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Mushoku Tensei: Jobless Reincarnation – Volume 22 – Capítulo 6

Infiltrados no Forte Necross

Nós estávamos no Território Gaslow, uma das regiões mais hostis do Continente Demônio. Os monstros que surgiam por lá eram muito mais poderosos e numerosos que os de qualquer outro. No entanto, ainda ocorria um equilíbrio ecológico; havia um grande número de Lobos Ácidos e Coiotes Pax em Biegoya, mas a região também tinha flora e fauna nativas.

Lá tinha o Basilisco, com seu hálito petrificante; o Drake Negro, voando sem controle pelos céus com suas poderosas mandíbulas e garras venenosas; a Barata D’Água gigante, que criava poças com sua própria secreção e depois atacava qualquer um que viesse beber delas; além da Cobra Presas-Brancas, altamente ágil e coberta por escamas duras resistentes à magia.

Bestas à parte, alguns lugares também expeliam gás venenoso, outros se abriam em ravinas profundas. Dado que todos os monstros eram extremamente cruéis, o lugar inteiro estava repleto de zonas de perigo. Assim, o Território Gaslow em particular tinha a reputação de ser um fosso de desgraça absolutamente terrível com demônios. Não havia quase nenhuma cidade ou assentamento lá, e os poucos que existiam eram especialmente fortificados. Quase nenhum aventureiro ia lá.

Alguns, no entanto, supostamente viam este lugar como uma aspiração. Era o lar da maior fortificação do Continente Demônio, construído pelo imortal Necross Lacross, um dos Cinco Grandes Reis Demônios. O mestre daquele forte era a Rei Demônio Atoferatofe – Rei Demônio Imortal do Território de Gaslow.

Na guerra, cerca de quatrocentos anos antes, ela lutou ao lado de Laplace, descendo sua fúria sobre o campo de batalha e cruzando espadas inúmeras vezes com o Rei Dragão Blindado Perugius. Havia uma lenda sobre ela que era bem conhecida entre os guerreiros:

“Se busca o poder, viaje em frente.

Seu destino é o Demoníaco Continente.

Viaje por suas terras. Suba ao Forte Necross.

Diante do Rei Demônio mostre seu poder e poderá desejar um ainda maior.

Só então poderá ser seu o poder conquistador.”

Sim, aqueles que estavam em busca do forte eram cavaleiros errantes. Eles seguiram a lenda até ali, buscando poder. Ninguém que chegou conseguiu voltar. Então, no final, ninguém sabia se a lenda era verdadeira ou um mero conto de fadas.

Bem, exceto eu.

Cerca de metade desses cavaleiros morreram na viagem. A maioria dos que sobreviveram foram integrados à guarda pessoal de Atofe. Alguém provavelmente voltava para casa de vez em quando, mas é preciso bem mais do que uma ou duas pessoas conhecedoras da verdade para matar uma boa história como essa. Eu tinha certeza de que Moore, o assessor de Atofe, era quem espalhava os boatos. Atacar guerreiros de coração puro era uma armadilha sórdida. Diabólica, até.

Enfim, nosso grupo que ia ver Atofe era composto por três membros: Eris, Roxy e eu. Havia levado uma garrafa de vinho como oferenda porque Orsted me contou que Atofe gostava de beber.

Provavelmente ainda haveria luta, mesmo que eu a enchesse de álcool.


O Forte Necross ficava a três horas de viagem das ruínas do círculo de teletransporte. Não era um caminho tão longo, mas as ruínas ficavam nas profundezas das montanhas e alguns Drakes Negros as usavam como ninhos.

As criaturas vieram voando em nossa direção e nós os fatiamos, um após o outro. Depois, fizemos churrasco e uma omelete com os ovos que encontramos para manter nossas forças enquanto avançávamos. Hordas de outros monstros desceram do alto para nos atacar, mas seguimos em frente, evitando alguns e afugentando outros, e quando chegamos ao sopé da montanha, um dia inteiro havia se passado.

Eu nunca tinha visto um círculo de teletransporte tão perto de um assentamento humano antes. Melhor dizendo, nunca havia visto um assentamento humano num lugar tão impregnado de magia.

— Nem suei — disse Eris. Ela cortou de bom grado todos os monstros que vieram até nós, como se quisesse mostrar os benefícios do treinamento diário. Ela tinha tido poucas oportunidades, além de seus constantes exercícios, para saciar seu desejo de batalha, isso se deixarmos de lado suas supostas escapadas para caçar monstros fora da cidade.

— Este lugar não é brincadeira. Arrepio só de pensar no que aconteceria se eu viesse aqui sozinha. — Roxy parecia exausta. Tinha feito o possível para traçar uma rota na qual passaríamos relativamente despercebidos pelos monstros, e foi por causa dela que a garrafa de vinho saiu ilesa.

— Isso é tudo que você tem, Roxy? Você está enferrujada! — Eris riu.

— Não nego que estou. Meus reflexos eram um pouco mais aguçados quando eu estava em aventuras, mas agora fico sentada na minha mesa o dia todo…

— É melhor tomar cuidado, ou seus alunos não levarão você a sério.

— Você vai ter que começar a me treinar, então.

— Pode deixar!

Enquanto Eris e Roxy conversavam, olhei para o forte abaixo de nós.

A primeira coisa que se notava era que ele era totalmente preto. Imaginei que fosse construído com o mesmo material do castelo de Kishirika. Não era particularmente grande – apenas um castelo e uma cidade protegidos por muralhas espessas, o que não é incomum neste mundo.

O que o qualificava como forte era a sua estrutura. As paredes dividiam-no em cinco blocos, cada um colado aos outros, formando um terraço. Os três inferiores eram uma cidade-castelo comum e os dois superiores estavam repletos de construções sem muita conexão com a vida cotidiana, além de um grande anfiteatro. Uma instalação militar, provavelmente. Bem no topo havia um edifício preto parecido com um castelo que se erguia de maneira imponente sobre o resto. Essa deveria ser a fortaleza.

Acabamos nos aproximando da fortificação por trás. Parecia bem mal guardada para mim, mas fazia sentido, visto que deste lado estava protegida pelas montanhas.

— Ah, estou vendo umas pessoas — comentei.

Eles apareceram quando nos aproximamos: cinco deles, vestidos com armaduras pretas, parados na parede. Eles nos viram e começaram a gritar alguma coisa.

— Foi falta de educação vir por este lado? — perguntei.

— Não existe nenhuma norma ou costume em relação a isso. Acho que eles simplesmente não recebem muitos viajantes descendo das montanhas. —  Roxy respondeu com firmeza.

Eris já estava correndo à frente. O que faremos se eles atirarem em nós lá de cima? Fiquei pensando, mas as cinco figuras nas muralhas não mostravam sinais de movimento. Eventualmente, chegamos à base da muralha, e lá havia uma grande porta, provavelmente algum tipo de entrada nos fundos. Era um portão pintado de preto em uma muralha preta, então eu não tinha notado isso de longe, mas ficou bem óbvio assim que me aproximei.

— Muito bem, heróis! Parabéns por chegarem ao Forte Necross.

Língua demoníaca. Já fazia um tempo… Dizem que você nunca esquece de como andar de bicicleta, mas aparentemente isso também se aplica às línguas depois que se aprende.

O que era aquilo sobre heróis?

— Vocês devem ser bem fortes de coração para terem atravessado as montanhas demoníacas!

— Vocês buscam a honra dos campeões ou o poder da Rei Demônio?

— Seja como for, não faz diferença!

— Se desejam entrar, venham!

— Primeiro, precisam derrotar a nós, a guarda pessoal de Lady Atofe!

Em resumo, tudo indicava que eles não nos deixariam passar. Nenhum país, em lugar nenhum, permitiria a entrada de um homem estranho que aparecesse na sua porta dos fundos.

— Muito bem. Vamos dar a volta até o portão da frente — respondi, também em língua demoníaca. Quando em Roma, como dizem.

Eu planejava dar a volta conforme pediram. Como estava ali para pedir um favor, deveria fazer as coisas do jeito deles, mas os sujeitos de armadura preta não responderam. Aparentavam estar perplexos e um deles parecia estar perguntando ao outro o que fazer. Eu sabia o que esperar de Atofe, mas aquela hesitação no portão era uma surpresa. Eu tinha dito algo errado…?

— Ah, e eu agradeceria se pudessem dizer ao Capitão Moore que Rudeus Greyrat trouxe uma oferenda à Lady Atofe — acrescentei.

Talvez eu devesse ter começado com isso, deixando claro que eu não era alguém suspeito. Com isso, me virei para sair, mas então ouvi uma voz.

— Pare! Você é convidado da Rei Atofe?!

— Isso mesmo! — rebati. — Tive a honra de conhecê-la muito brevemente, então vim cumprimentá-la!

Houve uma curta pausa.

— Muito bem! Esperem aí um momento!

Menos mal, eles iam nos deixar entrar. Fiquei aliviado. Percorrer o caminho mais longo teria sido uma chatice. Eris resmungou, mas fiquei feliz em entrar pelos fundos. Se a alternativa era abrir caminho através de cada um dos Quatro Supremos da guarda, eu preferia passar por ali mesmo.


Estávamos no salão de audiências do Forte Necross, que ficava ao ar livre. Uma longa escadaria encravada entre grossos pilares gravados com imagens de demônios conduzia a uma plataforma que estava rodeada por velas acesas com chamas roxas. Na frente de cada vela estava posicionado um soldado de armadura preta em posição de sentido. A plataforma não tinha paredes nem corrimãos. Das bordas, você provavelmente teria uma boa visão da cidade-castelo abaixo e, bem no fundo, estava um trono ornamentado de forma ameaçadora.

Espere aí, não era bem um salão de audiências, era mais como, sei lá, o lugar onde você desenha um enorme círculo mágico para invocar um antigo arquidemônio ou algo assim num momento decisivo. Uma arena onde um bando de almas corajosas luta para deter um rei demoníaco.

Esse é o tipo de lugar que era. Não era um salão de audiências.

Era uma arena.

— Muito bem, heróis! Parabéns por chegarem até aqui!

Sentada no trono estava uma mulher da altura de Eris que usava a mesma armadura preta que os demais. Ela se levantou, parecendo genuinamente animada, depois abriu o roupão com um gesto. A luz do pôr do sol atrás das montanhas lançava sombras profundas sobre ela.

Ela era uma figura verdadeiramente majestosa e maravilhosa. Isto é, se você focasse apenas em sua aparência.

— Eu sou a Rei Demônio Imortal Atoferatofe Rybak! —  Ela declarou.

Levamos cerca de duas horas para passarmos pelo portão dos fundos, sermos levados para Moore e depois escoltados até aquela arena. Ela deve ter se esforçado para deixar tudo pronto tão rápido… ou então esperou pelo pôr do sol porque sabia que daria um toque a mais na cena. Independentemente disso, foi um esforço digno de nota.

— Vocês deveriam estar orgulhosos de estarem aqui, mortais! —  disse um dos guardas. Os outros seguiram, um após o outro:

— Bravos campeões, vocês superaram muitas provações! Agora queremos saber!

— Vocês buscam a honra dos campeões? A fama dos heróis?

— Ou talvez… o poder da Rei Demônio?

Que pergunta maldosa. Se você dissesse honra ou herói, levaria uma surra e seria obrigado a servir o Rei Demônio. Se dissesse que queria o poder da Rei Demônio levaria uma surra e seria obrigado a servir a Rei Demônio. Era um ultimato para o qual a única resposta era “sim”.

Eris riu.

Eris está sorrindo? Verdade, ela gosta desse tipo de coisa.

— Lady Atofe… cochichacochicha…

Um dos guardas envoltos em armadura preta ao lado de Atofe foi sussurrar algo em seu ouvido. Algo sobre o itinerário do dia, talvez. Eu deixei claro que estava ali para me desculpar, mas agora estávamos conversando sobre heróis e tudo mais. As chances eram altas de que algum mal-entendido tivesse ocorrido.

— Cale-se! Como se eu pudesse ver daqui com tudo tão claro!

Com um soco de Atofe, Moore saiu voando.

— Mostrem-me seus rostos! — Atofe exigiu, aproximando-se. O punho usado para socar Moore ainda estava cerrado com força. Ela veio até mim e disse: “Oh”. No momento em que nossos olhos se encontraram, sua boca se torceu em um sorriso maligno e ela disse: “É você”.

Te peguei, era o que ela parecia dizer. Assustador.

— Hum, que bom ver você depois de todo esse tempo.

— Depois daquilo… depois de você e Perugius! Aquela armadilha que você preparou para mim, e você simplesmente… você vem até mim, entra aqui… — Um sorriso cruel estava se formando em seu rosto, mas eu já sabia que isso aconteceria. Foi por essa razão que levei uma oferenda. Estava ali para me desculpar, de verdade.

— Sim, sobre isso… eu gostaria de, ah, lhe oferecer um pedido de desculpas…

— Muito bom! Você se tornou um homem desde a última vez que te vi. Eu gosto desse rosto aí; esse é o rosto de um homem que não tem medo. Todas as almas corajosas que me desafiaram tinham o mesmo rosto!

Atofe não ouviu uma palavra do que eu disse. Ela apenas encostou o rosto no meu, os olhos arregalados de excitação, depois mostrou os dentes em um sorriso. Eu quase conseguia ver o brilho de suas presas.

— Esse é o rosto de um homem que não tem medo de morrer.

O-O quê? Que estranho. Tenho certeza que antecipei tudo isso… Hum?

Por que minhas pernas estão tremendo? Ah, merda. Não só minhas pernas, todo o meu corpo…

— Huh?

Só então, algo vermelho preencheu meu campo de visão. Cabelo vermelho.

— Afaste-se — disse Eris, colocando-se entre mim e Atofe.

— Quem é você?

— Eu sou Eris Greyrat.

— Oh ho —  Atofe deu um passo para trás. — Essa ousadia, essa raiva ardente, essa sua espada. Mesmo agora, você está pensando em me atacar.

Ela avaliou Eris com um olhar penetrante. Eris olhou de volta com um brilho selvagem nos olhos.

Daria para cortar a tensão no ar com uma faca.

— Você é uma campeã?

— Isso mesmo — retrucou Eris.

Não é, não! O que você está fazendo?

— Essa mulher ao seu lado, com certeza está avaliando os arredores… ela é uma maga?

— Eu sou. — Roxy disse hesitante, inclinando a aba do chapéu. — Meu nome é Roxy Greyrat. É uma honra conhecê-la.

Eu acho que daria para saber que ela era uma maga desde o início pela roupa…

— Você parece destemida também. Vai lutar comigo?

— Se você está decidida a matar meu aprendiz, Grande Rei Demônio, farei o que puder para impedi-la.

Até a sensata Roxy estava se preparando para uma luta. Eu devo ter parecido muito assustado se elas estavam se preparando para me proteger.

Vamos. Controle-se.

— Então… você está… — Atofe se virou para me olhar. Eu não estava mais tremendo. Devolvi seu olhar com determinação. — E quanto a você?

E quanto a mim o quê? O que isso quer dizer? Não sei como responder a isso.

Me forcei a me acalmar e pensar. Eris era uma campeã; Roxy era uma maga. Sylphie não estava ali, mas provavelmente seria uma cavaleira mágica ou uma ladra. Então eu seria o clérigo… Espera, não. Cliff era muito mais clérigo do que eu. Obviamente, eu também não era um guerreiro.

Só restava…

— Sou um mago — tentei.

— Idiota! Como se vocês fossem ter dois magos!

Ser chamado de idiota por uma idiota, ai… Ok, entendi a lógica.

Uma pessoa por classe, essa era a regra.

Espera, mas se eu não era o mago, o que eu era? Neste grupo, em qual papel eu me encaixava melhor?

Calma aí. Agora é preciso respirar fundo e observar o panorama geral.

Eris era a campeã. Ela literalmente se aproximou para me proteger de Atofe enquanto eu estava ali tremendo. Meu papel era ser resgatado por ela… Ou seja…

— Eu sou a princesa? — Tentei novamente.

— Ehehehe, princesa, você disse? Hehehe… he?

Droga, eu confundi Lady Atofe. Havia dúvida naquela risada.

Atofe estava olhando para mim como um predador observando sua presa, mas naquele momento ela olhou em volta, parecendo um pouco perdida.

Roxy revirou os olhos.

—  Não seja bobo.

Eris, ficando do lado dela, acrescentou:

— Sim, você sabe o que é. Um sábio ou algo do tipo!

O problema, Eris, é que depois que me tornei Rudeus, o Celibatário, não tenho sido tão sábio. Eu sou um idiota. Ariel até sugeriu que eu me tornasse um bobo da corte…

— Tanto faz, não me importo. Eu sou Rudeus Greyrat.

Eu sou quem eu sou! E nada mais, nada menos!

— Ehehehe, que engraçado! Vocês três são Greyrats, pelo que vejo… aliados que, por acaso, têm o mesmo nome se unindo! Isso é hilário!

Era bem engraçado se você interpretasse dessa forma, mas Eris e Roxy eram minhas esposas.

Que bom. Eu estava recuperando minha compostura.

— Lady Atofe. Antes de lutarmos, você poderia pelo menos me ouvir? — Eu disse. Fiz com que minhas pernas trêmulas se comportassem e então a encarei.

— Por quê? — Ela rebateu.

— Porque vim falar com você.

— Eu odeio conversar. Nada que vocês humanos dizem faz qualquer sentido.

— Acho que hoje vai ser bem simples — respondi, então olhei para Roxy.

Ela baixou a mochila e tirou dela uma caixa de madeira. Eu a peguei, levantei diante de mim e estendi a Atofe em homenagem.

— Primeiro, eu ofereço isso. Um presente para mostrar o meu arrependimento pelo que fiz no passado.

— O que é?

— Vinho do Reino de Asura.

— Bebida! — Atofe exclamou, e sua atitude mudou totalmente.

Foi exatamente como me disseram. De acordo com Orsted, um dos campeões que vieram lutar com ela a desafiou para uma batalha de degustação de vinhos e depois tentou vencê-la quando ficou bêbada. O resultado final, aliás, foi uma derrota para Atofe. Na degustação de vinhos, claro. A luta real ela venceu.

— Os Notos Greyrats deram este vinho de presente ao Reino de Asura na coroação. É raro e muito caro.

— O sabor é bom?

— Muito — confirmei.

Eu não tinha experimentado, então não tinha ideia se isso era verdade ou não. Ariel disse que foi feito há cem anos. Supostamente, era tão bom que a adega que o produzia e as suas vinhas se tornaram fornecedoras exclusivas da família real. Seria um desperdício simplesmente beber tudo, então o vinho foi deixado para descansar nas profundezas da adega na vinícola, consumido apenas em raras ocasiões. Cem anos se passaram desde então. Ultimamente, a família real tinha sediado um grande número de eventos importantes e, com isso, os estoques haviam se esvaziado totalmente, mas isso só se aplicava à família real. Algumas garrafas ainda permaneciam nos cofres dos Notos Greyrats, que as produziram. Eles deram dez garrafas daquele cofre para Ariel em sua coroação – a tentativa de Pilemon de puxar o saco. Hoje em dia, uma garrafa vale cerca de trezentas moedas de ouro asuranas, ou cerca de duas Linias. Tinha que ser bom.

Eu não paguei por ele. Tá brincando? Perguntei a Ariel se ela tinha alguma bebida boa e ela me deu. Só descobri quanto custava muito mais tarde. Foi um tanto chocante.

Considerando a bebida cara e a rapidez com que ela concordou quando falei sobre o Reino do Rei Dragão, parecia que Ariel estava querendo que eu lhe devesse uma, o que me deixou um pouco nervoso. Em breve, poderia ser que ela me cobrasse um favor em retorno.

— É bom, hein?

— Sim. Então espero que você me perdoe pelo que aconteceu.

— Eu vou. Sou muito mais generosa do que Perugius jamais poderia ser, sabe! Não vou guardar rancor por algo tão estúpido.

— Muito obrigado — Eu disse. Ao menos aquela dívida estava paga. Eu acho. Ela poderia esquecer que me perdoou depois de beber o vinho.

— Porém não vou perdoar Perugius. Um dia vou matá-lo.

Isso é entre vocês dois. Eu não vou ficar no seu caminho. Perugius não iria até lá para se ajoelhar diante dela.

— Era isso? — perguntou Atofe.

— Não, tem mais uma coisa.

Peguei a mochila de Roxy e tirei outra garrafa. Esta era de Orsted. Não veio numa caixa de madeira, então eu não sabia o fabricante nem o preço. Havia algum tipo de escrita gravada na garrafa velha e o líquido estava turvo. Orsted disse que Atofe provavelmente gostaria, então dificilmente teríamos problemas com ela.

— Isso é…

— Uau! — exclamou Atofe, arrancando-a de mim. — De jeito nenhum, isso é… você deve estar brincando! Mwahahaha!

Os armaduras pretas começaram a murmurar com a súbita emoção dela. Em meio à incerteza, um se aproximou de nós. Era Moore, o cara que estava deitado em uma poça de sangue depois de ter seu rosto esmagado mais cedo.

— Olha! E aí? — Atofe exigiu.

Moore pegou a garrafa e examinou sua superfície. Então, notou um objeto parecido com mármore submerso no líquido e soltou uma exclamação de surpresa.

— É exatamente igual à anterior — disse ele.

— Não é?! — Ela concordou, então se virou para mim novamente. — Ei, você! Onde conseguiu isso?

— Bem, meu mestre, o Deus Dragão Orsted, disse para trazê-la se quisesse fazer amizade com Lady Atofe…

— O Deus Dragão?! Isso explica tudo então! — Atofe estremeceu ao olhar para a garrafa. — Esta é a mesma bebida que Urupen mandou para mim e Carl quando nos casamos! Os lendários espíritos secretos do Clã Dragão!

Ahhh, então essa é a história. Não admira que ela tenha gostado.

Seu nome: Cerveja do Nilo, a Jóia do Deus Dragão!”

Cara, que jogada de mestre. Até arrepiei.

O que estava dentro era realmente cerveja? A garrafa era tão escura que tornava difícil dizer.

— Aquele dia foi a única vez que bebi isso, nunca antes nem depois. Tenho procurado por ela desde então, mas agora finalmente encontrei!

Eu quase ouvi um efeito sonoro de Da da dan! quando ela levantou a garrafa. Parecia emocionada.

Fiquei muito feliz que o presente tivesse dado tão certo.

Me senti mal por termos derrubado Atofe tão facilmente, mas tinha sido uma vitória esmagadora para Orsted.

— Então, aquela cerveja…

— É isso! Eu vou vencer você e então a cerveja será minha! — bradou Atofe, o vinho na mão direita e a Cerveja do Nilo na esquerda. Ela pegou o que queria à força. Um rei demônio até o fim.

— Estou dando para você! — Eu rebati rapidamente.

— Você o quê?!

— É um pequeno símbolo de amizade oferecido pelo Deus Dragão Orsted à Rei Demônio Imortal Atofe! — gritei.

Ao conversar com ela, era importante falar alto e energicamente para não ser esmagado.

— Hã? — Um ponto de interrogação apareceu acima de sua cabeça e mais dois ou três surgiram enquanto seu cérebro entrava em curto. — O quê, você é um covarde? — Ela gritou. — Lute comigo!

— Podemos brigar se você quiser, mas estou lhe dando a cerveja!

— Eu não entendo!

Você não entende, hein? Isso é ruim. Tentei explicar da forma mais simples possível…

— Não é um banquete, não é uma festa e não é um agradecimento ou um pedido de desculpas. Por que você daria isso a ela? — perguntou Moore.

Moore ao resgate. Certo, eu precisava explicar essa parte.

— A questão é que terei que lutar contra um cara chamado Geese num futuro próximo. Ele está reunindo guerreiros poderosos sob seu comando para me derrubar… Eu gostaria de pedir a ajuda de Lady Atofe nessa batalha.

Eu não chegaria nem perto do assunto da guerra com Laplace daqui a oitenta anos. Orsted disse que mesmo que eu pedisse para trabalhar comigo na luta contra ele, ela nunca concordaria e provavelmente acabaríamos lutando. Atofe não tinha obrigações com Laplace nem nada – era simplesmente muito difícil para ela entender. Em todos os futuros que Orsted conhecia, Atofe lutou por Laplace sem falhar, por isso chegou à conclusão de que era mais fácil não se dar ao trabalho de persuadi-la do contrário.

Eu poderia conversar com Moore sobre os detalhes mais tarde.

— Você quer que Lady Atofe lute junto com você? — Moore questionou.

— Isso mesmo — respondi. Graças à tradução fácil de entender de Moore, Atofe parecia estar acompanhando a conversa.

— Ah, entendi! Eu não sou idiota! Gostei! Vamos nessa!

Não, esquece, parecia que ela não estava entendendo. Estava balançando a cabeça como Eris fazia depois de dizer “Ok!” sem fazer a menor ideia do que estava acontecendo.

Pelo menos essa resposta significava que Geese não tinha nenhuma chance de convencê-la a fazer qualquer coisa.

— Isso é tudo que você tem a dizer?! — Ela indagou.

— Sim.

E assim conquistei a lealdade de Atofe. O Deus da Morte e o Rei Demônio Imortal. Ao colocar ao meu lado duas pessoas que já haviam me derrotado antes, senti como se tivesse ganhado uma grande vantagem. Onde quer que Geese estivesse, o que quer que ele estivesse fazendo, agora eu sentia que as coisas estavam indo bem para mim. De qualquer forma, eu fui até lá preparado para lutar, mas foi um grande alívio evitar isso…

— Agora, vamos duelar! — Atofe gritou.

Hum?

— Você tinha dito “antes de lutarmos”! Você acabou de falar. É hora de duelar!

Hum, eu disse isso? Eu… Espere, o quê?

Eu lhe dei o vinho, ela me perdoou e prometeu ficar do meu lado… Não havia motivo para brigarmos. Tinha algo errado. Orsted não disse nada sobre aquilo!

— Eu sou a Rei Demônio Imortal Atoferatofe Rybak! Venham a mim, três heróis!

Por quê…?

Eu estava hesitante e a dúvida pairava sobre Roxy. A guarda pessoal de Atofe não pareceu surpresa, então aquilo era provavelmente algo comum vindo dela. Houve um sentimento geral de “de novo não…” entre o público. Até Moore parecia já ter aceitado.

Apenas uma pessoa deu um passo à frente como se estivesse esperando por aquilo.

— Você vai lutar comigo — disse Eris. Ela caminhou até Atofe ao ponto de seus narizes estivessem praticamente se tocando, como se não se importasse com a distância.

— Você quer lutar comigo cara a cara? — Atofe perguntou. Do jeito que se encaravam, pareciam estar prestes a se beijar.

— Você não vale o tempo de Rudeus. — Eris sibilou.

— Você fala demais, criança — rebateu Atofe. A provocação de Eris acertou em cheio. O fogo em seus olhos ficou cada vez mais intenso. — Em cem anos, você foi a única pessoa que falou assim comigo.

Teria sido uma frase bem impactante se ela não estivesse segurando uma garrafa em cada mão. Elas com certeza seriam desintegradas se uma batalha começasse daquele jeito…

Nesse momento, Moore apareceu ao seu lado.

— Eu cuido disso. — Ele falou, tomando as garrafas em suas mãos e as levando.

— Você seria uma boa adição à minha guarda. Vou te esmagar até virar suco e depois fazer você se juntar às fileiras — disse Atofe.

— Quando você perder, vai ouvir Rudeus? — Eris perguntou.

— Claro.

Lute, vença e seremos amigos! Ela era simples assim? Eu me equivoquei e acabei planejando de maneira errada.

“Aqui está uma oferenda para você me perdoar, ok? Toma outra aqui pra você ser minha aliada, tá bom?” Aquilo era muito complicado para Atofe!

Bom, tudo bem. Eu sabia desde o início que a luta era praticamente inevitável.

Nós lutaríamos, venceríamos e então faríamos da Rei Demônio Atofe nossa aliada. Nós nos preparamos para isso.

Certo, vamos lá.

— Senhora Atofe, por favor, espere.

Era Moore. Ele correu até ela e sussurrou algo em seu ouvido. Estava tentando convencê-la a não brigar, eu imaginei. Ah, nada como um homem com um pouco de bom senso. Não havia sentido em brigas inúteis. Paz e amor.

— Como é que é…? — Atofe não parecia satisfeita com o que ele falava. Dizer a um rei demônio sedento por batalha para não lutar era uma loucura.

Viu? Agora Lady Atofe está brava. Ela vai socar você, pensei, no momento em que Atofe gritou para mim:

— Ei, você!

Ela estava acenando. Droga, eu que ia levar um soco? Eu estava me perguntando se conseguiria bloquear… Se ela acertasse minha cara como fez com Moore, seria o meu fim.

Caminhei, tremendo, até Atofe, mas ela apenas me encarou atentamente, não parecia estar prestes a me bater.

— Você é a princesa — disse ela.

— Hum? Ah… eu acho? Hum, acho que sim?

— Ehehehe. Aqui estava eu pensando que você fosse um homem.

— Eu sou um homem.

— É o quê? Você é uma princesa mesmo sendo um homem?

O gênero é tão fluido hoje em dia. Qualquer um pode ser uma princesa, pensei, mas fechei bem a boca para não acabar falando isso em voz alta. Palavras excessivamente complicadas eram o mesmo que pedir para levar um soco na cara.

— Humph. Tudo bem. Vamos nessa! — Atofe de repente me agarrou pela cintura, me levantou e me jogou por cima do ombro.

Uh oh, um bate-estacas1?! Bom, tudo bem! A Armadura Mágica vai cuidar disso!

Eu me preparei, mas ela não fez menção de me jogar no chão, apenas me segurou como um saco de batatas. Se eu fosse uma princesa, ela não deveria me carregar por cima do ombro assim! Deveria ser mais, sei lá, delicada?

— Rudy?

— Rudeus?! — Roxy e Eris gritaram. Quando procurei por elas, percebi que o chão estava subitamente distante. Atofe estava voando comigo nos ombros.

Isso era ruim, muito pior que um bate-estacas. Ela estava preparando um outro golpe muito mais incrível… tipo uma bomba-rei-demônio! Droga! Se eu caísse daquela altura, meu crânio se quebraria como um ovo! Eu me contorci e coloquei os dois braços em volta de Atofe na tentativa de escapar…

— Ei! Tire as mãos da minha bunda! — Ela gritou. Eu rapidamente soltei.

Não é bem assim, eu juro. Eu não estava apalpando você nem nada, e definitivamente não estava sendo infiel! Estava fora do meu controle.

Ela tinha uma bela bunda. Bem apertada. Nada além do melhor em uma rainha demônio, hehe.

Enquanto eu me preocupava, Atofe gritou:

— Campeão! Estou com a sua princesa! Se você a quiser de volta, tire-a de mim em Forte Necross!

Hum, tenho certeza que este é Forte Necross…

— Ehehehe… Mwahahaha, mwaaaahahahaha! — Ela gargalhou. Sua voz ecoou na minha nuca enquanto o chão se afastava cada vez mais. Para onde ela estava me levando?

O que estava acontecendo? No meio da minha confusão, tive um vislumbre de Eris e Roxy olhando para nós com grande espanto.


Nota:

[1] Golpe cujo atacante coloca o oponente de cabeça para baixo, depois caindo sentado ou de joelhos, levando a cabeça do oponente ao chão.


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