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Book of the Dead – Volume 2 – Capítulo 24

Assombrado

— Sangue e ossos, isso é frio! — exclamou Tyron, enquanto um arrepio percorria seu braço.

Ele puxou o membro de volta da beira da carroça e o esfregou vigorosamente, estimulando o fluxo sanguíneo enquanto encarava o nada à sua direita. Só que não era de fato nada, como bem sabia.

— Te pegaram de novo? — riu Dove. — Cara, esses fantasmas realmente sabem guardar rancor.

— Nem tenho certeza se eles fizeram isso de propósito — murmurou Tyron —, eles meio que ficam que à deriva quando não estão se movendo ativamente.

— E coincidentemente ficam à deriva esbarrando em você várias vezes? — questionou Dove, cético.

— Eles não deveriam ser capazes de agir contra mim de forma alguma. Parte do ritual de Ressuscitar Mortos inclui mecanismos de controle para que eles não possam recusar minhas ordens nem me ferir.

— Talvez isso não conte como ferir se tudo o que estão fazendo é te deixar com frio e irritado. Não estou surpreso que eles queiram se rebelar, dadas às circunstâncias. Imagine trabalhar honestamente a vida toda e então ser escravizado por um punk de queixo quadrado depois de ser assassinado por ele.

Isso é duro.

O crânio fez um som de risada enquanto ponderava sobre as ações monstruosas que Tyron cometeu. Por sua vez, o Necromante encarou seu amigo fixamente, sem cair na isca. Descrever esses homens com “trabalhadores honestos a vida toda” era demais, até mesmo para o Invocador. Esses caras tinham sido ladrões, assassinos e estupradores.

Sem se importar com o motivo, Dove continuou a provocar e pressionar Tyron sobre seus novos lacaios, insistindo sem parar, apesar de ter sido ele a convencê-lo a fazer isso em primeiro lugar!

Essa era apenas uma das formas que o crânio continuava sendo, ao mesmo tempo, um companheiro bem-vindo e um completo estorvo. Tyron o ignorou por um momento e direcionou seus pensamentos para a conexão que compartilhava com seus lacaios. Os sete bandidos que ele matou já haviam sido processados e alcançariam a saturação em algumas horas, e logo após, ele planejava ressuscitá-los como esqueletos. Seus leais lacaios, centrados em ossos, não eram o que o preocupava no momento, na verdade, ele estava mais interessado nos outros seis.

Enquanto sentia a conexão mental que compartilhavam, ele estremeceu de novo com o toque estranho e alienígena daquelas mentes mortas-vivas. Os esqueletos mal tinham pensamentos, então não davam esse tipo de feedback. Em certo sentido, um esqueleto era quase como um construto magiko, feito com restos mortais. A “mente” era completamente artificial e eles eram tão maleáveis quanto bonecos de madeira, sem resistência ou desejos próprios.

Os fantasmas eram diferentes. Presos por magia e acorrentados por um ritual, cada um continha uma réplica rudimentar de uma mente humana. Eles não tinham pensamentos claros; por motivos que Tyron não entendia totalmente, careciam até mesmo da limitada capacidade de comunicação que possuíam em vida.

Sua teoria atual era que o receptáculo, ou recipiente, que havia criado era muito rudimentar para que o espírito o habitasse plenamente. Isso significava que eles eram incapazes de empregar a totalidade de seus pensamentos e emoções, deixando os fantasmas como criaturas relativamente simples.

Também era possível que morrer e deixar o corpo tenha corrompido o espírito de alguma forma. Afinal, mesmo durante as conversas em que utilizou o ritual Comunique-se com Espíritos, os fantasmas se mostraram… diferentes de suas versões humanas. Mais rudimentares e vingativos. Estar aprisionado em sua nova forma não pareceu animá-los em nada, pelo contrário, só os tornou piores.

Quando interagia com seus novos lacaios, tudo o que conseguia sentir neles era uma fúria fria e insensível. Atualmente, quatro deles estavam espalhados ao redor da carroça, formando um quadrado, com esqueletos a cem metros de distância. Os outros dois estavam ao seu lado, um de cada lado do veículo, e um deles se aproximava demais sempre que paravam.

Ele rapidamente conjurou o feitiço que o permitia “ver” através dos olhos de um lacaio. Os fantasmas possuíam visões ainda piores do que os esqueletos, mas eram excelentes batedores. Quase invisíveis, eles pairavam acima do chão como um vento congelante. Se alguém se aproximasse demais, provavelmente notaria o frio anormal primeiro antes que conseguisse ver o tênue contorno roxo do espírito.

Vendo através dos olhos dos fantasmas, o mundo era uma paisagem de pesadelo distorcida, coberta em estranhos ventos roxos. Era perturbador de se ver, mas muito melhor do que ser cego, algo que se mostrou especialmente importante quando ele verificou o terceiro fantasma.

— Merda — disse ele — parece uma patrulha.

— Era inevitável. O bom é que não parecemos suspeitos.

Tyron o encarou.

— O quê? Claro, você está falando com um crânio, a carroça está cheia de sacos de ossos meticulosamente distribuídos e estamos cercados por mortos- vivos, mas fora isso, estamos bem.

— Você não é divertido.

— Oh, você feriu meus sentimentos. Só que eu não tenho sentimentos, afinal, sou um espectro agarrado ao plano mortal através de meios não naturais.

— Cala a boca, Dove.

Tyron afastou sua atenção do crânio e concentrou-se nos olhos dos seus lacaios. Era difícil dizer, mas ele sentia que poderia haver três ou quatro deles.

Exterminadores, mercadores ou marechais, era impossível de dizer. Podia mover o esqueleto para mais perto, ou ele mesmo ir dar uma olhada, mas achou melhor não arriscar. O grupo não estava viajando diretamente para eles, mas passaria a alguma distância ao norte.

— Certo.

Ele desceu da carroça para que os esqueletos pudessem puxá-la com mais facilidade e os instruiu a arrastá-la para fora da estrada. Os montes e morros frequentes das colinas estavam bem atrás deles, mas não significava que não houvesse lugares para se esconder. A vegetação se tornou mais comum nas planícies, tornando a paisagem pontilhada de bosques entre as terras agrícolas cultivadas.

— Cada vez mais pessoas estão atravessando as planícies — comentou Dove da sua posição em cima de um poste no canto da carroça. — Não é exatamente a melhor hora para planejar um assassinato em massa, não é?

— Não é como se eu tivesse escolha — disse Tyron. — Eles não estão longe agora. É provável que consigamos alcançá-los esta noite, se não nos depararmos com mais viajantes.

Ele estendeu a mão novamente e reposicionou seus batedores, garantindo a segurança do perímetro. Era ineficiente manter os mortos-vivos muito longe dele, mas Tyron podia se dar ao luxo disso. Sua capacidade continuava a crescer conforme ele progredia, a ponto de conseguir manter com facilidade seus lacaios atuais, mesmo que os fantasmas consumissem mais do que os esqueletos.

Grande parte disso se devia ao seu trabalho desleixado com os receptáculos para eles. Para uma primeira tentativa, não era terrível, mas assim como o começo de sua Costura Óssea, havia muitos erros. Ele ainda não estava confiante o suficiente na técnica para tentar aprimorar seus espectros já existentes, mas, com mais prática, conseguiria consertá-los, até certo ponto.

— Isso significa que Yor vai nos alcançar antes que os alcancemos. Acha que ela vai querer ajudar?

— Yor? — ponderou Tyron. — Acho que não. Ela não se mostrou muito disposta a me ajudar até então. Pelo menos não abertamente.

— Tenho a impressão de que ela realmente não gosta daquele grupo em particular. Ela não estava se comportando como de costume perto daquelas mulheres da fazenda.

— Você está sugerindo…?

— Estou dizendo que é natural para ela ter simpatia. Ela pode ser uma monstruosidade desumana e sedenta por sangue agora, mas um dia, ela foi uma mulher humana. Se ela quiser arrancar os pulmões de um daqueles bastardos e depois torcê-los, como um pano molhado, em sua boca aberta, eu não ficaria chocado.

— Isso parece… perturbadoramente específico.

— Está me dizendo que nunca fantasiou sobre isso?

— Sim, é o que estou dizendo, Dove.

— Fraco.

Tyron meneou a cabeça, mas manteve os olhos nos viajantes por meio dos seus fantasmas. Ele também não negligenciou seus outros batedores, certificando-se de monitorar todas as direções.

— Certo, podemos continuar nos movendo — disse ele. Instruindo os esqueletos a retornarem com a carroça na trilha, ele subiu na parte de trás da carroça de novo. — Mais algumas horas e acamparemos. Farei um pouco de reconhecimento.

— Alguma ideia de como podemos nos aproximar de Monty e seu bando? Você não tem a vantagem de estar na defensiva desta vez, vai ser complicado.

Tyron refletiu por um instante.

— Precisamos ver onde eles se esconderam para ter uma ideia melhor — respondeu ele —, e tenho alguns detalhes para discutir com você sobre alguns feitiços que tenho. Acho que podemos descobrir algumas coisas que podem ajudar. Também há mais sete esqueletos para adicionar à tripulação.

— Com sorte, será suficiente.

— Não há muito que eu possa fazer se não for.

— Bom, sempre há Yor.

— Dove…

— Estou te dizendo, cara, o pulmão tem uma textura surpreendentemente esponjosa. Ela poderia conseguir muito suco dali. Escorrendo pelos braços e rosto dela… seria sexy pra caralho.

— Você é um homem distorcido e depravado, Dove. A morte não parece ter ajudado você em nada com isso.

— Acho que ela apenas removeu algumas inibições que eu tinha.

— De quem foi a ideia de te trazer de volta à vida? Eu devia estar bêbado.

— Sinto muito em te dizer isso, mas com uma constituição tão alta, talvez você nunca fique bêbado de novo. Embora existam algumas bebidas especiais feitas para Exterminadores resistentes, porra, elas são caras.

— Ótimo.

Os dois continuaram a discutir enquanto seguiam de carroça em direção à luz que se esvaía.

—

Em outro lugar das planícies

Laurel deslizou os dedos pela corda do arco, maravilhando-se mais uma vez com a fidelidade do que sentia contra sua pele. À medida que se tornava mais forte e suas habilidades melhoravam, era como se o arco se tornasse uma parte do seu corpo, uma extensão de sua mão em todos os sentidos da palavra. Ela havia escutado isso de vários treinadores e estudantes que trabalhavam exclusivamente com uma arma: quanto mais sua Classe subia de nível, mais dependente da sua arma você se tornava.

Quando ela acariciava o fio, jurava que era como se ele acariciasse suas costas.

E ela ainda tinha que ascender. Como seria seu arco quando chegasse no nível sessenta? Ou oitenta? Ela estremeceu. Só de imaginar, um arrepio percorreu o seu corpo. Cautelosa para não se distrair, ela mordeu a bochecha, deixando que o choque da dor aguçasse sua mente.

Estava frio nas planícies; um vento gélido soprava sua capa contra seu corpo enquanto uma garoa fina caía. Um tempo terrível para uma arqueira, mesmo assim, eles ainda foram enviados para explorar à frente, como sempre. Por sorte, suas habilidades podiam amenizar os efeitos da umidade na corda, senão ela seria completamente inútil.

Pelo menos seus olhos brilhavam na escuridão, enxergando claramente onde outros não conseguiam. Talvez um local viável para acampar? Um abrigo adequado contra o clima seria bem-vindo para os Exterminadores, apesar de seus altos níveis de resistência.

‘Muito moles,’ era a opinião dela. ‘Passei mais tempo caçando nas florestas sem ter um único nível.’

Mas o que era aquilo? Luz? Tremeluzindo através de uma janela, fogo então? Fogo significava pessoas. Possivelmente pessoas más.

Seu dedo deslizou pela corda mais uma vez antes que ela retirasse uma flecha de sua aljava. Ela a encaixou contra a corda em um movimento suave e silencioso, enquanto seus olhos se arregalavam e suas narinas se dilatavam. Ela precisaria se aproximar, já que não havia nada para ver dali.

Um conjunto de casas de fazenda bem defendidas. Muito impressionante para um grupo de famílias vivendo tão longe. Laurel circulou o perímetro e viu que apenas metade das construções estavam ocupadas, as outras duas estavam escuras e sombrias. Ela se esgueirou para perto.

Ela conseguia sentir o cheiro de comida sendo preparada e havia risadas… de crianças?

Com certa decepção, ela relaxou o aperto em sua corda enquanto se aproximava para espiar pela janela. Ela vislumbrou mulheres e jovens reunidos ao redor da lareira antes de afastar o olhar. Ela suspirou.

Como Exterminadores, eles não tinham apenas a tarefa de destruir qualquer criatura das fendas que encontrassem. Também era esperado que verificassem as comunidades que encontrassem e garantissem que estivessem seguras. O que significava que ela tinha que conversar com essas pessoas.

Ela suspirou mais uma vez e deslizou a flecha de volta em sua aljava. Era melhor acabar logo com isso, assim, afastou-se da janela e, sem querer assustar ninguém, os chamou.

— Não atirem! Patrulha de Exterminadores!

Ela pôde ouvir as exclamações de surpresa vindo de dentro e logo um rosto apareceu, junto com um arco simples apontado para a escuridão. Era quase fofo.

— Quem está aí? — uma mulher falou. — Fale seu nome.

— Sou Laurel Macraith — respondeu ela —, uma batedora de um grupo de caça de Exterminadores. Recebemos a missão de checar todos os assentamentos que encontrarmos.

Houve um momento de silêncio antes que mais palavras fossem ditas.

— Você está sozinha?

— Estou.

— Então entre para se proteger da chuva.

Quando entrou, ela ficou surpresa de ver o quão temerosas estavam essas mulheres, que lançavam olhares furtivos para suas facas e flechas enquanto agarravam seus filhos.

Ela sacudiu sua capa escura e assentiu para eles, levando um momento para escanear o cômodo. Só um instante depois percebeu que havia algo errado.

Não havia pessoas suficientes para trabalhar em uma propriedade tão grande. Ainda mais importante:

‘Onde estavam os homens?’

Será que todos morreram defendendo suas famílias das criaturas? Era possível, mas improvável. Algo muito mais sombrio aconteceu aqui.

Laurel olhou rosto por rosto até encontrar alguém disposto a encará-la nos olhos.

— Poderia me contar o que aconteceu aqui? — disse ela.

A mulher de meia-idade retribuiu o olhar, com os olhos semicerrados.

— Não há muito o que contar — respondeu ela. — Bandidos mataram os homens e tomaram o lugar. Fomos resgatadas há um tempo e estamos aqui desde então, tentando colocar alguma ordem no lugar.

A arqueira assentiu gravemente.

— Desculpe-me por termos demorado tanto para chegarmos aqui — disse ela, baixinho.

E ela estava triste.

— Vocês foram resgatadas por outro grupo de Exterminadores? — perguntou ela.

O clima mudou na sala, como o vento que envolve uma vela tremeluzente, o calor foi sugado. Ela esperou, mas parecia que ninguém queria respondê-la.

Havia algo suspeito aqui.

Isso cabia aos marechais resolverem, não a ela. Pelo que parecia, eles teriam muito trabalho com este lugar. No entanto, eram problemas de outra pessoa.

— Foi o garoto Necromante — disse alguém.

Laurel arregalou os olhos, virando-se para a nova voz enquanto as outras sibilavam e rugiam para a mulher.

— O quê? Ele disse para contarmos a eles. Foi isso que ele nos disse para fazermos!

— Você não tem vergonha, Bessun — cuspiu outra mulher.

— Só estou fazendo o que ele nos disse — disse Bessun defensivamente, com uma criança encolhida em seu colo — Esta é a única forma de evitarmos mais problemas. Não merecemos mais problemas.

Um silêncio sepulcral envolveu a sala com essas palavras, mas Laurel não se importou. Ela deu um passo em frente, com os olhos brilhando e um sorriso no rosto, como um gato com uma pata firmemente apoiada sobre a asa de um pássaro.

— Por que não me conta um pouco mais sobre isso?

…

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