Seguindo o grupo de Kasim, Vandalieu estava se dirigindo para a vila onde eles trabalhavam, a Sétima Vila de Cultivo.
— Uma vila de cultivo num lugar como este? — Vandalieu perguntou surpreso. Ao sul havia as ruínas de uma cidade, e além disso, uma mina.
Fester também ficou surpreso com a pergunta de Vandalieu.
— Eu nunca ouvi falar dessa cidade — disse ele. — Se você for para o sul a partir da vila, só tem uma montanha rochosa com uma mina operada por escravos. Depois disso, há outro ducado.
— Não, eu tenho certeza de que já ouvi dizer que havia uma cidade, há cem ou duzentos anos — disse Kasim. — Não é essa cidade que o Vandalieu está falando?
— Ah, entendi. Ele disse que tinha um pai vampiro, certo? Acho que não seria estranho ele saber disso — disse Fester.
Parece que o Ducado Hartner entrou em declínio nos últimos duzentos anos.
— Mas por que isso teria acontecido? — perguntou Vandalieu.
Os aventureiros deram a ele olhares confusos em resposta.
— Desculpa, não somos muito instruídos. Cada ducado é um estado próprio, como um país governado por nobres, então a gente não aprende muito sobre a história dos outros ducados — disse Zeno.
— Vocês todos são de outros ducados? — perguntou Vandalieu.
— Sim, tem uma longa história por trás disso. É uma história triste de ouvir e de contar — começou Fester.
— Eu conto pra ele, Fester — disse Zeno. — Primeiro, sobre por que a cidade desapareceu, eu conto o que sabemos —
Segundo a explicação de Zeno, a causa direta foi a ruína de Talosheim.
A cidade havia sido construída como ponto de retransmissão para o comércio com Talosheim, e quando esse comércio desapareceu, a produtividade da cidade caiu e ficou difícil mantê-la.
Ao mesmo tempo, a produção da mina ao sul também caiu. Como não dava lucro contratar trabalhadores normais, escravos passaram a ser usados para a mineração.
Com as pessoas que trabalhavam na mina sem dinheiro para gastar, o Duque Hartner da época, que havia sido nomeado recentemente, ordenou que a cidade fosse desmantelada.
Vandalieu ficou impressionado com a disposição deles para desmantelar uma cidade inteira. Parecia que nas sociedades feudais, as decisões já tomadas eram cumpridas sem questionamento. No Japão, certamente haveria disputas por uma ação assim.
Mas o que aconteceu com a Primeira Princesa?
O nome da Primeira Princesa de Talosheim, Levia, não apareceu na história de Zeno. Talvez tenha sido omitido por não ter relação com a cidade.
Isso incomodava Vandalieu, mas ele achou que seria estranho perguntar isso agora.
Enquanto Vandalieu pensava nisso, a história de Zeno pulou para eventos mais recentes.
— Na verdade, cinco anos atrás, o Império Amid atacou — disse ele. — A maior parte do Ducado Sauron, ao norte, foi ocupada. Nós somos do Ducado Sauron.
— Somos o que você chamaria de refugiados — disse Fester. — Esses caras do Império aparentemente se comportavam nas cidades e nas vilas maiores, mas nas vilas pequenas como a nossa, faziam o que queriam. Meu irmão mais velho tentou salvar a noiva dele, e ambos—
— Fester, essa não é uma história para deixar uma criança pequena ouvir, né? — interrompeu Zeno.
A guerra entre o Império Amid e o Reino de Orbaume, que Vandalieu já tinha ouvido falar antes, fez com que ele sentisse que finalmente estava entendendo o que vinha acontecendo.
— Bem, de qualquer forma, somos refugiados que fugiram do Ducado Sauron e viemos para o Ducado Hartner
— resumiu Zeno. — Quando o conflito inicial acabou, o segundo filho do atual Duque, o Príncipe Belton, iniciou um projeto de cultivo para ajudar os refugiados. Por isso conseguimos viver com nossas famílias na Sétima Vila de Cultivo, onde estamos indo agora.
— Mas a vila não está exatamente prosperando, então viramos aventureiros no terceiro ano depois que foi fundada e fomos até a cidade — disse Kasim.
— Entendi — disse Vandalieu. — Deve ter sido difícil.
Começar um projeto de cultivo para ajudar refugiados parecia um bom plano para Vandalieu. Diferente da Terra, havia muita terra desocupada. Essa área em particular não tinha Ninhos do Demônio, e mesmo que monstros aparecessem, eram no máximo Rank 2. Só havia uma mina com trabalho escravo no fim da estrada, então praticamente não havia bandidos.
… Vandalieu tinha acabado de eliminar um bando de Goblins liderado por um Rei Goblin ontem, mas aquilo poderia ser considerado algo parecido com um desastre natural.
Kasim e seus companheiros tinham ficado confusos com o aparecimento do Bárbaro Goblin, que normalmente não aparecia na estrada. Mas não havia dúvida de que o Rei Goblin estava por trás disso. Esses Goblins provavelmente eram uma patrulha enviada para caçar.
— Acho que sim — disse Kasim. — Os soldados nos levaram, apontaram para a terra aberta e disseram: “Construam uma vila aqui”. Então fizemos os campos, cavamos poços, construímos casas…
— Eles protegeram a vila de feras e monstros até que fosse terminada, nos emprestaram tendas e cobertores, e embora a comida não fosse muita nem gostosa, deram um pouco — disse Fester. — Também estamos isentos de impostos por cinco anos, mas ainda assim foi difícil.
Ouvindo isso, Vandalieu percebeu que eles haviam passado por mais dificuldades do que ele imaginava. Embora tivessem recebido a terra para construir a vila e proteção e recursos para viver durante a construção, tiveram que fazer tudo — casas, campos e infraestrutura como poços — com as próprias mãos.
— Ei, ainda é melhor do que sofrer e procurar trabalho todo dia nos guetos, né? Se reclamar muito, você é punido — disse Zeno.
Segundo ele, as circunstâncias da vila ainda eram melhores.
— E tenho certeza de que essa criança passou por coisas ainda piores que a gente — continuou Zeno. — Desculpa por esses caras serem tão sem noção.
— De jeito nenhum, não se preocupem com isso — disse Vandalieu. — Graças à minha mãe e outras pessoas, eu não tive dificuldades para comer até agora.
Teve uma vez em que ele passou tanta fome que teve que se alimentar de sopa de minhoca, mas isso era difícil de contar para eles.
Depois disso, Vandalieu caminhou por mais três horas enquanto ouvia sobre a escola de aventureiros e o Duque Hartner até que finalmente chegou à vila.
A Sétima Vila de Cultivo tinha uma população de cerca de trezentos habitantes, um tamanho considerado entre pequeno e médio em Lambda.
×
Havia mais humanos na vila do que qualquer outra raça, representando cerca de metade da população. A outra metade era composta por homens-bestia, anões e titãs. Elfos, elfos das trevas e draconídeos têm longas expectativas de vida e culturas únicas, então costumam formar grupos entre eles mesmos. Por isso, embora possam ser encontrados em cidades, quase não há em vilas pequenas.
Isso também se aplicava mesmo após se tornarem refugiados, então os elfos das trevas e draconídeos do Ducado Sauron aparentemente se juntaram aos seus próprios grupos.
E os titãs da vila eram aqueles que viviam no Ducado Sauron, sem ligação com Talosheim.
As casas da vila eram todas térreas e não muito robustas, mas considerando que foram construídas à mão pelos moradores, eram muito boas.
Na verdade, essa era a vila com maior população entre as seis vilas de cultivo da região.
— A propósito, por que só existem seis vilas de cultivo se esta é a Sétima Vila de Cultivo? — perguntou Vandalieu.
— A Primeira Vila de Cultivo não conseguiu dar lucro e virou uma cidade fantasma — explicou Kasim.
— Eles até tentaram bastante. A nascente próxima secou, e aparentemente a água não saía nem quando cavavam poços — disse Zeno.
A vida na sociedade humana neste mundo era realmente difícil.
— Primeiro, vamos logo trocar essas orelhas por dinheiro.
Com isso, o grupo de Kasim levou Vandalieu até a única loja da vila… a loja de variedades/bar/filial da Guilda dos Aventureiros, que também funcionava como hospedaria para quem quisesse ficar, conhecida popularmente como a loja faz-tudo.
Parecia que era impossível sobreviver naquela vila sem ter várias opções de negócios.
No entanto, julgando pelo fato de que nenhum dos moradores havia prestado atenção em Vandalieu até então, provavelmente era comum que pessoas de outros lugares chegassem ali.
Vandalieu encontrou algo que o incomodava muito mais do que a reação dos moradores: um pequeno santuário com uma pedra onde estava esculpido o símbolo sagrado de Alda. Ele voltou sua atenção para aquilo, mas…
— UAU! Kasim, tem algo atrás de você! — o dono da loja faz-tudo se referiu a Vandalieu como “algo” e apontou o dedo para ele.
—… Olá. — Tentando não desanimar, Vandalieu o cumprimentou.
— Hyih?! Ele falou?! Alguém chame o padre-sama!
Essas palavras não eram cruéis demais, mesmo para uma vila isolada no campo?
— Espere, Oyaji-san. Essa criança não é um fantasma!
— A presença dele é fraca, mas ele está definitivamente vivo!
— A gente explica! Calma e escuta a gente!
O grupo de Kasim agarrou o dono da loja às pressas e o puxou de volta para dentro da loja, com certa força, considerando que tentavam acalmá-lo.
As palavras de Kasim e seus companheiros fizeram Vandalieu finalmente perceber que sua presença era tão sutil quanto o ar para aqueles que não eram afetados por seu Encanto do Atributo Morte.
Parece que o motivo pelo qual os moradores não tinham dito nada a Vandalieu era porque simplesmente não o tinham notado.
— Desculpe pelo meu pai. Ele gosta de falar besteira — disse Lina, funcionária da filial da Guilda dos Aventureiros e filha do dono da loja faz-tudo.
Ela era uma funcionária da Guilda alegre, simples, com jeito de garota de vila… na verdade, não tanto assim. Era uma garota da vila que havia feito exame para se tornar funcionária da Guilda dos Aventureiros.
A presença ou não de aventureiros influenciava bastante a longevidade de uma vila pequena, então era necessário construir um lugar para eles ficarem, mesmo que fosse uma pequena hospedaria na única loja da vila.
— De jeito nenhum. Já estou acostumado — disse Vandalieu.
Essa era uma mentira clara. Mas mesmo que o choque de ser tratado assim ainda ecoasse dentro dele, isso não aparecia em sua expressão.
— Sério? Então acho que tudo bem, mas mesmo assim peço desculpas — disse Lina olhando para o rosto de boneca de Vandalieu. Embora estivesse se desculpando mais uma vez, ela não percebeu os sentimentos dele.
— Lina, mais importante, troca isso por dinheiro — disse Fester.
— Sim, sim. Hum… Esses são Goblins Soldados e um Bárbaro Goblin?! É incrível que vocês conseguiram exterminar esses; vocês ainda são da classe E?!
— Não, quem os derrotou foi— começou Fester.
— Fester, a gente conversa sobre isso depois — disse Kasim. — Só faz a troca primeiro.
— Sim, você tem razão. Hum…
Lina fez os cálculos de forma um pouco lenta e depois contou as moedas de bronze e prata. Parecia que os funcionários da filial da Guilda em vilas eram mais trabalhadores temporários do que funcionários da Guilda dos Aventureiros de verdade, então não se esperava muita habilidade deles.
Na verdade, com o grupo de Kasim sendo os únicos aventureiros da vila, ela trabalhava na filial apenas uma vez a cada poucos dias.
Mas Vandalieu percebeu outra coisa.
Acabei de notar isso, mas como é que a Guilda dos Aventureiros distingue que tipo de Goblins foram mortos usando apenas suas orelhas?
As orelhas serviam como prova de que os Goblins tinham sido exterminados. Mesmo Vandalieu conseguia distinguir pela forma e cor que eram orelhas de Goblin. Mas se alguém perguntasse que tipo de Goblins eram, ele não teria chance de responder.
Ele conseguiria identificar nos casos de Reis Goblins, que possuíam constituições tão diferentes dos outros Goblins que era difícil acreditar que eram da mesma raça. Mas Goblins Soldados e Goblins Magos, que não eram muito diferentes em tamanho ou forma dos Goblins normais e apenas tinham equipamentos e ornamentos diferentes, seriam impossíveis de distinguir só olhando para suas orelhas.
Então, como eles podiam ser diferenciados? O encantamento de Avaliação era recitado para cada um, ou habilidades como Avaliação de Monstros ou Avaliação de Provas de Extermínio eram ensinadas na Guilda?
— A prova de extermínio de quatorze Goblins Soldados e um Bárbaro Goblin vale 400 Baums. As Pedras Mágicas valem 380 Baums, então o total é 780 Baums — disse Lina.
Quando Vandalieu estava prestes a perguntar sobre as orelhas dos Goblins, a troca do dinheiro foi finalizada.
780 Baums. Se um único Baum valesse cem ienes, isso daria 78.000 ienes. Para Vandalieu, essa quantia de dinheiro não parecia valer a pena lutar e arriscar a própria vida. Mas ele também sabia que isso era apenas sua opinião, vindo da Terra, do Japão.
— Dividido entre nós três, são 260 para cada um… Sim! — Fester ergueu o punho no ar em triunfo.
— Com isso, podemos ficar tranquilos por um tempo — disse Zeno, suspirando aliviado.
Pelas reações deles, Vandalieu percebeu que 260 Baums era um pagamento suficiente para eles.
— Quanto vale esse dinheiro? — ele perguntou.
— Ah, 260 Baums? Vamos ver… Se você estivesse trabalhando nos bairros pobres em um dos empregos relativamente melhores, poderia ganhar 260 Baums depois de uns vinte e seis dias — explicou Zeno.
Parecia que seria necessário ter sorte para encontrar trabalho diário nos bairros pobres e trabalhar sem descanso por vinte e seis dias para ganhar 260 Baums.
Mas provavelmente não havia programas de assistência social nem seguros para acidentes ou doenças. E não era garantido conseguir trabalho todo dia. Considerando isso, conseguir ganhar isso em um dia poderia valer a pena arriscar a própria vida.
— Mas até termos alguma folga com essa quantia de dinheiro é graças ao fato de que esse Oyaji-san nos deixa ficar aqui de graça — continuou Zeno.
— De fato, estaríamos em apuros se não tivéssemos aventureiros, mesmo que esses aventureiros fiquem olhando para minha filha — disse o tal Oyaji-san, entrando na conversa. — Desculpe pelo que aconteceu antes
— falou para Vandalieu. — Se você for ficar aqui, eu deixo você ficar de graça, igual esses caras, então me perdoe, Ojou-chan.
Ele se desculpou com uma expressão gentil, parecendo uma pessoa completamente diferente de antes.
Isso estava bem, mas…
— Oyaji-san! Eu não fico olhando a Lina assim — começou Fester.
— O quê, Fester?! Você está dizendo que minha filha não é do seu gosto?! — exigiu o dono da loja. — E quem é que você chama de Oyaji-san?!
— Pare com isso, pai! — disse Lina.
—… Hum, eu sou um garoto — disse Vandalieu.
— Eh?
Por algum motivo, todos os presentes ficaram surpresos com essa notícia.
Vandalieu de fato sentiu um choque cultural ao entrar em contato com uma sociedade e cultura diferente da sua.
Mas o choque pela forma como a sociedade humana em Lambda o tratava era algo totalmente diferente.
Vandalieu jamais imaginaria que tinha uma presença tão fraca e fantasmagórica. E, mais importante, essa foi a primeira vez que percebeu que sua aparência fazia com que o confundissem com uma menina.
Houve vezes em que crianças Ghouls confundiram seu gênero também, mas ele achava que isso era só porque os Ghouls homens tinham cabeça de leão.
Seus outros companheiros nunca tinham confundido seu gênero antes.
Na verdade, os Ghouls e Titãs Mortos-Vivos só souberam que ele era menino porque ele usava “ore (俺)” como pronome para si mesmo, e porque Sam e suas filhas o chamavam de “Bocchan”. Não era como se eles tivessem pensado que ele era menino desde o começo.
Bem, eu ainda tenho só sete anos. Vou entrar no meu segundo período de crescimento. Quando minha voz mudar, eu crescer pelos faciais e ganhar músculos, ninguém vai poder mais cometer esse erro — Vandalieu disse a si mesmo para se recuperar do choque.
Se alguém perguntasse o que Vandalieu estava fazendo agora, a resposta era que ele estava oferecendo assuntos para conversa.
— Huh, então essa criança é uma Dhampir. É a primeira vez que vejo uma.
— Oh meu, ela parece uma boneca, não? Está se alimentando direito?
— Eu toquei na Dhampir!
— Heheh, sou um cara sortudo.
— Ei! Vocês estão sendo rudes!
Ele estava sendo tratado como algum tipo de animal raro. Parecia que, nessa vila de cultivo que oferecia poucas formas de entretenimento, a “Dhampir que eles viram pela primeira vez” era uma espécie de atração.
Por isso, os moradores foram entrando um a um na área de refeições da loja faz-tudo.
Era muito melhor do que ser tratado como um fantasma. O próprio Vandalieu não se importava com esse tratamento e respondia educadamente quando os moradores falavam com ele, então eles não se continham.
— Entendo, então vocês também passaram por momentos difíceis, não é?
— Vai ser difícil, mas você tem que fazer o seu melhor.
Os moradores em geral tratavam Vandalieu de forma amigável. Vandalieu achava que eles podiam simpatizar com sua fase porque, como ex-refugiados, eles próprios tinham sofrido, e tinham a liberdade de se compadecer pelo passado dos outros nessa vila de cultivo. Mas havia dois outros motivos.
O primeiro era que os moradores tinham visto os olhos mortos e sem expressão de Vandalieu e presumiram que ele passou por momentos extremamente difíceis.
O outro era que Vandalieu era alguém com quem eles podiam se solidarizar sem nenhum custo para eles mesmos.
Se Vandalieu fosse um mero órfão impotente, não importava quanta simpatia os moradores sentissem por ele, as coisas que eles poderiam fazer seriam limitadas. A maioria dos moradores era jovem e ainda capaz de trabalhar muito no futuro, mas mesmo assim, não prosperavam.
Por enquanto, ainda estavam isentos de pagar impostos, mas em dois anos esse benefício acabaria. Os moradores não poderiam acolhê-lo e criá-lo.
Mas Vandalieu era alguém que esperava se tornar um aventureiro, e se metade das histórias de Kasim e seus companheiros fossem verdade, ele já possuía força suficiente para exterminar Goblins. Sendo assim, simpatizar com ele desse jeito e oferecer uma refeição já era suficiente.
Ainda assim, esse era um tratamento muito melhor do que o completo desinteresse que ele receberia numa cidade.
— Eu estou falando sério, é verdade! Esse cara veio por trás e cortou a cabeça do Bárbaro Goblin com um só golpe! — exclamou Fester.
— Hmm, não é que eu duvide de vocês — disse Lina — mas é só que é meio inacreditável…
— Não, você está duvidando, não é? Acredite em mim, Lina!
— Fester, nós vimos com nossos próprios olhos e ainda não acreditamos, então não é demais pedir para Lina acreditar também? — apontou Zeno.
Eles conversavam atrás de Vandalieu, mas considerando que ele podia matar monstros Rank 3 sem esforço algum, não era algo que valesse a pena convencer alguém, então ele permaneceu em silêncio.
Na verdade, ele havia deixado um Rei Goblin Rank 4 completamente indefeso sem nenhuma dificuldade, apenas ontem. Matar um Bárbaro Goblin não era um feito significativo comparado àquilo.
Além disso, Vandalieu não podia se registrar na filial que Lina gerenciava sozinha.
Aparentemente, a única coisa que podia ser feita ali era a troca das provas de extermínio e outros materiais. Para se registrar, Vandalieu teria que ir a uma filial adequada da Guilda na cidade.
Apesar de Borkus e os outros terem lhe dito que, duzentos anos atrás, era possível se registrar mesmo nas filiais em pequenas vilas.
Parecia que não só o Ducado Hartner tinha entrado em decadência nos últimos duzentos anos; a Guilda dos Aventureiros no Reino Orbaume também parecia ter passado por um declínio.
— Essa criança é a Dhampir que salvou Kasim e seus amigos?
Dois homens entraram perguntando isso.
Eles eram os raros membros idosos dessa vila, que era composta principalmente por jovens; parecia que já haviam passado vários anos desde o auge da vida deles. O homem à frente vestia roupas parecidas com as dos outros moradores, mas o que o seguia usava roupas de algodão devidamente tingidas com corantes, e havia um colar com um ornamento que Vandalieu odiava pendurado no pescoço dele.
— Chefe, sacerdote-sama, já terminaram a conversa? — perguntou o dono da loja faz-tudo.
— Sim, terminamos — respondeu o chefe da vila. — Mais importante, devemos agradecer a esta criança — disse, segurando a mão de Vandalieu e fazendo uma reverência. — Muito obrigado por salvar Kasim e seus amigos. Mesmo sendo alguém que aspira se tornar aventureiro, tenho certeza que foi necessário muita coragem para atrair a atenção dos Goblins.
Parece que a história que circulava entre os moradores era: “Vandalieu atraiu a atenção do Goblin forte enquanto o grupo de Kasim contra-atacava para exterminar os Goblins.”
Vandalieu era pequeno comparado a outras crianças da idade dele, então para os moradores que não sabiam muito sobre Dhampirs, isso provavelmente era muito mais fácil de acreditar do que a verdade de que “Vandalieu cortou a cabeça do Goblin que comandava a pequena unidade por trás”.
— Fico feliz em ter ajudado — respondeu Vandalieu, sem muito interesse em corrigi-los.
— Mas você não deve fazer coisas tão perigosas — disse o chefe. — Aventureiros devem sobreviver.
Pensando bem, Vandalieu achava que as pessoas ali eram mais gentis que qualquer uma na Terra.
Ele se sentiu um pouco emocionado, pensando que os humanos não eram tão ruins assim. Contudo, havia o “sacerdote-sama” sorridente atrás do chefe gentil da vila, então ele não podia baixar a guarda.
— Pensar que eu estava justamente nesta vila para pregar e conheci uma criança tão corajosa. Deve ser uma orientação de Alda — disse o sacerdote-sama, o padre de Alda, com um tom gentil, enquanto tocava o símbolo sagrado em forma de cruz de Alda no peito e fazia uma breve oração de agradecimento.
O gênero de Vandalieu foi confundido novamente, mas ele não se importava com isso agora.
— Sacerdote-sama, essa criança é um—
— Hahaha, chefe-san, não há motivo para preocupação. Alda apenas pune os malvados. Aqueles que fazem o bem não serão punidos injustamente, mesmo se forem Dhampirs. Ouvi dizer que você vivia em uma floresta ou montanha isolada. Você ainda não foi batizado, não é? Gostaria que eu realizasse a cerimônia? — ofereceu o sacerdote.
Ele não transmitia nenhuma intenção de matar nem fazia Vandalieu se sentir mal, mas o sorriso em seu rosto parecia superficial aos olhos de Vandalieu. O seu Perigo Ativo: Morte não mostrou nenhuma reação.
— Não, obrigado. Embora tenha sido uma cerimônia informal, minha mãe me batizou em nome de Vida — respondeu Vandalieu. Mesmo que não fosse uma armadilha, ele não queria ser batizado em nome de Alda, então contou mais uma mentira.
— Entendo. Que boa mãe ela foi.
Sem mais perguntas sobre o batismo em nome de Vida, o sacerdote de Alda se afastou.
O Reino Orbaume era uma união de países menores que se juntaram para se proteger da ameaça do Império Amid.
Sendo essa sua origem, a religião de Alda, o deus da lei e do destino, principal religião do Império, não era proibida. A religião de Vida era permitida, mas também não havia restrições à religião de Alda. Isso porque havia um número considerável de pessoas nos países menores que acreditavam em Alda e seus deuses subordinados.
Mas essa religião não podia ser exatamente igual aos ensinamentos de Alda no Império.
Existiam vários grupos que interpretavam os ensinamentos de Alda de formas diferentes. Entre eles, havia a facção harmoniosa que acreditava que “indivíduos virtuosos que respeitam a lei deveriam ser perdoados, mesmo que fossem membros das raças de Vida.” Isso seria considerado heresia pelos clérigos do Império Amid, mas foi essa facção que permitiu que os Dhampirs fossem aceitos como pessoas no Reino Orbaume.
Isso não era particularmente estranho ou anormal. Todo mundo em Lambda sabia com certeza que os deuses existiam, mas esses deuses só tinham existido no mundo em si cem mil anos atrás, durante a era dos deuses.
Agora, através de Mensagens Divinas e coisas do tipo, eles só podiam transmitir sua vontade por métodos limitados para um número limitado de pessoas.
Por causa disso, a religião de cada deus era interpretada de várias formas, dependendo da nação, região e pessoa, e essas interpretações frequentemente tinham diferenças estranhas entre si. O exemplo mais claro era a facção harmoniosa de Alda.
Mas, então, a razão pela qual a facção harmoniosa se espalhou era porque havia mais membros das raças de Vida aqui do que no Império Amid, incluindo duques que eram Homens-Besta, e a impressão das pessoas sobre a religião de Alda no Reino Orbaume havia piorado após a guerra, então isso provavelmente foi uma decisão política tomada para sobreviver.
Mesmo na Terra, não era incomum que houvesse múltiplas religiões apesar de terem se originado do mesmo deus.
Não sei o que Alda pensa, mas não há como ele descer ao mundo, enviar Mensagens Divinas ou despachar Espíritos Familiares para todos os seus fiéis e apontar quais interpretações estão erradas. Bem, desde que isso não me faça mal, não me importo.
Ele não gostava muito da maneira condescendente com que havia sido “perdoado”, mas Vandalieu aceitou que não podia se dar ao luxo de se importar com coisas assim se quisesse sobreviver na sociedade.
— Sacerdote-sama, sobre o remédio que o senhor me deu… Parece que não está funcionando muito bem.
— Esse remédio é melhor tomado em doses maiores, então tome o dobro da dose que vinha tomando até agora.
— Sacerdote-sama, poderia dar uma olhada em nossos campos?
— Não me importo. Alda também é o deus da vida, afinal.
Um por um, os moradores se aproximavam do sacerdote com seus problemas e pedidos. Parecia que os moradores o adoravam bastante, considerando o quão superficial era seu sorriso.
As histórias de santos e heróis contadas pelos clérigos eram provavelmente uma das poucas fontes de entretenimento nesta vila de cultivo, e vendo que ele era um homem instruído que até sabia misturar remédios, fazia sentido que fosse adorado, mesmo que fosse um pouco suspeito.
De repente, uma voz veio de fora.
— Sacerdote-sama, por favor, venha! Ivan caiu do telhado!
Parece que um morador caiu acidentalmente do telhado enquanto fazia reparos. Pelo tom da voz, parecia um ferimento bastante sério. Na verdade, quando Vandalieu usou Detectar Vida, havia uma pessoa com uma reação anormalmente fraca.
— Isso não é bom, devemos cuidar dele imediatamente — disse o sacerdote atrás de Vandalieu, levantando-se.
Vandalieu saiu silenciosamente da loja faz-tudo. Talvez porque a atenção de todos estivesse voltada para o sacerdote, ninguém percebeu sua saída.
Se ele não estiver morto, acho que posso fazer algo… Ah, está aqui.
Usando Voo para ir rapidamente até o local de onde veio a reação do feitiço, ele viu um homem na casa dos trinta anos deitado imóvel no chão e uma mulher com o abdômen grande, um pouco mais jovem que o homem. Também havia uma criança, menor que Vandalieu.
— Querido! Aguente firme, o sacerdote está vindo!
— Papai! Papai!
Embora sua esposa e filho estivessem agarrados a ele, o homem não emitia nada além de um gemido. Sua respiração parecia difícil. Havia uma sombra espessa da morte em seu rosto.
Este é um ferimento sério; não são ossos, são órgãos… no pior cenário, algo pode ter acontecido até no cérebro.
Numa situação assim, com o tratamento médico de Lambda, era sem esperanças. Magia poderia talvez fazer algo, mas aquela era a beira da vila. Vandalieu julgou que ele provavelmente morreria antes do sacerdote chegar… embora aquele sacerdote provavelmente só pudesse fazer algo além de balançar a cabeça se fosse um praticante de primeira linha.
Claro, se Vandalieu usasse magia de atributo morte, havia uma grande chance de que ele pudesse salvar a vida desse homem chamado Ivan. A esposa não teria que perder o marido, nem a criança no ventre dela ou a criança ao lado do homem perderiam seu pai.
Entretanto, o objetivo atual de Vandalieu era “registrar-se na Guilda sem chamar atenção e então correr de volta para Talosheim.”
Uma criança salvando uma vida que não poderia ser salva sem magia de alto nível. Isso atrairia muita atenção.
Seguir meu plano original, ou ceder às minhas emoções… Não tem jeito. Eu desisto.
— Com licença.
Com essas palavras, a criança se aproximou rapidamente do lado de Ivan e tocou seu corpo.
— Hieh?!
— Ei, o que você está…
— Mamãe, o rosto do papai está melhorando!
— V-vocês têm razão. Será que você está curando ele?
— Ah, sim. Por favor, aguardem mais um pouco — disse Vandalieu.
O homem chamado Ivan estava em má saúde. A imagem de que uma vida simples e lenta seria uma vida saudável não era verdade, pelo menos no caso dele.
Vandalieu já tinha feito todo o tratamento médico que podia, então ele recolheu os tentáculos de volta para seu corpo e desfez sua Transformação em Forma Espiritual.
— Agora vai ficar tudo bem. Ele provavelmente vai abrir os olhos em breve — disse Vandalieu.
Ele até fundiu sua própria resistência e nutrição com as de Ivan e as gastou para curá-lo, então não havia como ele continuar inconsciente. Vandalieu havia absorvido o sangue acumulado no crânio de Ivan, mas consideraria isso como a taxa pelo tratamento.
— Urgh, o que… aconteceu comigo? — Ivan abriu os olhos no momento seguinte.
— Querido!
— Papai!
A mulher e a criança abraçaram Ivan. Foi uma cena comovente. É assim que um lar, uma família, deve ser.
— Qual é o significado disso? Por que você está aqui? — Ivan perguntou para sua família.
— I-Ivan? — disse uma voz masculina. — Há pouco você estava caído no chão, parecendo que ia morrer! Como é que você está tão vivo agora?!
Justamente quando Vandalieu começava a sentir respeito por Ivan por ter construído um lar tão bom, o sacerdote, o chefe da vila e os outros finalmente chegaram.
Agora, se eles fossem enganados a pensar que a condição de Ivan não era tão grave assim e que o homem que chamou o sacerdote tirou uma conclusão errada, tudo — exceto o fato de Vandalieu estar presente — poderia ser resolvido.
— Esta criança, essa criança chamada Vandalieu, o curou! Esta criança salvou a vida dele! — exclamou a esposa de Ivan.
Senhora, mulheres honestas são bem queridas.
— Agora que você mencionou, tive um sonho. Um deus da morte assustador agarrou minha cabeça… mas antes que eu percebesse, uma deusa estava fazendo cafuné nela. Entendi, então deve ter sido essa criança — concluiu Ivan.
Quem é você chamando de deusa?
E assim, Vandalieu salvou a vida de um morador da vila que ele nunca tinha conhecido antes, atraindo muita atenção para si mesmo.