Havia mais velas queimando do que na noite anterior. Quando Tyron foi dormir, ele estimou que havia cerca de vinte pequenas chamas alinhadas no fundo da sua mente. Quando acordou, esse número havia crescido. A quantidade era difícil dizer, pois muitas das velas tremeluziam tão próximas umas das outras que determinar o número exato era impossível. Mesmo assim, ele tinha certeza de que havia aumentado.
Isso significava que Monty ainda não havia desistido de suas ambições distorcidas. Ele estava recrutando. O pensamento do trabalhador rural rechonchudo e de rosto comum despojando ainda mais as famílias encheu o peito de Tyron de raiva, a ponto de sentir que ela ia ferver por sua garganta.
Por que os Exterminadores e marechais não estavam fazendo nada? Eles ainda não haviam chegado nessa área?
Se fosse o caso, eles estavam atrasados, ficando muito mais atrás no cronograma do que ele esperava. Como resultado, as pessoas sofriam.
Seus esqueletos se moviam com uma precisão silenciosa enquanto ele os controlava ativamente com seus pensamentos. A fazenda isolada não era muito atraente, muito menos próspera do que as quatro casas que haviam atacado no passado. Esta área era ainda mais remota, e a terra era menos fértil e mais difícil de cultivar. A julgar pelo tamanho da construção, era improvável que mais do que quatro ou cinco pessoas vivessem aqui.
Fumaça saía em espirais pela chaminé, indicando que uma lareira bem-cuidada queimava. Da distância que estava, Tyron conseguia escutar vozes abafadas vindas de dentro, pontuadas por ocasionais explosões de risadas estridentes e brincadeiras.
Uma parte dele odiava esses homens. O desprezo cruel pelos outros, a brutalidade e a violência com que impunham suas vontades contra os impotentes.
Eles eram tudo o que seus pais o tinham ensinado a não ser.
O Necromante alimentou essa raiva, canalizou suas emoções na fornalha até que ela queimasse com intensidade e retidão. Ele precisava desse fogo para fazer o que tinha que ser feito, para dar o próximo passo.
Desta vez ele era o agressor, não haveria legítima defesa.
Era incrível quanta diferença cada habilidade fazia. A combinação de Comandante de Lacaios e Controle dos Mortos-Vivos permitia que ele controlasse os movimentos de seus vinte esqueletos como um maestro fazia com seus músicos. Era como se ele estivesse formando padrões em sua mente, linhas para os esqueletos seguirem. Eles não se amontoavam mais um sobre o outro, nem enroscavam mais suas espadas nas costelas uns dos outros (o que havia acontecido algumas vezes, para seu grande constrangimento). Eles se moviam equidistantes uns dos outros, e seus comandos mentais transitavam suavemente.
Isso era definitivamente algo que ele precisava aprimorar ao máximo. Esperava que isso ainda funcionasse tão bem quanto tivesse uma horda maior de mortos-vivos. Como seria comandar um exército de milhares? Ele mal conseguia imaginar a emoção.
Sem querer se expor, Tyron continuou agachado ao lado da parede, com os olhos estreitados a ponto de quase se fecharem enquanto tecia sua magia sutilmente. Ele espiava através dos olhos de seus esqueletos enquanto eles cercavam a construção humilde, posicionados ao lado das janelas, agachados junto às portas.
Com seus movimentos silenciosos, e tendo sido comandados para permanecerem fora de vista, os mortos-vivos se esgueiraram até suas posições sem serem notados. Sem nem perceberem, os bandidos foram envolvidos por um punho esquelético.
Se conjurasse algum dos seus feitiços de suporte mais poderosos, os homens lá dentro certamente o escutariam, então Tyron se conteve, em vez disso comandou seus lacaios para se aproximarem da porta da frente.
Sua habilidade de comandá-los era tão refinada que ele conseguia até mesmo ordenar que um esqueleto desse um passo para frente e segurasse a maçaneta da porta, enquanto olhava através de seus olhos. Em um movimento suave, o esqueleto abriu a porta com força e avançou, seguido de perto por dez de seus companheiros servos.
Vendo através da visão borrada de um esqueleto, o interior da casa estava ainda mais bagunçado do que pareceria em circunstâncias normais. Ela tinha sido saqueada, os armários arrombados, a comida pisoteada, com móveis espalhados pelo chão. Os homens, que se sentavam em um círculo ao redor de uma fogueira no centro do que antes parecia ser uma humilde sala de jantar, passando uma garrafa meio vazia entre si, não estavam muito melhores.
Desgrenhados e sujos, eles pareciam ter se tornado selvagens, com cabelos emaranhados e roupas rasgadas, dando a eles uma aparência animalesca.
A raiva ferveu na garganta de Tyron mais uma vez, ameaçando sufocá-lo. Ele exibiu uma careta do lado de fora do edifício, cerrando os dentes para se conter enquanto guiava seus esqueletos a avançarem.
Os bandidos pegaram suas armas enquanto se apressavam para se levantar, mas foram muito lentos. Com suas novas habilidades, foi trivial para Tyron ordenar seus servos a avançarem com eficiência, dividindo os esqueletos entre os sete alvos. Espadas estocaram ou desceram em cortes brutos, cortando a carne. Sangue fresco espirrou enquanto os bandidos gritavam de dor, os respingos eram pouco mais do que uma névoa roxa aos olhos dos esqueletos.
Apenas alguns conseguiram se levantar ilesos, mas Tyron estava preparado, revezando os esqueletos dos alvos feridos para dominar os outros. Um esqueleto golpeou em um arco amplo da direita para a esquerda, forçando o antigo fazendeiro a bloquear a lateral, enquanto outro morto-vivo avançou com uma estocada direto em seu peito.
Em segundos, a luta havia acabado para eles. Pegos completamente de surpresa, eles foram suprimidos em um instante. Dois saltaram pelas janelas, arrombando as persianas de madeira apenas para pousarem aos pés dos lacaios que os aguardavam. Outros se renderam, segurando seus ferimentos com uma mão enquanto tentavam impedir que a vida escapasse deles, com a outra mão levantada, derrubando suas armas no chão.
Tão fácil. Fácil demais. Não deveria ser tão simples matar, mas aqui estava ele. Era estranho pensar que um pequeno grupo de pessoas normais não era mais uma ameaça para ele. Suas habilidades e atributos eram muito menos úteis em uma batalha do que os dele. Mesmo se esses homens estivessem preparados para sua chegada, ele ainda teria os oprimido ao adicionar sua própria magika na mistura. Agora, apenas Exterminadores ou marechais de alto nível eram páreos para ele.
Esse foi o progresso que ele alcançou após todo o sofrimento e esforço que dedicou.
Apesar da onda de orgulho que sentiu, Tyron ainda estava ciente do que um Exterminador de mesmo nível faria com ele. Um Espadachim no nível vinte cortaria seus esqueletos como se eles nem existissem, movendo-se com velocidade e graça sobrenaturais. Na verdade, tal lutador poderia provavelmente ignorar os mortos-vivos. Sendo mais rápidos e fortes, eles podiam encontrá-lo e decapitá-lo, e havia pouco que Tyron pudesse fazer a respeito.
Isso era algo para considerar no futuro. Afinal, tinham que existir contramedidas, embora ele não tivesse certeza do que elas poderiam ser. Por ora, ele tinha sete vidas humanas para lidar.
— Deitem-se de bruços — gritou ele através da parede. — Mantenham as mãos longe das armas!
Ele teve que se repetir duas vezes para ser ouvido em meio às súplicas e xingamentos. Logo, cada bandido jazia indefeso, com um esqueleto pressionando uma lâmina em suas costas enquanto os outros recolhiam as armas simples que eles haviam juntado.
Machados, porretes rudimentares e várias outras ferramentas agrícolas. Apenas um deles tinha uma arma adequada, uma maça rudimentar. Seria uma boa arma para um futuro lacaio, já que a falta de coordenação deles não seria um grande problema. Talvez o bandido pudesse continuar utilizando-a em sua próxima fase de existência.
Tyron afastou seus pensamentos dessa ideia sombria.
Com a situação sob controle, ele levantou-se e contornou a casa antes de entrar pela porta. Os bandidos jaziam sangrando, xingando, um deles soluçando, com seus esqueletos em pé sobre eles. Ao entrar, eles começaram a xingar, ameaçar e implorar na mesma medida, com suas vozes cheias de raiva e desespero.
Eles realmente eram uma visão patética.
Tyron então percebeu que havia sido um erro entrar. Vê-los pessoalmente tornou ainda mais difícil a próxima parte. Ele se esforçou para alimentar sua raiva, na esperança de que ela o ajudasse a fazer o que precisava ser feito.
Quanto mais ele tentava alimentar o fogo, mais frio ele se tornava. Todas as suas emoções e dúvidas foram consumidas pelo fogo, deixando nada. Seu pé se estendeu quando chutou a perna de um dos bandidos.
— Levante-se — disse ele. — Quero falar com você lá fora.
Com um comando mental, mais três esqueletos entraram e vigiaram enquanto o homem se levantava. Cauteloso com um possível ataque desesperado, Tyron manteve distância enquanto o homem esquelético e de olhos fundos era levada para fora da pequena casa com várias lâminas cutucando suas costelas.
— Calma aí, seus ossos ambulantes de merda. Eu prefiro manter minhas costelas aqui dentro, diferente de vocês.
‘Improvável.’
Assim que saíram, Tyron avaliou o bandido com mais atenção. Era evidente que ele estava no limite. As roupas que usava, que em algum momento foram resistentes por serem de um trabalhador, agora estavam esfarrapadas. Rasgadas em vários locais, desfiadas por toda parte e sem sinais de reparo, suas vestes contavam a história de um homem no limite.
‘A vida deve ter ficado difícil desde que eles perderam seu pequeno pedaço do paraíso.’
Era provável que esse fosse o motivo pelo qual esses sete se separaram do grupo principal. A situação estava se tornando cada vez mais desesperada tão a oeste dali. Os marechais e Exterminadores ainda não haviam chegado para restaurar a ordem, o comércio era praticamente inexistente e os suprimentos estavam escassos.
Não era a primeira vez que Tyron se sentia grato por não ter que alimentar seus lacaios com nada além de magika. Yor também era, felizmente, pouco exigente. Embora ele se preocupasse com frequência se as pessoas nas comunidades vizinhas estavam desaparecendo durante a noite.
— Não sei se te reconheço — disse Tyron. — Por acaso tentou invadir uma fazenda recentemente? Deixando vários de seus amigos para trás, mortos no chão?
O bandido o encarou com cautela.
— Sim, Mago. Eu estava lá.
— Você não parece tão irritado por me ver de novo.
O homem deu de ombros.
— Acho que merecemos isso, depois do que fizemos. Monty dizia que poderíamos viver livres depois disso, mas não tenho certeza.
— Você se sente mal pelo que fez? — questionou Tyron, um pouco surpreso.
O bandido curvou-se para frente, com os olhos desprovidos de emoção.
— Não importa agora. Só me mate e termine com isso, Mago. Não tenho nada a dizer.
— Há muito que você pode me contar, a verdadeira questão é quanto trabalho eu preciso fazer antes de conseguir minhas respostas. Você pode falar comigo enquanto está vivo, ou podemos continuar esta conversa depois que morrer. O que prefere?
O rosto do cativo empalideceu ao assimilar suas palavras.
— Não pode fazer isso. Você não pode levar minha alma.
— Eu preferiria não ter que fazer isso — respondeu Tyron, com honestidade. — Diga-me o que quero saber sobre Monty, e terá uma morte tranquila.
Recuse, e serei forçado a obrigar o seu espírito a falar.
Acontece que a ideia de ter seu espírito alterado mesmo depois da morte era bastante perturbadora para a maioria das pessoas. Mesmo que o bandido estivesse resignado com o fato de que seus restos mortais seriam convertidos em um morto-vivo, ele era muito mais oposto à ideia de Tyron aprisionar seu espírito de alguma forma.
Não havia muito o que se aprender sobre Monty e sua gangue. Depois de serem derrotados por Tyron, eles recuaram em desordem, lutando entre si e perdendo vários membros conforme as disputas se intensificavam. No fim, Monty manteve a liderança e ordenou que o resto encontrasse novos alvos.
Esses sete se separaram para tentar encontrar um lugar mais isolado onde pudessem se esconder e, com sorte, evitar as consequências de suas ações.
Tyron não se incomodou em perguntar o que havia acontecido às famílias que moravam aqui, e seu cativo não se voluntariou para contar. Não havia necessidade de dizer isso em voz alta.
Quando terminou, Tyron se virou e afastou-se enquanto seus esqueletos levantavam suas lâminas ao seu comando mental.
Ele ainda conseguiu ouvir os gritos, apesar da distância que havia colocado entre si e a casa. Pelo menos, ainda que impiedosamente, não durou muito.
…