“Mal posso acreditar no que estou ouvindo. Então ele rompeu com o duque Redgrave e se aliou à família real?”
Ethan ficou sabendo da saída de Leon e Julius pela capital no dia seguinte. O duque Redgrave havia rejeitado a própria filha, mas Leon manteve o noivado com ela. Além disso, ele fora visto caminhando pela cidade ao lado de Julius. A única conclusão possível era que ele havia escolhido o lado da família real. Havia outras evidências sustentando essa interpretação, e Ethan confiava plenamente em suas fontes.
Seu rosto se contorceu.
Aquilo mudava completamente seus planos.
“Isso significa que, nesse ritmo… Lady Erin vai acabar se casando com o príncipe Jake!”
Ethan levou as mãos à cabeça, encolhendo-se em desespero enquanto sua mente voltava ao primeiro encontro com ela.
Poucos dias após a cerimônia de entrada na academia, ele já se sentia enojado com a mediocridade dos colegas. Não fez nenhum esforço para interagir com eles, mantendo distância. Afinal, ele era diferente. Esse pensamento acabou o isolando completamente.
Naquela época, apenas uma pessoa se aproximou dele: Erin.
Ela provavelmente nem se lembrava, mas o chamou enquanto ele estava sozinho. A conversa durou apenas alguns minutos, e eles não falaram de nada particularmente importante. Ainda assim, o coração de Ethan disparou. Foi só depois que ela foi embora que ele percebeu o que aquilo significava.
“Lady Erin é a mulher perfeita. E como não seria? Um homem perfeito se apaixonou por ela. Ainda assim… não consigo entender como ela pode se dar tão bem com o príncipe Jake. O destino dele é a execução, como convém a um príncipe de um reino condenado. Mas agora… tudo mudou!”
Ethan só havia desistido de Erin — e permitido que Jake desfrutasse de sua companhia — porque acreditava que aquilo seria temporário. Que o tempo de Jake era curto. Que sua vida logo chegaria ao fim.
Mas agora Leon havia escolhido apoiar a família real.
Isso tornaria os senhores regionais — que desejavam ver Holfort cair — muito mais cautelosos. Na verdade, um deles já havia abandonado a facção do duque Redgrave. A própria casa Robson também enviara novas ordens a Ethan, instruindo-o a agir com extrema prudência dentro da academia.
Isso significa que as chances de execução do Jake diminuíram drasticamente!
“Como tudo saiu tão diferente dos meus planos?! Eu sou um gênio!”
Ethan acreditava nisso com cada fibra do seu ser. Por isso, deixou de lado qualquer preocupação com sua posição e decidiu agir conforme julgava necessário.
“Não tenho escolha. Vou traçar uma linha na areia.”
Tudo o que ele faria a partir dali seria por Erin — para transmitir seus sentimentos a ela.
***
Hering e eu caminhávamos pelo corredor da academia, acompanhados por nossos dois parceiros claramente hostis.
Luxion encarava Brave com um olhar afiado, suas lentes vermelhas brilhando de forma ameaçadora. Brave retribuía com igual hostilidade, as veias em seus olhos ainda mais evidentes do que o normal. Era possível sentir as faíscas no ar — e não no bom sentido — enquanto flutuavam atrás de nós.
Hering, por sua vez, havia afrouxado o colarinho da camisa. Ele parecia tenso.
“Eu vou fazer isso”, declarou. “Vou ver com meus próprios olhos se Robson é digno da Mia.”
Sua expressão se endureceu, os olhos se estreitando como se estivesse prestes a entrar em batalha.
“Você pretende se apresentar para ele ou assassiná-lo? Dá pra sentir a hostilidade saindo de você. Se controla.”
“M-minhas desculpas. Não consigo evitar… fico tenso nessa situação.”
Comecei a sentir um pouco de pena do Robson. Ele não fazia ideia do que estava vindo em sua direção.
Mas, sendo um dos interesses amorosos do jogo, já tínhamos motivos suficientes para desconfiar. Os outros não tinham passado exatamente uma boa impressão.
Talvez seja melhor guardar qualquer simpatia até depois de avaliarmos o sujeito.
Hering evitava olhar diretamente para mim.
“Bartfort…”
“Só me chama de Leon. O que foi?”
“Nesse caso… Leon, pode me chamar de Finn. Mas indo direto ao ponto… hipoteticamente, se você estivesse na minha situação e o Robson se mostrasse indigno da Mia… o que você faria?”
Era um tanto pessimista considerar o pior cenário antes mesmo de conhecê-lo. Mas, por outro lado, dadas minhas experiências nesse mundo, o pessimismo costumava ser a opção mais segura.
“Pra começar, não tenho absolutamente nenhuma expectativa em relação a nenhum dos interesses amorosos, então isso nem seria um problema. Além disso, você mesmo disse que iria treiná-lo se ele falhasse, não foi?”
Hering — ou melhor, Finn — assentiu, hesitante.
“S-sim… você tem razão. Se ele não corresponder, posso treiná-lo pessoalmente. Se eu o forçar a enfrentar a morte algumas vezes, certamente ele vai se tornar alguém respeitável. Não acha?”
“Se seus padrões são tão altos, a Mia vai acabar solteira pra sempre.”
Finn estava claramente tentando conquistar uma medalha olímpica na categoria superproteção.
Quando nos aproximamos das salas dos alunos do primeiro ano — onde esperávamos encontrar Robson — um grande tumulto chamou nossa atenção.
“Eles estão bem barulhentos.”
Achei que fosse só agitação normal, mas Finn inclinou a cabeça.
“Não, isso não é comum. Aconteceu alguma coisa.”
Curiosos, apressamos o passo — bem a tempo de ouvir a voz de Mia vindo da sala.
“Se vocês são homens de verdade, lutem de forma justa e honesta!”
Espera… a Mia está bem?
***
O problema havia começado antes mesmo de chegarmos.
Jake e Ethan se encaravam com olhares carregados de hostilidade. Havia uma diferença clara de altura entre eles — Ethan era várias cabeças mais alto —, mas ambos estavam igualmente dominados pela raiva.
“Repete isso”, rosnou Jake.
“Eu disse que você é indigno da Lady Erin”, respondeu Ethan friamente. “Você afastou seu irmão mais velho, mas nem sequer conseguiu se tornar príncipe herdeiro. Como ousa pensar que merece alguém tão gentil quanto ela?”
Uma veia saltou na testa de Jake.
“Você fala isso com tanta facilidade porque roubou sua herança depois de se livrar do próprio irmão. Mas, sendo um ‘gênio’, você é surpreendentemente cego quanto ao valor das pessoas. Está dizendo que eu sou inferior ao meu irmão?”
Os colegas observavam, tensos. A falta de respeito de Ethan era escandalosa. Mesmo sendo alunos, aquilo não os isentava das regras sociais. E, como se não bastasse, Jake parecia ter esquecido completamente a proibição da academia sobre discutir sucessão.
O clima ficou tão pesado que os sussurros começaram a se espalhar.
“Chamamos a princesa Erica?!” “Ela foi embora mais cedo — exame de saúde!” “E o Lorde Oscar?!” “Acabou de sair pra encontrar a namorada!” “Por quê?! Logo agora?!”
A ausência de bom senso de Oscar só aumentava o desespero geral.
Sem outra opção, os olhares recaíram sobre Finley.
Algumas alunas se aproximaram.
“Senhorita Finley, pode nos ajudar?”
Ela já sabia o que queriam. Suspirou e se levantou.
“Querem que eu use o nome do meu irmão pra resolver isso, certo? Tudo bem.”
Desde que entrara na academia, Finley vinha sendo cada vez mais usada como mediadora. Já estava tão acostumada que caminhou até os dois com segurança.
“Vocês dois se importam se eu interromper por um momento?”, perguntou com uma voz doce.
Os dois a encararam, mas pareciam prestes a explodir.
“Vocês estão deixando todo mundo desconfortável. Que tal deixarem essa briga de lado por enquanto? Quanto mais atenção chamarem, pior vai ficar. Então… o que acham?”
Era uma sugestão razoável. O mais sensato seria recuar.
Mas, infelizmente— “Cala a boca, Bartfort”, disse Jake. “Nem o seu irmão vai me parar hoje.”
“Também não posso recuar”, acrescentou Ethan, sorrindo com desdém. “Senhorita Bartfort, lamento.”
Nenhum dos dois cedeu.
Tudo aquilo… por causa de uma única garota.
Lágrimas surgiram nos olhos de Finley.
“Eu só quis dizer… não é bom vocês brigarem…”
Com a falha da tentativa, o ambiente ficou ainda mais pesado. Alguns alunos começaram a sair da sala.
Foi então que alguém bateu com força na mesa e se levantou.
“Até quando vocês dois vão continuar com isso?!”
Todos se viraram.
Era Mia.
A sala ficou em silêncio.
Mesmo com as bochechas levemente coradas, ela continuou: “Se vocês são homens de verdade, então lutem de forma justa!”
Um burburinho se espalhou, mas Jake e Ethan permaneceram em silêncio, encarando-se.
“É patético ver homens discutindo assim”, continuou Mia. “Se a garota que vocês amam visse isso, ficaria decepcionada.”
Os dois vacilaram.
“Se vocês realmente são homens… e se realmente gostam dela… então lutem direito!”
“Você tem razão”, disse Jake. “Erin não ficaria feliz me vendo agir assim.”
Ethan assentiu.
“Senhorita Mia… você é a aluna transferida, certo? Graças a você, meus olhos foram abertos.”
Mia sorriu, satisfeita.
“Então vocês entenderam! Vão até ela e confessem seus sentimentos!”
Mas não era isso que eles entenderam.
Os dois voltaram a se encarar.
“Não tenho luvas comigo, mas ainda assim o desafio para um duelo justo. Erin será o prêmio”, declarou Jake.
“Uma luta limpa para decidir o vencedor… não tenho objeções”, respondeu Ethan. “Só espero não te machucar demais. Afinal, você ainda é um príncipe.”
A sala explodiu em excitação.
“Um duelo?!” “Por uma garota?!” “Isso é incrível!”
Mia ficou parada, boquiaberta.
“Hã? Espera… por que um duelo?! Era só vocês falarem com ela!”
Mas ninguém mais estava ouvindo.
Quando Finn finalmente entrou, Mia correu até ele, à beira das lágrimas.
“Senhor Cavaleiro!”
“O que aconteceu, Mia?! Quem te fez algo?!”
“Dois alunos vão duelar… e a culpa é minha!”
Finn virou-se lentamente para mim.
“Duelo?”
Cocei a cabeça, lançando um olhar para os calouros agitados.
“Relaxa. Isso aqui já virou rotina.”
“Rotina?!”
***
Assim, começou mais um duelo entre homens por causa de outro homem.
Os alunos se reuniram nas arquibancadas da arena, ansiosos pelo espetáculo. Nós, do último ano, também fomos assistir. As garotas, em especial, estavam animadíssimas com a situação.
“Eles vão duelar por uma garota?!” “Parece coisa de romance!” “Ouvi dizer que já aconteceu algo assim antes!”
As pessoas ao meu redor fizeram cara amarga com essa última observação.
Minhas noivas estavam próximas, e Marie também estava ali com seu grupo de inúteis. Daniel e Raymond sentaram-se bem à minha frente.
“Leon, eles estão falando de você.”
“Você anda popular entre os calouros, hein?”
“Eu não entrei naquele duelo porque quis”, respondi secamente. “E também não teve nada de romântico naquilo. Eu só espanquei aqueles idiotas.”
Raymond apoiou o queixo na mão.
“Como as coisas mudaram… Naquela época, achávamos que você era praticamente um pária da nobreza.”
“Pois é”, disse Daniel. “Difícil acreditar que você é um duque agora. E, ainda por cima, anda com o príncipe e companhia.”
Sinceramente, eu também queria saber como diabos cheguei até aqui.
Tudo o que fiz foi esmagar aqueles caras num duelo.
Por que isso acabou me transformando, na prática, no guardião deles?
O destino, às vezes, era cruel de um jeito bem específico.
Noelle se inclinou no assento à minha direita, apoiando os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos entrelaçadas. Ela parecia irritada enquanto lançava um olhar de reprovação para a arena, onde as duas Armaduras se encaravam.
“Leon, você também participou de um duelo quando estava na república, não foi? E aquilo foi no seu segundo ano. O que significa que você está fazendo um por ano. Este país é assustador.”
Balancei a cabeça com vigor.
“Você disse tudo. Eu sou só um cara doce e sensível. Dá pra entender por que vivo cheio de ansiedade por ter nascido nesse país bárbaro.”
“É o que você diz… mas, se é assim, por que parece estar se divertindo?”
“Porque eu não faço parte deste duelo. E, de qualquer forma, eles chamam isso de ‘duelo’, mas não é como se a vida de nenhum dos dois estivesse realmente em jogo. É só um espetáculo. Não há nada de errado em apreciar um espetáculo.”
Noelle ergueu uma sobrancelha.
“O simples fato de você conseguir se divertir com isso já prova que você se encaixa perfeitamente aqui.”
Livia, sentada à minha esquerda, cutucou meu braço. Quando olhei para ela, fez um gesto na direção de Julius e dos outros.
“Sr. Leon, eles estão olhando.”
Segui seu olhar e encontrei os cinco me fuzilando com os olhos.
“Admito que enfrentar você num duelo foi um erro”, disse Julius. “Se eu pudesse voltar no tempo, seria a última coisa que faria.”
Jilk balançou a cabeça.
“Sim. Deveríamos ter sido muito mais cautelosos.”
“Você era um covarde completo”, disse Brad, com a testa franzida. “Sabia que não tinha como perder, e foi só por isso que nos desafiou.”
Greg cruzou os braços, a perna balançando de irritação.
“Meu sangue ferve só de lembrar das merdas que você falou.”
As lentes dos óculos de Chris brilharam de forma estranha.
“Nossos ânimos foram destruídos naquele duelo. Nunca vou esquecer aquilo, e juro que um dia ainda vou fazer você pagar.”
Pra ser sincero, eles quase conseguiram me fazer sentir um pouquinho culpado.
Cocei a cabeça.
“Desculpem, pessoal. Eu realmente não imaginava que vocês fossem tão fracos. Se algum dia a gente topar fazer algo assim de novo, prometo pegar mais leve. Então não fiquem tão zangados comigo.”
Ri da indignação estampada no rosto deles.
Angie, sentada logo atrás de mim, bateu nas minhas costas.
“Seu idiota, não provoca eles.”
“Ótimo, agora a Angie também ficou irritada comigo.”
Com os ombros caídos, virei-me para Marie. Ela estava sentada ao lado de Carla, e cada uma segurava uma bebida em uma mão e um lanche na outra enquanto assistiam à luta. Minha irmã horrorosa, como sempre, não estava nem um pouco menos absurda do que de costume.
“Isso é mais entretenimento do que qualquer coisa séria. Vai logo e começa de uma vez!”, ela gritou, antes de virar a bebida inteira de um gole só.
Ei, espera um pouco.
Não me diga que isso é álcool.
Ainda é meio-dia! Como é que você está bebendo uma hora dessas?!
“Lady Marie, sua capacidade de beber tudo de uma vez é incrível!” Carla parecia absolutamente encantada.
Mas encantada com o quê, exatamente?
Quando olhei por cima do ombro, vi Finn e Mia sentados logo ao lado. Mia parecia especialmente nervosa, já que se sentia responsável por toda aquela confusão. Já Finn olhava para Jake e Ethan com um ódio assassino, como se os dois tivessem cometido um pecado imperdoável só por perturbarem Mia. Eu conseguia até ouvi-lo murmurar baixinho: “Vou fazer esses dois se arrependerem…”
É. “Superprotetor” talvez ainda fosse uma descrição branda demais.
Luxion pairava perto de mim, então perguntei: “E aí? Quem você acha que vai ganhar essa?”
“Está planejando apostar de novo?”
“Claro.”
Depois de uma breve pausa, ele respondeu: “Em termos de habilidade pura, Ethan tem a vantagem. Isso supondo que o duelo sequer comece sem interrupções. Existe uma possibilidade considerável de que ele seja cancelado antes.”
“Sim, acho que você tem razão.”
Afinal, esse duelo girava em torno de uma pessoa cuja mudança de sexo não era reconhecida legalmente.
***
A pessoa no centro de toda essa confusão, Erin, estava sentada na área reservada aos convidados de honra.
A voz de uma aluna ecoou por todo o estádio enquanto a narradora, claramente empolgada, anunciava: “Dentro de instantes, teremos um duelo entre dois homens pelo afeto de uma única mulher! De um lado, o segundo príncipe! Do outro, o herdeiro de uma casa condal! E o nome da jovem que conquistou seus corações é… ahn… espera… o quê?”
A garota parou no meio da fala enquanto examinava, incrédula, as informações diante de si. Suas sobrancelhas se juntaram em confusão.
Erin permaneceu sentada, com os olhos firmemente fechados e as mãos cruzadas no colo.
A aluna continuou, atordoada com a revelação que estava prestes a compartilhar: “Hum… na verdade, parece que, embora a Srta. Erin tenha a aparência de uma garota, ela está oficialmente registrada como estudante do sexo masculino sob o nome Aaron. Hum… o que diabos está acontecendo?”
Um burburinho tomou conta da arena.
“Um homem? Ela é um homem?!” “Hã? Mas dá pra ver claramente que ela é uma garota.” “O que está acontecendo aqui?”
De repente, toda a academia passou a saber da identidade original de Erin.
Ela estava preparada para ouvir insultos e desprezo. Mas não era isso o que mais a assustava.
O príncipe Jake vai me odiar agora.
Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela. Seu sonho tinha durado tão pouco.
“Erin, levanta a cabeça!”, gritaram alguns de seus amigos — os poucos que já conheciam seu passado.
“Isso mesmo, você não fez nada de errado!” “Pra nós, você continua sendo uma deusa!”
Alguns rapazes se apressaram em defendê-la, e Erin finalmente ergueu o rosto. Entre eles, avistou Curtis.
“Vocês…”, murmurou.
As lágrimas caíram com ainda mais força ao ouvir aquele apoio caloroso.
Infelizmente, a reação oposta também surgiu.
“Então esses dois estão brigando por outro cara?” “Isso não transforma tudo isso numa farsa?” “Não tem como esse duelo ser legítimo.”
Os valores sociais desse mundo eram rígidos, e alguém como Erin era uma raridade quase inimaginável. Muitos alunos simplesmente não conseguiam aceitá-la.
Foi então que a voz de Jake ecoou do ringue, onde ele já estava a bordo de sua Armadura.
“E daí?! Acham que eu me importo se ela já foi um homem? Isso não muda nada sobre quem ela é! Eu pretendo levar este duelo até o fim. Ethan, se quiser desistir, então desista. Mas, se fizer isso, nunca mais chegue perto da Erin!”
Ethan ergueu sua arma.
“O fato de meu coração ainda vibrar prova que meus sentimentos são genuínos. Conceitos mesquinhos como gênero não significam nada para um gênio como eu!”
Os dois estavam completamente prontos para seguir em frente, mas o árbitro ainda parecia perdido, sem saber se podia permitir aquilo.
Das arquibancadas, as vozes continuavam a se acumular.
“Hã? Então eles não ligam se estão lutando por um cara?” “Então o duelo vai mesmo acontecer?” “Aaron? Mas ela claramente parece uma garota. O que é isso? Será que trocou de lugar com o verdadeiro Aaron ou alguma coisa assim?!”
Os espectadores simplesmente não conseguiam compreender o que estava acontecendo. Aos olhos de todos, Erin era uma mulher. Ainda assim, os registros oficiais afirmavam o contrário.
Após uma breve pausa, o árbitro finalmente se posicionou.
“Muito bem! Lutem de forma justa e limpa! Comecem!”
O homem parecia estar perdendo a sanidade enquanto gritava, mas, ao seu sinal, as duas Armaduras avançaram e colidiram com violência, espalhando faíscas.
***
“Eu já nem sei mais o que está acontecendo”, admiti honestamente.
Dois interesses amorosos estavam oficialmente lutando entre si por causa de outro interesse amoroso. E, com isso, os três haviam praticamente saído da disputa para se tornarem o futuro parceiro de Mia.
E, embora existisse a possibilidade de surgirem novos candidatos entre os alunos do próximo ano, já era bastante seguro dizer que aquilo tinha saído totalmente dos trilhos. Apoiei a cabeça nas mãos.
Pelo canto do olho, notei Oscar sentado entre Jenna e Finley. Como era de se esperar, estava torcendo fervorosamente por Jake.
“Isso, Alteza! Acerta ele bem aí! Vai!”
Finley e Jenna, por outro lado, nem estavam prestando atenção à luta. Estavam ocupadas demais encarando uma à outra como duas delinquentes prestes a sair no tapa.
Da minha parte, eu já estava pronto para erguer as mãos em derrota.
Livia observava atentamente enquanto os dois rapazes duelavam em suas Armaduras.
“Só faz dois anos desde que você duelou aqui, mas aquela luta não foi tão equilibrada.”
Como Luxion tinha previsto, Ethan possuía a vantagem. A diferença não era absurda, mas ainda assim Jake estava em desvantagem.
Atrás de mim, Angie ofereceu sua própria análise.
“As alegações de gênio de Ethan não são puro exagero. Ele é realmente forte. Mas o príncipe Jake tem determinação. Ele sempre foi um trabalhador incansável, então os dois formam um confronto bem equilibrado.”
Imaginar Jake treinando com tanta seriedade tornava o sujeito um pouco mais simpático. Quase senti meus pontos de afeição subirem. Quase. Claro que eu não tinha a menor intenção de deixá-lo me conquistar ou algo assim.
“Isso me dá vontade de torcer pelo Jake”, confessei.
Angie riu.
“Talvez. Mas também é incomum ver alguém tão indiferente quanto Ethan demonstrando tanta determinação. É impressionante que Erin tenha conseguido enfeitiçar os dois. Embora, sinceramente, ela seja linda… desculpe, quer dizer, ela é uma garota, não é?”
Balancei a cabeça.
“É, definitivamente é. A Cleare usou um Item Perdido para alterar completamente o sexo dela.”
“E esse item não pode mais ser usado, certo? Então ela deve ter tido muita determinação para tomar essa decisão.”
Enquanto conversávamos, Jake era empurrado para trás cada vez mais. Um dos ombros de sua Armadura já tinha sido arrancado, e a estrutura inteira estava riscada e danificada.
“Príncipe Jake, eu realmente respeito você”, disse Ethan. “Nunca imaginei que conseguiria me acompanhar por tanto tempo. Justamente por isso, peço que admita a derrota. Eu não gostaria de machucá-lo.”
“Desculpe, mas eu não tenho a menor intenção de recuar”, respondeu Jake. “Ainda assim, admito que te subestimei. Você realmente é um gênio.”
Espera.
Será que algum tipo de amizade estava nascendo entre esses dois?
Espada em punho, Ethan se abaixou e avançou num golpe rápido. Jake empunhava uma arma bem mais pesada — uma glaive semelhante a uma naginata. Em teoria, isso deveria lhe dar vantagem, mas Ethan estava conseguindo encurralá-lo. Não porque Jake fosse fraco, mas porque Ethan realmente era forte.
“Agora, Alteza, eu vou acabar com isso!” “Então venha, Ethan!”
Os dois se lançaram um contra o outro.
O florete de Ethan perfurou a Armadura de Jake.
Ao mesmo tempo, porém, a máquina de Ethan também parou. Jake havia cravado sua glaive profundamente nela.
“Parece um empate”, anunciou Luxion, com sua voz robótica.
“Nossa, isso vai ser um saco”, resmunguei.
O duelo não tinha resolvido nada.
Voltei-me para Finn.
“Pelo menos deu pra ver que tipo de homem cada um deles é. O que você acha?”
“Nenhum dos dois é digno da Mia”, respondeu ele, com o rosto completamente inexpressivo.
É, eu já esperava essa resposta.
O maior problema nem era esse. Nenhum dos dois estava interessado nela em primeiro lugar.
De qualquer forma, assim caiu a cortina sobre o duelo pelo coração de Erin.
Ou melhor… talvez “caiu a cortina” fosse otimista demais. Dava pra perceber, sem esforço, que aquilo ainda ia render muita dor de cabeça.
“O que é que eu faço com isso…”, murmurei.
***
Depois do duelo, pela primeira vez em muito tempo, Marie e eu nos encontramos sozinhos. Luxion ficou de sentinela enquanto conversávamos em um corredor deserto da arena.
“No fim das contas, nenhum dos interesses amorosos esteve à altura dos padrões do Finn”, eu disse. “Desse jeito, a Mia nem vai ter chance de viver um romance.”
Eu estava tentando explicar que Finn basicamente era um cão de guarda enlouquecido quando o assunto era ela.
Marie soltou um suspiro.
“Sinceramente, você e o Finn são muito parecidos. Dois completos sem noção.”
“Espera, ele também?”
Inclinei a cabeça.
“A Mia nunca se apaixonaria por nenhum desses interesses amorosos.”
“Por quê?”
Marie revirou os olhos.
“Pensa um pouco. Ela já tem o homem ideal ao lado dela, sempre protegendo-a. Claro que isso estraga qualquer outro pretendente. Ela não consegue evitar comparar qualquer cara que aparece com o Finn. Quer dizer, nem precisaria comparar, pra falar a verdade — porque, entre todos os parceiros românticos em potencial, ele é a única opção aos olhos dela.”
Tapei a boca com as mãos.
“Não acredito!”
“O Finn se encaixa perfeitamente nos próprios critérios que ele exige de um parceiro ideal, não é? Tem status, prestígio e é conhecido como um dos cavaleiros mais fortes do império. Eu não faço ideia de como estão as finanças dele, mas, no que diz respeito à Mia, ela é sempre, sempre, sempre prioridade absoluta.”
Finalmente enxerguei o quadro completo.
“O Finn é o par perfeito”, concluí.
“Viu? Como eu disse, vocês dois são duas ervilhas na mesma vagem. Claro, você não chega nem perto dele em termos de bom senso — urgh!”
“Não me diga…”
“Hã?”
Por algum motivo, Marie arregalou os olhos e começou a me examinar de cima a baixo, como se eu fosse algum bicho raro.
“Irmãozão… hum, você está bem? Antigamente, você perdia a paciência quando eu falava uma coisa dessas e começava a me insultar de volta. Você está estranho hoje.”
“Eu sempre fui assim. Enfim, e quanto a você e essa ideia de independência, hein?”
Marie estufou o peito totalmente inexistente.
“Desisti. A Erica disse que estava feliz por me ver de novo.”
“Ela tem uma boa cabeça no lugar. Diferente de você.”
“Tá, tá, dessa vez eu vou deixar passar. De qualquer forma, percebi uma coisa. É muito melhor pra mim continuar sugando você pelo resto da vida.”
Essa era uma revelação da qual eu definitivamente preferia ter sido poupado.
Eu gostaria muito mais que ela arrumasse um emprego de verdade e começasse a se virar sozinha.
“Prefiro não”, respondi. “Dá um jeito de se tornar independente o quanto antes.”
“Você vai mesmo me abandonar assim?!”
“Não me lembro de ter saído por aí te catando do chão em algum momento.”
Pelo menos agora eu sabia de uma coisa: os olhos da Mia já estavam totalmente voltados para Finn. O problema é que isso significava que a rota do terceiro jogo tinha sido destruída desde o começo — e, pior ainda, pelas próprias mãos do próprio Finn.
Isso virou uma bagunça total.