“Se me permitirem a honra de participar, eu ficarei encantada.”
“Heh heh, não se preocupe. Duque Bartfort, nós também iremos.”
Jake falou como se sua participação já estivesse garantida, mas Leon respondeu com um olhar frio.
“Vocês são do primeiro ano. Não vão servir pra nada lá fora. Seus traseiros vão continuar muito bem plantados aqui.”
“Isso mesmo. Vão pra casa!” Julius latiu para Jake, enquanto seus quatro amigos se juntavam ao coro de zombaria.
“O que você disse?! Um fracassado deserdado não tem o direito de ditar minhas ações!”
E assim explodiu mais uma guerra sem limites entre irmãos.
Leon soltou um suspiro pesado.
“Julius, você também pode ir pra casa, sabia?”
“Leon, não seja tão frio! Não tínhamos estabelecido que somos amigos?!”
“Para com isso! Não se agarra na minha perna!”
A sala voltou a mergulhar no caos, e só voltou a se acalmar quando Oscar finalmente abriu a boca.
“Pessoalmente, eu gostaria de ter a oportunidade de juntar algum dinheiro para o meu futuro com a Srta. Jenna. Cunhado, não me daria a honra de ir junto?”
Oscar fez o pedido com tanta naturalidade que só tornava tudo ainda mais estranho, considerando o triângulo amoroso complicado por trás daquilo. Prendendo a respiração, todos os olhares se voltaram para Leon. Afinal, aquilo era um problema interno da família Bartfort, então a decisão final cabia a ele.
Oscar, alheio à tensão repentina no ambiente, insistiu: “Eu farei qualquer coisa de que precisarem, até trabalho braçal, mas por favor, imploro, me dê esta chance de me tornar um homem digno da Srta. Jenna!”
Leon fez uma careta, dividido diante da sinceridade dele.
“Eu já acho que você é digno o bastante dela. Na verdade, até me sinto mal por você ter acabado com ela. Então, por favor, não abaixe a cabeça. Eu entendo de onde você está vindo. Pode ir junto.”
“Sério?! Que bênção, príncipe Jake! Então parece que eu posso ir.”
Jake ficou vermelho na hora e gritou de volta: “Você devia estar implorando para que eu — seu mestre — fosse junto!”
“Hã? Mas por que isso seria culpa minha?”
Oscar inclinou a cabeça, genuinamente confuso, como se não conseguisse sequer entender por que aquilo seria responsabilidade dele.
Conforme o caos recomeçava na sala, Livia se aproximou de Angie.
“Hum, Angie?”
Percebendo a preocupação na voz dela, Angie a abraçou.
“Lívia, uma aventura! Nós vamos embarcar numa aventura! E não como aquelas que já vivemos antes — quero dizer uma aventura de verdade. Pode até ser uma masmorra ainda inexplorada.”
Os olhos dela brilhavam intensamente.
“Você vai também, não vai? Vai, né?!”
O rosto de Livia se contraiu levemente, mas, mesmo assim, ela assentiu.