“Que diabos…” Ao ouvir as palavras do Sétimo Ge, nada além de palavrões inundaram a mente de Ding Songyan.
Tendo lido centenas de romances online, ele imediatamente estabeleceu certas conexões.
“O velho Jiang não poderia estar tentando se apoderar de um novo corpo, poderia? Existe neste mundo alguma arte marcial ou forma de feitiçaria que permita o renascimento através da possessão do corpo?”
“Droga. Será que o velho Jiang tentou possuir o corpo de Ding Songyan, causando a morte da alma dele, o que satisfez a condição de ambos terem o mesmo nome e morrerem ao mesmo tempo, desencadeando minha transmigração? E então, assim que cheguei ao mundo inferior deste mundo e estava prestes a tomar posse do corpo, o velho Jiang completou a possessão, me deixando sem alvo e forçado a vagar pelo reino dos mortos…”
“Aquele que Ji Hanyi matou mais tarde não era Ding Songyan, mas sim o velho Jiang? E depois que o corpo foi esvaziado, finalmente pude retornar a ele…”
“Mas, de acordo com o Sétimo Ge e os resultados da investigação da seita, após a “morte” do Velho Jiang, “Ding Songyan” passou algum tempo em estado de estupor antes de se recuperar lentamente, tornando-se tímido e retraído, e não demonstrando posteriormente nenhuma característica notável, embora ainda mantivesse a capacidade básica de contar histórias…”
“Minha transmigração criou um conflito, fazendo com que o renascimento de Jiang, que envolvia a possessão de seu corpo, falhasse no meio do processo, enquanto sua própria alma sofreu danos severos?”
Ding Songyan deu uma risadinha e olhou para o Sétimo Ge.
— Se eu fosse o velho Jiang, por que voltaria à Vila da Família Ge? Não ficaria preocupado que você já tivesse denunciado e que as autoridades estivessem à espera para me prender?
Sem dar tempo para Sétimo Ge pensar, ele continuou.
— Você disse que o velho Jiang não tinha família. Quando ele chegou à Vila da Família Ge?
— Há quatro ou cinco anos. Ele disse que fugiu de uma praga de gafanhotos no norte e se estabeleceu naquele vale na montanha ali, desmatou algumas centenas de metros quadrados de terra e construiu duas cabanas de barro. Ele costumava subir a montanha para coletar ervas e procurar minério. Gastava com bastante liberalidade[1] — respondeu o Sétimo Ge honestamente.
A Vila da Família Ge ficava a oeste da Montanha da Gruta Imortal, ao sul do Lago Celestial.
Ding Songyan refletiu por um instante.
— Onde você enterrou o velho Jiang? Talvez eu tenha deixado algo com ele. Eu estava tão atordoado na hora que não me lembro de mais nada.
— Enterrado bem ali na cova onde ele morava. — Sétimo Ge olhou para Ding Songyan. — Revistei o corpo do vlho Jiang. Nada seu.
— Sério, nada? — Ding Songyan pegou o “bloco de despertar Huangliang”. — Pense bem. É algo parecido com isto.
— Nada mesmo! — exclamou o Sétimo Ge, enfático.
Seu olhar foi atraído pelo bloco de despertar Huangliang, com sua leve qualidade onírica.
— Dê uma olhada mais de perto. Segure-o. — Ding Songyan pressionou o “bloco de despertar Huangliang” em sua mão. — Não tinha nada? Então me leve ao covil do velho Jiang e vamos dar uma olhada. Talvez ele o tenha escondido em algum canto. Guarde-o por enquanto e devolva-o quando chegarmos lá. Quem sabe, pode refrescar sua memória.
O Sétimo Ge segurou o “bloco de despertar Huangliang” e hesitou.
— Muito bem, vamos lá. Talvez o velho Jiang o tenha enterrado lá. Quando escurece, aquele buraco fica um lugar assustador.
Ding Songyan olhou para o céu.
— Ainda é meio-dia. Sem pressa.
— Saber que o velho Jiang morreu me deixa mais tranquilo. Corri para lá logo de manhã sem comer um grão de arroz sequer. Não posso pular o almoço também, né?
— Você quer algo? Vou buscar algo para comermos.
O Sétimo Ge virou o “bloco de despertar Huangliang” em suas mãos, refletindo sobre ele.
— Alguns baozi para matar a fome já bastam. A viagem de ida e volta vai demorar um pouco.
Na província de Yuejiang, os baozi ainda eram chamados de baozi. Ao contrário da província de Ning, onde era chamado de mantou, sendo os simples chamados de mantou branco e os recheados de vários tipos.
— Com certeza — concordou prontamente Ding Songyan.
A vila da família Ge ficava perto o suficiente da cidade do condado para não ter uma estalagem, mas coletores de ervas, garimpeiros e caçadores paravam ali regularmente, mantendo duas tavernas e uma barraca de baozi.
Ding Songyan aproximou-se da barraca de baozi sem placa, seus olhos carregando aquele calor oculto de luz de vela e estrela enquanto se dirigia à velha senhora lá dentro: — Vinte baozi variados. Me dê principalmente de carne.
A velha senhora de rosto enrugado tirou um saco de papel com um sorriso satisfeito e começou a colocar os baozi dentro.
Enquanto esperava, Ding Songyan puxou conversa fiada.
— Não venho à Vila da Família Ge há dois anos. Parece que há mais estranhos por aqui do que antes?
— Quem te disse isso? As mesmas pessoas de sempre — retrucou a velha.
Ding Songyan sorriu e concordou.
— Talvez seja só que eu tenha ficado muito tempo fora e minha memória esteja um pouco confusa. Você conhece o Sétimo Ge? Um amigo meu. Ele mudou bastante, está quase irreconhecível em comparação com dois anos atrás.
— Ah, isso você não saberia. — A velha senhora baixou a voz de repente e olhou em volta. “No ano passado… não, no ano retrasado… antes do inverno chegar, o Sétimo Ge começou a agir como se estivesse possuído. Gritava e esperneava todos os dias, depois ficou estúpido por um tempo. Levou meio mês para que ele voltasse ao normal. Ele está um pouco diferente desde então, mas ainda é a mesma pessoa e não se esqueceu de nada. Se alguma coisa mudou, foi que ele está mais confiável do que antes. Acho que você pode considerar isso uma coisa boa.
A sobrancelha de Ding Songyan se contraiu levemente. Ele sorriu em concordância.
— Isso parece ser uma coisa boa.
Ele deu um suspiro.
— Nos últimos dois anos, quem vem aqui é meu patrão. Às vezes é a jovem patroa. Heh, a filha mais velha dele, uma beleza rara da mais alta ordem, elegante e radiante, daquelas que não se comparam às beldades famosas da lista de ‘Belezas Inigualáveis’ do mundo marcial. Vovó, você já a viu? Estou exagerando?
A velha senhora balançou a cabeça negativamente.
— Não a vi. Rapaz, você não está deixando o amor nublar seus olhos, está?
Enquanto falava, ela entregou o saco de papel cheio de baozi para Ding Songyan.
— Sessenta e seis moedas de cobre. Sou uma pequena empresária, então não ofereço descontos.
Ding Songyan tirou várias moedas de cobre, incluindo algumas de cinco valores, de sua bolsa e as depositou lentamente sobre o longo balcão da barraca, dizendo casualmente: — E quanto ao meu patrão? Em sua juventude, ele era um jovem bonito e conhecido em toda a região. Envelheceu um pouco, mas não mudou muito na aparência…
Ding Songyan fez referência à LIsta dos Nove Infernos e descreveu a aparência do Demônio Soberano, Tan Guanchan.
Essa pergunta era mais complicada do que perguntar sobre Ji Hanyi. Afinal, a beleza era a característica mais marcante que alguém poderia ter.
A velha recolheu as moedas e sorriu.
— Se me permite dizer, você também é um jovem muito bonito.
— Ah, você nunca o viu? — Ding Songyan pegou o saco de papel e voltou pelo caminho de terra batida em direção à casa do Sétimo Ge, parando aqui e ali para trocar algumas palavras com as pessoas ao longo do caminho.
Ele já havia usado Pupilas de Estrela-Tocha no Sétimo Ge anteriormente, confirmando que o homem não era um dos de Duas Caras e não apresentava outras ilusões.
Para um artista marcial e um homem no auge da sua forma, vinte baozi os deixaram cerca de oitenta por cento satisfeitos. Sétimo Ge limpou a gordura dos lábios, pegou numa enxada e conduziu Ding Songyan para fora da aldeia, em direção à floresta.
Eles seguiram por um caminho sinuoso e, após acenderem um incenso, chegaram a uma parte isolada da Montanha da Gruta Imortal. Em seguida, continuaram a subida por uma trilha escorregadia, ainda úmida da chuva congelante, até finalmente alcançarem uma cavidade raramente visitada.
Um lago havia sido escavado na depressão. Ao lado, estendia-se uma vasta área de campos cultivados, agora áridos e silenciosos. A sensação de um inverno rigoroso estava claramente impressa em tudo.
O Sétimo Ge apontou para as duas cabanas de barro do outro lado do lago.
— O velho Jiang está enterrado atrás das cabanas. Você quer desenterrá-lo e dar uma olhada?
— Sim. — Ding Songyan apontou para as cabanas. — Deixe-me ver se há uma enxada lá dentro. Podemos trabalhar juntos e terminar mais rápido.
Enquanto falava, seu olhar percorreu os campos e depois o lago. O lugar parecia ser bem cuidado, nada parecido com um local cujo dono estivesse morto há mais de um ano.
O Sétimo Ge tossiu involuntariamente.
— Boas terras agrícolas como esta não devem ser deixadas ao abandono.
— Justo. — Ding Songyan assentiu com seriedade.
Ele contornou o lago, virou as costas para o Sétimo Ge e empurrou a porta da cabana de barro. Atrás dele, os olhos do Sétimo Ge mudaram repentinamente, assumindo uma expressão confusa e assassina.
Sétimo Ge ergueu silenciosamente a enxada, com os olhos fixos na nuca de Ding Songyan.
No espaço circundante, chamas brancas e flamejantes, com bordas vermelhas, irromperam sem som. Eram contidas, seu calor escaldante retido, mas irradiavam a terrível sensação de algo capaz de incinerar montanhas e ferver mares.
Em meio às chamas brancas que fervilhavam silenciosamente, uma vasta forma espectral se materializou. Assemelhava-se a um corvo com o bico branco, o resto indistinto.
A forma espectral se sobrepôs à do Sétimo Ge num instante. Os dois pareciam não combinar, e um suor frio brotou densamente na testa do Sétimo Ge.
Ele cerrou os dentes e brandiu a enxada com toda a força. As chamas brancas e vermelhas incandescentes irromperam sobre a enxada num instante, transformando-a num dragão de fogo.
O dragão de fogo, carregando um inferno de chamas, caiu com força na parte de trás da cabeça de Ding Songyan.
Naquele exato momento, o Ding Songyan nos olhos de Sétimo Ge desapareceu abruptamente — como se o homem nunca tivesse estado em frente à cabana e o que ele vira fosse apenas um fantasma projetado por meio de um deslocamento espacial.
BANG!
A enxada do Sétimo Ge atingiu a porta da cabana de barro, estilhaçando-a em pedaços, cada fragmento então incinerado até virar cinzas pelas chamas vermelhas intensas. O inferno de fogo que irrompeu com o dragão de fogo foi controlado a tempo, e toda a cabana de barro foi poupada de ser consumida pelas chamas.
— Então você é o velho Jiang? — A voz de Ding Songyan chegou até o Sétimo Ge vinda de um canto.
Ele não era nenhum tolo imprudente. Confiar plenamente no Sétimo Ge nunca fora uma opção. A desculpa para comprar comida fora sua chance de reunir informações sobre o homem.
Pelo que a dona da barraca de baozi e as pessoas com quem conversou pelo caminho lhe contaram, ele soube que o Sétimo Ge também entrou em frenesi e depois em estupor ao mesmo tempo em que Ding Songyan vagava atordoado, recuperando-se apenas depois de algum tempo.
Isso obrigou Ding Songyan a estabelecer certas conexões.
Sétimo Ge girou bruscamente, agarrando a enxada com as duas mãos. Ainda envolto em chamas brancas e vermelhas, ele ofegou: — Eu não sei… Eu também quero saber quem eu sou…
Seu olhar foi ficando cada vez mais perdido.
Como a questão poderia envolver renascimento com possessão corporal, Ding Songyan estava incerto se a canalização espiritual produziria resultados úteis.
— Em vez de agir precipitadamente — disse ele amigavelmente. — Lutar não resolverá nada. Que tal sentarmos e conversarmos?
A partir das anomalias do vazio ao redor de “Sétimo Ge”, Ding Songyan julgou que seu oponente possuía poder do Reino Dharma, mas “Sétimo Ge” parecia estar sob alguma restrição, sua habilidade marcial separada do resto de si por uma sensação de desconexão.
— Não. — Sétimo Ge fixou os olhos em Ding Songyan e ofegou como um animal encurralado. — Quando você percebeu que havia algo de errado comigo?
Ding Songyan já havia desembainhado a Sombra do Gelo. Ele sorriu agradavelmente.
— Quando você disse que ouviu o velho Jiang planejando trocar de corpo e ter um corpo jovem.
— Renascer tomando posse de um corpo exige um poder tremendo. O que leva um fazendeiro comum a pensar que poderia espionar alguém assim sem ser detectado ou punido?
— Tudo o que me lembro é que aconteceu… Não sei se sou o velho Jiang ou outra pessoa… — Sétimo Ge encarou o rosto de Ding Songyan, seu sorriso se tornando distorcido e sinistro. — Tudo o que sei é que, se eu te matar, voltarei a ser inteiro. Recuperarei tudo o que perdi!
Ding Songyan deu uma risadinha.
— Quem te disse isso? Como alguém que sofre da Síndrome da Perda da Alma saberia como se curar?
A expressão de Sétimo Ge tornou-se subitamente solene.
— Minha própria alma me disse.
Antes mesmo de terminar de falar, ele deu um passo à frente e empunhou a enxada — que carregava um mar de fogo — em direção a Ding Songyan.
Notas
- Liberalidade é a qualidade ou a ação de quem é generoso. Significa dar, doar ou fazer algo de forma voluntária e gratuita, sem ter uma obrigação legal ou esperar nada em troca. [1]