Tradutor: miggigibe
Lady Zenonia.
Ou melhor, Zenonia Kalia, que havia anos governava de fato o condado de Zenonia ao transformar o próprio pai em uma marionete, viera à propriedade do conde Palatio por dois motivos principais.
O primeiro era avaliar as intenções de Alon, agora conde Palatio. Apesar de ter nas mãos trunfos capazes de causar danos consideráveis ao atual condado de Zenonia, ele não os havia usado.
A relação entre o condado de Zenonia e o condado de Palatio não era necessariamente ruim. Ainda assim, Kalia sabia que, no fundo, o conde era parecido com ela. Eram, por assim dizer, pessoas da mesma natureza.
Em outras palavras, ela entendia com facilidade que Alon não era do tipo que usaria trunfos tão poderosos por mero sentimentalismo ou compaixão fora de lugar.
Ela viera descobrir quais eram suas verdadeiras intenções.
O segundo motivo era avaliar o poder da organização que, segundo os rumores, o conde Palatio controlava.
É claro que Kalia sabia que apenas se encontrar com o conde não revelaria toda a extensão da organização que ele comandava nas sombras.
Ainda assim, Kalia tinha uma forma de vislumbrar ao menos parte daquele poder.
Havia o mago Biankel.
Certa vez, ele apresentara na Torre de Magia uma nova teoria sobre a "magia da era esquecida", conquistando reconhecimento acadêmico. Mais tarde, porém, fora expulso da Torre por causa de experimentos mágicos excessivamente desumanos.
Apesar da expulsão, ele continuava classificado no 5º nível.
Biankel era forte o bastante para aniquilar sozinho um batalhão inteiro de soldados. Kalia o trouxera consigo em troca de ajudar em seus experimentos, formando uma aliança com ele.
Ela concluiu que, com um mago como Biankel por perto, especializado em magia de detecção e já no limite do 5º nível, seria fácil avaliar o calibre daqueles que protegiam o conde Palatio.
O tipo de guarda que cercava uma pessoa não revelava tudo. Ainda assim, observar o nível daqueles encarregados de proteger o conde naturalmente ofereceria pistas sobre o funcionamento interno da organização.
…Ao menos, fora por isso que ela trouxera Biankel.
Na sala de recepção da propriedade do conde Palatio, Lady Kalia lançou um olhar discreto para Biankel, que ainda não havia fechado completamente a boca e exibia uma expressão inquieta.
Por dentro, ela se surpreendeu.
Até onde sabia, ele não era alguém que normalmente mostraria uma expressão tão tola diante dos outros.
Biankel sempre carregava arrogância no rosto e nunca tratava ninguém com respeito, nem mesmo ela, que lhe dava apoio.
É claro que Kalia entendia o motivo.
Mesmo sendo um mago expulso da Torre de Magia, o fato de ter alcançado o auge do 5º nível bastava para tornar aquela atitude compreensível e até justificável.
Mas a expressão de Biankel agora era extremamente incomum.
O choque de antes ainda permanecia estampado em seu rosto. Kalia conseguia até perceber lampejos de medo, algo que jamais havia visto nele.
— Por quê…?
Kalia sentiu uma mistura de curiosidade e inquietação enquanto observava Biankel.
Nunca o vira demonstrar um medo tão evidente.
'Se ele está reagindo assim… será que a magia que vimos antes era mesmo uma magia de Origem…?'
O pensamento de Kalia durou pouco. Ela logo voltou a se concentrar na situação diante de si e encontrou o olhar de Alon.
Os olhos dele eram os mesmos de antes.
Seu olhar, como se não enxergasse valor algum na situação presente, passou devagar e com indiferença por Biankel e Kalia.
Silêncio.
— Minhas desculpas, conde Palatio. Fui indelicada.
Kalia foi a primeira a romper o silêncio.
Embora, em aparência, ainda fosse apenas Lady Zenonia, ela se dirigiu ao conde com respeito e pediu desculpas por ter entrado no campo de treinamento.
Por mais que tentasse justificar o que fizera, espiar o campo de treinamento de outra pessoa era claramente uma afronta, ainda que não fosse das mais graves.
Depois de alguns instantes em silêncio, Alon falou.
— …Não precisa se culpar.
— Obrigada.
— Em circunstâncias normais, eu perguntaria por que veio ao condado. Antes disso, porém, quero esclarecer uma coisa.
— Pode falar.
Diante da resposta de Kalia, Alon falou sem hesitar.
— O que usei não foi Origem. Parece que o mago que você trouxe entendeu errado.
— É mesmo?
— Sim. Minha habilidade com magia não é nada excepcional. Se eu tivesse que classificá-la… diria que está por volta do 2º nível.
Naturalmente, Kalia não acreditou nas palavras de Alon.
Mesmo sem entender muito de magia, era fácil perceber que aquilo que Alon havia mostrado não tinha nada de comum.
Ela voltou discretamente o olhar para Biankel e ficou ainda mais surpresa.
A expressão dele estava pior do que antes.
Apesar da feição amarga, porém, ele parecia ter entendido a mensagem por trás das palavras de Alon.
Era um aviso para que ficassem calados sobre o que haviam testemunhado ali.
— Parece que eu estava enganado.
…!
Biankel arrancou aquelas palavras de si à força.
Kalia se surpreendeu mais uma vez. Era a primeira vez em cinco anos que o ouvia falar de maneira respeitosa. Normalmente, ele não demonstrava qualquer deferência.
— Sim. Você parece bastante competente, então provavelmente já percebeu, mas aquela magia não tem utilidade prática. Agora que o mal-entendido foi esclarecido… o que a traz ao condado?
Sem hesitar, Alon fez a conversa avançar. Kalia se recompôs depressa e respondeu.
— Não foi nada de especial. Eu estava resolvendo alguns assuntos por perto, me lembrei do senhor e decidi passar aqui rapidamente.
— É mesmo?
— Sim.
Depois de refletir por um momento, Alon falou.
— Infelizmente, estou bastante ocupado e não poderei conversar por muito tempo.
— Tudo bem. Só passei aqui rapidamente. Queria apenas apresentar meus cumprimentos.
— Se está procurando alguém para conversar, talvez seja uma boa ideia visitar a duquesa de Altia.
— …A duquesa de Altia?
— Sim. Acho que vocês duas se dariam muito bem.
— Se o senhor diz… vou considerar fazer uma visita à duquesa.
Lady Zenonia sorriu ao responder a Alon, que continuava com a mesma expressão indiferente.
Sua boca, porém, estava seca.
— Por que Lady Zenonia, daquela família notória do oeste, viria procurar o senhor?
Observando a carruagem de Lady Zenonia desaparecer aos poucos à distância, Evan fez a pergunta, e Alon respondeu.
— Como eu saberia?
— É mesmo?
Evan pareceu confuso, mas desta vez Alon realmente não tinha mais nada a dizer. Ele também não fazia ideia do motivo de Kalia ter vindo.
— É irritante eu ter mostrado minha magia a ela.
Alon pensou no mago de Zenonia que havia confundido sua magia com Origem.
'Só espero que não comecem a espalhar boatos de que eu consigo usar Origem.'
Naquele mundo, rumores tinham mais poder do que se poderia imaginar.
Se começasse a circular o boato de que Alon conseguia usar Origem, uma magia que apenas os magos supremos daquele mundo eram capazes de lançar, à primeira vista isso poderia até parecer vantajoso. Na prática, porém, seria uma enorme dor de cabeça.
Naquele mundo de fantasia sombria, não era difícil encontrar lunáticos incapazes de resistir à vontade de provocar qualquer um que parecesse forte.
…Se Alon tivesse alguém poderoso para lhe dar respaldo, talvez fosse outra história. Sem isso, porém, boatos estranhos poderiam trazer mais do que simples incômodo. Pessoas perigosamente poderosas poderiam começar a procurá-lo para arranjar briga sem motivo algum.
Na verdade, Alon já conseguia pensar em oito pessoas poderosas que viriam atrás dele se ouvissem que era capaz de usar Origem. Queria, portanto, cortar qualquer rumor pela raiz o quanto antes.
'…Tomara que ela tenha entendido.'
Ao se lembrar do mago assentindo antes de Lady Zenonia partir, depois que o mal-entendido fora esclarecido, Alon continuou pensando com uma expressão desconfortável.
'Por que diabos eles estão interessados em mim, afinal?'
Para Alon, Kalia não só não despertava interesse algum, como era alguém que ele queria evitar o máximo possível.
Se por algum motivo acabassem se aproximando, a chance de ele se envolver com o submundo naturalmente aumentaria.
…Ainda assim, ele a havia indicado à duquesa de Altia.
Alon sabia que Lady Zenonia jamais procuraria a duquesa de verdade.
Mesmo assim, o motivo de tê-la indicado à duquesa de Altia era mais simples. Ele queria transmitir uma mensagem.
Uma mensagem de que não tinha interesse algum em se associar a ela.
"Não venha me procurar."
Com esse pensamento, Alon encerrou suas reflexões sobre Kalia.
Enquanto isso, dentro da carruagem, Kalia perguntou:
— …A magia que o conde Palatio usou era mesmo Origem?
Ao contrário do habitual, Biankel não respondeu de imediato e permaneceu em silêncio.
Quando Kalia estava prestes a falar de novo,
— Não era Origem.
Biankel finalmente respondeu.
— …Não era Origem? Então o que foi aquilo que vimos antes…?
Kalia claramente não entendia, e Biankel respirou fundo, tentando se acalmar antes de começar a explicar.
— Origem é o ponto culminante a que todos os magos aspiram, uma espécie de tela. É uma tela concedida apenas àqueles que estabeleceram a magia como uma "verdade", sobre a qual podem desenhar suas próprias leis.
— Uma magia dotada de arranjos próprios e fórmulas de manifestação, pintada sobre uma tela imutável. É isso que chamamos de Origem. Porém—
Ele engoliu em seco e continuou.
— A magia do conde Palatio era diferente.
— …Diferente de que forma…?
— Ele não estava desenhando sobre uma tela. Para ser mais preciso, a magia dele era como rasgar a própria tela.
Ao ver que Kalia claramente não compreendia, Biankel explicou mais.
— Em outras palavras, ele estava distorcendo a "verdade" que deveria permanecer imutável. Eu só vi por um instante, mas, como estava usando o "Olho de Observação" a seu pedido, enxerguei com clareza.
Biankel murmurou:
— Prender no lugar um relâmpago que não deveria parar, distorcer as leis até fazer desmoronar a magia que já havia sido manifestada e, ainda assim, manifestá-la sem falhas. Foi um milagre inacreditável. E por trás disso—
Ele interrompeu a fala abruptamente.
A imagem do conde Palatio de antes surgiu em sua mente.
No instante em que ele exibira aquela magia extraordinária.
Seus olhos haviam revelado um talento que, ainda que pudesse surgir tardiamente, só podia ser adquirido ao alcançar o 6º nível.
Um talento que o próprio Biankel só conseguira vislumbrar vagamente depois de atingir o auge do 5º nível, graças ao próprio potencial latente.
Olhos capazes de perceber o próprio mundo.
Era um olho.
Um par de olhos negros como breu.
Com dois anéis carmesins circundando as pupilas, aqueles olhos haviam surgido quando o conde usara sua magia.
Assim que a magia desaparecera, os olhos também sumiram, como se nunca tivessem existido.
Ao se lembrar daquilo, Biankel não conseguiu esconder o medo que preenchia seus próprios olhos.
Se aquilo fosse mesmo o que ele imaginava, então o conde havia acessado o poder de um antigo deus esquecido ao usar aquela magia…
Mas Biankel interrompeu o próprio raciocínio. Chegou a usar magia para se obrigar a parar de pensar.
Por ter se aprofundado em conhecimentos antigos, ele sabia muito bem o quanto era perigoso continuar pensando em coisas daquele tipo e tentar deduzir a verdade por trás delas.
Foi então que Biankel falou:
— Vou lhe dar um conselho.
…
…
— Nunca faça dele seu inimigo. Não se oponha ao conde Palatio.
— O quê—
— Esse é todo o conselho que posso lhe dar.
Depois de dizer isso, Biankel se calou.
Lady Zenonia também permaneceu em silêncio.
Ao mesmo tempo, Kalia se lembrou do rosto inexpressivo de Alon e do olhar calmo com que ele a observara.
— Haa…
Sem perceber, ela abriu um sorriso amargo para si mesma.
As palavras de Biankel a fizeram compreender uma coisa.
Desde o começo, não havia sentido em tentar entender as intenções do conde Palatio.
Ao mesmo tempo, ela também se lembrou daquela conversa.
"Se está procurando alguém para conversar, talvez seja uma boa ideia visitar a duquesa de Altia."
"…A duquesa de Altia?"
"Sim. Acho que vocês duas se dariam muito bem."
Kalia percebeu que já não passava de um peão no tabuleiro dele.
A carruagem permaneceu mergulhada em silêncio por um longo tempo.
Cerca de cinco meses depois, já bastante acostumado ao próprio papel e lidando com eficiência com os deveres de conde, Alon percebeu uma coisa.
— …Ah, conde. O senhor ficou sabendo?
— Fiquei sabendo do quê?
— Ouvi dizer que o condado de Zenonia e a duquesa de Altia formaram uma aliança.
— O quê?
Alon percebeu que o Reino de Asteria agora enfrentava uma crise.