Buscar a verdade e técnicas práticas era uma boa escolha para os médicos, então Angor decidiu deixar o assunto por aqui.
Ele tirou um pergaminho de couro do bolso, que mostrava uma serpente negra girando em uma longa haste.
“Você já viu isso antes, doutora Sherry?”
“Não… É o brasão de alguma família?” Sherry inclinou a cabeça.
Angor sorriu e guardou o pergaminho. “Tenho uma última pergunta. Você já ouviu falar de… Pocratee?”
Sherry olhou fixamente para Angor, confusa com todas aquelas perguntas estranhas e irrelevantes.
“Pocratee…” Ela pensou por um momento e teve a sensação de que conhecia aquele nome. Mas, então, não conseguiu se lembrar direito.
De repente, um homem com um uniforme de pele entrou correndo na clínica.
“Um oficial do turno da noite?” Sherry se levantou.
“Do portão marítimo!” O homem confirmou sua identidade. “Doutora Sherry, por favor, venha comigo agora mesmo! Houve um acidente no Porto de Tarot. Um navio de patrulha naufragou e temos muitas pessoas feridas!”
Sherry rapidamente recolheu seus instrumentos. “Certo. Algum ferimento grave além de afogamento?”
“Sim! Muitos estão perdendo sangue por ferimentos nas artérias. Tentamos chamar todos os médicos que conseguimos encontrar!”, explicou o homem, ansioso, e fez um gesto de desculpa para Angor, achando que havia interrompido o atendimento a um paciente. No entanto, comparado àquele jovem aparentemente saudável, a situação dos marinheiros feridos era a prioridade no momento.
Sherry pegou seus bisturis e materiais de sutura.
“Ah, e eles também sofreram queimaduras!”, acrescentou o oficial.
Sherry parou o que estava fazendo e olhou para o homem, chocada. “Meu Deus! Tem certeza de que foi um acidente e não um ataque de guerra?”
“Não, é só que… o navio de patrulha partiu-se ao meio e começou a pegar fogo de repente. Também acho estranho. Quem conseguiu escapar não notou nada antes de acontecer. Parece que alguém cortou o navio com uma arma. Mas… quem diabos seria capaz de fazer isso? Acho que o navio precisava de mais manutenção depois de tantos anos.”
Sherry continuou procurando outros instrumentos adequados para as diferentes situações e organizou tudo em sua maleta médica.
“Estou pronta. Vamos nessa!” Sherry juntou-se ao oficial, mas logo se lembrou de que ainda havia um visitante estranho em sua clínica. “Sinto muito, senhor; veja bem, eu preciso…”
Angor tomou um gole de seu chá com leite e pegou sua cartola. “Bem, já está tarde; acho que também preciso ir. Obrigado pelo chá. Estava muito bom.”
Dito isso, Angor afastou-se lentamente, por conta própria, e desapareceu na escuridão atrás da cortina de neve.
Sherry lembrou-se, de repente, da última pergunta de Angor, que dizia respeito a “Pocratee”.
Aquele nome lhe soava familiar, embora ela não tivesse conseguido recordá-lo momentos antes. Agora, lembrava-se de que a Professora Caroline havia mencionado tal nome durante uma aula. Parecia tratar-se de algum tipo de santuário. A maioria dos detalhes havia escapado da memória de Sherry. Ela percebeu, então, que Pocratee tinha alguma relação com o “Juramento do Médico”.
E aquele cavalheiro estranho também havia perguntado sobre o juramento.
No entanto, ela não teve mais tempo para refletir sobre isso, pois o oficial da guarda a arrastou rapidamente em direção ao Porto de Tarot. Havia pacientes a serem salvos.
“Graças aos céus sua clínica ainda está funcionando.”, lamentou o oficial, “Senão eu teria que correr até a academia; a essa altura, aquelas pessoas já estariam todas mortas. Acho que viver numa cidade grande não traz apenas coisas boas.”
…
Angor sentiu-se um pouco decepcionado por Sherry não ter conseguido lhe dar uma resposta, mas não era nada grave. De qualquer forma, ele não esperava encontrar informações sobre uma vila perdida há muito tempo em uma clínica pequena.
Pelo contrário, ele estava bastante curioso a respeito do “incidente”.
Dias antes, ele também havia ido observar as patrulhas navais que circulavam pelo Distrito da Baía. Aquelas embarcações tinham, todas, pelo menos 20 metros de comprimento. Como algo tão robusto poderia, de repente, partir-se ao meio sem motivo aparente?
A julgar pelos documentários da Terra, a estrutura da quilha de uma embarcação, que era a base de sustentação de um navio, certamente passava por inspeções minuciosas com frequência. Qualquer avaria nela seria detectada. Era muito improvável que a equipe de manutenção deixasse passar algo tão grave.
O oficial mencionou algo sobre como o navio parecia ter sido cortado por um homem… Isso poderia parecer impossível para mortais, mas não para magos.
O encontro sobrenatural estava se aproximando. Um bando de aprendizes rebeldes que não pertenciam a nenhuma organização bruxa provavelmente fariam coisas estúpidas.
Angor presumiu que um dos aprendizes deveria ter causado o acidente. Provavelmente um louco que buscava diversão em sangue e caos.
A neve começou a cair há menos de uma hora. As ruas já estavam cobertas por uma fina camada branca, como um tapete limpo que iluminava o caminho à distância.
Angor parou de repente.
Ele estava sob um poste de luz que iluminava uma área de vários metros ao seu redor.
Tum, tum…
Uma série de passos se aproximou à sua frente, acompanhada por uma onda de energia mágica poderosa, porém estranha.
Angor permaneceu imóvel sob a luz da lâmpada, observando silenciosamente a origem dos passos.
A primeira coisa que surgiu à luz foi um par de botas de couro preto polido. Em seguida, uma calça bege-escura, um cinto de couro preto, um colete xadrez ocre e um vistoso casaco de couro preto decorado com rebites no estilo punk.
O dono dessas roupas usava um chapéu de aba larga e macia. Ele também fumava um cigarro, que fornecia um pequeno ponto de luz na escuridão.
Angor observou o homem atentamente, sem se mover. Enquanto isso, a paisagem nevada atrás dele começou a ficar borrada e a se alterar ligeiramente, seguida por uma música e melodias estranhas que causavam arrepios em qualquer um que as ouvisse.
“Ora, ora… um ilusionista? Que visão rara…” disse o homem de botas com uma voz agradável e encantadora. Ele tirou o cigarro da boca e o jogou na neve próxima, que liberou seu último brilho antes de se extinguir completamente.
“Quem é você?” perguntou Angor, cautelosamente.
“Ah. Eu sou…”
O homem parou de repente e deu vários passos para trás. “Uma ilusão acústica? Nossa, essa foi por pouco.”
Angor ficou surpreso. O homem estava certo; ele havia acabado de usar uma Ilusão Acústica. Ele tentara enganar a mente do homem posicionando os nós de ilusão adequados, mas a tentativa falhou, pois o homem percebeu a manobra a tempo. Aquele sujeito estranho teria caído no efeito da ilusão se tivesse dado apenas mais um ou dois passos.
Angor concluiu que quem quer que tivesse se aproximado dele possuía reflexos excepcionais.
“Um usuário de linhagem?”, ponderou Angor.
“Quanta hostilidade. Eu só queria ver quem perturbou meu Krakok. E vejam só, quem diria que um aprendiz oficial viria à cidade?”, murmurou o homem para si mesmo. “Será que devo pegá-lo? Falando em organizações legítimas… Só existe o Morro Silencioso por aqui, e eu certamente não quero arranjar problemas com eles…”
“Opa, esqueça. Não sei como explicar isso pro meu mestre.”
O homem olhou para Angor com um ar de “você teve sorte hoje”. “Tudo bem, vou deixar você ir. Mas devo te avisar. Não conte a ninguém sobre os Krakoks.”
O homem virou as costas e desapareceu rua adentro.
Angor franziu a testa diante da chegada e partida repentinas daquele sujeito estranho. Decidiu não ir atrás dele por enquanto.
“O que é um Krakok?”
Com essa pergunta em mente, Angor caminhou sobre a neve fofa em direção à sua casa.
…
A primeira coisa que chamou sua atenção foram Dodoro e Trusan, que estavam os dois olhando para os canais do pátio da mansão.
Trusan suspirou de alívio ao ver Angor se aproximando. “Dodoro não conseguiu dormir desde que o senhor partiu.”
Angor olhou para Dodoro e logo percebeu o afeto familiar naqueles olhos.
Ele balançou a cabeça e soltou uma risada baixa. Imaginava que a educação dada por Trusan eliminaria gradualmente o “efeito de imprinting” de Dodoro. Pelo visto, não funcionou.
“Estou bem. Podem ir dormir agora.”
Depois de mandar Trusan e Dodoro de volta para seus quartos, Angor voltou a pensar no homem estranho que havia visto.
Ele já havia percebido que aquele homem poderia ser outro aprendiz; e um muito poderoso, por sinal. Pelo que o homem disse, tratava-se de algo relacionado a uma coisa chamada “Krakok”. Infelizmente, por algum motivo, o homem decidiu mudar o que quer que tivesse planejado e saiu dali.
Por quê? E, mais importante ainda, o que é um “Krakok”?
A resposta veio no dia seguinte.
…
Pela manhã, Trusan começou a ensinar Dodoro no pátio da mansão. Sua programação previa que eles andassem pelos arredores naquele dia; no entanto, como Angor havia pedido que permanecessem na mansão por alguns dias, ela alterou os planos.
Durante a aula, Trusan viu um pequeno barco vindo pelo canal em direção a eles. Um homem gordo, de aparência violenta e com uma cicatriz no olho, desembarcou e caminhou apressadamente na direção deles.
Trusan interrompeu a aula e observou, apreensiva, o homem que se aproximava.
Embora não conhecesse aquele indivíduo, era óbvio que ele não era uma pessoa de boa índole. Ela temeu que alguém tivesse vindo ali para causar problemas.
Contudo, a preocupação de Trusan logo deu lugar à dúvida.
O homem com a cicatriz de repente gritou “FANTASMA!” e tropeçou para trás. Em seguida, ele ficou mudando de direção enquanto recuava, o que fez com que acabasse andando em círculos no mesmo lugar.
“Será que ele enlouqueceu?”, perguntou-se Trusan.
Após não conseguir escapar daquilo que vira, o homem gordo empalideceu. Com um último grito agudo, ele caiu e desmaiou.