Tradutor: miggigibe
Três dias haviam se passado desde que conseguiram o Anel do Arrogante e começaram os preparativos para partir rumo ao norte. Quando os cavaleiros e soldados terminaram de se preparar, a força expedicionária já havia partido para o norte.
Não muito depois da partida…
— Deus Macallian.
Uma mulher se aproximou de Deus. Tinha longos cabelos azuis e uma cicatriz vertical atravessando o rosto. Era Fiola, uma das Cavaleiras-Mestras de Caliban, conhecida como Quarta Espada.
— Você levantou a mão contra meu discípulo — disse Fiola, com uma expressão fria e uma fúria mal contida nos olhos.
Com a mesma indiferença de sempre, Deus respondeu:
— Seu discípulo foi grosseiro com meu benfeitor.
— Ha! E isso lhe dá o direito de espancar o discípulo dos outros até ele perder os sentidos?
— Acha que não?
Fiola franziu a testa diante da resposta. A raiva estava estampada em seu rosto, e a energia intensa que emanava dela tomou o ar, fazendo os cavaleiros ao redor suarem frio. Deus, porém, suportou de frente toda aquela pressão sem demonstrar o menor abalo.
— Você teve sorte de eu não o ter matado, Fiola.
A aura de Deus se tornou ainda mais ameaçadora. Uma energia púrpura aterrorizante irrompeu dele e pressionou Fiola. A tensão entre os dois ficou tão pesada que parecia que uma luta de espadas começaria no instante em que alguém sacasse a arma.
Depois de alguns segundos de silêncio…
— Tsc.
Fiola foi a primeira a se afastar. Estalando a língua, lançou um olhar para o conde Palatio, que estava atrás de Deus.
— Não pense que vou deixar isso passar.
Então voltou para junto do batalhão que descansava.
Sozinho, Alon observou Fiola se afastar.
'Assustador.'
As mãos formigavam enquanto ele abria e fechava os punhos sem perceber.
'Então é isso que significa ser um Cavaleiro-Mestre.'
Só a força que Fiola havia liberado sem querer já o deixara sem fôlego. Nesse momento, Evan, que estava por perto, murmurou em choque:
— Isso é loucura… ela é um monstro de verdade.
Alon voltou os olhos para Deus. Apesar de toda a energia esmagadora que Fiola havia direcionado contra ele, Deus não demonstrara o menor desconforto. Aquilo fez Alon se lembrar mais uma vez de que Deus também era um Cavaleiro-Mestre.
Não era como se ele tivesse esquecido. Só que, ultimamente, Deus vinha sendo tão respeitoso com ele que ver aquele outro lado servia como um lembrete.
'Para falar a verdade, ele é meio grosso com todo mundo, menos comigo.'
Alon se lembrou dos rumores sobre Deus que ouvira alguns dias antes e também da vez em que ele perdera a paciência com Evan e dissera: "Cala a boca, velho."
'Mandar salvar a irmã dele realmente foi a decisão certa.'
No começo, Alon não entendia por que Deus era tão obediente a ele, mas agora as coisas começavam a ficar claras. Na verdade, nem precisava mais adivinhar. Bastava ver como Deus agia perto da irmã.
'Talvez, no futuro, se eu pedir ajuda enquanto estiver administrando meu território, ele venha correndo me salvar.'
Alon sorriu diante da ideia, embora soubesse, no fundo, que Deus não iria tão longe. Deu de ombros, voltou para a carruagem e a expedição continuou rumo ao norte.
Duas semanas e três dias depois…
A força expedicionária cruzou a fronteira entre Caliban e o norte e chegou à primeira base avançada. Lá, recebeu três notícias.
A primeira era a morte de Delman, a Terceira Espada, que havia desaparecido depois que chegaram notícias de que a base avançada oriental de Caliban caíra e o inimigo havia surgido.
A segunda era que Kiriana, a Segunda Espada, que liderava uma expedição de vanguarda rumo à base avançada ocidental, sofrera ferimentos graves em combate contra o inimigo.
E a última notícia era…
— Mortos-vivos, você disse?
O mensageiro informou que o inimigo se aproximava da base avançada à frente de um exército de mortos-vivos.
— Sim. O inimigo está reanimando soldados e cavaleiros caídos, transformando-os em mortos-vivos e avançando com eles.
Ao ouvir o relatório, Fiola soltou um suspiro profundo e murmurou:
— Isso é preocupante.
Ao ouvir a mesma notícia, Deus permaneceu em silêncio. Se o mensageiro estivesse dizendo a verdade, a situação era claramente desfavorável para Caliban.
O clima na sala de reunião era tenso. Até os Cavaleiros-Mestres e os nobres que comandavam as tropas hesitavam em falar. Por fim, um dos nobres sugeriu com cautela:
— Talvez devêssemos recuar?
A simples sugestão desencadeou uma enxurrada de opiniões.
— Está falando sério? Quer que a gente dê as costas e fuja dos bárbaros?
— Não foi isso que eu quis dizer! Estou dizendo que deveríamos esperar uma oportunidade melhor. Nossa situação já é ruim, a Segunda Espada está gravemente ferida e Reinhardt ainda nem voltou de seu retiro. Acha mesmo que temos alguma chance?
— A esta altura, acha que os feridos sequer conseguiriam fugir com os bárbaros avançando sobre a base?
A sala rapidamente mergulhou no caos, mas, no fim, as opiniões dos nobres não tinham tanto peso. A verdadeira liderança da expedição cabia aos dois Cavaleiros-Mestres. Por fim, os nobres voltaram os olhos para Fiola e Deus em busca de uma decisão.
— Vamos pensar melhor. Convocarei outra reunião mais tarde. Por enquanto, descansem e organizem as ideias — disse Fiola, levantando-se.
Deus também se levantou em silêncio e saiu da tenda.
Do lado de fora, a terra continuava do mesmo cinza opaco de sempre. Para Deus, porém, que havia alcançado certo patamar como Cavaleiro-Mestre, o mundo parecia completamente diferente.
Os campos nevados vermelhos.
Aos olhos de Deus, a terra cinzenta se transformava num mundo carmesim, impregnado de uma energia sinistra e inquietante. O céu, tomado por aquela mana vermelha e ameaçadora, era belo e aterrorizante ao mesmo tempo, uma visão capaz de fazer até alguém tão forte quanto Deus se sentir ligeiramente intimidado.
Ele observou aquele mundo estranho em silêncio. Depois de lançar um olhar para Fiola, que provavelmente enxergava a mesma coisa, Deus desviou a atenção.
Ali estava Alon, a Grande Lua.
Mesmo diante daquele mundo aterrorizante, Alon não demonstrava medo nem assombro. Pelo contrário, estava sentado tranquilamente junto ao fogo, comendo uma batata-doce com o rosto inexpressivo. Deus mal conseguia desviar os olhos do céu carmesim, mas Alon não havia olhado uma única vez para a paisagem ameaçadora.
Ele apenas murmurava enquanto comia:
— Difração, compressão, ponto focal, aniquilação.
A Grande Lua murmurava palavras incompreensíveis como se já tivesse visto aquele mundo inúmeras vezes. Deus não fazia ideia do que significavam.
Ao observá-lo, sentiu crescer a curiosidade sobre o motivo de Alon estar no norte.
É claro que Deus imaginava, em linhas gerais, que a Grande Lua viera para lidar com o inimigo, mas isso não respondia a todas as suas dúvidas. Afinal, da perspectiva de Deus, Alon não parecia particularmente poderoso, nem agora nem no passado.
'Talvez ele só não consiga ver o que eu estou vendo…'
Deus voltou a olhar para o céu vermelho.
Aquela era uma visão que somente quem havia alcançado certo nível de compreensão conseguia enxergar. A paisagem sinistra bastava para fazê-lo franzir a testa por instinto.
Mas e se fosse simplesmente porque a Grande Lua não conseguia enxergar aquilo? Nesse caso, o comportamento de Alon faria um pouco mais de sentido.
Enquanto Deus pensava nisso…
— Argh, sério, me deixem em paz!
Uma voz alta e aguda chamou sua atenção de repente. Quando se virou na direção do som, viu um cavaleiro frente a frente com uma maga.
— Por favor, ajude-nos só mais um pouco! Você sabe como a situação está grave! — implorou o cavaleiro.
— Eu sei! Mas, por mais que eu tente, não posso fazer mais nada! Eu preciso ir embora!
— Mesmo assim, só mais uma vez…!
— Não! Já disse que é impossível, seus idiotas!
A maga gritava, histérica, enquanto os cavaleiros continuavam insistindo. Deus reconheceu facilmente o grupo pelas armaduras. Eram membros da Sombra Prateada, a ordem de cavaleiros que servia Kiriana, a Segunda Espada de Caliban.
Do outro lado estava Penia, vice-mestra da Torre Azul.
— Argh, me arrastaram até aqui para fazer pesquisa quando eu já tenho tanto trabalho! Por que não me deixam em paz?! — reclamou Penia.
— Mas salvar vidas não deveria vir primeiro…? — insistiu o cavaleiro.
— Eu já disse que fiz tudo o que podia! Não há mais nada que eu possa fazer! Não estou me recusando por preguiça. Eu já fiz tudo o que estava ao meu alcance!
Ao ver o chilique de Penia, a jovem prodígio do mundo da magia que havia alcançado o 6º ranque ainda muito nova, Deus ficou confuso por um instante, mas logo entendeu o que estava acontecendo.
Lembrou-se de que a base avançada de Caliban vinha trabalhando em conjunto com magos da Torre Azul para pesquisar os "rituais" dos bárbaros.
'Então é a vice-mestra da Torre… Ela é forte.'
Deus percebeu a energia extraordinária que emanava dela.
Enquanto Penia continuava afastando os cavaleiros, irritada, notou Deus parado à sua frente. Ela franziu a testa e estava prestes a falar.
— O que você está—
Mas congelou antes de terminar a frase.
…?
Deus ergueu uma sobrancelha, confuso com o silêncio repentino. Então percebeu que Penia não estava olhando para ele, e sim para alguém atrás dele.
— P-por quê…?
A voz trêmula de Penia cortou o clima tenso. Seus olhos estavam tomados de terror, como se ela tivesse visto algo que não deveria existir. Seu corpo tremia levemente, e Deus acompanhou o olhar dela por instinto.
Ali estava Alon, que poucos instantes antes comia tranquilamente uma batata-doce. Agora, encarava Deus e Penia com uma expressão confusa.
Um breve momento se passou.
Então…
— Faz tempo que não nos vemos, vice-mestra da Torre — cumprimentou Alon com calma.
— S-sim, olá…!
Penia gaguejou e, de repente, passou a agir como uma gatinha assustada. Manteve a cabeça baixa, sem qualquer vestígio da histeria de antes.
— Como tem passado? — perguntou Alon.
— E-eu estou bem…!
Ao ver Penia, que até então considerava uma figura poderosa, agora acuada como uma gata de rua, Deus não conseguiu evitar a perplexidade.
'Será que eu simplesmente não sabia de nada esse tempo todo?'
Deus ficou em silêncio, repensando tudo o que julgava saber sobre aquela situação.