Enquanto isso, de volta ao palácio real de Holfort, Roland ficou chocado ao descobrir que sua adorada filha havia se juntado a Leon e seu grupo para explorar uma masmorra.
“Quem foi que permitiu que a Erica fosse?!” exigiu ele.
Embora seus dois filhos também tivessem ido, foi nela que ele se concentrou. A diferença no tratamento entre eles era gritante, o que só deixava ainda mais evidente o quanto o rei amava Erica.
Mylene suspirou, claramente enojada com o marido. Fora ela quem lhe trouxera a notícia.
“Erica pediu permissão para acompanhá-los”, explicou, com as mãos na cintura, “como uma forma de aprofundar o relacionamento com o duque Bartfort. Ela está se esforçando pelo bem do reino, e você está aqui, lamentando o fato de ela ter tomado a iniciativa. Não sente vergonha?”
“Ela é frágil!” Roland rebateu.
Mylene também se preocupava com a filha, sobretudo por causa do quanto Erica já sofrera com a saúde. Ainda assim, Leon estava com ela.
“Já conversei com o duque Bartfort sobre a condição dela. Ele disse que assumiria a responsabilidade de procurar uma cura.”
Parte do motivo de Mylene ter permitido que Erica fosse estava justamente nessa promessa. Ela esperava que Leon conseguisse encontrar alguma forma de melhorar a saúde da filha.
Por uma fração de segundo, os lábios de Roland se curvaram num sorriso. A possibilidade de Erica melhorar também o tocava profundamente. No instante seguinte, porém, ao se lembrar de que Leon estava ao lado dela, sua expressão azedou outra vez.
“Eu não suporto aquele pirralho perto dela! Só de pensar nisso já me dá arrepios!”
E, como uma criança em plena birra, ele se debateu no lugar.
Mylene apenas o encarou com frieza.
As muralhas externas não eram a única parte da Fortaleza das Mãos de Ouro reduzida a ruínas. O que um dia deviam ter sido tapetes requintados estava agora gasto e quase irreconhecível. As armaduras que adornavam os corredores haviam enferrujado e desmoronado no próprio lugar, enquanto as pinturas nas paredes estavam desbotadas e escondidas sob uma espessa camada de pó.
Os buracos ao longo das paredes provavelmente haviam abrigado janelas em algum momento, mas as molduras tinham cedido, deixando estilhaços de vidro espalhados sob as aberturas. Ao espiar por uma delas, era possível ver o pátio interno, tomado por dezenas de árvores crescidas demais. Ao menos essas aberturas permitiam que a luz do sol entrasse um pouco, iluminando os corredores escuros.
Soltei um longo suspiro enquanto caminhava por um deles.
“Por que vocês estão me seguindo?”
Parei de repente e olhei por cima do ombro, encontrando Julius e o resto da brigada de idiotas marchando logo atrás de mim.
“Porque a Marie não está mais contando com a gente”, respondeu Julius, frustrado, com os punhos tremendo ao lado do corpo. “Achamos que não vamos reconquistar a confiança dela a menos que encontremos o tesouro e entreguemos a ela.”
“E por isso vocês resolveram me seguir? Por que não vão procurar vocês mesmos?”
“Porque, por mais ardiloso que você seja, ainda é excepcionalmente capaz. E, além disso, você tem o Luxion, então é basicamente o nosso atalho.”
Julius estufou o peito, claramente satisfeito com a própria lógica.
“Fornecerei apenas o suporte mínimo”, disse Luxion friamente.
“O quê?!”
“Isso não deveria surpreender ninguém. Esta é uma disputa entre o Mestre e Angélica. Orientei Cleare a agir da mesma forma, para manter tudo o mais justo possível.”
Jilk balançou a cabeça.
“Não acredito no que estou ouvindo. Recusar-se a usar todo o poder à disposição é pura arrogância. O correto é perseguir o objetivo com tudo o que se tem.”
Eles estavam, sem a menor dúvida, tentando me convencer para poder me usar. Eu me virei e continuei andando.
“Dispenso. Angie é mais importante pra mim do que vocês.”
Duas vozes ecoaram logo atrás.
“Pra alguém que diz que ela é tão importante, ele passa bastante tempo com outras mulheres, não acha?”, comentou Chris.
“É assim que homem é”, respondeu Greg. “O Leon é um cara.”
“Além disso, ninguém vai achar convincente esse papo quando ele está noivo de várias mulheres ao mesmo tempo.”
“Concordo plenamente.”
Esses caras estavam realmente começando a me irritar.
Parei, me virei e ergui meu rifle, mirando na direção deles. Meu dedo pairou sobre o gatilho. Chris e Greg, convencidos de que eu ia atirar nos dois, se jogaram para trás.
“Todo mundo abaixa!” gritei.
Os dois obedeceram e olharam por cima dos ombros. Foi então que o que surgia da escuridão no fundo do corredor se revelou: um esqueleto coberto por uma armadura enferrujada.
Falando sério, esse era um dos principais motivos pelos quais eu evitava essa fortaleza. A maioria dos monstros daqui era morta-viva.
Puxei o gatilho, e o disparo atravessou a armadura da criatura. Mesmo acertado em cheio, ela não demonstrou nenhum sinal de que fosse parar — o que, convenhamos, não era surpresa. Mortos-vivos também eram bem resistentes a ataques físicos e, como se regeneravam a menos que fossem completamente pulverizados, armas de fogo não eram exatamente a melhor escolha contra eles.
Mesmo assim, o esqueleto que acertei começou a se decompor a partir do ponto em que a bala havia atingido. Com um estremecimento violento, o corpo inteiro desabou.
“Essas balas sagradas fazem maravilhas.”
Tanto a criatura quanto a armadura logo desapareceram, deixando apenas um pequeno monte de areia que diminuía aos poucos.
“O inimigo foi eliminado com sucesso, Mestre”, disse Luxion, analisando os restos. “Ao que parece, minha avaliação inicial estava correta. Nada nesta masmorra representa um perigo real para nós.”
Era muita confiança para alguém que tinha tirado essa conclusão depois de uma única luta.
Brad enxugou o suor frio da testa.
“Por um segundo, achei que você ia atirar no Chris e no Greg.”
“Vocês realmente acham que eu apontaria uma arma pra eles por isso?”
Nem eu era tão idiota assim.
Julius encarou o lugar onde a criatura estivera, contemplativo.
“Você disse que este lugar está infestado de mortos-vivos. Isso significa que a fortaleza é amaldiçoada?”
Ergui uma sobrancelha.
“Como assim?”
“Você nunca ouviu? Lugares impregnados por emoções fortes, como ódio e ressentimento, tendem a gerar mais mortos-vivos.”
Droga. Agora eu ia ficar ainda mais nervoso.
“Não fala esse tipo de coisa”, rebati, antes de me virar e apressar o passo.
“Ah?” Jilk soltou um murmúrio divertido. “Será que o grande Leon tem medo de histórias assustadoras? Se for isso, tenho uma especial pra você. Veja, tudo começou quando…”
“Cala a boca e vigia os arredores, sua doninha traiçoeira!”
A brigada idiota caiu na gargalhada.
Malditos todos vocês. Eu só tenho um pouco de medo desse tipo de coisa. Só um pouco.
***
“Aqui!”
Marie chutou uma porta de madeira apodrecida e entrou na sala, apenas para se deparar com vários mortos-vivos lá dentro. As silhuetas ainda lembravam vagamente as de seres humanos, mas a pele e a carne já estavam apodrecendo. Em outras palavras, eram zumbis.
No instante em que avistaram Marie e seus companheiros, avançaram sobre eles, gemendo enquanto estendiam os braços numa tentativa cega de agarrá-los.
Marie levantou a mão direita e liberou magia pela palma.
“Sumam.”
Sua magia sagrada desintegrou os zumbis num instante. A eficácia foi tamanha que Kyle ficou boquiaberto.
“Minha senhora, a senhora ficou ainda mais forte.”
“Minha magia é perfeita contra os monstros desta masmorra”, disse Marie. “Aconteça o que acontecer, eu vou proteger vocês, então não se preocupem.”
Enquanto ela falava, Carla já vasculhava o cômodo.
“Lady Marie!” ofegou ela.
Tinha encontrado uma bolsa velha e esfarrapada com dez moedas dentro.
“Essas moedas de prata parecem antigas, mas devem alcançar um bom preço no mercado.”
Marie balançou a cabeça.
“Não serve. Isso está muito longe de ser suficiente. Vamos, vocês dois, mais fundo. Tem que haver um tesouro muito melhor escondido em algum lugar desta fortaleza.”
Ela disse aquilo com tanta convicção que, embora tenham concordado, Kyle e Carla não conseguiram esconder um leve ar de perplexidade.
Só para garantir, Marie ainda vasculhou o cômodo em busca de mais algum tesouro oculto. Enquanto isso, remexia nas memórias da vida passada, tentando arrancar delas qualquer informação útil sobre aquele lugar.
Quando eu jogava, eu vim aqui várias vezes. Mas faz tanto tempo que mal consigo me lembrar. Vamos, cérebro, funciona. Eu preciso fazer isso pra mostrar à Erica que posso ser uma mãe adequada — e pra finalmente deixar de depender financeiramente do meu irmão mais velho!
***
“Toma essa!”
Oscar brandiu um machado de batalha de duas mãos e derrubou um dos esqueletos armados. Graças à força absurda daquele corpo musculoso, a criatura foi partida em duas.
No entanto…
“Sr. Oscar, recue!”
Em pânico, Erin o puxou para trás a tempo, fazendo-o tropeçar e cair. Os ossos quebrados do esqueleto voltaram a se unir quase no mesmo instante, e a criatura já investia de novo com a espada em punho.
O queixo de Oscar caiu.
“Que incrível capacidade de regeneração!”
Jake acertou um tapa seco na parte de trás da cabeça dele.
“Quantas vezes eu vou ter que repetir? Não use ataques físicos em mortos-vivos — não funciona!”
Embora o esqueleto realmente tivesse se regenerado, Erin o eliminou com a espada curta que carregava. A lâmina era de prata abençoada, com inscrições gravadas no metal que lhe conferiam poder sagrado. Cada vez que cortava um daqueles monstros, o ferimento se espalhava em deterioração até que os ossos inteiros virassem pó.
Com o trabalho concluído, Erin embainhou a espada de maneira suave e elegante. Então se virou para Oscar.
“Seu idiota! Quantas vezes você pretende repetir o mesmo erro antes de aprender, hein? A sua cabeça serve pra alguma coisa ou só tem poeira aí dentro?!”
Com uma veia saltando na testa e a voz tremendo de pura raiva, ela agarrou Oscar pela gola e o puxou para perto.
“O seu machado não funciona contra mortos-vivos. Eu não disse que você devia usar aquelas balas especiais imbuídas de magia? Ou já esqueceu que o duque fez questão de comprar uma quantidade ridícula delas, mesmo sendo tão caras?!”
E, enquanto falava, começou a dar tapas repetidos no rosto dele.
Oscar estava absolutamente apavorado.
“Eri…” Jake a interrompeu.
Erin empalideceu na mesma hora, como se só então tivesse lembrado que ele estava ali.
“V-Vossa Alteza, eu…”
Ela se encolheu, envergonhada.
Jake se aproximou e segurou a mão dela.
“Peço desculpas pelo meu irmão adotivo. Ele é um idiota, então, por mais que você repita as coisas, nada entra naquela cabeça.”
“N-não. Sou eu quem deveria pedir desculpas por agir de forma tão desagradável.”
“Foi inesperado”, admitiu ele, “mas agora sei que você também tem um lado ousado. Fico feliz por ter tido a chance de conhecer você ainda melhor.”
“Oh, Alteza…”
“Nada de ‘Alteza’. Quantas vezes você ainda vai insistir nesse erro?”
“Ah, seu malvado…”
Erin apertou as mãos dele. Os dois sorriram um para o outro como se não houvesse mais nenhuma preocupação no mundo.
Oscar assistiu à cena com os olhos vagos.
“Foi exatamente isso que a Srta. Finley me alertou. Acho que o amor realmente deixa as pessoas cegas…”
Naquele mesmo momento, Angie, Livia e Noelle, guiadas por Cleare, encontraram a entrada para a seção subterrânea da fortaleza. Uma porta de madeira trancada barrava o caminho, mas a fechadura estava tão enferrujada e desgastada que parecia prestes a se desfazer sozinha.
Angie ergueu o rifle.
“Fiquem para trás, vocês duas.”
Ela disparou contra a fechadura, e a porta se abriu de uma vez, liberando o caminho. Com mãos experientes, ejetou o cartucho vazio e então pegou a lanterna presa à cintura. Ergueu-a alto para iluminar o corredor além. Como era alimentada por uma pedra mágica, seu brilho era muito mais forte do que o de uma lanterna comum.
Guiada pela própria luz, Angie avançou sem hesitar — só para Noelle segurar seu braço.
“Espera um segundo. Você não está indo rápido demais? Vamos com mais cuidado.”
Angie olhou por cima do ombro e suspirou.
“Se ficarmos perdendo tempo, o Leon vai encontrar o tesouro antes de nós — ou outra pessoa.”
“Tudo bem, mas há monstros por toda parte. A gente precisa ter certeza de que é seguro seguir.”
“Não tem problema. A Cleare está verificando a área em busca de inimigos.”
Ao ouvir seu nome, as lentes azuis de Cleare brilharam, iluminando completamente o corredor escuro. Era óbvio que ela já conhecia toda a estrutura da masmorra.
“Eu não classificaria nenhum dos monstros aqui como uma ameaça real”, disse ela. “Mas não parece que todos os caminhos subterrâneos estejam conectados.”
A vasta masmorra sob a fortaleza não formava uma única estrutura contínua; suas áreas eram divididas, o que tornava tudo ainda mais complicado.
“Se escolhermos a rota errada, vamos perder tempo. E não temos o luxo de procurar outras entradas”, disse Angie, pensativa.
Ela parecia estranhamente impaciente.
“Por que tanta pressa?”, perguntou Noelle.
Os olhos de Angie se estreitaram.
“Porque você não entende de verdade. O nosso oponente é o Leon.”
“Não, eu entendo.”
Noelle sabia muito bem do que Leon era capaz, mas a percepção que tinha dele claramente era muito diferente da de Angie.
“Quando ele tinha só quinze anos, saiu sozinho numa aventura absurda e ainda encontrou um Item Perdido”, disse Angie. “Isso já seria inacreditável para alguém tão jovem, mas o mais absurdo é que ele fez tudo isso sem ajuda. Ele é um herói.”
“Sim, eu já ouvi essa história toda. Ele encontrou o Luxion, certo?”
“Não, você ainda não entendeu!” Angie voltou a andar enquanto falava. “Você não faz ideia do quanto ele é inspirador! Deixa eu explicar direito.”
Enquanto Angie seguia em frente, listando as façanhas heroicas de Leon uma após a outra, Noelle observou suas costas em silêncio. Um quase imperceptível sorriso curvou seus lábios.
Então eu estava errada. Ela não odeia ele, né? Acho que isso… não é exatamente uma vergonha, é?

Ela ficou aliviada ao ver Angie falar alegremente sobre Leon. Não que Noelle estivesse particularmente preocupada com uma separação depois da discussão — o que a inquietava de verdade era a possibilidade de a dinâmica entre os dois ter mudado. Felizmente, aquilo parecia confirmar que a perspectiva de Angie não havia se alterado de verdade.
“As pessoas dizem que ele só teve sucesso naquela primeira aventura por pura sorte, mas não poderiam estar mais erradas”, disse Angie. “No nosso primeiro ano, nós o acompanhamos até a vila dos elfos. Lá, ele encontrou uma passagem secreta nas ruínas e ainda conseguiu descobrir mais tesouros.”
“Uau…”
A resposta nada entusiasmada de Noelle não fez o menor efeito. Angie continuou, orgulhosa, elogiando uma conquista de Leon atrás da outra.
“E ele também encontrou a muda da Árvore Sagrada na república, não foi? Será que coincidência acontece três vezes? Mesmo entre aventureiros, ele está muito acima dos demais. É um herói poderoso.”
“Você realmente tem uma opinião muito alta dele.”
“Claro. Ele gravou o próprio nome para sempre na história do reino. Foi por isso que eu me esforcei tanto para me tornar digna dele. Mas, infelizmente…”
A voz de Angie foi perdendo força aos poucos, e toda a vivacidade de momentos antes desapareceu.
Percebendo que ela estava prestes a mergulhar de novo na autodepreciação, Noelle se virou para Livia, que vinha logo atrás das duas. Até então, ela tinha permanecido em silêncio.
“Ah, vamos, Liv, diz alguma coisa”, insistiu Noelle em voz baixa.
Livia, porém, estava ocupada examinando uma peça decorativa que havia recolhido em algum ponto do caminho. Seus olhos quase brilhavam enquanto estudava o brasão gravado nela.
“Srta. Noelle, por favor, olhe isto! Bem aqui, este brasão! Ele foi usado por uma civilização que se acredita ter sido aniquilada. A peça está tão desgastada que é difícil identificar a forma com precisão, mas acho que isso pode ser considerado uma descoberta sem precedentes.”
Ela falou num tom quase sonhador, erguendo no ar aquele fragmento de sabe-se lá o quê.
Noelle fez uma careta.
“Hum, Liv… você não está nem um pouco preocupada com a Srta. Angélica aqui?”
Em outras palavras: você não está esquecendo por que estamos aqui?
Para surpresa dela, a resposta de Livia veio imediatamente.
“Vai ficar tudo bem.”
Que parte daquilo estava “tudo bem”, exatamente?
Livia sorriu, olhando para as costas de Angie.
“Aqueles dois precisavam bater de frente.”
“Sério?”
Aquilo ia mesmo funcionar? A ansiedade de Noelle só aumentou.
“Não se preocupe”, murmurou Livia, insistente.
Mais à frente, Angie acabou esbarrando sem querer numa das decorações penduradas na parede, fazendo-a cair e se despedaçar no chão.
“Angie!” gritou Livia, correndo até ela. “Eu não falei para você tomar o máximo de cuidado possível e não quebrar nada daqui?!”
Ela praticamente a encurralou contra a parede.
“V-você entendeu errado! Eu só estava distraída, pensando em outra coisa.”
Angie parecia genuinamente confusa.
“Você me prometeu que não quebraria nada, não foi? Eu te disse que cada item que encontramos aqui é um registro histórico precioso e que devemos fazer todo o possível para preservá-los. E você concordou, não concordou?”
“Lívia, por favor, me perdoa!”
Noelle levou a mão à testa ao observar a cena.
“A Liv é um verdadeiro terror quando se irrita, hein…”
***
“O que quer dizer com ‘sem problemas’? Aqui só tem problema!”
Assim que encontramos a entrada da masmorra subterrânea e entramos sem pensar direito, tudo deu errado. Horrivelmente errado. Eu estava escondido atrás de uma esquina no corredor, recarregando meu rifle com balas novas enquanto amaldiçoava Luxion com toda a sinceridade do mundo.
“Sabe qual é o seu pior hábito? Você fracassa justamente nos piores momentos possíveis! E ainda se chama IA? Você não sente vergonha?!”
Eu não tinha escolha senão falar alto, já que, ao nosso redor, Julius e os outros também atiravam contra o inimigo.
“Parece que preciso rever minha avaliação das suas habilidades, Mestre”, respondeu Luxion. “Eu não esperava que você fosse lutar tão mal contra monstros tão insignificantes. Realmente achei que fosse mais competente. Pelo visto, superestimei você.”
Seu corpo se moveu para frente e para trás como se estivesse balançando a cabeça para mim.
Até Jilk estava furioso.
“Ainda que seja lisonjeiro ser considerado tão capaz, gostaríamos de receber uma avaliação mais precisa das capacidades do inimigo!”
Dizendo isso, ele ergueu o rifle, espiou pela mira e puxou o gatilho.
A bala atravessou o crânio de um esqueleto no outro extremo do corredor. Diferente dos mortos-vivos do andar superior, esse usava uma túnica e carregava um cajado de osso, o que deixava claro que se tratava de algum tipo de feiticeiro.
Eram esses mortos-vivos usuários de magia que estavam nos atacando em números absurdos. Pior ainda, eles tinham vários guerreiros esqueléticos na linha de frente, todos usando armaduras muito mais grossas do que as dos andares de cima. Carregavam enormes escudos e machados de guerra, e, para meu total desgosto, aqueles escudos eram perfeitamente capazes de desviar balas comuns.
Jilk aproveitou uma abertura entre a linha de frente e acertou outro feiticeiro logo atrás deles. O sujeito podia ser dissimulado, traiçoeiro e dono de uma personalidade miserável, mas não dava para negar que era um atirador excepcional.
Infelizmente, os conjuradores restantes ergueram seus cajados.
“Todo mundo abaixa!” gritou Greg.
Nós nos agachamos, usando o que podíamos como cobertura, enquanto eles lançavam uma saraivada de feitiços. Uma sequência de explosões estourou bem acima de nossas cabeças, iluminando o labirinto escuro com clarões sucessivos. Quando a ofensiva terminou, poeira dançava pelo ar.
No instante em que a magia inimiga cessou, comecei a distribuir ordens.
“Julius, avança. Você vai ser o nosso escudo de carne.”
“Perdão? Você se lembra de que eu ainda sou um príncipe?”
“Se abaixa e faz o que eu mandei. Pega um escudo, usa aquele seu truque de barreira do qual se orgulha tanto e dá um jeito de bloquear os ataques deles. Brad!”
Brad fez uma careta.
“Você não vai me mandar avançar, vai?”
“Claro que não. Eu não tenho esperança nenhuma de que você consiga fazer literalmente qualquer coisa em combate corpo a corpo.”
“Você não precisava ser tão cruel!”
Balancei a cabeça.
“Tanto faz. Só prepara uma magia bem destrutiva e arrebenta a linha de frente deles. Quero o seu feitiço mais forte.”
Quando Brad assentiu, eu me virei para Jilk.
“Continue atirando como estava fazendo. E sem fogo amigo.”
Jilk revirou os olhos.
“Como se eu fosse cometer um erro tão amador.”
“Na verdade, não posso nem presumir que você não acertaria um aliado de propósito.”
“Que tipo de homem você acha que eu sou?” retrucou Jilk friamente, sem qualquer traço da calma habitual, embora continuasse concentrado enquanto recarregava o rifle.
Por fim, me voltei para Chris e Greg.
“Vocês dois avançam na horda assim que o Brad acertar a magia.”
“Não vamos decepcionar”, disse Chris, ajustando a empunhadura da espada. “E você, o que vai fazer?”
Dei de ombros.
“Eu sou o líder, não sou? Então vou ficar atrás, observando e dando ordens enquanto vocês fazem todo o trabalho.”
Greg franziu o rosto com nojo.
“Só existem dois tipos de gente que falam uma coisa dessas num momento como este: figurões e idiotas.”
“Receio ter de corrigi-lo”, disse Luxion. “Ele não é um figurão nem um idiota. É um idiota extraordinário.”
“Chega de comentários da arquibancada”, rebati. “Vocês vão agir como meus subordinados, queiram ou não.”
“Você não acha problemático usar uma linguagem tão desmoralizante com seus próprios subordinados?”, perguntou Luxion.
“Não, tanto faz. Esses caras aguentam.”
Eu sabia que aqueles cinco não teriam problemas em lidar com o inimigo — não só porque eu tinha jogado e conhecia os atributos de cada um, mas também porque, apesar de todos os meus esforços para não me importar, eu tinha visto com os próprios olhos o quanto eles haviam crescido.
Julius olhou para mim e sorriu. Aquilo me irritou instantaneamente.
“O quê?”, perguntei.
“Nada. Só estou surpreso por descobrir que você tem uma opinião tão boa assim de nós. Você realmente não sabe ser honesto com os próprios sentimentos, Leon.”
No mesmo instante, me arrependi de ter aberto a boca. E, porque eu tinha falado demais, Julius agora estava sorrindo como um idiota triunfante, o que me irritou ainda mais. Então dei um chute nas costas dele.
“Anda logo e vai!”
“S-seu idiota! Não me empurra desse jeito!”
Assim que forcei Julius a sair da cobertura, os feiticeiros iniciaram outra salva de magia. Ele se atrapalhou para erguer o escudo e se posicionar.
“Tch, eu vou me lembrar disso, Leon!” ele gritou. “Baluarte Imperial!”
Luz irrompeu do escudo e encheu o corredor, formando uma barreira gigantesca e semitransparente.
Graças ao feitiço de Julius, que conseguiu nos proteger por completo, nenhum dos ataques mágicos inimigos nos atingiu.
Brad avançou um passo e ergueu as duas mãos, preparando sua própria magia destrutiva. Vários círculos mágicos se manifestaram no ar atrás dele e começaram a girar lentamente.
“Inferno do Fogo Infernal!”
Ele trouxe os braços para dentro aos poucos, aproximando as mãos, até finalmente uni-las.
Sentindo que o momento havia chegado, Julius desfez a barreira. Naquele exato instante, chamas rodopiantes irromperam dos círculos mágicos ao redor de Brad e dispararam em direção ao exército de esqueletos. Quando o inferno engoliu os mortos-vivos, explodiu com violência. Suando, Brad caiu de joelhos.
“Eu peguei eles?”, perguntou, ofegante, esperançoso de que sua magia tivesse eliminado nossos inimigos.
Infelizmente, outra onda de esqueletos surgiu através das brasas ainda vivas que se espalhavam pelo corredor. Jilk imediatamente voltou a atirar, mas a quantidade de inimigos parecia só aumentar.
“Parece que fizemos barulho o bastante para atrair ainda mais deles”, comentou Luxion.
Mesmo assim, para mim aquilo ainda contava como progresso.
“Vamos nessa. Vamos limpar tudo de uma vez. Chris, Greg, é a vez de vocês.”
Deixei meu rifle de lado e saquei a espada.
Chris me lançou um olhar confuso.
“Achei que você ia ficar atrás só observando.”
“Mudei de ideia. Agora que parece que temos boas chances de vencer, eu vou junto.”
Greg ajeitou a postura com a lança em mãos, os olhos presos ao inimigo, e sorriu.
“Você realmente é distorcido.”
“Pode ser. Agora é hora de pôr esse lixo pra fora.”
Quando avançamos, Chris e Greg foram os primeiros a fazer contato com o inimigo. No dia a dia, eles eram dois completos idiotas, mas, em combate corpo a corpo, simplesmente não tinham comparação. Chris não levou mais do que alguns instantes para eliminar dois mortos-vivos.
“Há!”
Sua esgrima era tão suave e elegante que a lâmina parecia dançar no ar, reduzindo os monstros a cinzas e fumaça um após o outro.
Greg era o oposto absoluto, um bárbaro que esmagava tudo pela força bruta.
“Graaah!”
As armas deles funcionavam contra os mortos-vivos graças ao revestimento de prata que Luxion havia aplicado, mas, mesmo desconsiderando isso, a força dos dois era impressionante. Greg cravava a lança nos inimigos e atravessava guerreiros esqueléticos, escudo e tudo. Assim que derrubava um, partia para o próximo. Seu estilo brutal contrastava completamente com o de Chris, mas, ainda assim, os dois lutavam lado a lado sem jamais atrapalhar um ao outro.
Luxion e eu mergulhamos pelas aberturas que eles criavam, tomando cuidado para não interromper o ritmo deles, e avançamos mais fundo no enxame. Adiante, avistei um esqueleto arqueiro apontando diretamente para Greg.
“Então esse vem primeiro, né?”
Balancei a espada num golpe ascendente. A ponta raspou o chão, lançando faíscas, antes de encontrar o alvo e parti-lo ao meio na altura da cintura.
Assim que derrubei aquele, voltei a procurar o próximo.
Luxion projetou uma luz vermelha sobre outro inimigo.
“Mestre, aquele também está mirando neles.”
Escondido nas sombras, havia outro esqueleto com arco em mãos.
“Boa. Valeu por achar esse.”
Joguei a espada para o lado e saquei a pistola do coldre preso à cintura. Ela estava carregada com balas revestidas de prata, cada uma delas custando um valor absurdo. Em circunstâncias normais, eu teria sido mais cuidadoso ao decidir quando e quantas gastar, mas, como Luxion tinha nos abastecido em quantidade, não havia necessidade de economizar.
“Feita sob medida.” Sorri para mim mesmo. “Vou usar isso tudo com prazer.”
Atirei duas vezes, acertando a criatura com ambas as balas. Na teoria, eu poderia sair disparando o quanto quisesse, mas só tinha levado uma quantidade limitada para dentro da fortaleza. Não por falta de espaço — afinal, balas eram pequenas. O problema era que carregar um monte de metal nas costas acabava ficando pesado.
Continuei disparando minhas balas de prata e abatendo um inimigo após o outro. No meio disso, Julius finalmente conseguiu chegar até nós.
“Ei, deixem alguns pra mim também!”
“Vossa Alteza, por favor, fique numa área segura”, eu disse num tom morto e cansado. Eu já sabia que ele tentaria se afastar do perigo na primeira oportunidade.
O rosto de Julius se tingiu de vermelho, não de vergonha, mas de pura raiva. Sua espada atravessou um esqueleto que saltou sobre ele.
“Você me empurrou bem na frente do inimigo!”
“Ah, sim, mas você precisava ser útil pra alguma coisa. Agora já pode ir se gabar pra Marie.”
Soltei uma risada.
Luxion nos observou e murmurou: “Vocês dois realmente se tornaram bem próximos.”