Como resultado de salvar a vida de Ivan, tendo desistido de não chamar atenção, Vandalieu foi calorosamente recebido de volta na única loja da vila, a loja de tudo um pouco.
— Você salvou minha vida, garoto — disse Ivan. — Mais um pouco e eu teria morrido de uma morte estúpida, sem poder mostrar meu rosto para meu segundo filho. Agora, vá em frente e coma, é por minha conta!
— Não fique agindo como se me oferecer uma refeição fosse um grande favor! — disse a esposa dele.
— De jeito nenhum. Eu estava começando a sentir fome — disse Vandalieu enquanto comia. Ele estava comendo mingau de arroz.
Era algo feito com arroz de grão longo, semelhante ao arroz Indica da Terra, plantas comestíveis, possivelmente para tirar o cheiro peculiar do arroz, feijões para aumentar o volume da refeição e um pouco de sal.
Na verdade, não era nada de especial. O sabor vinha dos ingredientes… na verdade, não havia outro sabor além do sabor dos ingredientes.
No entanto, estava no verão, época do ano pouco antes da colheita do arroz. Provavelmente por isso só podiam oferecer isso. Esta Sétima Vila de Cultivo era abençoada por ao menos conseguir fazer mingau de arroz.
Se eu adicionar a carne seca e o peixe seco que carrego na minha bagagem a esse mingau, provavelmente aumentaria o sabor salgado e ficaria bem gostoso — pensou Vandalieu, mas continuou comendo o mingau sem colocar essa ideia em prática.
O conceito de “comida defumada” aparentemente não existia neste mundo, então carne seca e peixe seco defumados seriam produtos de Talosheim no futuro. Portanto, ele precisava mantê-los em segredo.
Aliás, o espaço do bar da loja de tudo um pouco não tinha cardápio. O álcool era um saquê não refinado feito pelo próprio lojista (usando milho como base), enquanto os petiscos eram feijões assados ou cozidos e, ocasionalmente, vegetais.
E as únicas refeições disponíveis eram as que a família do lojista estava comendo. Isso era natural, pois a família fazia sua comida em grande quantidade e servia aos clientes.
Vandalieu tinha se perguntado se isso realmente funcionava para o negócio, mas visto por outro lado, o negócio não funcionaria nessa vila se fosse de outra forma.
Cada família era capaz de fazer seu próprio saquê, e a habilidade culinária deles não era diferente do casal que dirigia a loja. Assim, os únicos clientes que pagariam para comer e beber aqui eram os soldados, mercadores e seus escoltas que passavam por ali a caminho da mina de escravos, além do grupo de Kasim.
Se montassem um sistema para cozinhar vários pratos diferentes, os custos aumentariam. Por isso Vandalieu estava comendo esse mingau de arroz.
— Não é muito saboroso, não é? — disse o lojista num tom sério, aparentemente consciente disso.
—…Isso não é verdade — respondeu Vandalieu.
— Ah, tudo bem. Como você salvou a vida de Ivan, eu gostaria de te dar algo mais gostoso, mas isso é o melhor que consigo fazer com o arroz que cultivamos aqui.
— Oyaji-san, combinamos de não dizer isso, não foi? Mas é verdade que o arroz que cultivávamos no Ducado de Sauron era mais saboroso. Não tinha cheiro ruim.
Ao que parecia, eles cultivavam um tipo de arroz semelhante ao Japonica no Ducado de Sauron, ao norte do Ducado de Hartner, conhecido como arroz Sauron.
Mas o clima e o solo do Ducado de Hartner, para onde fugiram, não eram adequados para cultivar o arroz Sauron.
Sem outra opção, começaram a cultivar o arroz Indica, cultivado comumente no Ducado de Hartner… conhecido como arroz do sul no Reino de Orbaume.
— Em outras palavras, é toda culpa do Império — concluiu Vandalieu, pensando que era culpa do Império ele não poder comer um arroz parecido com o Japonica que estava acostumado.
— É, é toda a maldita culpa do Império!
— Isso mesmo, isso mesmo! Tudo foi causado pelo Império!
Como esta era uma vila de cultivo cheia de refugiados expulsos de suas terras pelo Império, concordavam unanimemente com as palavras de Vandalieu.
— Mesmo assim, pensar que você consegue usar magia.
— Me surpreendi mesmo. Achei que você fosse um Guerreiro ou Lutador Desarmado com certeza — disse Kasim.
Ele e seus amigos estavam comendo o mesmo mingau de arroz que Vandalieu.
O sacerdote de Alda assentiu. — Sim, fiquei bastante surpreso ao saber que você é tão querido por Vida. O fato de você ter aparecido neste dia em que o grupo de Kasim e a vida de Ivan estavam em perigo é certamente vontade dos deuses. Embora oremos a Alda e Vida, os deuses que se separaram nos mitos, vamos dar as mãos e nos esforçar para fazer boas ações — disse, sorrindo para Vandalieu enquanto colocava a mão no peito.
O sorriso dele ainda parecia superficial para Vandalieu, mas suas palavras pareciam sinceras. Ao menos, ele era bem mais parecido com um clérigo do que o Alto Sacerdote Gordan havia sido.
Era possível que ele fosse uma pessoa inesperadamente virtuosa.
— Fico feliz em ouvir isso — disse Vandalieu. — Mas eu não faço parte de nenhum ministério.
Pensando bem, como será a Igreja de Vida no Ducado de Hartner? Vou visitá-la quando chegar na cidade.
— A propósito… como você está falando tão claramente enquanto come mingau? — perguntou o sacerdote.
—…É uma habilidade especial — respondeu Vandalieu.
Vandalieu usava Experiência Fora do Corpo para criar um rosto em forma espiritual sob suas roupas, e vinha usando a boca desse rosto para falar o tempo todo.
— Ah, mais uma porção, por favor — pediu ele.
— Você ainda vai comer mais?! Quer dizer, tudo bem, mas essa já é sua terceira tigela — disse o lojista.
— Eu estava com muita fome. Me desculpe.
Vandalieu era menor e mais magro que as outras crianças da sua idade, mas comia uma quantidade impossível de imaginar para seu tamanho. Isso porque a energia que ele precisava já era mais que o dobro da média de um adulto.
— Primeiro sua força e magia, agora até seu apetite é como o de um aventureiro — comentou Kasim.
Pessoas magras com grande apetite não eram raras entre aventureiros, pois tinham Jobs relacionados a combate e habilidades físicas maiores que os de Jobs de criação. Kasim e seus amigos, que tinham estudado na escola de aventureiros, não estavam tão surpresos quanto o lojista.
— Chefe! — gritou um homem, entrando apressado na loja de tudo um pouco. — Kyne, da próxima Quinta Vila de Cultivo, está aqui procurando o sacerdote — UAU?! — Ele foi empurrado de repente por outro homem, coberto de arranhões.
— Sacerdote! — gritou o segundo homem. Ele certamente havia caído várias vezes no caminho. — Venha para nossa vila! Há uma doença, uma epidemia, e todo mundo está desmaiando! Por favor, venha rápido!
— Uma epidemia?! — repetiu o lojista.
— Como pode ser?! Mas o sol já se pôs — disse o sacerdote. — Ir para a Quinta Vila de Cultivo agora seria…
A estrada que ligava diretamente a Sétima à Quinta Vila era basicamente uma trilha de animais. Levaria quatro horas a pé por essa trilha. E a noite era quando lobos e monstros estavam ativos. Nem precisava dizer o quão perigosa seria uma trilha de animais não mantida.
Era possível ir pela estrada principal para viajar à Quinta Vila, mas isso levaria o dia inteiro.
— Kyne, vamos sair pela manhã. Por favor, descanse até lá — disse o sacerdote.
— Como você pode dizer isso! — protestou Kyne. — Então toda a vila, minha esposa, minha filha!
— Por favor, entenda, Kyne. Não podemos viajar por uma estrada perigosa à noite. Os Goblins aumentaram em número ultimamente, e se formos derrotados antes de chegarmos à vila, tudo será em vão —
— Ah, como… como… — os ombros de Kyne caíram e ele começou a soluçar.
Alguns levantaram as mãos, emocionados com o homem comum que enfrentou os perigos para vir até aqui por seus amigos da vila, sua esposa e sua filha.
— Tudo bem, seremos sua escolta —
— Então, eu vou levar esse Kyne-san voando até lá — disse Vandalieu.
Havia pessoas dispostas a ajudar, mas isso não significava que todos poderiam ir juntos.
— As estrelas estão lindas, não estão?
— HYIIIIIH!
— A lua está maravilhosa esta noite.
— NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃ!
As únicas pessoas capazes de voar no mundo de Lambda são uma pequena parcela dos magos, pessoas ricas com Itens Mágicos caros, aqueles que domaram monstros capazes de voar como cavaleiros dragões, e membros das raças de Vida que possuem asas.
Assim, para a pessoa comum, a ideia de voar pelo céu não passa de um sonho ou pensamento delirante.
Kyne estava vivendo essa experiência preciosa.
Vandalieu usava Voo para se dirigir à Quinta Vila de Cultivo, segurando sua bagagem nas mãos enquanto carregava Kyne nas costas, com uma corda de segurança firmemente amarrada entre eles. Mas Kyne estava agarrado desesperadamente a Vandalieu e gritando com medo de cair, então parecia que ele não tinha tempo para aproveitar essa experiência valiosa.
— A propósito, posso ir direto, não é? — perguntou Vandalieu.
— S-sim! Tem um pequeno pântano no caminho; acho que você pode usá-lo como ponto de referência! — respondeu Kyne gritando.
— Passamos pelo pântano há pouco tempo, então acho que deve estar tudo bem se continuarmos por aqui.
Vandalieu e Kyne voavam cerca de trinta metros acima do chão. A velocidade deles era, no máximo, a de um cavalo em corrida, mas parecia que Kyne estava tão aterrorizado que nem conseguia abrir os olhos. Mas, como Kyne não possuía o talento Visão no Escuro, seus olhos não conseguiriam enxergar nada mesmo se estivessem abertos.
— Já passamos pelo pântano?! — perguntou Kyne.
— Sim. A propósito, você está meio que me sufocando — disse Vandalieu.
A velocidade do Voo de Vandalieu era rápida comparada a uma pessoa correndo, mas o fato de ele poder ignorar o terreno e voar em linha reta para o destino foi a principal razão pela qual tinham percorrido tanta distância.
Eles provavelmente chegariam à vila em menos de dez minutos.
Ele estava gastando muita Mana para voar assim, no entanto.
Graças à minha recuperação automática de Mana, meu gasto e recuperação de Mana se anulam se for só eu e minha bagagem, mas com o peso do Kyne-san… Acho que ainda preciso treinar mais. Não, o mais importante é perguntar a ele sobre a doença.
— Então, sobre a epidemia… Você pode me dizer que tipo de doença é mais uma vez? — perguntou Vandalieu.
Vandalieu estava curioso sobre a epidemia que Kyne mencionou. Já tinha ouvido os detalhes simples, mas achava que havia algo muito anormal.
— Quero dizer, voltei da caça e vi que todos haviam desmaiado — explicou Kyne. — Estavam com febre e náusea, lutando para se manter conscientes… e alguns estavam tossindo sangue…
— Tem mais alguém saudável além de você, Kyne-san? — perguntou Vandalieu.
— Além de mim… Ah, se não me engano, Joseph-jiisan ainda estava bem. E os bebês ainda não adoeceram.
— Quem é esse Joseph-san?
— Ele é um velho lenhador. Está com um resfriado terrível desde ontem e, aparentemente, estava deitado na cama até eu voltar. Agora, está se esforçando para cuidar de todo mundo na vila.
— Essa pessoa não está doente com a epidemia?
— Provavelmente não. Está com febre e coriza, mas não com náusea nem tosse com sangue. Por isso pedi para ele cuidar dos outros. Mesmo que consiga se mexer, não podia pedir para um velho correr até a vila vizinha, e os bebês não podem ficar sozinhos por meio dia, mesmo que não estejam doentes.
Ou seja, excluindo Kyne-san, que foi caçar e não está na vila, todos desmaiaram com a mesma doença, exceto o velho que estava dormindo e os bebês. E… Kyne-san está saudável.
Desde que Kyne entrou na loja de tudo um pouco, Vandalieu não viu a sombra da morte nele. Era difícil imaginar que ele estivesse infectado por uma epidemia perigosa.
Por precaução, Vandalieu usou a Forma Espiritual disfarçadamente para examinar o corpo de Kyne enquanto ele se agarrava a Vandalieu em pânico, mas ele estava saudável. Parecia que viveria muito mais que Ivan.
Ao ouvir a palavra “epidemia”, Vandalieu usou Esterilização para matar todas as bactérias e vírus nocivos na Sétima Vila de Cultivo antes de partir, mas… isso não seria envenenamento em vez de doença?
Mas isso explicaria o caso se só uma ou duas pessoas tivessem adoecido; que métodos poderiam ter sido usados para envenenar a vila inteira? E qual seria o motivo para isso?
— Algo diferente aconteceu hoje? — perguntou Vandalieu.
— Não, hoje foi normal — respondeu Kyne. — A única coisa foi que hoje foi o dia em que o comerciante itinerante veio.
— Comerciante itinerante? — repetiu Vandalieu.
— Sim, é um sujeito respeitável cuja loja fechou, e agora ele está se esforçando para voltar a subir como comerciante itinerante — disse Kyne. — De qualquer forma, é útil que ele venha a uma vila pequena e afastada como a nossa, mas… Pensando bem, ele não estava na vila. Espero que ele não tenha desmaiado depois que saiu…
Essa pessoa provavelmente é o culpado. Bem, o motivo ainda é incerto.
Mas salvar pessoas vinha antes de resolver mistérios.
— Será que aquela é a vila?
Vandalieu, que possuía o talento Visão no Escuro que lhe permitia enxergar a escuridão da noite como se fosse meio-dia, viu várias casas de madeira construídas em um terreno aberto.
— P-por certo que é! — disse Kyne. — Por favor, os doentes estão —
— Então, vou curar todos de uma vez daqui — disse Vandalieu.
— Eh?
— A vila vai daqui até lá. Bem, acho que uns três mil de mana devem bastar, né? Detoxificação, Desinfecção.
Uma espécie de névoa negra começou a se espalhar pela vila.
— QUERIDO! Você estava vivo!
— PAPAAAAI!
— Estou tão feliz! Você está curado, que alívio!
A cena diante de Vandalieu lhe causou um leve déjà vu, mas esse momento feliz e emocionante entre Kyne e sua família se repetia por toda a vila.
A dor, a febre e a náusea que haviam surgido de repente desapareceram completamente, e as mentes turvas se tornaram claras.
Ao mesmo tempo, a família de Kyne também havia sido curada. Enquanto celebravam, ouviram vozes do lado de fora. Pessoas vieram procurar Kyne, iluminado por uma chama azulada.
No início, os aldeões pensaram que o fantasma de Kyne havia feito um milagre para eles, mas quando o mal-entendido foi esclarecido, tudo virou um turbilhão de emoções.
—… Ufa, que alívio — disse Vandalieu.
Usar Voo carregando (ou sendo carregado por) um homem adulto consumiu muita Mana. Era uma magia ineficiente desde o começo, então não tinha como evitar.
Ele gastou 70.000.000 de Mana. E, como já era tarde da noite, estava com sono. Como criança saudável, queria dormir logo, mas teria que voltar primeiro para a Sétima Vila de Cultivo?
Por enquanto, Vandalieu decidiu criar Lemures e enviá-los para procurar o culpado, o comerciante itinerante que havia desaparecido. Ele não conhecia bem a geografia da região, então havia uma grande chance de que não conseguisse encontrá-lo se ele tivesse pego uma estrada secundária para longe da rodovia.
Vandalieu partia do pressuposto que o comerciante itinerante era o culpado, mas, como os aldeões se recuperaram após o uso de Detoxificação, era certo que a doença deles não havia sido causada por uma enfermidade. E, como o próprio comerciante não estava presente, as evidências circunstanciais eram perfeitas.
— Ah, pessoal. O veneno desapareceu, mas a força de vocês ainda não voltou totalmente, então não se empolguem demais. Descansem um pouco.
— Querido, quem é essa criança? — perguntou a esposa de Kyne.
— Essa criança curou a doença de vocês; ele é quem salvou a vila! Obrigada, obrigada! — Kyne segurou Vandalieu no ar, com o rosto molhado de lágrimas e muco.
Vandalieu deixou escapar a palavra “veneno” sem querer, mas parecia que ninguém havia percebido.
— O que você disse?!
— Oh, ele é o salvador da vila!
— É um Familiar-Spirit-sama. Al—
— Deve ser a Vida — disse Vandalieu. O aldeão estava prestes a dizer algo extremamente desconfortável, então ele teve que negar firmemente essa parte.
— Vida, o Espírito Familiar da deusa Vida!
— Não, você deveria estar descansando em vez de fazer isso — Vandalieu voltou à realidade, mas os aldeões estavam em cima dele. Não me culpem se eu não conseguir me mexer amanhã. — Acho que vou passar a noite aqui — sussurrou para si mesmo.
A busca dos Lemures falhou e o comerciante itinerante escapou. Se tivesse havido vítimas, talvez Vandalieu pudesse encontrá-lo. Mas, graças ao esforço de Kyne e ao tratamento de Vandalieu, nenhum aldeão morreu, então ele não tinha pistas.
Segundo os aldeões, o comerciante itinerante aparentemente seguia uma religião de um deus que eles nunca tinham ouvido falar antes (e nem tinham certeza se existia), e era feriado nacional para os seguidores daquela religião. Ele havia tratado todos oferecendo chá que ele mesmo preparou e doces.
Os doces que a esposa e a criança de Kyne haviam guardado para ele quando voltasse da caça continham veneno; essa era certamente a origem da doença. O comerciante havia dito a eles que os doces estragariam rápido e deveriam ser comidos imediatamente por quem estivesse presente, mas agora, evidências haviam sido deixadas para trás.
Bem, Vandalieu havia apagado o veneno com seu feitiço, então não sabia se isso seria aceito como prova. Era difícil imaginar alguém que conseguisse detectar vestígios do veneno que Vandalieu apagou com magia de atributo morte.
Também era difícil imaginar que um comerciante itinerante capaz de fazer isso estivesse formalmente registrado na Guilda de Comércio.
Mas havia a possibilidade de que ele tivesse presumido que todos os aldeões estavam mortos e estivesse agora indo tola e desesperadamente para a cidade mais próxima.
Depois de confortar os aldeões, chocados por descobrirem que haviam sido traídos pelo comerciante que confiavam, Vandalieu passou a noite ali e deixou Lemures para vigiar. E o que ele fazia agora…
— “Eeeeelreeeeeem tooodos~”
Ele voava pelo céu cantando em um tom monótono.
Estava indo verificar se o comerciante itinerante de ontem estava tentando fazer algo nas outras vilas de cultivo.
Claro, ele poderia ter ignorado o comerciante e priorizado seu objetivo de se registrar na Guilda dos Aventureiros, mas se houvesse outras vilas onde as pessoas também tivessem sido envenenadas como na Quinta Vila de Cultivo e os aldeões estivessem à beira da morte, ele teria um peso na consciência.
Dizem que até encontros ao acaso são fruto do destino, e que o bem que você faz aos outros é o bem que você faz a si mesmo.
Vandalieu sentia-se desconfortável em receber dinheiro como recompensa, então decidiu que os aldeões construíssem um santuário para Vida na vila. Embora fosse um santuário, assim como o de Alda, era apenas uma grande pedra com um símbolo sagrado (um coração, no caso de Vida) gravado nela e um telhado simples construído por cima. Mas por ser tão simples, era algo que Vandalieu podia facilmente pedir.
Como resultado, ele estava sendo tratado cada vez mais como uma encarnação do Espírito Familiar de Vida, mas isso não o incomodava muito.
— “Haaated~… Oh?” Vandalieu estava a caminho da Sexta Vila de Cultivo quando percebeu várias dezenas de silhuetas no chão.
Ao olhar mais de perto, viu um grupo de homens vestindo armaduras de couro surradas e com uma aura suja, seguindo pela trilha que levava à Sexta Vila de Cultivo.
Ele tirou o mapa que Kyne havia desenhado para ele numa casca de árvore; não havia engano.
Chamou os espíritos que flutuavam atrás deles e os escutou. Esses homens eram aparentemente bandidos. Perguntou a vários espíritos a mesma coisa e todos deram a mesma resposta: eram realmente bandidos.
Era hora de se livrar deles.
— “Escutem aqui, seus bastardos,” disse o homem que parecia ser o líder dos bandidos. “Quando chegarmos na vila, matem todos os homens, e depois que se divertirem com as mulheres, matem elas também! Mas as bonitinhas que parecem vendáveis, não ponham um arranhão nelas! Entenderam?!”
— “Não, não entendi.”
— “O quê?! Seu bastardo, você está se rebelando —?! Quem é esse pirralho?!”
O líder dos bandidos se virou para ver Vandalieu ali, flutuando silenciosamente no ar.
— “Ch-chefe, isso é um monstro!”
— “Descendo de repente lá de cima… Com certeza é um fantasma ou coisa assim!”
— “Não,” respondeu Vandalieu aos bandidos assustados. “Sou apenas uma criança de sete anos que voa e estava passando por aqui.”
No mundo de Lambda, crianças normais de sete anos não voam.
— “Tch, ele está nos subestimando! Kyne*, use sua força sobre-humana para se livrar desse troço!” ordenou o líder.
Um careca com o melhor físico entre os bandidos avançou sorrindo.
Nota: Este bandido tem o mesmo nome do aldeão Kyne.
— “Chefe, posso brincar um pouco com ele antes de matar?” perguntou ele.
— “Ainda gosta de crianças, né… Faça o que quiser!” disse o líder.
— “Hihih, recebi permissão!” Kyne gritou animado, com os olhos brilhando de expectativa enquanto brandia seu martelo de guerra de forma ameaçadora.
— “Chefe, não devíamos atacar a vila?” perguntou outro bandido.
— “Não tem problema,” respondeu o líder. “Kyne vai quebrar esse garoto rapidinho.”
— “Acho que você tem razão.”
— “Ei, moleque, se ficar parado, eu só quebro seus braços e pernas e depois brinco um pouco com você,” disse Kyne. “Mas se resistir, quebro seus braços e pernas e faço você virar meu brinquedo!”
— “… Uau, que idiota,” disse Vandalieu, exasperado.
— “O QUÊ?!” gritou Kyne. “Ser chamado de idiota é o que eu mais odeio! Você não sabia disso?!”
— “De jeito nenhum eu poderia saber, não é?”
— “Droga! Você está me chamando de idiota!”
Ficando vermelho de raiva, agora parecido com um polvo fervido, o bandido Kyne investiu com seu martelo de guerra contra Vandalieu.
Quer dizer, se você estivesse enfrentando alguém que aguentasse mais de um golpe, não conseguiria fazer nada, não é? Pelo jeito, você só conta com a força bruta para balançar o martelo; seus movimentos são de quem não tem a habilidade Técnica de Clava.
Em vez de dizer tudo isso, Vandalieu apenas mostrou a língua.
— “Essa língua dá conta de vermes como você.”
— “Seu br—”
Antes que Kyne pudesse terminar sua frase, as bochechas de Vandalieu se encheram de ar. Apesar de sua expressão vazia, isso o deixou até meio fofo.
Mas as bochechas voltaram ao normal quando ele soprou algo da boca com um leve som de cuspir.
Kyne ficou rígido e caiu para trás como uma árvore podre. Seu olho esquerdo tinha se transformado num poço vermelho de sangue, não mais um olho injetado com pupila.
— “Eh?”
— “K-Kyne? O que houve?”
Enquanto os bandidos ficavam boquiabertos, uma coisa vermelha, macia e parecida com uma cobra saiu do olho esquerdo de Kyne.
— “Hyih?!”
Bem diante dos olhos aterrorizados dos bandidos, a serpente vermelha deslizou para fora da órbita ocular de Kyne, pingando sangue, e então subiu no ar, direto para a boca de Vandalieu.
— “… Esta é uma técnica marcial original, Língua Afiada,” disse Vandalieu. “Parece ser bem poderosa se eu dispará-la enquanto secreto veneno mortal. Suponho que sua desvantagem seja que, se eu não retrair a língua ou fizer crescer outra, não consigo falar.”
Era uma técnica marcial da habilidade de Combate Corpo a Corpo, onde ele usava os efeitos da Habilidade de Secreção de Veneno (Garras, Presas, Língua), a Transformação em Forma Espiritual na raiz da língua para separar a língua do corpo e a habilidade de Controle à Longa Distância para dispará-la como um projétil.
Claro, a única pessoa capaz de criar e usar essa técnica marcial era Vandalieu.
— “Bem, acho que posso usá-la caso precise como último recurso,” disse para si mesmo.
— “Q-quê diabos você é?!”
— “Agora que o único Kyne que sobra é o Kyne caçador de boa índole, vou me livrar do resto do jeito normal,” decidiu Vandalieu.
— “F-fujam! Esse garoto é realmente um monstro… q-que diabos, minhas pernas não se mexem…?!”
— “M-minhas pernas também estão tremendo… P-por que, POR QUE ELAS NÃO SE MOVEM?!”
Vandalieu deslizou na direção dos bandidos enquanto eles lutavam desesperadamente. As garras nas pontas de seus pequenos dedos eram mais que suficientes para cortar suas gargantas.
— “Eu só espalhei um pouco de veneno,” disse Vandalieu. “Vocês não perceberam que eu tinha chamado vocês pelo vento? Agora, vocês vão responder minhas perguntas, não vão? Embora eu vá perguntar de novo depois de matar vocês, de qualquer jeito.”