Tradutor: miggigibe
Três meses haviam se passado desde que Alon resgatara Yutia Bludia, que dali a dez anos se tornaria uma máquina de exterminar seres humanos. Durante esses três meses, Alon seguiu vivendo seus dias normalmente e conseguiu localizar o segundo Pecado que precisava salvar.
Cerca de um mês depois.
— Como ordenou, resgatei a criança do mercado ilegal de escravos e a enviei para o orfanato administrado por Yutia.
Alon, que estava no gabinete resolvendo alguns assuntos, ouviu o relatório de Evan.
— Tratou-a bem, como eu pedi?
— Sim.
— Não houve nenhuma briga?
— Claro que não.
Acostumado aos relatórios de Evan depois de quase meio ano, Alon assentiu como se estivesse satisfeito. Mas, mais uma vez, Evan fez uma pergunta com certa hesitação.
— …Posso lhe perguntar uma coisa?
— O que foi?
— Por que mandou para o orfanato a criança que se deu a tanto trabalho para encontrar…? Hesito em dizer isso, mas a criança que resgatou desta vez também tem um talento extraordinário.
Entendendo de imediato o que Evan queria dizer, Alon assentiu pensativo.
'Não é só extraordinário… é um talento capaz de acabar com o mundo.'
O homem que Alon resgatara dessa vez do mercado ilegal de escravos no Reino de Kalian, que ocupava uma posição central entre os reinos aliados, não era outro senão Deus.
Deus Macallian.
Um dos chefes de Psychedelia, que dali a dez anos se tornaria o "Pecado da Preguiça", um dos Cinco Grandes Pecados. Assim como o Pecado da Ira, no instante em que aparecesse, ele apagaria do continente vários dos reinos aliados, entre eles o Reino de Asteria.
E faria isso da pior forma possível.
Mesmo como jogador, Alon franzira a testa diante das cenas sangrentas, e nas comunidades dedicadas a Psychedelia havia casos de jogadores que chegavam a passar mal só de ler sobre a forma como a Preguiça era retratada.
'E, para o Pecado da Preguiça, ele guarda rancor pra caramba.'
Alon se lembrou do motivo de ter mandado Evan tratar Deus bem depois de resgatá-lo. Percebendo que Evan ainda esperava uma resposta, deu uma desculpa qualquer.
— É o mesmo de antes. A hora ainda não chegou.
— A hora, você diz…
Observando Evan refletir sobre sua desculpa, Alon pensou:
'Ele é bem curioso.'
Na verdade, Alon teria preferido um cavaleiro que simplesmente obedecesse às ordens em silêncio, sem fazer perguntas, em vez de Evan, que questionava tudo sempre que recebia uma ordem. Infelizmente, ele não tinha escolha.
Ou melhor, já havia feito sua escolha ao contratar Evan meio ano antes.
Evan era um personagem de Psychedelia que, embora não fosse um dos protagonistas, aparecia várias vezes como coadjuvante dependendo de certas rotas.
Além disso, era um coadjuvante de primeira: depois que certo nível de confiança fosse estabelecido, jamais trairia você e permaneceria leal até o fim. Num mundo de fantasia onde traições e punhaladas pelas costas eram tão comuns quanto as refeições do dia a dia, Alon sabia o valor de ter alguém que nunca o apunhalaria pelas costas. Por sorte, encontrara Evan enquanto ele passava pelo território e o contratara como cavaleiro sem hesitar.
— …Entendo.
Enquanto Alon estava perdido em pensamentos, Evan assentiu com firmeza, como se tivesse entendido tudo, e fez outra pergunta.
— Então, quando pretende encontrar as pessoas que resgatou?
— Não tenho planos de encontrá-las.
— …Mas não seria melhor vê-las ao menos uma vez?
— Hmm.
Alon sabia disso.
O ideal seria manter uma relação próxima com os Cinco Grandes Pecados, e a melhor forma de criar esse vínculo seria interagir diretamente com eles.
Ainda assim, Alon optava por não encontrá-los pessoalmente e manter o vínculo apenas por meio do apoio que prestava. O motivo eram as personalidades deles, mais especificamente seus defeitos de caráter.
Pelo que sabia, os Cinco Grandes Pecados já tinham personalidades terríveis antes mesmo de se tornarem os Cinco Grandes Pecados.
Bastava assistir às cenas de flashback exibidas depois de derrotar os chefes dos Cinco Grandes Pecados em Psychedelia para entender.
As personalidades deles eram tão podres que Satanás e Lúcifer bateriam palmas de aprovação das profundezas do inferno.
'Claro que o processo que os leva a se tornarem os Cinco Grandes Pecados é ainda mais horrível.'
Alon refletiu por um instante antes de continuar.
'…Bem, eu os salvei antes que a personalidade deles se deteriorasse por completo, então não deve chegar a esse ponto… Mas também só consegui salvá-los quando o processo já estava pela metade.'
No fim das contas, a personalidade dos Cinco Grandes Pecados inevitavelmente seria distorcida de alguma forma, e isso era motivo suficiente para fazê-lo hesitar.
— …Talvez daqui a uns cinco anos.
Até lá, Evan teria reunido dados suficientes para avaliar com precisão como eram, em média, as personalidades dos Pecados.
Evan assentiu diante da resposta um tanto otimista de Alon, justo quando a porta do gabinete se abriu de repente com violência.
— Ora, ora, se não é o Alon!
Ao ouvir a voz familiar chamando seu nome, Alon franziu levemente a testa e soltou um suspiro.
Conhecia bem demais o dono daquela voz.
— O que meu irmão analfabeto está fazendo aqui, hein?
Ao se virar na direção da voz, viu um homem se aproximando com uma expressão maliciosa.
Ou melhor…
— Quando seu irmão mais velho fala com você, não deveria responder?
Era Tonio, o segundo filho da família do conde Palatio, conhecido como um dos irmãos canalhas da família. Com um sorriso desagradável estampado no rosto, ele apoiou casualmente o braço sobre a cabeça de Alon, que permanecia sentado.
Um gesto abertamente desrespeitoso.
— Só passei aqui para procurar uma coisa.
Mesmo quando Tonio pressionou de propósito a cabeça dele para baixo, causando uma leve dor, Alon respondeu com calma, como se nada estivesse acontecendo, enquanto pensava:
'Lá vamos nós de novo.'
Não era a primeira vez que o primogênito ou o segundo filho tratavam Alon daquela forma.
Na verdade, os dois o intimidavam abertamente desde o momento em que ele reencarnara.
Mesmo antes de assumir o corpo de Alon, o Alon original devia ter sido atormentado daquela forma o tempo todo.
Ainda assim, por mais irritante que fosse, Alon preferia não reagir e deixar aquilo passar, pois seu desejo de manter uma vida tranquila como nobre era mais forte.
'Se eu mexer com esses desgraçados, meu plano vai por água abaixo logo de cara.'
Se seus adversários estivessem apenas no nível da dupla de canalhas da família do conde, Alon teria adorado esmagá-los por completo. O problema era que a situação dos dois não era tão simples assim.
'Lidar com um barão das drogas e um rei dos cafetões é complicado.'
Alon ergueu os olhos.
Ali, o segundo filho da família do conde, que comandava no submundo um cartel de drogas com o pomposo nome de "Avalon", olhava para ele de cima com um escárnio evidente.
É claro que o cartel não era uma organização particularmente grande, tendo apenas certa notoriedade dentro do reino. Infelizmente, porém, o Alon atual não tinha como enfrentar um canalha que, com um estalar de dedos, podia mandar dezenas de assassinos do submundo eliminá-lo sem deixar vestígios.
Mesmo que conseguisse se livrar dele, ainda teria de enfrentar o primogênito, que disputava poder com o segundo filho e, por sua vez, administrava redes de prostituição. Como o mais velho era extremamente sensível à questão da sucessão, jamais deixaria Alon sair impune depois de derrotar o segundo filho.
Em outras palavras, Alon sabia que, no instante em que reagisse, não haveria mais volta.
— Parece que meu irmão mais velho deseja usar o gabinete, então vou me retirar.
— Pelo menos você conhece o seu lugar.
Alon fez uma reverência respeitosa a Tonio, cujo rosto estava tomado pelo desprezo, e deixou o gabinete com Evan para voltar ao próprio quarto.
Pouco depois, Evan lhe entregou a carta de Yutia.
— Desta vez, eu mesmo a trouxe.
— Trouxe?
Desde que resgatara Yutia, Alon vinha trocando cartas com ela uma vez por mês. Em geral, as cartas continham cumprimentos simples e pequenas novidades sobre o cotidiano de cada um. Fora o próprio Alon quem sugerira que começassem a se corresponder.
'Talvez ela se sinta mais próxima de um amigo por correspondência do que se nos encontrarmos pessoalmente.'
Lembrando-se dos amigos de salas de bate-papo on-line de quem certa vez se sentira mais próximo do que dos amigos da vida real, Alon abriu a carta e começou a ler.
— Hmm…
Não havia nada de especial na carta. Como sempre, Yutia escrevera uma breve saudação e contara algumas histórias sobre certos órfãos.
Resumindo, dizia que um garoto chamado Hidan era muito bom em brincar de "guerra" e que uma garota chamada Yuna era excelente no "esconde-esconde".
Enquanto lia aquelas histórias comuns, Alon pensou no que deveria escrever na resposta e decidiu contar fielmente o que havia acontecido naquele dia.
Imaginou que, em vez de escrever apenas coisas agradáveis, compartilhar algumas de suas preocupações talvez ajudasse os dois a se sentirem mais próximos.
Com isso em mente, Alon escreveu sobre os acontecimentos daquele dia e enviou a carta para Yutia no orfanato.
Era apenas mais um dia comum.
Naquele momento.
— Hmm~
Yutia observava Deus Macallian, um homem de olhos violeta sinistros e inquietantes que pareciam completamente vazios.
À primeira vista, ele parecia bem.
Seus braços e pernas estavam intactos. Embora o corpo exibisse inúmeras marcas de maus-tratos, ele não parecia ter nenhuma limitação física.
Mas aquilo era apenas a aparência. Se qualquer outra pessoa visse Deus Macallian, teria certeza de que ele estava destruído.
Seu corpo podia estar intacto, mas os olhos, que deveriam demonstrar alguma emoção, estavam vazios e fitavam o nada.
Parecia um homem cuja mente fora despedaçada por magia mental: sem expressão, imóvel, encarava um único ponto com o olhar perdido.
Era a própria imagem de um homem destruído.
Yutia, porém, abriu um sorriso ao observá-lo.
'As marcas deixadas por aquela coisa… Permitir que ele se vingue com as próprias mãos… você é mesmo atencioso.'
Yutia não estava apenas sorrindo. Havia compreendido perfeitamente a intenção por trás de ele ter enviado Deus até ali. Então disse:
— Bode Negro.
Deus reagiu.
Uma única palavra.
Mas aquela única palavra bastou para provocar uma reação em Deus, que até poucos instantes antes não passava de um homem destruído.
O que preencheu seus olhos antes vazios não foi inteligência nem consciência, mas puro ódio, raiva e medo.
Ao confirmar isso, Yutia sorriu e disse:
— Não quer se vingar?
Ao ouvir Yutia, Deus voltou o olhar vazio para ela.
Seus olhos estavam repletos de ódio, intenção assassina e curiosidade.
Percebendo isso facilmente, Yutia não disse mais nada.
Apenas liberou uma pequena quantidade de mana.
Mana concedida por ele, destinada exclusivamente a enfrentar os seres negros.
— Parabéns. Ele escolheu você. Então você ganhará poder.
Ela não deu nenhuma outra explicação sobre a mana que liberara.
Não. Não havia necessidade.
O segundo escolhido por ele possuía um talento tão excepcional que bastava uma única ação para comprová-lo.
Assim…
— Tudo o que precisa fazer é permanecer leal a ele. Então poderá se vingar.
Yutia sorriu enquanto observava Deus.
Assim, uma semana depois de Deus chegar ao orfanato, Yutia recebeu, como de costume, outra carta de Alon.
— Entendo.
Depois de ler a carta, ela sorriu.
Um ano havia se passado desde que Deus fora colocado no orfanato. Yutia e Alon continuavam trocando cartas corriqueiras, enquanto Alon começava a ter dor de cabeça por não conseguir encontrar o terceiro chefe que precisava salvar.
Foi então que uma notícia chegou aos seus ouvidos.
— …O canalha morreu?
O segundo filho da família do conde Palatio estava morto.