Nota do tradutor: Agora é o inicio do Volume 4.
—Volume 4: O Volume do Ducado Hartner—
Documentos.
Nem é preciso dizer que eles não existiriam sem materiais para escrita. Casca de árvore, galhos e peles de animais podiam ser usados, mas Vandalieu estava olhando para documentos feitos de papel criado pela fábrica de Golens que ele havia construído.
Ao ver aquilo, Vandalieu se perguntou por que havia feito papel de palha, arrependendo-se da decisão.
— Bem, suponho que trabalho de escritório também seja necessário — disse ele.
As coisas certamente seriam mais fáceis no futuro se ele se acostumasse com isso agora. Ele poderia ganhar popularidade e respeito como um homem capaz de terminar seu trabalho rapidamente… embora parecesse que, em Lambda, os homens populares eram os fortes que conseguiam caçar monstros.
Ele decidiu lidar com os documentos por enquanto. Verificava rapidamente e, desde que não visse nenhum problema, carimbava com um selo que havia feito anteriormente.
— Ufa, pronto, pronto! — disseram as várias cabeças de Vandalieu, que havia se multiplicado junto com seus braços.
—…Sua Majestade, poderia me ensinar esse método de fazer trabalho de escritório? — Apesar de ter mais experiência, Chezare pediu instruções a Vandalieu.
— Não me importo em ensinar, mas no seu caso seria mais rápido se eu multiplicasse fisicamente seus braços e cabeças — disse Vandalieu. — Quer que eu comece a cirurgia hoje?
— Não, por favor, deixe isso para outra hora — respondeu Chezare. Parecia que nem mesmo Zumbis gostavam da ideia de remodelar o próprio corpo (ou cadáver).
— Então, há novos documentos? — perguntou Vandalieu.
— Não, eu esperava que Vossa Majestade considerasse a questão da moeda…
— Entendo.
Graças a Chezare, vários sistemas haviam sido implementados em Talosheim.
Vandalieu não havia ordenado que ele os criasse, nem outra pessoa havia pedido isso; foi Chezare quem tomou a iniciativa e aconselhou Vandalieu a formar um governo.
Por causa disso, a bandeira nacional passou a ser um círculo preto e branco, usando um eclipse solar como motivo, e todos os tipos de documentos começaram a ser criados.
Aliás, as leis foram criadas com base nas antigas leis de Talosheim, além das leis do Ducado Hartner como referência. Contudo, no momento, não tinham muita utilidade.
Naturalmente, o próximo passo de Chezare era pressionar Vandalieu para introduzir uma moeda.
— Sua Majestade. É verdade que atualmente não há problemas com o escambo de bens. No entanto, a introdução de uma moeda é absolutamente necessária para o desenvolvimento da nossa nação! Mesmo que o comércio que Vossa Majestade deseja com o Reino de Orbaume se torne realidade algum dia—
— Hm, não seria suficiente lidar com o comércio usando a moeda do Reino de Orbaume? Eu realmente não tenho a intenção de tornar Talosheim uma nação independente nem nada — disse Vandalieu.
— Como pode ser! Vossa Majestade venderia a nação?!
— Eu estava pensando que Talosheim poderia se tornar um domínio autônomo dentro do Reino de Orbaume, sem direitos diplomáticos.
— Sua Majestade, é uma loucura voluntariamente se rebaixar ao status de nação vassala do Reino de Orbaume! Por favor, reconsidere essa decisão!
Vandalieu suspirou. Apesar das palavras de Chezare, Vandalieu já tinha como objetivo desde o início tornar-se um nobre honorário dentro do Reino de Orbaume. A partir daí, tudo dependeria do que aconteceria com Talosheim — se os Mortos-Vivos e Ghouls ganhariam direitos humanos ou não, e se Vandalieu conseguiria eliminar os Vampiros de Sangue Puro.
Se tudo desse certo, ele pretendia tornar Talosheim um domínio autônomo dentro do Reino de Orbaume.
As chances disso se tornar realidade provavelmente eram pequenas, mas Vandalieu acreditava que seria o caminho com mais benefícios.
É claro que, se isso fosse impossível, o Reino de Orbaume provavelmente teria diplomatas excepcionais com quem ele poderia negociar enquanto gerenciava a nação, mas… será que ele precisaria de dezenas de Mortos- Vivos experientes de famílias políticas?
— Bem, isso é para o futuro, então vamos deixar de lado por enquanto… Você mencionou moeda, não foi? Pretendo partir para o Ducado Hartner antes do final do dia, então não consideraria isso depois? — disse Vandalieu.
Vandalieu já tinha sete anos, e a estação era o verão. De acordo com seus planos, ele já deveria estar a caminho do Ducado Hartner.
Seu objetivo era se registrar na Guilda.
Para que menores de idade trabalhassem como aventureiros, precisavam se matricular e se formar na escola de aventureiros. Contudo, o registro era possível mesmo sem se matricular na escola.
Aventureiros classe G que acabavam de se registrar na Guilda só podiam aceitar trabalhos manuais nas cidades, portanto não precisavam aprender na escola. Apenas aqueles que desejassem subir para a classe F e além se matriculavam… Ao menos, isso era verdade na Guilda de Aventureiros do Reino de Orbaume de duzentos anos atrás.
No futuro, Vandalieu também pretendia subir para a classe F e além, conquistar feitos e tornar-se um nobre honorário. Mas, por enquanto, queria apenas se registrar, adquirir o Cartão da Guilda e voltar para Talosheim sem se matricular na escola de aventureiros.
O motivo era —
— Quero me registrar antes que meu Status fique ainda mais absurdo do que já está.
Essa frase resumia a razão.
Um cartão de registro, comumente chamado de Cartão da Guilda, seria emitido quando Vandalieu se registrasse. Mas o Status dele seria exibido integralmente ao funcionário da Guilda que emitisse o cartão.
Ou seja, seus títulos de Rei Ghoul, Rei Eclipse e Nome Proibido, seus empregos recém-descobertos como Domador de Mortos-Vivos e Quebra-Almas, a habilidade desconhecida de Magia do Atributo Morte, sua habilidade única de nome espantoso, Matador de Deuses, e até as maldições colocadas sobre ele por Rodcorte, tudo seria mostrado.
Já estava bastante ruim, mas não havia garantia de que coisas piores não apareceriam em seu Status. Portanto, o plano de Vandalieu era se registrar agora antes que piorasse e correr de volta para Talosheim antes que começasse uma comoção.
Claro, ele também tinha outro objetivo: investigar o que aconteceu com a Primeira Princesa Levia, filha de Borkus, e os outros que haviam fugido para o Ducado Hartner a partir de Talosheim, duzentos anos atrás.
Assim como os Ghouls, os Titãs viviam trezentos anos, então provavelmente poderia descobrir perguntando aos Titãs em alguma cidade.
Seria bom se eles estivessem saudáveis, mas se estivessem “muito saudáveis” e planejando a revivescência de Talosheim, isso poderia ser um problema. Talvez não, caso fossem compreensivos com Mortos-Vivos.
— Trarei moeda do Reino de Orbaume, então vamos analisar isso e pensar depois — disse Vandalieu.
O Império Amid usava uma moeda unificada emitida pelo próprio Império, mas no Reino de Orbaume, cada ducado e cidade-capital real emitia sua própria moeda. Em outras palavras, havia quatorze tipos de moeda.
Baums, uma unidade monetária válida em todo o Reino de Orbaume, circulava junto com a moeda emitida em cada ducado. Por isso, apesar de fazerem parte da mesma nação, cidades na fronteira entre ducados tinham casas de câmbio. Vendedores ambulantes que atuavam em múltiplos ducados precisavam estar atentos às taxas de câmbio.
Além disso, aparentemente houve casos na história do Reino de Orbaume em que moedas antigas foram substituídas por moedas mais novas. Não era apenas a face do rei gravada nas moedas que mudava; a proporção metálica das moedas também mudava, e assim seu valor também.
Portanto, era possível que novas moedas tivessem sido criadas em algum momento nos últimos duzentos anos.
— O Reino de Orbaume perdeu um ducado na guerra de seis anos atrás, mas isso não muda o fato de que as coisas são complicadas, então temos que ter cuidado se formos criar nossa própria moeda.
Seria problemático se o valor da moeda de Talosheim despencasse no futuro por causa de diferenças nas proporções metálicas das moedas. Vandalieu aprendera na escola que isso aconteceu no Japão no passado.
Chezare parecia surpreso por algum motivo. — Você ainda pretende ir para o Ducado Hartner?!
—… O que quer dizer com “ainda”? — Vandalieu perguntou. — Claro que sim.
— Mas você já adiou sua partida por sete dias.
— Há vários motivos para isso. Vários motivos. — Apesar de dizer isso, Vandalieu não podia negar que havia continuado adiando a partida por sete dias.
Os que iriam para o Ducado Hartner eram Vandalieu, a unidade ninja de Zran e Braga, e Eleanora, que era excepcional como espiã infiltrada. Esse era o plano.
Vandalieu iria para a cidade do Ducado Hartner, dar uma olhada e verificar se havia alguma reação do Sentido de Perigo: Morte. Depois disso, chamaria a unidade ninja e Eleanora.
Era isso que ele havia discutido com todos meses atrás, mas —
O primeiro dia.
— De jeito nenhum, de jeito nenhum, eu vou com você! — gritou Pauvina.
— Vou… indo… — gemeu Rapiéçage.
— D-de jeito nenhum, de jeito nenhum, e-eu quero ir com… Eu não consigo f-a-zer i-isso! — lamentou Zadiris.
— Pauvina, eu só vou lá e volto direto, pode nem levar dez dias — disse Vandalieu. — Rappie, você causaria uma comoção se fosse perto das áreas onde as pessoas moram, então não pode vir. E Zadiris, você não precisa fazer isso se vai ficar envergonhada.
Pauvina, Rapiéçage e, por algum motivo, Zadiris tentaram impedi-lo. Pauvina e Rapiéçage logo se acalmaram, mas Zadiris ficou deprimida, perguntando a si mesma: “Que coisa nada a ver para minha idade. O que estou fazendo?” Quando Vandalieu a animou, o sol já havia se posto.
Desistindo de partir naquele dia, Vandalieu passou a noite brincando com Varbie, Jadal e as outras crianças.
O segundo dia.
Vandalieu decidiu que sairia naquele dia. De repente, o céu escureceu, e antes que percebesse, foi sequestrado e levado para o céu.
— OOOOOOHN.
Parece que Knochen, a União dos Ossos, o havia sequestrado por trás.
— Hum, eu pretendia partir hoje — disse Vandalieu.
— OOOOOHN? OHN.
— Não, eu realmente não posso levar você comigo.
Ninguém em Talosheim sabia ainda que a União dos Ossos era um monstro que seria designado como desastre, mas mesmo assim, não era difícil imaginar que haveria uma enorme comoção se um monte de ossos se aproximasse de uma cidade.
— Quando eu me registrar na Guilda, vou conseguir um certificado de Familiar para você.
— OOOOOHN!
Enquanto Vandalieu tentava convencer Knochen a deixá-lo descer durante o voo panorâmico, o sol se pôs.
O terceiro dia.
Vandalieu decidiu que definitivamente partiria naquele dia. Perguntando-se por que havia tanto zumbido e por que o céu havia ficado tão escuro, foi sequestrado para o céu.
— Achei que estava tendo déjà vu, mas desta vez são as Abelhas do Cemitério.
Algumas dezenas de Abelhas do Cemitério agarraram Vandalieu. Elas voaram para o ninho que haviam construído de modo a parecer parte do castelo real.
E então ofereceram-lhe mel e insetos. Estariam tentando dissuadi-lo de partir oferecendo essa comida?
— Eu vou voltar — tranquilizou Vandalieu.
As Abelhas do Cemitério fizeram barulhos de clique.
— Sim, é sério. Então, por favor, parem de me fazer comer bolinhos de lagarta. Pelo menos fervam ou fritem eles.
Bolinhos de lagarta fritos com mel por cima eram deliciosos, crocantes por fora e pegajosos por dentro. Se o mel fosse substituído por molho tare agridoce, poderiam ser bons petiscos para comer bebendo algo.
O quarto dia.
— Você vai ficar realmente bem? Talvez fosse melhor esperar você upar um pouco mais… Afinal, você disse que seu nível não estava realmente subindo esses dias, não foi?
Hoje, Darcia, que por acaso estava acordada de manhã, estava parando Vandalieu.
— Está tudo bem, mãe — disse Vandalieu, tentando tranquilizá-la. — Só bati numa parede um pouco cedo. Não é que eu tenha ficado mais fraco.
Como Darcia disse, Vandalieu havia entrado numa fase de desenvolvimento em que seu nível de repente se tornava muito difícil de aumentar, comumente chamada de “parede”.
Seu progresso estava, de fato, lento, mas ele não havia ficado mais fraco de repente, nem incapaz de fazer hoje coisas que fazia ontem.
E não era como se seu desenvolvimento fosse ficar parado ali para sempre. Era bem sabido que as paredes podiam ser superadas. Na verdade, Kachia havia enfrentado o mesmo problema. Ela já havia superado essa fase e atualmente estava subindo de nível tão rápido quanto antes.
A espessura da parede e o momento em que ela aparece variam. Alguns desistem e dizem que esse é seu limite, mas muitos a superam para crescer ainda mais. A porcentagem de aventureiros que desistem aumenta com a segunda parede, no entanto.
As paredes são algo que aventureiros enfrentam uma vez quando se tornam classe D. Aqueles que rapidamente superam essa parede são considerados talentosos e tentam subir para a classe C, enquanto outros, como Kachia, que não conseguem superá-la de imediato, passam por um longo período de estagnação.
Aliás, o ex-aventureiro classe A, Borkus, havia enfrentado três “paredes” e ainda tentava superar a quarta quando foi derrotado por Mikhail.
— Olhando por outro lado, isso significa que eu sou tão forte quanto um aventureiro classe D agora — disse Vandalieu. — Acho que fazer uma pequena viagem até a cidade e voltar vai ser moleza.
As palavras de Vandalieu seriam negadas por qualquer aventureiro classe D neste mundo. Darcia concordava com ele.
— Não! — gritou Darcia. — Eu não quero ficar separada de você! Me leve com você, assim como tem feito até agora!
— Eu quero te levar também, mas é um pouco perigoso — disse Vandalieu.
Era possível que os guardas da entrada revistassem rigorosamente os pertences de Vandalieu ao entrar na cidade. Se por acaso encontrassem o fragmento ósseo de Darcia e descobrissem que seu espírito o possuía, seria um problema.
Se os guardas chamassem reforços ou tentassem purificar o espírito de Darcia, Vandalieu seria forçado a fugir, mesmo que tivesse que matar os guardas para isso.
— Seria problemático se eu tivesse que disparar Balas da Morte em direções aleatórias, não acha?
De fato, seria problemático. Se Vandalieu fizesse algo assim na frente dos portões da cidade, não seriam só as vidas dos guardas que estariam em risco. As muralhas ao redor dos portões virariam uma pilha de escombros… na verdade, nem estava claro se sobraria algum escombro.
—…Tudo bem — concordou Darcia, relutante. — Mas garanta que volte em segurança — acrescentou.
— Sim, claro, mãe — disse Vandalieu.

E assim o sol se pôs hoje também.
O quinto dia.
— Huuuuuuh? — Vandalieu soltou um som parecido com um grito sem entonação enquanto era sequestrado pelos Ents Imortais. Pelo seu corpo mole, parecia que ele já havia desistido de resistir.
O sexto dia.
— Garoto, sobre a carta que te dei para entregar à minha filha caso a veja — disse Borkus —, se ela estiver passando por dificuldades, entregue isso também.
— Santo Filho, se você encontrar a Levia-sama, por favor entregue isto a ela — pediu Nuaza.
— Isto também, Vossa Majestade!
—… Minha bagagem já está três vezes maior que eu — disse Vandalieu.
Organizar a bagagem tomou tempo, então a partida foi adiada mais um dia.
E hoje era o sétimo dia.
— Convenci todo mundo, e as fábricas continuarão produzindo missô, shoyu, katsuobushi, defumados, maionese e ketchup por cem anos, mesmo que eu não esteja aqui. Estou totalmente preparado. Agora só falta mexer os pés — disse Vandalieu animado.
— Hum, Vandalieu-sama, tem um probleminha… — disse Eleanora relutante ao aparecer.
— Probleminha? — repetiu Vandalieu.
— Braga e os outros acabaram indo para uma Dungeon ontem. Talvez não voltem por alguns dias — contou Eleanora.
Parece que a unidade ninja não suportou mais o adiamento da viagem dia após dia e saiu para treinar numa Dungeon.
— Não tem jeito — disse Vandalieu —, vamos sair primeiro. Se eu deixar Undead para comunicar, tenho certeza que eles conseguem se encontrar conosco depois.
Os Undead usados para comunicação, como familiars, funcionavam como celulares. A distância para fazer chamadas era curta, e a voz não era exatamente a dele, pois a língua falante era do Undead, mas eram Undead revolucionários no mundo de Lambda.
Eles tinham a aparência de cabeças de Goblins encolhidas; o design era terrível… usar cabeças humanas recém-decapitadas teria melhor funcionalidade, mas Vandalieu seria preso se fosse pego com elas, então abandonou a ideia.
— Então, vamos? — disse Vandalieu.
— Sim, Vandalieu-sama — respondeu Eleanora. — Ah, uma viagem só nós dois…♪
— Não, Eleanora. Você vai esperar no túnel, sabe?
Embora improvável, seria problemático se os portões da cidade tivessem mecanismos de defesa anti-vampiro.
Mesmo sem levar isso em conta, ele precisava estar atento à rede de informações dos Vampiros Nobres que cultuavam Hihiryushukaka, o Deus Maligno da Vida Alegre. Também tinha que se cuidar de itens mágicos que permitiam rastrear o dono de uma amostra de sangue.
Porém, chegou à conclusão de que desta vez não haveria com o que se preocupar.
Não sabia quão extensa era a rede dos Vampiros, mas eles jamais esperariam que ele conseguisse reabrir o túnel. Também não pareciam ser uma organização tão grande e cuidadosa a ponto de ter pessoas escondidas em todas as cidades e vilas.
Haveria alguns informantes nas grandes cidades, mas parecia que em cidades e vilas comuns não teriam, a menos que houvesse circunstâncias especiais. Pelo menos, era assim na organização da rede no Império e na Nação-Escudo de Mirg, segundo o conhecimento de Eleanora.
Quanto aos Itens Mágicos, eles foram apreendidos na defesa de Talosheim. Mesmo que houvesse mais itens iguais, eles estariam ficando sem o sangue de Eleanora, necessário para operá-los.
E mesmo que encontrasse subordinados dos Vampiros Nobres, Vandalieu estava confiante de que poderia se livrar da maioria deles.
— É assim que as coisas estão, então vamos — disse Vandalieu.
— Tenha uma boa viagem, Van-sama — disse Tarea. — Por favor, volte para mim.
— Tarea, o Van vai voltar para nós — lembrou Basdia.
— Bocchan, por favor use-me, Sam, como suas pernas na próxima viagem — disse Sam.
E assim, toda a nação despediu Vandalieu quando ele e Eleanora partiram de Talosheim rumo ao Ducado Hartner.
Foram três dias voando enquanto eram atacados ocasionalmente por Pteranodontes e monstros do tipo ave, e depois mais três dias para passar pelo túnel que Vandalieu havia transformado em Golens para reparo. Vandalieu ordenou que o Golem que selava a saída do túnel se afastasse e finalmente chegou ao Reino de Orbaume que havia mirado há tanto tempo.
Não havia nada na saída do túnel além de uma planície com poucas árvores e restos de uma estrada.
Aparentemente, fora uma magnífica rodovia há duzentos anos, quando o Ducado Hartner comerciava com Talosheim, mas agora só restavam vestígios.
— Se viajarmos para leste por três horas, a cidade para onde vamos deve estar lá, mas… será que ainda existe?
— disse Eleanora.
— É uma cidade de várias milhares de pessoas, então provavelmente sim, não é? — disse Vandalieu. — Deve haver ao menos áreas habitadas, já que o Ducado Hartner não deveria ter caído em ruínas. Então, fique aqui, Eleanora. Vou usar o Undead de comunicação para te contatar.
— Certo. Mas… você vai ficar bem sozinho? — perguntou Eleanora.
— Está tudo bem. Eu consigo fazer isso sozinho — respondeu Vandalieu.
Será que ele deveria ter acrescentado um “sabe” no final da frase? Enquanto se fazia essa pergunta boba, Vandalieu deixou a preocupada Eleanora para trás e seguiu caminhando pelas ruínas da estrada.
Na verdade, ele estava acompanhado por uma grande quantidade de espíritos, então não estava exatamente sozinho.
Além disso, o Golem que selava a saída do túnel estava camuflado e programado para abrir apenas quando a senha fosse dita.
A senha era: “Miolos voando de lado repetidamente.” Não era algo que se dissesse por acidente.
E uma acomodação simples havia sido construída dentro do túnel, perto da parede. Eleanora deveria ficar lá, esperando pela unidade ninja que viria depois.
— Acho que já está na hora — murmurou Vandalieu para si mesmo.
Andar por entre a grama, que era mais alta do que ele, havia se tornado incômodo, então ele passou a usar o voo silencioso do Flight para sobrevoá-la.
Se não fosse pela bagagem que carregava nas costas, talvez fosse confundido com um fantasma.
Embora esse não fosse o motivo, às vezes Goblins e corvos gigantes com envergadura de 1,5 metro o atacavam. Vandalieu os rechaçava rapidamente.
Ele não precisava de nenhum plano elaborado para derrotar monstros de Rank 1 ou 2. É claro que não ganhava Pontos de Experiência por causa da maldição, mas isso era uma trivialidade com a qual ele já nem se importava.
Goblins armados com galhos corriam contra ele com gritos estranhos. Vandalieu respondeu com um grito igualmente estranho e sem ânimo, e os derrubou lançando pedras com a habilidade Arremesso, que havia aprendido ao treinar com a unidade ninja.
— Um a cada cinco corvos gigantes de Rank 2 me dá uma Pedra Mágica. Se eu pudesse pegar essas, ao menos daria pra pagar a taxa do pedágio.
No continente de Bahn Gaia, era comum que cidades e vilarejos cobrassem uma taxa para entrar. Como Vandalieu não tinha Baums, a moeda do Reino de Orbaume, ele havia trazido sal em sua bagagem, achando que poderia usá-lo como substituto.
Ele havia desistido de usar Pedras Mágicas ou materiais de monstros de alto Rank, pois as pessoas poderiam se alarmar ao ver uma criança tão jovem carregando itens tão valiosos. Como o Ducado Hartner não possuía mar nem minas de sal-gema, o sal era algo valioso.
— Se tiverem descoberto uma mina de sal nesses duzentos anos e o sal tiver desvalorizado, acho que vou ter que caçar monstros mesmo.
Ou talvez Vandalieu procurasse coelhos comuns, coisa que não fazia havia um tempo.
— Pensando bem, o sangue fresco de coelho que a Mamãe me deu era delicioso…
Mergulhado nas memórias, Vandalieu esmagou mais um Goblin até a morte e seguiu em frente.
Uma muralha de pedra surgiu à distância.
— Finalmente consigo ver. Mas tem bastante musgo e hera crescendo nas paredes, mesmo que eu tenha ouvido do Borkus e dos outros que essa era uma cidade bastante próspera.
Era a cidade comercial que conectava Talosheim ao Ducado Hartner. Fora construída às pressas após o início das trocas comerciais entre os dois, então sua história era curta, mas Vandalieu ouvira dizer que fora uma cidade movimentada.
Talvez, com o fim do comércio após a destruição de Talosheim, a cidade tenha entrado em declínio. Na verdade, Vandalieu teve a sensação de que havia goblins e corvos gigantes demais nas proximidades… Mas como não se aproximava de uma cidade normal desde Evbejia, não tinha certeza.
— Não pode ser que isso tenha virado só uma ruína agora… — Dominado pela ansiedade, Vandalieu usou o feitiço Detecção de Vida em uma área vasta. Ele detectou mais de mil presenças no centro da cidade.
Parece que a cidade havia decaído, mas não se tornado uma ruína.
Havia um bom número de reações mais fortes que a média, mas provavelmente eram aventureiros e soldados estacionados ali.
— Ah, que bom — suspirou aliviado. Vandalieu pousou os pés no chão e começou a caminhar em direção aos portões da cidade.
Ao fazer isso, o guarda do portão que o notou começou a emitir sons como “Gegyagegyah.” Vandalieu havia parado de voar para não assustá-los, mas parece que isso foi inútil.
O guarda, de pele verde-escura, nariz comprido, orelhas longas e olhos puxados —
— Hmm, vamos encarar a realidade — disse Vandalieu para si mesmo. — Isso é um Goblin.
Pelo fato de estar levantando sua lança, parecia ser um Goblin Soldado de Rank 2. Do outro lado dos portões sem portas, havia inúmeros Goblins apontando na direção de Vandalieu e gritando enquanto corriam.
Havia um particularmente grande, do tamanho de um humano adulto, no meio dos outros Goblins que mal chegavam ao peito. Ele também gritava.
Diferente dos outros, armados de forma rudimentar, esse usava armadura adequada, escudo e uma alabarda.
Parecia ser um Rei Goblin.
— Uau, essa é a primeira vez que encontro um Rei além de mim — disse Vandalieu em um tom monótono, enquanto disparava suas Balas da Morte.
E assim começou a batalha entre dois Reis: o Rei dos Ghouls e o Rei Goblin!
