“…”
Bom, depois disso até consegui me recuperar do dano mental que recebi agora pouco.
Já não bastava a minha irmãzinha não conseguir pronunciar o meu nome, agora eu estava no mesmo vagão que a Emma.
Isso mesmo.
Emma Roshfield, uma das protagonistas e filha do prefeito da cidade de Ashton.
*Suspiro* E para piorar ainda mais, nesse exato momento, ela estava sentada ao meu lado de olhos fechados. Aparentando estar dormindo.
E eu sentia como se estivesse sentando em milhares de pregos.
“Huuuam” “Cala a boca.”
Já tendo passado uma hora dentro do trem não pude deixar de bocejar. Mas, para Emma, um único bocejo vindo de mim já era irritante.
O motivo dela estar assim, provavelmente, é pelo fato de estar procurando uma desculpa para brigar comigo desde o começo.
…e no momento que viu uma oportunidade, ela não desperdiçava.
Acho que ela ainda tinha rancor de mim pelo que fiz com o Jin… não posso culpá-la. Eu também reagiria da mesma forma se um dos meus amigos fosse agarrado pela garganta. Não que tenha algum… hmm, talvez o PequenaCobra, mas é bem provável que eu gargalharia primeiro.
Olhando de relance para ela, revirei meus olhos e retruquei.
“Que foi?”
“Esse foi o seu oitavo bocejo.”
“E está contando por que?”
Quem caralhos conta quantas vezes uma pessoa bocejou? Isso é coisa de doido.
“Eu sei o que está pensando. Não, não tenho hábito de contar os bocejos de ninguém… mas a história é outra, já que toda vez que boceja você se espreguiça para o meu lado e fica se remexendo.”
Ah.
Faz sentido.
Isso realmente parece algo que faria.
“Foi mal.”
“Ainda bem que sabe disso.”
Como era minha culpa, obviamente me desculpei. Mas depois de ouvir a resposta dela comecei a me arrepender.
No fim, não falei mais nada e me encostei no meu lugar. Não valia a pena… esse era o meu raciocínio, porém, a cada tempo que passava, minha expressão ficava cada vez mais confusa.
Percebendo a mudança, Emma perguntou brava.
“…Que foi agora?”
No início, quando percebi o humor ruim dela, meu plano era ignorá-la e esperar o trem chegar na Lock, mas um pensamento apareceu na minha cabeça. Olhando na direção dela, perguntei.
“Ei, por que você está pegando o trem?”
“E por que isso é da sua conta?”
Não ligando para a resposta bruta, sorri e falei.
“Você já esqueceu, é?”
“Esqueci o quê?”
Cada palavra que saía de sua boca era carregada de espinhos, como se ela estivesse se contendo para não partir para cima de mim. Fingindo ignorar isso, eu disse preguiçosamente.
“Que você me deve uma?”
“…”
Apesar da raiva estampada em seu rosto, ela se calou. Não conseguia responder. Não importava o quanto quisesse me rebater, nenhuma resposta saía. Ela sabia que eu tinha razão.
“Isso são outros quinhentos…”
“Entendi, então a sua vida só vale isso. Justo.”
“Ghh… tudo bem!”
Pressionada contra a parede, Emma só podia bater com o pé no chão, cheia de raiva.
Como Amanda, ela odiava ficar devendo alguém, e por isso, como a lembrei do fato que salvei a vida dela antes, Emma só podia baixar a cabeça e aceitar. Emburrada, ela perguntou.
“O que quer saber?”
Sorrindo por dentro, perguntei novamente.
“Por que está pegando o trem?”
Embora minha pergunta parecesse pessoal e aleatória, havia um motivo bem específico por ter perguntado isso.
Emma era rica.
Me deixa refazer a frase. Emma Roshfield é podre de rica. Ela é tão rica, que até poderia comprar a guilda dos meus pais centenas de vezes e isso só com a mesada dela.
…Ou seja, ela não precisava pegar o trem para voltar pra Lock.
Não, na verdade. Levando em conta o quanto o pai dela a mimava, não tinha como ele permitir que ela fosse de trem até a escola. Além disso, olhando para ela, não parecia que estava com guarda-costas.
…Isso era algo que o pai dela nunca permitiria.
…E se meus instintos estiverem certos, só significava uma coisa.
“…Resumindo, meu pai não está em Ashton no momento e meu tio disse para mim pegar o trem de volta pra Lock.”
“Entendi…”
Como suspeitei.
Embora tenha ignorado a maior parte do que ela disse, meus ouvidos pegaram as partes importantes.
‘Meu pai não está em Ashton’ e ‘Meu tio disse para mim pegar o trem de volta pra Lock’.
Por mais que não tenha entrado em detalhe, eu já sabia quem era o tio dela.
Theodore Roshfield.
A segunda pessoa em comando da família Roshfield, e o tio ilegítimo da Emma.
E, também, o principal antagonista do trajeto da história da Emma. O trajeto onde resultará nela se apaixonando por Kevin.
…O único problema era que, de acordo com os meus cálculos, esse evento só era para começar daqui dois meses. Um mês depois das provas de meio de semestre.
Isso significa que a linha do tempo tinha mudado…
Franzindo o cenho, me dei conta novamente que o enredo da história havia sido distorcido.
A pergunta que não quer calar…
Foi culpa minha ou existe alguém fora do meu alcance manipulando a história atrás das cortinas?
…será que é o indivíduo que me trouxe para esse mundo?
Se sim, qual é o objetivo dele e por que eu?
No fim, pelo restante da viagem, fiquei sentado perdido nos meus pensamentos. Esquecendo por completo que a Emma ainda estava sentada ao meu lado.
…..
“Por que está olhando esses documentos, Ryan?”
“Nada demais, só fiquei curioso.”
Dentro de um apartamento velho, um jovem garoto lia cuidadosamente alguns documentos. No meio da leitura, seus olhos se desviaram para a TV.
Onde o canal de notícias estava ligado.
[…Neste momento, no Distrito Norte, a Espada da Luz e a Luxious, duas das principais guildas de Nível Ouro, declararam oficialmente Guerra das Guildas contra a Fúria do Touro. Apesar do motivo do conflito repentino ainda não ter sido revelado, fontes indicam que envolve os herdeiros de ambas as guildas…]
“Então foi você…”
Apesar das aparências de um garoto de doze anos, seus olhos não eram nada parecidos com o de uma criança normal de doze anos.
Com os olhos alternando entre a televisão e os documentos que segurava, um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.
Lembrando do que aconteceu há uns dias, Ryan pensou no momento quando o rapaz de olhos azuis e cabelos pretos chegou e mandou embora os dois caras, que faziam parte da Luxious.
Ele não pensou muito naquela hora, porque estava preocupado com a sua mãe… Mas, depois de ficar sabendo da notícia sobre a Luxious declarando uma Guerra das Guildas, Ryan não deixou de notar que algo não fazia sentido.
O momento…
Foi exatamente dias depois de ver o garoto de cabelos pretos levar embora aqueles dois homens da Luxious.
A primeira impressão que teve do garoto, não foi uma das melhores.
E isso era sobre o que viu na manga dele.
…Independente do que estava acontecendo, Ryan ainda prestou atenção em todos os detalhes em sua volta.
De início, como os dois outros homens da Luxious, Rayn também pensou que o garoto de cabelos pretos fazia parte da Fúria do Touro, principalmente por ter conseguido ver a insígnia debaixo da manga dele.
Mas… enquanto lia os papeis relacionados ao grupo de mercenário, Ryan na mesma hora entendeu o que estava acontecendo. Sem contar, enquanto observava a TV, ele podia deduzir mais ou menos que tudo aquilo era obra do garoto de cabelos pretos. Ou pelo menos, que ele tinha participação nisso.
‘Interessante.’
Não demorou muito para entender por inteiro o plano. Desde o modo como provocou um conflito entre a Luxious e a Espada da Luz até a forma como conseguiu colocar toda a culpa na Fúria do Touro.
Ryan também tinha um plano similar, na verdade, ele tinha muitos outros que teriam gastado menos tempo e seriam muito mais eficientes… mas, todos os seus planos tinham uma falha em comum que o impedia de prosseguir.
Sua incapacidade de lutar… e sua mãe.
Com esses dois pontos limitando-o, não conseguiu achar nenhuma forma de acabar com os problemas que não paravam de vim.
Não importa o quanto quisesse ter colocado em prática, com a sua classe que nem era <G>, seus planos nunca funcionariam. Ryan era muito fraco.
E por isso ele só podia desistir e passar por situações que só estressavam sua mãe ainda mais. Ele odiava isso.
Odiava sua falta de poder.
Toda noite acordava, xingando deus por lhe dar uma mente inteligente, mas sem nenhuma habilidade junto. Principalmente, porque nesse mundo força significava tudo. Sua inteligência e sabedoria sempre eram subestimadas.
—Flip! —Flip! —Flip!
Olhando para a proposta ridícula que foi lhe oferecida, Ryan quase se deixou levar.
Essa proposta era muito melhor do que a oferecida pela Luxious. Na verdade, nem se comparava.
Moradia de graça, um salário bom, horários curtos de trabalho… era o trabalho ideal. Porém, pensando sobre o esforço que sua mãe fazia todo dia para alimentá-lo, Ryan estava ficando com uma vontade enorme de assinar.
No entanto, ele pausou na metade do movimento…
Estava sendo muito impulsivo.
Precisava observar melhor… Precisa entender melhor a situação… e, por isso, depois de pensar por um tempo, Ryan decidiu não assinar os papeis.
Pelo menos até descobrir se é confiável ou não.
Não poderia arriscar…
“Vem comer, Ryan!”
Quando ouviu sua mãe lhe chamar, como se um alavanca tivesse sido ativada, uma expressão de criança surgiu em seu rosto. Sorrindo de forma alegre, ele gritou.
“Estou indo, mãe!”