Eiro caminhava pela pousada com um sorriso no rosto. Sua armadura infundida com uma sutil Energia Sagrada para garantir que emitia a sensação de um paladino. Lentamente, aproximou-se do homem com que James e Krog falaram mais cedo, o sacerdote que havia se aproximado deles por conta própria.
— Com licença? — disse Eiro com um sorriso no rosto. — Eu ouvi que você é um sacerdote venerável.
O homem de meia idade olhou para Eiro e acenou a cabeça, sem hesitação.
— De fato sou! Está interessado nas palavras dos deuses?
— Como acredito ser bastante óbvio, estou — respondeu Eiro com um sorriso no rosto. Ele se certificou de misturar suas habilidades aprimoradoras de carisma no caos ao qual manipulava com sua mana, para que a Energia Sagrada tivesse muita influência sobre o sacerdote.
— Sim! É claro que você é um home dos deuses! — respondeu o sacerdote. Neste ponto, era muito fácil manipulá-lo sutilmente. Eiro falou com ele por mais tempo, até que fosse hora da oração do sacerdote. Nesta altura, ele levantou-se e pediu licença.
— Foi maravilhoso poder conversar com você, no entanto, agora é hora de ambos nos retirarmos para nossas câmaras de orações — disse o sacerdote.
— Foi uma honra conhecê-lo.
— Ah, tenho uma ideia melhor — respondeu Eiro, virando a cabeça em direção à janela. — Não deveríamos aproveitar qualquer oportunidade que temos para ficarmos mais próximos dos deuses? Rezar aqui, com a catedral à vista, parece mais do que um desperdício, não é? Poderíamos até chamar isso de insulto à fé.
O sacerdote levantou as sobrancelhas e olhou para fora da janela, antes de acenar a cabeça.
— Você está certo. Sugeriram-me que eu não andasse pela cidade, já que minhas escoltas estão atualmente ocupadas, mas não apenas você, como os acompanhantes de sua dama parecem bastante poderosos. Se não se importar, gostaria de acompanhá-lo.
— Isso seria perfeito. No entanto, você deve saber de atenção… Enquanto eu tentava protege-lo, eu perdi meu sigilo da ordem durante uma batalha contra um Demônio maligno, então receio que eu não consiga entrar na catedral por conta própria. Você se importaria de usar a influência do seu sigilo para que possamos entrar na catedral junto com você?
— Oh, claro! Não se preocupe, você claramente é um homem dos deuses, não há como eu não levar alguém assim — comentou o sacerdote com um sorriso. — Porém, neste caso, devemos sair agora, ou podemos nos atrasar para nossa oração.
Eiro acenou a cabeça e seguiu o sacerdote, olhando para James, Jess e Krog com um pequeno sorriso. Os três não tinham certeza de quão fácil seria, mas, surpreendentemente, Eiro conseguiu convencer esse home com muita facilidade. Por enquanto, tudo estava correndo perfeitamente.
O grupo caminhou pelas ruas, sendo cumprimentados pelos guardas e os cidadãos, e em pouco tempo chegaram à catedral.
Os guardas posicionados do lado de fora rapidamente checaram o sigilo do sacerdote, e o sacerdote pediu para deixar Eiro e os outros entrarem com ele.
Assim, conseguiram entrar com facilidade. No entanto, assim que pisou na catedral, Eiro fez a Energia Profana fluir pelo seu corpo, proveniente de um pequeno objeto profano que escondia na mão, para repelir a Energia Sagrada que o atingiu quando entrou na catedral.
Obviamente, a Energia Sagrada que percorria o prédio era extremamente forte. Era a catedral da capital sagrada, afinal. Então, mesmo que não conseguisse ferir Eiro, ela ainda poderia fazer com que sua pele queimasse ligeiramente, fazendo com que emitisse fumaça. Ver o corpo de alguém começar a esfumaçar repentinamente no instante em que entrava em uma igreja era algo muito suspeito, então Eiro queria impedir que isso acontecesse de todas as formas.
O Demônio seguiu o sacerdote através da catedral, pois ele já parecia habituado com o lugar, e logo se encontraram na frente do altar. Claro, por ora, Eiro tinha que continuar com a farsa, embora a Energia Sagrada tenha se tornado cada vez mais forte conforme se aproximavam do altar.
Lentamente, o sacerdote se ajoelhou nos degraus que levavam ao altar, e Eiro fez o mesmo em preparação para o começo da distração.
Pressionou as mãos juntas enquanto se ajoelhava, removendo lentamente a joia do anel que vestia, e preparou-se para entregá-la a Sarius de acordo com o planejado. No entanto, antes que fosse possível, algo mais aconteceu. Algo que Eiro nunca considerou, já que era algo simplesmente impossível de se considerar.
Levantou lentamente a cabeça, já que sentiu algo que não deveria estar acontecendo. Esta igreja era dedicada a todos os deuses que se alinhavam com o bem, mas havia uma figura central na qual estavam concentrados. As outras divindades tinham pequenos santuários dispostos ao longo das paredes da catedral, mas no coração desta estrutura estava o altar de um deus em particular.
O Deus dos deuses, o pai de todos, Patrius.
Havia uma estátua desse deus bem na frente de Eiro, do outro lado do altar. E a conexão dessa estátua com a parede que a segurava começou a rachar.
No geral, toda a estrutura que compunha a estátua começou a rachar ao redor de suas articulações, e de repente ganhou vida. Ela deu um passo em frente, esmagando a maior parte do altar sob seu pé, enquanto o ser que a controlava olhava para baixo, para Eiro.
— Quem és tu? — perguntou, e Eiro o encarou confuso. Sua voz queimava em seus ouvidos e, quando olhou ao redor, o resto do mundo parecia ter congelado de uma forma estranha. Se tentasse olhar para o outro lado da catedral, tudo havia simplesmente desaparecido, como se ele não estivesse mais lá.
— Meu nome… é Eiro Jura Daemonherz — disse o Demônio, sentindo-se compelido a responder.
O ser que o encarava falou mais uma vez, sua voz começando a machucar os ouvidos de Eiro.
— Por que estás em meus salões, Demônio?
— O quê, existe algum tipo de regra que diga que Demônios não podem ser religiosos?
— Porém tu não és.
—… E daí? Escuta, nós dois sabemos que… o que quer que você seja, você não vai me matar. Isso não é o estilo de vocês, todo-poderosos. Então, o que você quer? — questionou Eiro, querendo se afastar daquilo o mais rápido possível. O ser que controlava a estátua olhou para Eiro e permaneceu em silêncio por alguns instantes, até finalmente responder.
— Não planejo te matar, Demônio. Tu também és uma criação das mãos dos deuses. No entanto, tu em particular és a antítese do nosso ser. Em vez de ‘Por que’, minha questão significa ‘Como’? O que te trouxe a este lugar? — perguntou o ser. Embora Eiro não tivesse certeza se sua habilidade funcionava em um deus de verdade, parecia que ele dizia a verdade.
Assim… Eiro contou sua história. Não sabia quanto tempo exato passou, já que sua mente simplesmente divagava enquanto falava. No entanto, logo, terminou, contando todos os detalhes de sua vida a esta divindade, e ambos ficaram em silêncio.
— Um Demônio no caminho da retidão, criando uma criança que recebeu nossas Bênçãos, esperando trazer ordem a este mundo… Tu compreendes que o que estás tentando fazer se opõe diretamente aos nossos planos divinos?
—… Sim, eu entendo. Mas há um motivo pelo qual eu possuo as habilidades que me permitem fazer isso. E como os deuses não intervém, não querem, e não podem e não vão intervir, não há nada que você pode fazer contra isso — respondeu Eiro sem rodeios. O deus que controlava a estátua simplesmente riu.
— Isso é partindo do pressuposto de que desejamos intervir. Não se preocupe, Demônio… Este é um plano estabelecido há um milênio. Muito antes do estado atual do mundo. Embora sejamos poderosos, de forma alguma significa que podemos ver todos os detalhes do futuro deste mundo em que vives. Mesmo que escolha governar este mundo com os novos poderes que obterá, isso é o que as criaturas vivas deste mundo causaram através de suas próprias ações — explicou a divindade. — Esta conversa foi bastante divertida, entretanto. Agradeço-te, Demônio.
Não… agradeço-te, Eiro Jura Daemonherz.
Assim, a estátua se virou e pressionou seu corpo de volta na parede, fundindo-se a ela novamente. O mundo ao redor de Eiro retornou ao normal enquanto o tempo fluía de novo, e o Diabrete estava sentado ali, tentando suprimir a possiblidade de ser consumido pelas chamas com todo seu poder.
Sentia-se enjoado, como se fosse vomitar.
O Demônio se empurrou do chão e pressionou a mão para o lado. Não se importava se alguém o visse fazendo isso, não havia por que ser discreto de qualquer forma. Sarius pegou a joia em suas mãos e a absorveu, absorvendo o poder daquela faísca sagrada minúscula e deixando-a fluir pelo seu corpo para um pequeno espetáculo;
Enquanto isso, Eiro começava a caminhar pela catedral, acenando para os outros o seguirem.
— Huh? Eiro, o que está acontecendo? — questionou confuso James, mas Eiro não conseguia falar depois disso. Simplesmente se sentia sobrecarregado.
Afinal, havia acabado de falar com o ser divino mais recluso de todos, com quem nem mesmo os outros deuses conseguiam falar livremente.
Ele falou com o deus mais poderoso de todos, e este sancionou seu plano de destruir o sistema e trazer caos ao mundo.
…