Tínhamos encontrado outra entrada para a masmorra sob a fortaleza.
“A primeira foi um fracasso completo. É melhor que esta dê em alguma coisa”, eu disse.
A primeira entrada que eu e a brigada de idiotas havíamos descoberto não nos rendeu nada de realmente significativo em termos de tesouro. Eu tinha explorado essa masmorra repetidas vezes nas minhas partidas, mas isso tinha sido há tanto tempo que minhas lembranças já estavam bem falhas. Eu definitivamente não me lembrava de onde tudo ficava, nem se havia armadilhas ou outros truques aos quais devíamos prestar atenção. Para piorar, às vezes minhas memórias estavam simplesmente erradas, o que tornava toda a expedição muito menos tranquila do que eu tinha imaginado.
Jilk colocou uma bomba na porta e correu de volta até nós, puxando um fio atrás de si.
“Por favor, procurem abrigo.”
Fizemos o que ele mandou e nos escondemos nas sombras. Assim que chegou à posição, Jilk segurou a ponta do fio e despejou mana nele, fazendo-o brilhar levemente. No instante seguinte, uma explosão ensurdecedora sacudiu o local, e um tremor leve percorreu o chão sob nossos pés. A fumaça resultante desceu pela escadaria.
Greg saiu da cobertura para ver se a tentativa havia dado certo, mas logo voltou, balançando a cabeça com expressão abatida.
“Nada feito. Essa é uma porta resistente.”
Brad levou a mão ao queixo e sorriu.
“Isso só prova que o tesouro do outro lado vale o esforço. Devemos redobrar nossas tentativas?”
Todos voltaram os olhos para Jilk, que era o mais experiente quando o assunto era explosivos. Ele franziu a testa.
“Já usei toda a pólvora que trouxe. Se quisermos continuar por esse caminho, vamos ter que voltar ao navio e reabastecer.”
Brad deu de ombros.
“Nesse caso, acho que não temos escolha. Voltamos agora e tentamos de novo amanhã?”
Lá fora, o sol já começava a desaparecer no horizonte, tingindo o céu de um vermelho vibrante.
“Quando anoitecer, os monstros desta fortaleza estarão no auge”, observou Julius. “Mortos-vivos ficam mais fortes depois do pôr do sol.”
Durante o jogo, eu nunca precisei me preocupar com a passagem do tempo. A maioria das masmorras simplesmente ignorava o ciclo de dia e noite depois que você entrava nelas. Havia alguns eventos específicos que só podiam ser acionados à noite, mas eram exceções.
As lentes de Luxion ficaram vermelhas.
“Mestre, recomendo que recuemos.”
“Hmm, entendo… mas esta parece ser a última área.”
Parecia meio idiota voltar amanhã e repetir toda a caminhada por causa de apenas algumas horas. Parte de mim queria simplesmente terminar logo. Por outro lado, não havia nenhum motivo urgente para nos colocarmos em risco.
“Vamos recuar”, concluí. “Vamos nos reunir com os outros e voltar para o acampamento.”
Chris soltou um suspiro discreto.
“É o melhor. Ainda temos muitos dias pela frente.”
Nosso grupo estava prestes a se retirar quando ouvimos passos pesados vindo na nossa direção. Alertas, os rapazes pegaram suas armas. Eu também ergui o rifle, pronto para qualquer coisa que estivesse vindo.
“São apenas Marie e seus seguidores”, informou Luxion.
Ela apareceu na esquina segundos depois, com Kyle e Carla logo atrás. Por algum motivo, o longo cabelo loiro dela estava completamente bagunçado, com folhas presas aqui e ali.
“Esperem aí!”
Marie nos viu recolhendo as coisas, avançou na nossa direção e passou direto por nós. Então apontou o dedo para a passagem à frente.
“Tropas, avancem!”
“Entendo sua vontade de continuar”, disse Julius, “mas a noite já está caindo. Amanhã poderemos continuar com muito mais segurança. Deixe isso de lado por hoje.”
Marie balançou a cabeça.
“Não. Vamos terminar isso hoje e voltar para a capital.”
A declaração imprudente deixou a patrulha idiota sem palavras.
Soltei um riso seco, irritado com o egoísmo dela.
“Quem manda aqui sou eu, e eu estou dizendo que vamos voltar e tentar de novo amanhã. Arrumem as coisas, pessoal.”
Parecia óbvio que cabia a mim dar as ordens. Eu tinha planejado toda a expedição, viemos até aqui na minha aeronave e, acima de tudo, a segurança de todos recaía sobre mim. Se alguém se machucasse, a responsabilidade seria minha. Eu não tinha a menor intenção de dar espaço para as loucuras da Marie.
“Vossa Graça, posso tomar um momento do seu tempo?”, perguntou Kyle.
“O que foi? Espero que não esteja pensando em me fazer mudar de ideia.”
“Não, não é isso. Eu só gostaria de dizer que minha senhora vem se forçando desde o início do dia.”
Pelo visto, Marie tinha passado o dia inteiro se desgastando, decidida a encontrar qualquer tesouro possível para conquistar sua independência. Parei por um instante para observá-la. A impaciência estava estampada em seu rosto.
“Só mais um pouco”, disse ela. “Se eu conseguir limpar esta masmorra, não vou mais parecer tão patética na frente dela.”
Eu soube imediatamente quem era aquela “ela”, mas hesitei. Aquilo bastava para colocar nossa segurança em segundo plano?
“Será mais perigoso prosseguir esta noite”, disse Luxion, percebendo minha hesitação, “mas é possível continuar e concluir a exploração.”
“Então não tem problema continuar?”
“Eu não recomendaria. Você evitou lutar contra monstros mortos-vivos até agora, então meus dados ainda são insuficientes. Eu poderia lhe fornecer uma avaliação mais precisa se tivesse mais informações.”
Quase parecia que ele estava me criticando indiretamente, como se o meu jeito de gato assustado tivesse deixado a análise dele incompleta.
“Não é como se eu estivesse evitando mortos-vivos. Eu só nunca tive motivo para lutar contra eles”, respondi.
“Como sempre, uma desculpa perfeita. E pensar que eu ainda alimento a esperança de que um dia você me surpreenda com alguma maturidade. Que vergonha deplorável.”
“Ah, para com isso.”
Enquanto nós dois discutíamos, Angie apareceu. Noelle vinha logo atrás, carregando uma sacola que, pelo visto, continha o tesouro que elas tinham encontrado. Livia vinha um pouco mais atrás segurando alguma outra coisa, mas, aos meus olhos, aquilo parecia apenas um monte de tralha.
Cleare flutuou até mim e começou a ziguezaguear, animada.
“Mestre, olha isso! Nós encontramos um tesouro! Aposto que vocês não acharam nada, mas nós achamos! Me elogia, me elogia!”
“Bom trabalho. Agora sai da frente.”
Empurrei Cleare de lado para poder ver minhas noivas.
“Malvado!”
“Então isso quer dizer que vocês venceram, é?”
Angie balançou a cabeça imediatamente.
“Eu realmente posso dizer de cabeça erguida que venci você com um prêmio tão medíocre? Tudo indica que o verdadeiro tesouro da fortaleza está além desta porta.”
Todos olharam para a porta robusta que bloqueava o caminho mais profundo da masmorra. Em seguida, todos voltaram os olhos para mim, esperando minha decisão.
A pressão era sufocante.
Cocei a cabeça e suspirei.
“Tudo bem. Vamos continuar.”
“Tem certeza?”, perguntou Luxion.
“Vamos logo terminar isso para podermos voltar.”
“Muito bem.”
Luxion e Cleare dispararam, ao mesmo tempo, um feixe combinado de luz vermelha e azul. O laser acertou a fechadura da porta, destruindo-a na hora.
Jilk fez uma careta.
“Se isso era uma opção desde o começo, você devia ter falado. Desperdicei minha pólvora à toa.”
Foi mal por isso, Jilk. Mas eu tinha mandado as duas IAs manterem a ajuda no mínimo durante essa viagem.
Lancei um olhar para Angie. Ela parecia encantada diante da porta finalmente aberta. Era uma expressão completamente oposta à que ela tinha mostrado durante nosso encontro.
Luxion e Cleare recuaram.
“Mestre, a fechadura foi destruída. Você pode prosseguir”, disse Luxion.
Fiquei à frente do grupo e olhei por cima do ombro para todos.
“Então, que tal fazermos disso uma corrida? Vamos ver quem chega primeiro às profundezas.”
O clima mudou na mesma hora. Livia, Noelle e Kyle pareceram surpresos com o impacto da minha proposta, que era puro desafio. Como não eram nobres de Holfort, eles não compartilhavam esse nosso fervor competitivo.
Angie começou a se livrar de qualquer equipamento desnecessário, deixando tudo cair no chão.
“Eu gosto quando as regras são simples”, disse ela. “Fica mais fácil decidir o vencedor.”
Os outros seguiram seu exemplo e começaram a se desfazer de tudo aquilo de que não precisavam. O corredor logo se encheu do som de batidas, tilintares e objetos sendo jogados no chão.
“Eu vou ser a primeira!”
Marie disparou enlouquecida em direção à porta, tentando ganhar uma vantagem injusta. Infelizmente para ela, agarrei seu colarinho e a segurei no lugar.
“Idiota.”
Ela era tão leve que não tive dificuldade nenhuma para levantá-la. Mesmo se debatendo descontroladamente, não conseguia encostar os pés no chão, então ficou totalmente indefesa.
“Todo mundo pronto? Então vamos!”
“Eu sou o primeiro!”, gritou Greg, assumindo a dianteira e usando os músculos para empurrar a pesada porta de metal.
Jilk aproveitou o avanço lento dele para escapar pela abertura.
“Obrigado pelo trabalho de abrir a porta para nós, Greguinho.”
Enquanto Greg agia como um cavalheiro involuntário, os outros competidores já passavam pela entrada. Angie parou no instante em que ia cruzar por mim.
“Você está se impondo uma desvantagem porque tem certeza de que vai vencer?”
“Se eu não fizer isso, depois todo mundo vai reclamar que eu ganhei porque tive vantagem, não é? Melhor dar a dianteira pra vocês. Assim, quando perderem, não vão ter desculpa.”
Não era mentira. Ninguém reconheceria minha vitória se eu começasse trapaceando.
Angie acreditou na minha explicação e correu para a frente com um sorriso.
“Diga o que quiser. A vitória vai ser minha.”
Marie continuava esperneando nos meus braços.
“Ei! Me põe no chão! Eles vão me deixar pra trás!”
Suspirei e a coloquei de volta no chão, mas me inclinei para sussurrar um aviso no ouvido dela.
“Se você quer mostrar pra Erica que pode ser uma mãe de verdade, então joga limpo. Não tem como se orgulhar de uma vitória conquistada trapaceando.”
Marie me empurrou de lado.
“Esse idealismo é coisa de gente que sempre vence. Eu sempre tive que subir por baixo, então meu único caminho é ganhar do jeito que for preciso!”
Então se virou para Kyle e Carla.
“Vamos, vocês dois! A gente vai na frente!”
Os dois correram atrás dela em desespero.
“Por favor, espere!”
“Lady Marie, não nos deixe para trás!”
Com isso, todos os outros dispararam adiante.
Luxion se aproximou de mim.
“Se continuar desperdiçando tempo, você vai perder esta competição.”
Sorri.
“Você acha mesmo?”
Para qualquer um olhando de fora, parecia que eu estava me colocando numa desvantagem enorme. O que eles não sabiam era que eu tinha um motivo muito bom para fazer isso.
“Eu esqueci muita coisa, sim, mas ainda me lembro de bastante.”
“Imagino que esteja se referindo ao seu conhecimento do jogo?”
“Isso. Apaguei bastante coisa sobre este lugar, mas ainda me lembro deste caminho.”
Luxion balançou para cima e para baixo, pensativo.
“Em outras palavras, você se lembra exatamente de onde o tesouro está.”
“Bingo.”
“Por um momento, eu realmente achei admirável que estivesse tentando manter tudo justo, mas devia ter sabido que havia algo por trás disso. Você nunca deixa de corresponder às minhas expectativas — e essa é uma das suas piores qualidades.”
“Ah, qual é. Eu me sentiria mal se traísse suas expectativas.”
Levei a mão ao peito e ergui o queixo.
“Na verdade, de agora em diante, pretendo fazer o meu melhor para continuar correspondendo às altas expectativas que todos têm de mim!”
“Que canalha admirável você é, Mestre.”
Podem me chamar de escória à vontade.
No fim das contas, quem vai terminar por cima sou eu.
***
Entrar na última seção da masmorra me trouxe de volta várias lembranças das minhas partidas.
“Este lugar, em particular, ficou bem marcado na memória.”
O chão era coberto por ladrilhos quadrados, e as paredes eram de tijolos. Luxion pairava perto do meu ombro, iluminando o caminho.
“Houve algo de específico que fez essa lembrança ser tão forte?”
“Eu encarei esta masmorra à noite, no mundo real. Ter que lidar com mortos-vivos naquela atmosfera foi… meio assustador.”
“Entendo. Então você tem medo deles.”
“Não foi isso que eu quis dizer. Só foi assustador porque estava de noite, só isso.”
Continuei andando pelo corredor, guiado pelas minhas lembranças. Ao longe, ouvi o som metálico de combate. Alguém tinha encontrado monstros. Ainda assim, não havia nada me atrasando, já que todo mundo tinha aberto caminho antes de mim.
Por fim, cheguei ao que parecia ser um beco sem saída.
“Parece que não dá para seguir adiante”, disse Luxion.
“Não… isto aqui é uma passagem secreta.”
“Bingo.”
Essa maldita porta secreta tinha me dado muita dor de cabeça quando tentei fechar a masmorra no jogo.
A Fortaleza das Mãos de Ouro tinha vários níveis subterrâneos, e eles eram muito mais labirínticos do que qualquer outra masmorra do jogo. Na época, eu andei em círculos até ficar tão irritado que fui procurar um guia. Foi aí que descobri o verdadeiro segredo daquele lugar: o tesouro estava escondido atrás de uma passagem secreta perto da entrada. Quando descobri isso, fiquei tão furioso que joguei o controle longe.
Acionei o interruptor oculto, e a parede se abriu, revelando uma passagem.
“Agora entendo por que você não viu necessidade de se apressar”, disse Luxion.
“Pelo visto, a Marie não fazia ideia. Acho que ela nunca soube como entrar aqui.”
Embora Marie tivesse jogado parte do primeiro jogo, ela parou no meio do caminho. Havia uma boa chance de nunca ter aprendido nada sobre essa masmorra específica, considerando o quanto ela detestava a parte de combate. Pelo jeito que vinha agindo, ela parecia achar que apenas tinha esquecido o lugar, mas eu estava disposto a apostar que nunca soube desse truque.
“Isso chega a me fazer sentir pena da Marie”, disse Luxion. “Não importa o quanto ela se esforçasse nesta viagem, sua vitória nunca foi possível.”
“Eu teria mostrado a entrada pra ela se ela tivesse me escutado.”
Irmãzinha idiota.
Entrei no corredor oculto. Instantes depois, uma sequência de passos ecoou atrás de mim. Confuso, olhei por sobre o ombro e vi Julius e seu pequeno grupo de idiotas parados ali.
“Encontramos você, Leon!”
Fiquei genuinamente chocado por aqueles idiotas terem tido a ideia de vir atrás de mim.
“O que vocês estão fazendo aqui?!”, exigi.
Chris pressionou o indicador contra a ponte dos óculos, empurrando-os de volta para o lugar enquanto os lábios se curvavam num sorriso malicioso.
“Depois que saímos correndo, começamos a nos perguntar por que você parecia tão pouco preocupado em chegar aqui antes de nós.”
“Isso mesmo”, disse Greg, apoiando a lança no ombro. “Afinal, foi você quem encontrou este lugar. Só fazia sentido presumir que tivesse guardado alguns segredos para si, não?”
Brad soltou um riso de desprezo, levando a mão à cabeça.
“Você realmente é um covarde traiçoeiro. Só inventou essa história de que a disputa seria justa porque já sabia da existência dessa entrada secreta. Ou pretende negar?”
Recuei um passo, e isso fez Jilk sorrir enquanto avançava na minha direção.
“É verdade. Quase fomos enganados pela sua encenação. Infelizmente, você é previsível demais. Foi estranho demais vê-lo participar de uma disputa em que, aparentemente, estava em desvantagem. Era óbvio que havia algo suspeito.”
Tá brincando comigo? Esses caras realmente me leram desse jeito?!
Eu estava tão convencido de que, sendo o bando de idiotas que eram, não teria dificuldade em enrolá-los. Pelo visto, eu estava errado. Depois de puxar o tapete deles tantas vezes, os sujeitos já tinham aprendido a esperar esse tipo de golpe.
Estalei a língua, virei as costas e saí correndo pelo corredor. A liga dos idiotas veio atrás de mim na mesma hora.
“Não deixem ele escapar!”
“Parece que o príncipe e sua comitiva entendem você muito melhor do que as próprias noivas”, comentou Luxion, soando estranhamente satisfeito com a reviravolta.
Esse maldito doente está se divertindo com isso, não está?
“Eu não estava tentando enganar as garotas!”
“Uma afirmação ousada, dadas as circunstâncias. Devo acrescentar que, considerando a natureza injusta da sua vantagem, já informei Cleare. Suas queridas estão vindo nesta direção.”
“O quê?!”
Gotas frias de suor escorreram pela minha testa. Ah, isso era ruim. Muito ruim.
“Além disso, Cleare transmitiu um recado da Angélica. Segundo ela: ‘Você tem bastante coragem, nos enganando desse jeito.’ Estou sinceramente ansioso para ver o que vai acontecer quando isso terminar.”
“Pois eu certamente não!”
Forcei as pernas o máximo que pude, desesperado para escapar da gangue de idiotas, quando um grupo de monstros surgiu no corredor à frente. Troquei o rifle pela pistola e comecei a atirar rapidamente nos mortos-vivos que se aproximavam. Eles sumiram em nuvens de fumaça, mas, no processo, eu perdi velocidade — e logo Julius e os outros me alcançaram.
“Agora nós pegamos você, Leon!”
“Seus trapaceiros imundos! Isso foi uma emboscada a sangue-frio!”
“Você não tem o menor direito de dizer isso!”
Por mais que eu tentasse, não tive chance de escapar deles. Pior ainda, avistei logo adiante uma armadilha familiar. Era um modelo simples: bastava pisar no ladrilho errado e um mecanismo de pressão era ativado, fazendo lanças saltarem da parede. Num jogo, isso tiraria só um pouco de HP. Na vida real, podia matar.
E, claro, Julius estava ocupado demais berrando comigo para prestar atenção no chão — então, obviamente, foi ele quem pisou no ladrilho errado.
“Seu idiota!”
Em pânico, agarrei Julius pelo colarinho e o joguei no chão junto comigo. Várias lanças atravessaram o ar logo acima das nossas cabeças. Fiz uma careta para ele, ainda deitado no piso. Julius estava suando frio, percebendo quão perto tinha estado de ser empalado.
“Desculpe… Obrigado por me salvar”, conseguiu dizer.
“Esquece isso e levanta! Aqueles idiotas que você chama de amigos já passaram por nós!”
Puxei-o de volta para cima e o forcei a olhar para a frente, onde o irmão adotivo — o homem com quem ele tinha sido criado, em quem depositava sua confiança — já estava avançando em velocidade máxima sem nem olhar para trás.
“Seguiremos em seu lugar, Alteza!”, gritou Jilk por cima do ombro.
“Jilk! Você deveria ser meu irmão!”
“E sou! Mas, quando o assunto é tesouro, todos os homens são rivais!”
“Eu quase morri!”, berrou Julius. “E você me abandona justamente quando estou em perigo?!”
“Eu confiei que você daria conta!”
Nós dois nos lançamos atrás do clube dos palhaços. Acabou sendo fácil alcançá-los, já que os monstros também os tinham atrasado. Em pouco tempo, estávamos os seis correndo de novo, com flechas zunindo atrás de nós.
Luxion olhou para trás.
“Há vários arqueiros esqueléticos perseguindo vocês. Seria imprudente deixá-los livres. Recomendo eliminá-los.”
Eu também não gostava da ideia de continuar sendo alvejado pelas costas, mas, se parássemos para lutar, perderíamos tempo — e ainda era uma corrida. Além disso, qualquer um daqueles idiotas podia muito bem apunhalar o resto do grupo pelas costas e disparar na frente sozinho. Eu não podia correr esse risco.
Cerrei os dentes.
“Desculpa. Me perdoa por isso, Julius.”
“Hã?!”
Dei uma rasteira nele.
Julius ficou para trás enquanto o resto de nós continuou correndo. Ele conseguiu se levantar, mas os monstros já estavam em cima dele. Não havia como escapar naquele ponto, então foi forçado a erguer o escudo enquanto berrava atrás de nós.
“Vocês por acaso esqueceram que eu sou um príncipe?! Vão mesmo usar o príncipe do próprio reino como distração?!”
Ri alto.
“Ah, seu idiota! A vida das pessoas é mais importante que o seu status!”
“Como consegue dizer isso depois de me colocar em risco?!”
Apesar de todos os protestos, Julius não teve dificuldade nenhuma em derrubar os esqueletos.
“Julius, eu juro que não vou deixar seu sacrifício ser em vão!”
Enxugamos lágrimas inexistentes e seguimos em frente, deixando-o comendo poeira.
Logo chegamos a um ponto em que o corredor se dividia em três direções, mas monstros surgiram dos dois corredores laterais. Se conseguíssemos simplesmente passar correndo, ótimo. O problema seria se eles nos perseguissem. A situação se resolveria se alguém ficasse para trás para contê-los, mas, naturalmente, ninguém do grupo se ofereceu.
Idiotas egoístas.
No exato momento em que íamos tentar passar direto pela pequena horda de mortos-vivos, Jilk deixou cair um lenço no chão e soltou um grito teatral.
“Ah, não! Deixei cair o lenço que a Srta. Marie me deu! Que desastrado! E pensar que ela rezou tão fervorosamente pela nossa segurança e me confiou isso como um amuleto da sorte!”
Greg e Chris estavam perto o bastante para perceber que não havia sido acidente nenhum, e simplesmente continuaram correndo. Brad, no entanto, aparentemente não percebeu a encenação.
“Como você pôde deixar cair algo tão precioso?!”, gritou ele, se jogando de cabeça para pegá-lo.
Naturalmente, percebeu que tinha sido enganado no instante em que olhou melhor para o objeto.
“Este é o seu lenço idiota, Jilk!”
Devia estar com o nome dele bordado ou coisa assim. Mas, embora Brad tivesse se dado conta da trapaça, já era tarde demais. Os monstros já estavam em cima dele.
Uma explosão de magia e maldição irrompeu atrás de nós.
“Todos vocês vão pagar por isso, eu juro!”
Dois idiotas a menos. Restavam três.
Greg soltou uma gargalhada.
“Não se preocupe, Brad! Vou levar tesouros suficientes por você e por Sua Alteza também!”
“Você vai ver que serei eu quem vai vencer isso!”, retrucou Chris, igualmente consumido pelo espírito competitivo.
Greg e Chris eram mais rápidos do que Jilk e eu. Quando o assunto era resistência e condicionamento, estávamos em clara desvantagem.
Jilk lançou um olhar para mim. Retribuí o olhar e, no mesmo instante, entendi o que ele estava pensando.
“O Greg e o Chris são rápidos demais”, disse em voz alta. “Se isso continuar, a gente vai ficar para trás, hein?”
“De fato”, respondeu Jilk. “Embora isso não devesse surpreender ninguém. Os dois são guerreiros de linha de frente extremamente confiáveis, perfeitamente capazes de proteger a Srta. Marie.”
Embora tivessem apenas uma vantagem pequena, os dois à frente ouviram claramente o nosso comentário. E, como era de se esperar, o elogio inflou o ego deles. Mal sabiam que era exatamente isso que queríamos.
“Confiáveis, é?”, retruquei. “Mas qual dos dois é o mais forte? Deve ser o Chris, certo? Ele é um espadachim notável. Com certeza é o mais confiável.”
Jilk balançou a cabeça.
“Do que está falando? O Greg é claramente superior. A habilidade dele com a lança vem de experiência real em combate. Já nos salvou incontáveis vezes.”
“Ah, qual é. O Chris tem que ser melhor, não?”
“Não, é o Greg. Mas espere só até o próximo grupo de monstros aparecer. Aí você vai ver.”
Mais à frente, Chris e Greg ficaram completamente em silêncio enquanto ouviam a nossa discussão. Nós dois estávamos ofegantes, jogando as palavras no ar entre uma passada e outra. Parte de mim se preocupou que estivéssemos óbvios demais.
Mas então um grupo de monstros realmente surgiu no caminho.
Chegara a hora da verdade.
Chris e Greg continuariam correndo… ou morderiam a isca?
“Eu sou o protetor da Marie — o cavaleiro mais forte dela!”
Chris se lançou contra os monstros, derrubando-os.
Greg, claro, não poderia ignorar aquilo quando o seu rival direto acabava de fazer uma declaração dessas. Ele também partiu para cima dos inimigos.
“Não se engane! A Marie confia em mim mais do que em qualquer um de vocês. Não é mesmo, pessoal?!”
Depois de perfurar um dos monstros com um golpe rápido, ele ainda teve a ousadia de fazer uma pausa para buscar nossa concordância.
Infelizmente para Greg, Jilk e eu já estávamos passando correndo por eles.
“Boa sorte, idiotas!”
“Meu eterno agradecimento por serem tão fáceis de manipular!”
Foi só quando ficaram cercados pelos monstros que entenderam o que tinha acontecido. Assim como os rapazes antes deles, também tinham sido enganados.
“Vocês nos enrolaram!”
“Nós vamos acertar as contas por isso!”
E assim restamos apenas eu e Jilk.
Ele me lançou um sorriso.
“Leon, receio que lutar entre nós dois agora seria inútil. Que tal cooperarmos até recuperar o tesouro? Estamos lado a lado nesta disputa.”
Balancei a cabeça, como se estivesse considerando.
“Você tem razão. Não faz sentido atrapalharmos um ao outro a esta altura. Ah, mas olha só, o caminho se divide aqui. Luxion, qual dos dois leva ao tesouro?”
“Permita-me oferecer uma indicação visual.”
Luxion projetou uma seta no ar, apontando para o lado esquerdo da bifurcação em Y.
Assim que soube qual caminho supostamente levava ao tesouro, Jilk acelerou e me ultrapassou. Ao mesmo tempo, sacou um objeto e o deixou cair atrás de si. Houve uma pequena explosão, e uma parede de gelo surgiu bloqueando completamente a entrada do caminho esquerdo.
Arregalei os olhos.
“Um item mágico capaz de erguer uma barreira de gelo?!”
Através da parede translúcida, vi Jilk parar para acenar para mim.
“Obrigado por me mostrar o caminho. O tesouro será meu. O resto de vocês pode vir depois… quando eu já tiver tomado posse dele. Estarei esperando!”
Então ele soltou uma gargalhada que soou quase como o tilintar de sinos — ou seja, aguda e afetada demais para o meu gosto.
Enquanto eu o observava desaparecer por aquele corredor, Luxion mudou a direção da seta. Agora ela apontava para a direita.
Ou seja, aquilo tudo não passava de uma distração.
O que esperava Jilk adiante era um beco sem saída.
“Bom trabalho, Luxion.”
“Você se lembrava da localização do tesouro, então não havia motivo real para me perguntar qual caminho seguir. Concluí que queria que eu enganasse seu oponente. Ainda assim, o que mais me intriga é se você já suspeitava desde o início que Jilk o trairia.”
Suspeitava? Não exatamente.
“Não, nada disso. Eu tinha plena confiança…” Dei um sorriso torto. “…de que ele me apunhalaria pelas costas.”
Eu tinha armado toda aquela cena porque sabia perfeitamente que ele era um rato traiçoeiro que me venderia na primeira oportunidade. Quanto ao Luxion, no entanto, eu não sabia como ele reagiria. Foi pura sorte ele ter entendido meu plano.
“Que forma infeliz de fé.”
“Nem me fale.” Dei de ombros, enojado com a atitude de Jilk. “Eu jamais ia querer me tornar um cara desses. Alguém que vive traindo os outros? Que idiota.”
“Essa descrição não se aplica a você também, Mestre? Afinal, você também trai os outros com frequência.”
“Sou uma pessoa de sinceridade genuína e, por isso mesmo, profundamente mal compreendida.”
Comecei a seguir pelo caminho da direita.
Luxion veio logo atrás.
“Sério mesmo? Embora apenas nos assuntos que o beneficiam. Não lhe parece conveniente que sua sinceridade exista apenas nessas ocasiões?”
Apertei o peito, fingindo dor.
“Até você me entendeu mal! Ah, que sofrimento…”
“Seu sorriso estraga completamente a atuação, Mestre.”
Seguimos pelo caminho da direita até que a sala que guardava o tesouro finalmente apareceu. No entanto, havia algo estranho no ar. Eu senti uma presença escondida além da porta. Quando me aproximei mais, ouvi um gemido baixo vindo de dentro.
“Mestre, detecto a presença de um monstro poderoso”, disse Luxion. “Você não mencionou nada sobre uma criatura guardando o tesouro. Esqueceu disso?”
Balancei a cabeça lentamente.
“Não. No jogo não tinha nada disso. Toda vez que eu limpava esta parte, era uma linha reta até o tesouro. Sem chefe.”
“Será que sua memória falhou?”
“Não. Dessa vez, definitivamente não.” Fiz uma pausa. “Aliás, espera um segundo. Que horas são?”
“Já passou das sete da noite. O sol se pôs, e o céu está completamente escuro.”
Voltei os olhos para a porta enquanto conferia a munição do rifle e da pistola.
“Não teve alguém que falou que os mortos-vivos ficam mais ativos à noite?”
No jogo, eu sempre explorava esse lugar e pegava o tesouro durante o dia. Não havia como eu saber o que acontecia na Fortaleza das Mãos de Ouro à noite. Talvez a realidade fosse diferente do jogo. Ou talvez aquilo fosse algum tipo de evento noturno exclusivo.
De um jeito ou de outro, a única opção diante de mim era a violência.
Luxion voltou-se para mim.
“Pretende enfrentá-lo sozinho? Acredito que seria mais prudente esperar o príncipe e seus companheiros alcançarem você. Enfrentar essa criatura junto com eles garantiria uma rota mais segura para a vitória.”
“Depois de fazer de tudo para despistar aqueles idiotas, seria humilhante demais ter que esperar que me alcançassem, não acha?”
“Vejo que você consegue ser sincero quando o assunto é orgulho.”
“Eu jurei nunca mentir para mim mesmo sobre os meus sentimentos.”
Se me permite dizer, essa foi uma fala bem elegante.
Luxion, porém, não pareceu nem um pouco impressionado.
“Uma vez você mesmo me disse que os adultos são hábeis em mentir para si mesmos. E ainda afirmou que esse hábito era justamente o que fazia de você um adulto. Isso não contradiz completamente o que acaba de dizer?”
Balancei um dedo diante dele.
“Tsk, tsk. Esse é o problema com IAs: vocês simplesmente não sabem se adaptar. Enfim, chega disso. Vamos em frente.”
Com os preparativos concluídos, aproximei-me mais, empurrei a porta e entrei.