Tradutor: miggigibe
Em Psychedelia, a família do conde Palatio era retratada como o exemplo clássico de vilões de uma missão secundária, servindo apenas como fonte de pontos de experiência para o protagonista antes de desaparecer de cena.
Em termos de jogo, eram basicamente figurantes. Ainda assim, Alon sabia bastante sobre a família do conde Palatio porque, quando jogava, havia passado repetidas vezes pelas missões secundárias relacionadas a eles.
Os pontos de experiência dessas missões envolvendo a família do conde eram bem generosos.
Em suma, no jogo, aqueles personagens não passavam de figurantes criados para fornecer pontos de experiência ao protagonista.
Mas isso só era verdade quando vistos pela lógica de um jogo. Para Alon, que agora vivia de fato no mundo que antes era apenas um jogo, o que sentia em relação à família do conde era bem diferente.
No jogo, a família era descrita apenas como uma família que "vendia drogas e administrava uma rede de prostituição por meio da organização chamada Avalon", mas agora Alon tinha visto com os próprios olhos, ainda que apenas em fragmentos, a realidade por trás daquelas palavras.
Naquele exato momento, inclusive, estava vendo aquilo de perto.
Alon desviou discretamente o olhar para a frente. Diante dele estava o corpo do recém-falecido Tonio, deitado dentro de um caixão.
'Causa da morte: queda acidental… sei.'
Para alguém que era uma figura de peso no tráfico de drogas do reino, fora um fim absurdamente anticlimático e banal. Mas, naturalmente, Alon sabia que Tonio não morrera por causa de uma queda acidental.
Na verdade, seria estranho se alguém ali não soubesse a verdade.
Alon voltou o olhar para o lado.
Ao lado dele, com a cabeça baixa e um largo sorriso, estava Leo, o filho mais velho da família do conde Palatio, que vinha travando com Tonio uma disputa de poder pelo posto de chefe da família.
'Daqui a pouco esse sorriso chega às orelhas.'
Leo já nem tentava esconder o sorriso. Não fazia o menor esforço para controlar a expressão. Qualquer um perceberia que Tonio não morrera por causa de uma queda acidental.
Mesmo assim, apesar de todos saberem disso, ninguém levantava qualquer objeção a Leo. Nem os cavaleiros, nem os vassalos, nem sequer Aldimore, o atual chefe da família do conde Palatio, dizia uma palavra ao filho mais velho.
'Bom, Aldimore já se afundou demais em drogas e mulheres para se importar com os próprios filhos se destruindo. Não que ainda tenha condições de dizer alguma coisa.'
Alon soltou uma risada baixa e sarcástica enquanto observava o conde, tão desprovido de dignidade que, mesmo durante o funeral de Tonio, estava cercado de drogas e mulheres.
'Como era de esperar de uma fantasia sombria, essa família é um desastre completo.'
É claro que Alon não tinha nenhuma intenção especial de fazer algo a respeito.
Desde o início, seu plano vinha avançando sem que precisasse fazer muita coisa, e o único problema de verdade que enfrentava eram os Cinco Grandes Pecados.
'Preciso encontrar os outros logo.'
Pensando nisso, Alon acompanhou os últimos momentos do funeral.
Quando o caixão de Tonio estava prestes a ser fechado…
— Hmm…?
Uma pergunta surgiu de repente na mente de Alon.
'Era assim que Tonio devia morrer…?'
Quando jogara o episódio envolvendo a família do conde Palatio, apenas Leo aparecia, então não era difícil para Alon deduzir que Tonio acabaria morto.
O que o fazia estranhar aquela morte agora, porém, era algo que Leo dissera ao ser punido pelo protagonista.
'…Ele não tinha dito que, depois de sofrer por anos, finalmente matou Tonio e se tornou o herdeiro incontestável?'
Como jogara várias vezes e ainda se lembrava da figura ridícula que Leo fazia em seus últimos momentos, Alon não pôde deixar de inclinar a cabeça, confuso.
Ainda assim, logo deixou aquilo de lado.
Afinal, não era algo que o preocupasse muito.
Alguns dias depois do funeral de Tonio, a família do conde Palatio, que estivera em tumulto por causa da morte do segundo filho, tornou-se de repente surpreendentemente pacífica.
A disputa pela sucessão havia terminado.
Embora, além de Tonio, o conde tivesse um terceiro filho chamado Alon, ninguém esperava que a família mergulhasse no caos outra vez.
Todos sabiam que, ao contrário de Tonio, que se aliara ao submundo e vendera drogas para conquistar poder suficiente para enfrentar o filho mais velho, Alon não tinha poder algum.
Até Leo, extremamente sensível a qualquer questão envolvendo a sucessão, não demonstrava preocupação alguma com Alon e mal prestava atenção nele.
Em vez disso, Leo parecia mais ocupado em abocanhar o tráfico de drogas que Tonio deixara para trás.
De todo modo, com a paz de volta à família do conde, Alon estava lendo uma carta de Yutia.
— Hmm.
As cartas que eles trocavam havia quase um ano eram sempre assim: nada de especial.
O conteúdo girava principalmente em torno do orfanato. Yutia escrevia sobre como algumas das crianças estavam crescendo bem e também incluía algumas breves menções a Deus, que Alon mandara para lá.
'Estão crescendo bem, sem nenhum problema…'
Alon sorriu satisfeito ao ler aquela breve frase na carta de Yutia.
Quando enviara Deus ao orfanato, pedira a Yutia que cuidasse especialmente bem dele por ser "uma criança um pouco difícil", e ela sempre incluía em suas cartas uma pequena atualização sobre Deus.
'…Conversando com ela assim por cartas, ela realmente parece uma garota gentil e inocente do interior.'
Por um instante, pensou em visitá-la, mas logo balançou a cabeça e continuou lendo.
Quando se aproximava do fim da carta, Alon falou de repente.
— Evan.
— Sim, o que foi?
— …Orfanatos costumam receber muitas doações?
— Hmm, normalmente… bem, devem receber algumas, mas acho que não tantas.
— Foi o que pensei.
Alon perguntara sobre doações por causa da lista que aparecia no fim da carta de Yutia.
'…Foi há três meses ou quatro?'
Curiosamente, alguns meses antes, outra pessoa começara a fazer doações para o orfanato que Alon vinha sustentando.
É claro que a carta dizia apenas que um comerciante chamado Malano fizera uma doação, então ele não sabia o valor exato, mas…
'Neste mês, cinco pessoas, contando comigo, fizeram doações ao orfanato…'
Alon ficou intrigado enquanto lia a carta, mas logo deixou o assunto de lado.
'Bom, quanto mais doações, melhor.'
Com isso, Alon escreveu uma resposta para Yutia, reagindo sem muito entusiasmo aos relatos dela, e entregou a carta a Evan.
— Vai entregar pessoalmente de novo?
— Não. Eu não fui lá há poucos meses?
— Há três meses, creio.
— E… o que você disse naquela época?
— Se está perguntando sobre o orfanato, informei que estava funcionando bem. Deus, que levei até lá, também parecia muito melhor.
— É mesmo?
Alon assentiu satisfeito com o relatório de Evan.
'Como eu imaginava, mesmo destinados a se tornar os Cinco Grandes Pecados, eles não poderiam ter sido maus desde o início. É bom ver que as crianças estão crescendo bem. Deve ter sido o ambiente em que viviam que as transformou em assassinos.'
Mais uma vez, Alon percebeu o quanto o ambiente era crucial para o desenvolvimento de uma pessoa e acrescentou:
— Desta vez, não precisa ir pessoalmente. Peça a alguém da guilda dos mercenários para entregar.
— Entendido.
Evan assentiu e estava prestes a sair quando pareceu se lembrar de algo.
— E… lembra daquela coisa que mencionou da última vez?
— Coisa que mencionei?
— O livro antigo.
— Encontrou?
— Não tenho certeza, mas encontrei uma pista.
— Conte.
A pedido de Alon, Evan começou a repassar, pouco a pouco, as informações que reunira junto à guilda de informações.
Por fim, veio a resposta:
— Encontrei.
Foi assim que Alon descobriu a localização do terceiro Pecado.
Margot, o domínio de um visconde situado ao lado de uma pequena vila na região leste do Reino de Asteria, era conhecido por seus belos trabalhos em vidro.
Mas essa era apenas a face conhecida de Margot. Na realidade, a verdadeira fonte de riqueza da família do visconde de Margot eram as drogas.
Mais especificamente, um grupo chamado "Phalan" usava Margot como centro de distribuição e, em troca, proporcionava uma renda considerável à família do visconde.
Phalan, que vinha ampliando seu poder de forma constante usando Margot como ponto de distribuição, já havia se transformado numa enorme organização com centenas de membros, liderados por mais de dez combatentes de nível especialista.
Por isso, Rauton, líder de Phalan e um mercenário de nível especialista, assim como os demais executivos, acreditava que a organização continuaria crescendo ainda mais.
… Pelo menos era o que pensava até o dia anterior.
Rauton olhou ao redor, apavorado.
Diante dele, dezenas de cadáveres ensopados de sangue jaziam no chão.
— P-por favor, me poupe! Me poupe!!
— Por favor, eu imploro~!
— Aaaahhh!!
Restavam apenas alguns membros da organização, gritando desesperadamente.
Rauton os fitou com o olhar trêmulo.
Normalmente, ver os homens que ainda lhe restavam, que deveriam servir como um escudo robusto, o teria tranquilizado.
Mesmo que fossem mais fracos do que ele, só a quantidade já deveria bastar para lhe dar alguma sensação de segurança.
Apesar disso, Rauton não sentia nada além de medo ao olhar para eles.
— Uhn… Argh…
— P-por favor…
Todos os membros sobreviventes da organização seguravam as espadas com a empunhadura invertida, pressionando as lâminas contra o próprio pescoço.
— Não! Não, não façam isso! Não, não, não~!
— Aaaahhh~!!
— Parem, por favor, parem! Eu imploro… Por favor!!
O rosto de cada um deles estava tomado pelo desespero e pela súplica.
Ainda assim, seus corpos, como se aquilo fosse o movimento mais natural do mundo, pressionaram as lâminas invertidas contra as próprias gargantas.
Tchac!
Os cerca de doze membros que ainda restavam tiraram a própria vida.
!
Foi então que o corpo de Rauton começou a se mover sozinho.
— N-não…!
Ele segurou a espada com a empunhadura invertida.
— P-por favor!
Por mais que tentasse resistir, seu corpo, uma vez dominado, já não lhe obedecia e apenas tremia.
Em seus últimos instantes,
…
Rauton viu.
Na escuridão do esconderijo, olhos violeta o encaravam diretamente.
Mas, no instante em que os viu…
Tchoc!
Rauton cravou a espada na própria garganta.
Tum.
Com isso, Deus, até então envolto pela escuridão, avançou em silêncio e saiu dali.
— Bom trabalho.
Yutia, que também estava com Deus, seguiu-o naturalmente para fora.
— Faz algum sentido matar essas pessoas?
Como se estivesse esperando por aquilo, Deus perguntou assim que Yutia saiu.
Ao contrário de um ano antes, agora havia uma clara lucidez em seus olhos.
— Está sentindo pena?
— Não. Eu sei que essas pessoas trituravam seres humanos para fabricar drogas.
— Então?
— Só estou me perguntando se matá-los vai nos ajudar a matar aqueles desgraçados.
Diante da pergunta de Deus, Yutia sorriu e respondeu:
— Claro.
A resposta foi clara.
— Isto é só para preparar o terreno para o retorno dele.
Tum.
Com essas palavras, um desenho começou a se formar sob seus pés.
Gravado no círculo mágico havia um enorme olho com uma lua crescente em seu interior.
— Quando ele chegar, não queremos que o lugar dele esteja nessa imundície, não é?
— …Entendo.
Deus, que observava o desenho sob os pés dela, assentiu como se tivesse compreendido sua intenção. Não disse mais nada.
— Tudo segundo a vontade dele.
Murmurando aquelas palavras, que já repetira incontáveis vezes, Deus terminou de traçar o círculo mágico junto com Yutia, e os dois desapareceram na escuridão.
Sem deixar um único sobrevivente no esconderijo de Phalan.