“…”
Assim que fiz a pergunta, a sala ficou tensa.
Com os olhos fixados em Angelica, perguntei algo que estava me incomodando desde a semana passada.
Por que ela veio atrás de mim e como ela descobriu que fui eu o responsável pela morte do Elijah, se em todas as notícias e provas apontavam para Amanda como a responsável pela morte dele?
Além disso, ao longo da última semana, conferi a lista de convidados presentes na festa e nenhum deles tinha sido alvo dela… algo não fazia sentido.
Depois de ter me encarado pelo que parecia uma eternidade, Angelica respondeu, calma.
“Porque pude sentir o jeito que Elijah morreu… e não foi por uma flecha.”
Franzindo o cenho, repeti a última parte confuso.
“Não foi por uma flecha.”
Como ela sabe?
Quando matei Elijah, tive o cuidado de não deixar nenhum rastro… Então, como foi que ela descobriu uma informação que até mesmo a União não conseguiu descobrir.
Ao perceber a confusão no meu rosto, Angelica explicou.
“Quando um contratante morre, além de termos nossas almas danificadas, também sofremos a mesma dor que eles experienciaram antes de morrer…”
“Ou seja, depois que o Elijah morreu, consegui sentir que não foi uma flecha… o ferimento era preciso demais para ter sido causado por uma…”
Depois de ouvir a explicação de Angelica, minha expressão ficou mais séria.
“Hmm, interessante. Não sabia sobre isso…”
Eu realmente não fazia ideia disso.
Não me lembro de ter escrito algo sobre isso na novel… Apesar de saber que não devo ficar comparando as coisas com a novel, já que nem sempre era a mesma coisa… Ainda era chocante descobrir que não sabia sobre uma informação importante dessa.
Principalmente por ser uma informação que fazia toda diferença.
Levando a mão até o queixo e processando tudo, olhei para a Angelica antes de perguntar.
“Ok… Entendi porque não foi atrás da Amanda, mas, novamente, por que eu?”
Angelica abriu a boca para falar, mas parou no meio da frase, franzindo o cenho. Logo depois, seu semblante se tornou vazio enquanto ela me olhava, claramente confusa.
“Bom, porque… hm?”
Ao perceber a reação estranha dela, me inclinei para frente.
“Porque…?”
Depois de um tempo, Angelica balançou a cabeça e disse.
“Eu não me lembro…”
Perplexo, meu semblante ficou mais sério.
“Você não se lembra?”
Angelica levou os dedos delicados até o meio das sobrancelhas. Depois de alguns segundos, balançou lentamente a cabeça enquanto seu semblante se tornava vazio.
“Não, não importa o quanto tente, não consigo me lembrar do motivo de ter ido atrás de você.”
Sentando direito na cadeira, entrelacei as mãos sobre a mesa e apoiei o queixo sobre elas, enquanto minha expressão se tornava ainda mais fechada.
“Hm… estranho.”
Observando Angelica por alguns segundos, me encostei na cadeira e comecei a pensar.
De todas as respostas que queria ouvir, essa provavelmente era uma das últimas.
‘Não me lembro.’
Foi o que ela falou…
‘Será que está mentindo?’
Encarei Angelica, que parecia se esforçar ao máximo para se lembrar, enquanto batia os dedos levemente sobre a mesa.
-Tap! -Tap!
Não tenho certeza… mas duvido muito.
Afinal de contas, ela sabia que poderia tirar a resposta dela quando estivéssemos fazendo o Contrato de Mana… ou seja, ela realmente não conseguia se lembrar.
Mas a real pergunta… por quê?
Será que foi obra de outra pessoa? Ou será que ela só tem a memória ruim?
Duvido que o último seja verdade… o que só pode significar uma coisa. Tinha mão de alguém nisso.
No instante em que aquele pensamento me ocorreu, minha expressão se fechou. Voltando minha atenção para Angelica, escolhi as palavras com cuidado antes de perguntar.
“Qual foi a última coisa que se lembra antes de perder a memória?”
Angelica lançou-me um breve olhar, franzindo o cenho enquanto vasculhava a memória em busca de qualquer lembrança do que aconteceu antes de me escolher como alvo. À medida que falava, parava de vez em quando, com uma expressão confusa no rosto.
“Hmm, eu lembro… lembro de lutar contra os meus ex-subordinados antes de ganhar e então- hm, a partir daí que minhas memórias começam a ficar embaçadas… porém, consigo me lembrar de alguém me entregando uma foto sua.”
Pego de surpresa, olhei seriamente para Angelica e não pude deixar de repetir a última parte.
“Uma foto minha?”
Assentindo com a cabeça, Angelica confirmou.
“Sim, mas é só isso que consigo lembrar, não consigo lembrar o rosto de quem me entregou.. mas lembro desse alguém me falando algo sobre a pessoa da foto ser o responsável por matar o Elijah… e depois daí, você já sabe o que aconteceu…”
“Huuuu…”
Ao ouvir Angelica, respirei fundo.
Essa notícia é um pouco chocante…
Tem alguém atrás de mim…
Sendo realista, a única pessoa que me via a mente no momento era Matthew. Ele era a única pessoa que podia estar atrás de mim… não, espera.
-Tap! -Tap! -Tap!
Batendo os dedos na mesa sem parar, percebi que Matthew não era o único que poderia estar atrás de mim.
Existia outra pessoa que poderia ter feito isso…
E se estivéssemos falando sobre demônios… seria Everblood.
Outro demônio que interagi quando estava na dungeon… mas, naquela vez estava usando uma máscara, então as chances dele descobrir eram- parei na mesma hora minha linha de raciocínio, perguntando a mim mesmo.
‘Espera… eu estava usando a máscara?’
Será que o Everblood viu o meu rosto naquele dungeon?
Massageando as têmporas, comecei a relembrar dos acontecimentos daquele dia. Naquele dia, lembro de quase morrer nas mãos do clone de Everblood… Estava tão preocupado em sobreviver, que mal prestei atenção no que aconteceu depois disso.
Será que a máscara caiu e ele descobriu sobre a minha identidade?
Hmmm… se for isso, parece que Everblood realmente é o indivíduo que está atrás de mim… mas, uma coisa não fazia sentido.
Observando Angelica sentada na cadeira, não pude deixar de pensar.
Por que usar ela e não vir até mim pessoalmente?
Se Everblood realmente está atrás de mim, por que usar ela ao invés de vir pessoalmente?
Depois de pensar por um longo tempo e não chegar em nenhuma conclusão, balancei a cabeça de forma derrotada.
Não tenho evidências o suficiente para descobrir o real culpado… mas isso não importava. Isso só significava que precisava ficar em alerta o tempo todo.
Eu precisava tomar mais cuidado e ficar ainda mais forte o quanto antes.
Agora sei que coisas fora do enredo vão começar a vir atrás de mim… Não posso ter mais o luxo de ficar despreocupado como antes.
Não podia me dar ao luxo de baixar a guarda… principalmente para quando outra situação semelhante acontecer.
‘A partir de agora, preciso ficar preparado para qualquer situação…’
*Sigh*
Soltando um suspiro exagerado, me levantei e estalei o pescoço. Olhando para a expressão fria da Angelica, um sorriso leve se formou no meu rosto.
“Muito bem, acho que acabamos por aqui… Vou vir outra hora com o Contrato de Mana.”
“Provavelmente vou enviar o documento para você. Leia-o com calma e, depois, decida se deseja assiná-lo ou não. Se quiser discutir ou negociar algum dos termos que propus, é só me mandar mensagem depois.”
Inclinando a cabeça para o lado, Angelica olhou para mim e perguntou com um tom de confusão.
“Mensagem?”
Ao ver a expressão de confusão de Angelica, dei um tapa na minha testa.
“Ah, verdade. Demônios não usam celular.”
Franzindo levemente o cenho, Angelica tentou se lembrar de onde já tinha ouvido a palavra ‘celular’ antes e então disse devagar.
“Celular…? São aqueles aparelhos primitivos que vocês humanos usam para se comunicar entre si?”
Apenas encarando a mulher por alguns segundos, assenti com a cabeça.
“Hmm, isso, vou deixar essa tarefa para o PequenaCobra resolver.”
Não vou me meter nisso.
Balancei a cabeça, imaginando a situação complicada em que PequenaCobra acabaria se metendo. Então, vesti minha jaqueta e disse.
“Ok, preciso voltar para a escola agora. Se tiver mais alguma dúvida, pode perguntar para o PequenaCobra.”
Inclinando a cabeça para o lado e lembrando-se dos dois indivíduos que estavam na sala antes, Angelica perguntou.
“PequenaCobra? Qual deles? O primata ou o palito?”
“…”
Comprimi os lábios, tentando ao máximo manter o rosto sério. Depois de alguns segundos, falei.
“O palito…”
Assentindo com a cabeça, Angelica disse.
“Pois bem, tomarei nota desse indivíduo. Contanto que eu recupere meu núcleo, não me importarei com questões tão insignificantes.”
“Bom para você…”
22:00 da noite.
Ao olhar para o relógio, abri um sorriso para Angelica. Já estava na hora de voltar para a escola.
Apesar de ter pulado alguns detalhes sobre o que Angelica teria que fazer aqui quando assinar o contrato, melhor deixar para outro dia.
Afinal de contas, preciso contar mais sobre o grupo de mercenário. Aliás, com ela se juntando ao grupo, isso significava que agora teríamos quatro membros.
E então só restaria mais um membro para podermos começar a fazer missões. A partir daí, poderíamos subir gradualmente o Nível do Grupo conforme concluíssemos mais e mais missões. Além disso, com Angelica no grupo, alcançar o Nível [II] seria moleza.
Pensando nisso, lembrei-me de Ava.
Sim, pelo que li dos relatórios que PequenaCobra me entregou, ela, junto com Ryan, eram as duas pessoas que só precisavam de mais um empurrãozinho para entrar.
Se eu quiser começar a fazer missões com o meu grupo, preciso primeiro contratar o quinto membro.
E deixando Ryan de lado, Ava era a mais fácil de ser recrutada.
“Huuu…”
Suspirando fundo, massageei minhas têmporas antes de sair da sala.
‘Fico pensando o quão forte meu grupo vai se tornar no futuro…’