A paisagem rural passava lentamente enquanto a carroça seguia por uma estrada de terra nas colinas. Tyron estava sentado em sua posição costumeira na parte de trás, segurando um fêmur enquanto o passava de uma mão para a outra, tentando concentrar sua mente nisso.
Ele estava assim há horas, e Dove estava começando a ficar cansado disso.
— O que foi que subiu pelo seu cu e morreu? — demandou ele.
— O q-O quê? — o jovem Mago olhou para cima, surpreso.
O crânio contendo o espírito do Invocador estava encaixado entre dois sacos de ossos para não ficar balançando na parte de trás da carroça, e Tyron encontrou seus olhos brilhantes, franzindo a testa.
— Você está aí se remexendo, com a cara fechada, sem dizer nada há horas. Nós dois sabemos que isso está o incomodando. Vamos falar sobre isso, vamos resolver e examinar na verdadeira tradição masculina.
— Dove, você não precisa inserir seu pau em todas as situações.
— Foi isso que minha esposa disse.
— Espera… você era casado?
— Não, não no sentido legal. Ou no sentido romântico. Não importa. Pare de tentar mudar de assunto! Assassinato. Vamos falar sobre todos os assassinatos que você está planejando.
As feições de Tyron se contorceram e ele inclinou para frente enquanto enterrava seu rosto nas palmas.
— É por isso que eu não queria falar sobre isso — resmungou ele. — Eu esperava evitar ter que pensar sobre isso, pelo menos por enquanto.
— Só que você não consegue parar de pensar sobre isso, né? Todas as vezes que você tenta se concentrar naquele pedaço de osso, faz uma cara de quem vai vomitar.
— Era tão óbvio, não é? — suspirou Tyron.
— Para ser honesto, era ainda mais óbvio que isso. Já vi Exterminadores com disenteria que tinham expressões muito mais tranquilas do que você. Se o conceito de assassinato te incomoda tanto, então por que estamos perambulando pelas planícies?
— Você sabe por que — reclamou o Necromante.
— Explique para mim de novo. Só por diversão.
— Para que eu possa conseguir experiência e recursos para continuar avançando minha Classe.
— Então, seu plano é assassinar um bando de pessoas para se fortalecer?
O Mago levantou a cabeça e cerrou os dentes.
— Sim — respondeu.
Por mais que tentasse disfarçar, era isso que ele iria fazer. Ele poderia argumentar que os homens que planejava matar eram terríveis, até mesmo malignos. Estupradores e assassinos, eventualmente eles seriam mortos pelos marechais, assim que Annette e os outros reportassem suas experiências às autoridades. Isso justificava Tyron fazer justiça com as próprias mãos?
Não. Nem perto disso.
Pouco a pouco, ele podia sentir que estava sendo corroído por dentro. Há apenas um dia, ele havia tomado o espírito de uma pessoa, de um ser humano, e oferecido para uma criatura de outro mundo em troca de conhecimento.
O que era mesmo uma alma? Seria uma impressão psíquica da magika ambiente do momento da morte? No fim, isso importava? Ele se recusava a fugir de suas responsabilidades com justificativas esfarrapadas. A única forma de engrenar suas ações e escolhas era de frente.
No fim, toda a moralidade se resumia a uma única pergunta que ele continuava a se fazer todos os dias. Ele a fez enquanto estava no escuro, com a pedra na mão, preparando-se para conjurar o Abismo. Ele a fez enquanto olhava para o Abismo pela primeira vez e sentiu e loucura aprisionada ali se infiltrando nele. Ele a fez enquanto estava parado, com uma pá em mãos, sobre o túmulo aberto de um membro de sua própria comunidade que havia falecido recentemente.
‘Você vai fazer isso ou vai abandonar seus objetivos?’
Ele estava disposto a virar as costas para tudo o que almejava, a alcançar as alturas que seus pais haviam alcançado, a ser uma força para o bem no mundo e ajudar a reverter a onda de criaturas das fendas que lentamente mergulhava o mundo em trevas? Ou seguiria em frente, contra seu próprio instinto, contra o que acreditava ser o certo?
Ele estava errado em caçar e matar seres humanos para se fortalecer. Era um fato inegável. Ainda assim, ele faria de qualquer forma, porque ele preferia fazer isso a abandonar suas esperanças e sonhos.
— Sou uma pessoa egoísta, Dove?
— Sim — a resposta foi imediata.
Uma pontada de dor cruzou os olhos do Necromante. Ele sabia disso, mas ainda doía ouvir. Ele gostava de pensar que queria poder pelas razões certas, mas, no fim, ele ainda o queria para si mesmo.
— Garoto, todos que almejam o sucesso são pedaços de merda egoístas. Têm que ser, na verdade. Altruísmo é bom, não me entenda errado, até mesmo ótimo, mas qualquer pessoa que conseguiu escalar o precipício e alcançar esses níveis de força pessoal é automaticamente egoísta. Os recursos que tiveram que gastar para chegar lá, o esforço, o tempo, a energia, tudo isso poderia ter sido direcionado à outra causa, mas em vez disso foi devotado a si mesmo. Seus pais são um exemplo perfeito. Magnin e Beory fazem o que bem entendem e sempre fizeram.
— Eles ajudaram muitas pessoas.
— Isso é um subproduto da busca deles pela liberdade. Você sabe disso tão bem quanto eu.
— Eles nunca assassinaram ninguém.
— Primeiro, você não sabe disso. Exterminadores são obrigados a fazer todos os tipos de merda quando chegam ao topo. Rogil nos fez caçar alguns criminosos às vezes. Eles não tiveram um julgamento, pode ter certeza. Segundo: você acha que eles teriam cometido assassinatos se essa fosse a única forma de se fortalecer?
‘Eles teriam. Nem sequer hesitariam.’
Ele não gostava de admitir isso, seus pais eram heróis aos olhos do público, mas ele os conhecia melhor do que qualquer um. O desejo por aventuras e liberdade consumia completamente os dois. Eles teriam lutado por isso a qualquer preço.
— Acho que o que estou tentando dizer é, foda-se Monty e aqueles babacas. Caralho, ressuscite esses cuzões e os mate pela segunda vez. Não fique se lamentando por verdadeiros pedaços de merda ambulantes.
— Entendi o que você está dizendo, mas não torna isso certo.
— Garoto. Tyron. Quem se importa se está certo? Não este espírito aprisionado, pode ter certeza. Esses caras precisam morrer, você precisa de níveis e esqueletos, todos ganham.
Eles ficaram em silêncio por um longo período enquanto a carroça continuava em frente. Eventualmente, Tyron quebrou o silêncio.
— Obrigado, Dove.
Sem o apoio do crânio, ele provavelmente já teria enlouquecido. Sabia que estava errado, pelo menos se sentia assim.
— Sem problema. Agora, em vez de ficar se lamentando, espero que possa começar a fazer um trabalho melhor em garantir que os marechais não estão prestes a pular o morro e nos dar um soco na cara.
— Estive checando…
— Claro que você esteve.
Tyron suspirou e trabalhou em sua magika por um momento. Quando terminou, seus olhos piscaram antes de serem dominados pela visão de outra fonte. Olhando através dos olhos de seus esqueletos, ele escaneou os arredores antes de dissipar o feitiço.
— Nada ainda — disse ele.
— Esses ossudinhos têm uma visão péssima. Você realmente acha que utilizá-los como vigias é apropriado?
— Diferente de você, eu não tenho um pássaro espiritual que eu possa invocar para espionar as coisas. O que eu tenho são esqueletos, e é isso que eu tenho que usar.
Ele tinha quatro deles lá fora agora, movendo-se cuidadosamente pela vegetação rasteira enquanto o resto dos seus lacaios puxava a carroça. De vez em quando, ele olhava através dos olhos deles e via se alguém se aproximava. Aqui, nas planícies, ele corria o risco constante de ser descoberto pelos Exterminadores e pelos Marechais. Com sorte, esperava que eles não se importassem o suficiente com esses lugares relativamente desertos para vasculhar minuciosamente em busca de alguma criatura perdida.
— É por isso que-
— Invocadores são superiores — interrompeu Tyron, revirando os olhos.
— É bom ver que concorda!
— Agora que finalmente está com a cabeça no lugar, vamos ver se podemos trabalhar com as novas coisas.
— Você quer dizer a habilidade Modificação de Lacaio?
— Exatamente. Como isso funciona?
Era uma… habilidade interessante, embora poderosa. Tyron nunca havia considerado a possibilidade de alterar lacaios já criados. Ajustar um ritual era muito diferente de reforjar uma lâmina. Um ritual era um construto magiko completo com muitas peças móveis e interligadas. Mexer no meio e alterar tudo era, em geral, ruim para o ritual e não era bom para sua mão.
Exceto que, nesta metáfora, a mão seria sua mente.
No entanto, essa nova habilidade permitia que ele fizesse isso. Era notável.
— É… estranho. Como se eu pudesse descascar as camadas de um lacaio e trabalhar nelas antes de juntar tudo de novo. Só tentei algumas vezes, mas é uma sensação estranha. Posso até começar a desfazer a trama óssea e mudar partes.
O crânio absorveu essa informação.
— Não acho que você entenda quão poderosa essa habilidade será a longo prazo. Ter mortos-vivos muito abaixo do seu nível atual pode te matar. Sem mencionar o ganho insano de eficiência. Você vai gastar menos restos mortais para manter seu contingente completo com seus melhores lacaios, e você nem precisa encontrar restos mortais para praticar suas habilidades.
Tyron franziu o cenho.
— O que quer dizer?
— Quero dizer, se você quiser trabalhar em Ressuscitar Mortos, por exemplo, pode trazer um dos membros da tripulação de ossos e começar a mexer no ritual. Isso pode até te dar alguns insights que você não obteria de outra forma, sendo capaz de modificá-los depois de conjurado.
Isso era… verdade. Tyron não havia considerado isso dessa forma. Rapidamente, ordenou que um dos seus esqueletos se aproximasse e observou subir de forma desajeitada na parte de trás da carroça, em meio aos sacos cheios de ossos.
— Viciado em trabalho — zombou Dove.
O jovem mago sorriu enquanto começava a trabalhar, começando a estender sua magika e examinar o conduto que o conectava ao esqueleto. Ser capaz de fazer modificações enquanto ele funcionava era uma oportunidade incrível, e ele não desperdiçou tempo e começou, enquanto conversava com seu amigo.
Apesar de quão envolvente era a magika, no fundo da sua mente, a localização dos bandidos restantes queimava como velas. Não importava o que fizesse, era impossível para ele apagá-los completamente de seus pensamentos.
Eles não estavam muito distantes. Ele provavelmente encontraria alguns deles amanhã. Um grupo de seis, ou talvez sete, havia se separado do grupo principal e parecia ter se estabelecido em algum lugar próximo ao sopé das montanhas.
Uma imprudência espetacular.
…