Todos aqueles reunidos na sala de chá eram pessoas excepcionalmente importantes.
Emilia: “Ainda assim, é surpreendente saber que o Reinhard e o Wilhelm são parentes. Não é surpresa que ambos sejam espadachim habilidosos.”
Subaru: “É normal que a gente não soubesse, não tinha porquê saber. Se famílias fossem baseadas só em aparências elas seriam grandes demais, Emilia-tan.”
O piso de madeira sob a longa mesa estava coberto de zabutons, como uma sala de estar japonesa tradicional. Emilia e Subaru estavam sentados um ao lado do outro, conversando em voz baixa. Não estavam discutindo nada muito significativo, era apenas para se acalmarem.
Beatrice: “Betty já está de guarda e não vai deixar que ninguém tente fazer nada de esquisito. Subaru já pode parar de encarar todo mundo com cara de desconfiado, eu suponho.”
Subaru: “Você sabe que eu já nasci com esse olhar, não tô encarando ninguém com cara de desconfiado. Outra, eu sei como que é ser encarado por um olhar frio.”
Beatrice, vigilante, estava sentada perto de Emilia. Emilia sentou-se com suas pernas dobradas sob ela, Subaru com suas pernas cruzadas e Beatrice em posição Seiza. Era uma posição que ela havia feito por Subaru, embora vacilasse de vez em quando.
Subaru: “De qualquer forma, Garfiel tá aqui se algo de ruim acontecer. Além do mais, ninguém aqui ia fazer uma coisa tão imprudente assim.”
Subaru desviou o olhar de Beatrice, cujos joelhos estavam tremendo, para um dos cantos do recinto, onde Garfiel estava sentado. Ele percebeu Subaru e tentou acenar para ele, mas sua mão estava ocupada demais sendo agarrada por Mimi.
Naquele exato momento, várias figuras importantes para a Seleção Real estavam reunidas em torno da mesa, enquanto os outros vigiavam a situação dos cantos. Em outras palavras, Garfiel e Mimi estavam sentados juntos. Hetaro e Tivey também estavam presentes, encarando Garfiel como se querendo dar um tiro nele.
Joshua também estava sentado na sala de chá, parecendo altamente desconfortável.
Reinhard: “Agradeço muito pela hospitalidade. Felt-sama pode estar um pouco atrasada já que está passeando por Pristella, mas deve chegar em breve.”
Anastasia: “Não precisa ser tão formal, afinal de contas, você aceitou meu convite assim com tão pouco tempo de aviso prévio. Oh, mas é uma estranha coincidência que vocês todos chegaram com tão pouco tempo de diferença.”
Anastasia respondeu amigavelmente Reinhard, que sempre prestava atenção em seus modos. Ele ergueu sua cabeça e virou-se para Julius, que estava ao lado de Anastasia.
Reinhard: “Há quanto tempo, Julius. Última vez que nos vimos cara a cara foi na Câmara de Comércio.”
Julius: “Ah, correto. Desculpe por pedir assim em cima da hora que todos viessem. No entanto, me acalma saber que estão todos seguros.”
Após cumprimentar seu amigo, Reinhard retornou ao seu lugar. Se a ordem de precedência da mesa refletisse as posições das facções, então Reinhard estaria sentado no último assento. Sentada no assento principal estava a anfitriã, Anastasia. Ao lado de Anastasia estava Emilia e sua chapa. De frente para Emilia estava sentado Reinhard, representando a chapa de Felt.
De frente para Anastasia estava…
???: “Parece que já faz tanto tempo desde que todos nós nos reunimos assim.”
A pessoa que disse isso tinha um sorriso nobre estampado no resto, era uma linda mulher de cabelos esverdeados.
Olhos cor de âmbar que pareciam conter o conceito de harmonia em si, envolta em um vestido azul-marinho feminino e dando um ar de nobreza. Se bem que, caso soubesse como ela era antes, seria difícil vê-la como sendo a mesma pessoa.
Emilia: “Realmente, não nos vemos já faz um tempo, Crusch-sama. Você parece estar indo bem.”
Crusch: “Sim, tem razão. Eu causei muitos problemas a vocês, então ofereço-lhes meus agradecimentos. Também ouvi falar de algumas de suas conquistas. Quando recebi as notícias, cheguei a pensar que eram coisas que apenas vocês podiam fazer.”
Crusch respondeu Emilia com um tom de voz gentil. Parece que seu eu decidido de antigamente se foi junto com suas memórias, as quais ela ainda não recuperou. Ela não era mais um político corajoso e astuto, apenas uma simples e linda mulher aristocrata.
Ferris: “Sinceramente, ouvir as pessoas falarem de você daquele jeito foi surpreendente. Tendo erradicado o Grande Coelho e se tornado um espiritualista, quem esperaria isso do Subaru-kyun?”
Ao lado de Crusch estava um jovem feminino com orelhas de gato e um jeito brincalhão. Era Ferris, tanto o cavaleiro de Crusch quanto o melhor usuário de magia de cura de Lugnica.
Ao contrário de sua mestra extremamente diferente, Ferris não mudou nem um pouco. Era tranquilizador, porém, ao mesmo tempo, ele continuava difícil de entender.
Subaru: “Bem, me tornar alguém em quem as pessoas confiam sempre foi uma das maiores metas da minha vida. Quanto ao meu contrato com a Beako, bem, provavelmente te irrita, mas minha vida estava em perigo e não tinha outra opção.”
Ferris: “Mesmo depois que eu te dei um aviso solene? Uma hora Subaru-kyun vai desmoronar de tanto usar seu portal. Sem a Beatrice-chan ele já teria estourado, então tome cuidado.”
Subaru: “Eu sei. E não existe mais ninguém capaz de deixar a Beako feliz assim.”
Embora os dois falassem em um tom de voz mais relaxado, o aviso de Ferris era um conselho sério e genuíno, então Subaru respondeu com uma atitude igualmente séria. Ao seu lado, uma Beatrice de rosto corado estava cutucando seu ombro sem parar, ele considerava isso uma espécie de mensalidade.
Subaru: “Ainda assim… Eu não esperava que Crusch-san e sua chapa também seriam convidadas. Eu já tava surpreso em encontrar o Reinhard lá fora, daqui a pouco vou começar a sangrar pelo nariz de tanta surpresa.”
Ferris: “Argh. Isso seria dramático demais. Se bem que é uma bela de uma surpresa que todos nós chegamos no mesmo dia.”
Wilhelm: “Já que nenhuma data e hora haviam sido estabelecidas, chegamos juntos por conta de estimativas. —É raro nós todos termos uma chance de nos reunirmos assim, esta é nossa boa sorte.”
Este era o último membro da chapa de Crusch. Sentado ao lado de Crusch estava Ferris, em uma pose feminina. Ao seu lado estava o velho espadachim Wilhelm, tomando seu chá. Ele estava com a mesma roupa de mordomo de sempre, mas ela combinava bem com ele naquele momento.
Devido ao jeito que os assentos foram preparados, Reinhard e Wilhelm acabaram sentados lado a lado. No entanto, qualquer um que soubesse o passado dos dois se sentiria apreensivo.
Subaru: “Eles nem olharam nos olhos um do outro ainda…”
Subaru sussurrou esta observação para Emilia, que concordou silenciosamente.
Wilhelm e Reinhard eram parentes diretos, vô e neto, mas, fora no momento em que se encontraram, eles não disseram uma palavra sequer um ao outro.
O recinto estava dominado pelo silêncio, e Subaru aproveitou-se desse tempo para pensar sobre a situação. Os membros da chapa de Emilia, seja por causa de suas atitudes, índoles ou por imaturidade, não são nada habilidosos quando se trata de ler o clima.
Também era difícil de esquecer como Joshua, que havia sido convocado uma hora, assim que retornou, soltou um “Waa” assustado quando viu a situação.
Família Astrea. Um nome tão conhecido que até mesmo Subaru sabia um pouco de seu passado. Santo da Espada é um título repassado de geração em geração, e, ser uma linhagem deles significava que a família Astrea provavelmente tinha o melhor histórico de habilidade de combate por toda Lugnica.
A obsessão de Wilhelm com a Baleia Branca obviamente veio por conta da derrota de sua esposa, a Santa da Espada passada. Conectar estes fatos levava à uma pergunta.
—Por que Wilhelm escolheu se aliar à chapa de Crusch ao invés de usar o poder dos Astreas?
Indo mais a fundo, por que Reinhard não participou na batalha contra a Baleia Branca?
Wilhelm disse que começou a perseguir a Baleia Branca há cerca de 14 anos atrás. Se a Seleção Real estivesse ocorrendo, então Wilhelm não poderia cooperar com Reinhard por serem de chapas concorrentes. Faria sentido.
No entanto, quando Wilhelm começou sua caçada pela baleia, a Família Astrea não tinha relação alguma com a Seleção Real. Claro, daí Reinhard ainda seria considerado uma criança e não teria a habilidade necessária para derrotar a Baleia Branca. Mas, considerando seu avanço, por que Reinhard nunca buscou ir atrás da baleia?
Sejam os sentimentos de Wilhelm ou os pensamentos de Reinhard, isso Subaru não compreendia.
—Se eles estivessem dispostos a discutir sobre o assunto, ele adoraria ouvir.
No entanto, perguntar diretamente seria como colocar o dedo na ferida e ainda por cima esfregar sal na cicatriz.
E, embora Natsuki Subaru seja bem curioso, ele cresceu um bocado neste último ano. Ele veio a entender que se ele insistisse no assunto, iriam achá-lo irritante.
Então tudo o que ele podia fazer era esperar que outra pessoa tocasse no assunto.
Emilia: “A propósito, Anastasia-san, por que você reuniu todo mundo aqui? Eu acho que você tem algo em mente… certo?”
Sem perceber a preocupação de Subaru, Emilia direcionou uma pergunta à Anastasia, que inclinou a cabeça com um sorriso.
Anastasia: “É claro, tem algo que gostaria de discutir com cada um de vocês, mas, para responder a pergunta da Emilia-san, demorei bastante para pensar em algo que os atrairia.”
Emilia: “Nós viemos por causa das pedras mágicas, mas e os outros?”
Anastasia: “Todo mundo tem coisas as quais deseja ou precisa. Usando apenas isso para reunir a todo seria bem simples… mas há certos grupos misteriosos cujas coisas que desejam são desconhecidas.”
Emilia: “Eu não entendo…?”
Emilia franziu as sobrancelhas e cruzou seus braços enquanto pensava no tópico, sem bem que o problema não era dos mais difíceis. Era só observar quem estava ausente que você descobriria na hora qual chapa não foi comunicativa.
Emilia: “Priscilla-sama e Al-dono não foram convidados?”
Anastasia: “Esses dois já estão completamente focados em trilhar seus próprios caminhos e eu não saberia nem por onde começar a procurar o que desejam. Sinceramente, até mesmo Felt-san trata terras e dinheiro como coisas irrelevantes”
Reinhard: “Quanto a isso, Felt-sama se voluntariou a participar. Com isso dito, eu queria que ela desse mais atenção a assuntos assim.”
Anastasia e Reinhard comentaram de forma clara e expressaram a mesma opinião. Ao ouvir o que disseram, Emilia, que podia apenas concordar, levantou a mão.
Emilia: ”Eu gostaria também de saber mais sobre como todo mundo está. Embora eu trabalhei duro para aprender, a posição de todo mundo é abstrusa.”
Subaru: “Quem é que fala “abstrusa” hoje em dia…”
Emilia: “Humpf, Subaru, seu malvado.”
Emilia bufou e beliscou o ombro direito de Subaru. Enquanto o outro ombro estava até agora sendo cutucado por Beatrice, seja uma recompensa ou uma punição.
De qualquer forma, as posições das chapas de Priscilla e Felt estavam claras. O que restava era saber o motivo, ou talvez fraqueza, que trouxe Crusch para cá.
Crusch: “Quanto à razão por trás de nossa vinda a Pristella, foi porque Anastasia-sama parece ter informações relacionadas à Gula.”
Subaru: “———”
Crusch, como se estivesse lendo a mente de Subaru, disse isso.
Suas palavras atingiram Subaru igual uma bala, era algo que ele não podia ignorar. Enquanto isso, Anastasia acariciava seu cachecol com um sorriso no rosto.
Anastasia: “Eu não estava escondendo nada de Natsuki-kun, é só uma questão de prioridades. Sob essas circunstâncias, resolver o problema da Crusch vem primeiro. Não concorda?”
Subaru: “Gah, gr… cal-, mer-. T-Tudo bem, tudo bem.”
Julius: “Vejo que amadureceu um pouco.”
Subaru: “Cala a boca! Já tô por um fio com vocês.”
No mundo dos negócios, vender para quem dá mais é a base das decisões.
Subaru conseguiu controlar sua fúria frente a explicação de Anastasia, o que era uma coisa boa, já que Julius já estava começando a parecer apreensivo.
Subaru: “Quem vocês acham que são, meus pais? Falando nisso, meu pai conseguiria me dar uma surra dez vezes melhor que qualquer surra sua!”
Ferris: “Eh… Ferri-chan está assustado…”
Subaru: “Não fique abalado tão fácil assim. Por acaso você tem medo da sua própria família!?”
Subaru gritou com Ferris, que havia se aninhado em Crusch, mas não era uma briga de verdade, ele só estava brincando. Quanto ao que ele disse sobre seu pai, Kenichi, aquilo era definitivamente verdade.
Os motivos de Anastasia eram aceitáveis. No entanto, seria completamente diferente se essa informação fosse dada apenas para Crusch. Informações sobre a Gula eram cruciais para trazer de volta Rem, que ainda estava dormindo na mansão.
Mesmo que tivesse aceitado seus motivos, ele não seria persuadido tão facilmente.
Anastasia: “Mesmo que esteja fazendo uma cara tão assustadora assim, você ficará mais calmo quando ouvir toda a história.”
Subaru: “Então… é verdade?”
Anastasia: “Não é uma mentira, e tenho certeza de que a chapa da Crusch não planeja manter a informação apenas para eles.”
Subaru virou-se para Crusch, que parecia estar com dificuldades em manter a compostura.
Crusch: “É natural. Claro, para poder recuperar minha memória, preciso de informações sobre a Gula. No entanto, sei que Subaru também está determinado a derrotar a Gula pelo bem daquela mulher. Não desejo sobre quaisquer circunstâncias monopolizar a informação.”
Subaru: “Crusch-san…”
Crusch: “Além do mais, quanto mais companheiros com um objetivo em comum eu encontrar, melhor. Quanto mais pessoas trabalharem contra pecadores como o Culto da Bruxa, mais provável que sairemos vitoriosos.”
Crusch, que falava com um tom de voz calmo, trouxe paz de espírito a Subaru.
Seu verdadeiro desejo era, definitivamente, recuperar suas memórias e melhorar suas falhas. Mas isso não a impedia de demonstrar boa vontade a Subaru.
Tendo uma índole honorável que não havia sido nem um pouco ofuscada pela sua amnésia, essa era a mulher conhecida como Crusch Karsten.
Subaru: “Estou honrado. Obrigado, Crusch-san. Vou valorizar a oportunidade que você me concedeu. Definitivamente.”
Crusch: “Com isso fora do caminho, a informação é nossa prioridade. Isso não concederemos.”
Em resposta à determinação de Subaru, Crusch endireitou a coluna e foi de encontro com seu olhar.
Claro, eles compartilhavam de uma ardente competição. Mas seu sorriso benevolente não combinava com a situação, fazendo os dois rirem juntos.
Aquele que os interrompeu foi o cavaleiro de Crusch.
Ferris: “Miau. Ver o Subaru e a Crusch-sama desse jeito é irritante, parem com isso. Subaru é um homem tão ganancioso. As duas garotas ao seu lado já não são o bastante? É sério.”
Crusch: “Ferris, isso não foi uma coisa muita legal de dizer. Subaru não é alguém que se deixa levar facilmente por tentações como essa.”
Subaru: “É, não diga isso. Claro, Crusch-san é linda e muito fofa mas eu tenho um coração fiel… se bem que ele tá dividido em dois agora, mas—aiaiaiaiai!?”
Beatrice: “Pelo visto não é um coração tão fiel assim. Você deveria ficar quieto e refletir no que acabou de dizer, eu suponho.”
Subaru, que estava tentando concordar com Crusch, teve sua orelha puxada com força por Beatrice. Ele tentou reclamar, seus olhos lacrimejando, mas, antes que pudesse, percebeu que ela estava apontando para Crusch.
Seguindo para onde apontava o dedo de Beatrice, Subaru percebeu que o rosto de Crusch estava corando levemente. Parando para pensar, o que ele havia dito de estranho?
Subaru: “Ah, não, Emilia-tan, por acaso eu disse algo estranho?”
Emilia: “Hã? Hmm, não tenho certeza. Subaru, você só falou do mesmo jeito que normalmente fala comigo…”
Subaru: “Isso mesmo. Então o que eu faço? Segurar a mão da Emilia-tan me faz pensar melhor, posso?”
Emilia: “Sim, sim. Tente seu melhor.”
Subaru colocou em sua testa a mão com a qual segurava a mão de Emilia, com uma expressão triste. Enquanto isso, Ferris se aproveitou para sussurrar algo a Crusch.
Ferris: “Viu, é assim. Subaru-kyun sem perceber acaba sendo amigável demais com todo mundo que encontra e sempre tenta se fazer de legal. É como se ele tivesse um problema mental. Não ligue para isso.”
Crusch: “Sim, terei isso em mente. Ha, fiquei um pouco surpresa.”
Crusch colocou uma mão no peito e soltou um suspiro de alívio.
Subaru achou esta atitude feminina incrivelmente fofa. Crusch e Ferris, não cientes de seus pensamentos, deram as mãos como se estivessem fazendo uma promessa um ao outro. Qualquer um que se deparasse com esse ato iriam achar que eles eram namoradas.
Agora todos haviam revelado seus motivos por trás da ida a Pristella.
???: “Ehh, já tá todo mundo aqui. Me disseram que só ia ter a mulher de Kararagi”
Era uma linda e ágil garota loira com olhos avermelhados e um sorriso torto. Seu pequeno rosto estava repleto de charme malicioso e seu físico magro mas ágil parecia levemente mais feminino. Assim como antes, ela estava vestida com um traje focado em melhor facilidade de movimento, deixando seu umbigo e pernas expostas.
Felt: “Que foi? Surpresos que ainda sou desse jeito? Só se passou um ano, você sabe.”
Reinhard: “Felt-sama.”
Todos encolheram seus ombros ao vê-la, e Felt percebeu o descontentamento deles. Reinhard, no entanto, levantou-se para dar as boas-vindas à sua mestra que se aproximava.
Reinhard: “Tinha certeza de que deixei uma muda de roupas na carruagem de dragão, o que aconteceu?”
Felt: “Bah! Eu queria dar uma olhada por aí em algo confortável. Dizendo isso, você queria que eu tivesse me trocado no hotel, mas quem usaria algo que pinica tanto daquele jeito? Você já devia saber mais sobre mim!”
Reinhard: “Isso é bem a sua cara…”
Reinhard colocou uma mão na testa e disse isso em um tom de voz desamparado. Felt, que estava arrastando o mais forte herói do país por aí como se fosse um brinquedo, parecia feliz ao entrar no recinto.
Felt: “Certo, aqui estou eu. —Estou grata pela hospitalidade de vocês hoje e espero que nossas discussões vão bem. Pronto, cabou os cumprimentos.”
Por um momento, Felt se parecia com a filha de um nobre. Ela deu um sorriso levado e fez uma reverência sem saia, imediatamente voltando ao seu jeito antigo logo em seguida.
Subaru estava um pouco autoconsciente de sua desavença com a comunidade aristocrata, mas a atitude de Felt para com eles parece ter piorado notavelmente neste último ano.
Felt: “Cara, esse é um prédio bizarro. Nunca vi um desse jeito antes, então eu fiquei curiosa e explorei um pouco mais antes de vir aqui.”
Felt sentou-se no zabuton antes ocupado por Reinhard, que pegou outro e solenemente sentou-se ao seu lado.
Coincidentemente, Felt agora estava ao lado de Wilhelm, separando vô e neto.
Emilia: “Bem, há quanto tempo, Felt-chan. Como vai a vida?”
Felt: “É estranho quando alguém coloca “-chan” no meu nome. De qualquer forma, tá indo bem. Você, irmã, anda… fazendo um monte de coisa pra lá e pra cá, não? Ouvi vários boatos de coisas bem assustadoras.” (Felt chama a Emilia de Nee-chan)
Emilia: “O Subaru que anda assim, não eu. Quanto a mim, eu só fui sortuda o suficiente para ser salva pelo trabalho duro do Subaru.”
Felt: “Ah! Isso mesmo!”
Ao ouvir a resposta de Emilia, Felt levantou-se batendo uma mão contra a outra, seus olhos focados em Subaru.
Felt: “Eu ouvi um monte de boatos ridículos sobre você, irmão. Só pra saber, quantos desses boatos são de verdade mesmo?” (Ela chama o Subaru de Nii-chan)
Subaru: “Parece que você já decidiu que eram tudo mentira antes mesmo de me perguntar. O tanto de fé que você tem em mim é decepcionante.”
Felt: “Porque eles são tão selvagens! Eu ouvi falar que você sozinho cortou a Baleia Branca ao meio, que você esmagou o crânio de um Arcebispo do Pecado com as próprias mãos, e até mesmo o Grande Coelho foi tostado e comi—”
Subaru: “Eu tive envolvimento nisso tudo, mas os boatos ficaram umas 100 vezes mais exagerados!”
Se Subaru realmente tivesse feito tudo o que os boatos diziam, então ele seria nomeado o herói do reino e provavelmente até mesmo coroado. Com tal autoridade, ele faria de Emilia a rainha e reinariam juntos.
Julius & Wilhelm: “—Heh.”
A reação de Subaru fez com que aqueles assistindo rissem um pouco. O riso veio de duas pessoas em lados opostos da sala, Julius e Wilhelm.
Os dois, que pareciam estar envergonhados por causa de suas reações involuntárias, viram um ao outro e relaxaram ao ver que alguém havia reagido de forma parecida. Felt, cujos olhos estavam confusos indo de lá para cá, perguntou…
Felt: “Por que o velho e o cavaleiro riram? Eu disse algo esquisito?”
Subaru: “Tudo que você disse era esquisito! Você me deu crédito demais. Se eu tivesse feito tudo aquilo eu merecia é um Nobel da Paz!”
Embora Subaru não tenha entendido completamente o que ganhou, ele sabia que era um símbolo de honra. Quando recebeu a medalha, ele não havia compreendido totalmente seu valor, seja material ou simbólico, então ele pessoalmente nunca sentiu o mérito que vinha com a medalha.
Na verdade, a medalha que ele recebeu era um tanto valiosa no reino.
Wilhelm: “Subaru-dono foi indispensável na batalha contra a Baleia Branca. Se ele não estivesse lá, não tenho dúvidas de que não sairia de lá com vida. Parece exagero, mas é a verdade.”
Julius: “O mesmo vale para a batalha contra o Culto da Bruxa. Foi ele quem pensou nas táticas usadas contra o Culto. Se ele não estivesse lá, não teríamos conseguido derrotar o Arcebispo do Pecado.”
Subaru: “———”
A quantidade de fé que Wilhelm e Julius tinham nele era esmagadora.
Esse apoio direto deles deixou Subaru sem palavras. A atmosfera animada fez com que todo o seu corpo queimasse com vergonha. Seu rosto estava corado de orelha a orelha, era como se sangue estivesse pronto para voar de seus olhos a qualquer momento.
Subaru: “N-Não, para com isso! Não me elogia tanto! Quanto mais vocês me colocam num pedestal mais eu me deixo levar, vocês já não sabem disso!?”
Julius: “Não, nem um pouco. Embora seja verdade que você se fez de bobo no começo da Seleção Real, você foi provando seu valor pouco a pouco. Você já fez mais que o suficiente para compensar aquela vergonha. Você definitivamente merece os elogios.”
Wilhelm: “Não há porquê ser humilde. Você ajudou a realizar grandes feitos. Tais sucessos não seriam possíveis caso não estivesse presente. Carregarei por toda a minha vida o orgulho de ter lutado ao seu lado.”
Subaru: “—Ah, err.”
Até agora, Subaru havia morrido de várias formas dolorosas e brutais.
No entanto, esta seria a mais aterrorizante. Fuzilado por elogios.
Subaru, a beira da morte por vergonha, olhou para Emilia e Beatrice, implorando por ajuda. Mas elas responderam com simples sorrisos doces.
Emilia: “Isso mesmo. Subaru trabalhou tãããão duro. Estou sinceramente orgulhosa de tê-lo como meu cavaleiro.”
Beatrice: “B-Bem, já que ele é o companheiro da Betty, é natural ele ser tão bem sucedido. Ele só vai ficar mais e mais incrível, eu suponho. Então é uma boa ideia nos acostumarmos a elogiá-lo!”
A situação se desenrolou de um jeito completamente inesperado, Subaru estava em pânico. Então, começaram a bajulá-lo um depois do outro.
Reinhard: “Incrível, Subaru. Todos te elogiam por fazer algo incrível, algo que ninguém mais poderia ter feito. Estou feliz por poder chamá-lo de amigo.”
Crusch: “Eu teria perdido tantos homens leais se não fosse pela contribuição de Subaru-sama, até mesmo Wilhelm, que está me apoiando até os dias de hoje. Permita-me agradecê-lo mais uma vez.”
Ferris: “Mesmo não tendo talento para combate, você não vacilou nenhuma vez durante a batalha contra a Baleia Branca. Foi o que permitiu que Crusch-sama fizesse aquele discurso que virou o jogo a nosso favor, muito obrigado.”
Anastasia: “Graças às informações do Natsuki-kun, inúmeros homens de negócios e eu não precisam mais se preocupar com a névoa da Baleia Branca. Você tem minha gratidão.”
Mimi: “Oohh! Tamo elogiando ele um de cada vez? Ele é fortão! Ele é lindão! A única coisa que falta nele é a Mimi! Sua vez, Garf!”
Garfiel: “Ah, não tô entendendo direito o que que tá rolando, mas cê é o cara, Capitão. É como um irmão pro meu incrível eu. É como dizem, A fama te segue feito um Wellyen quando cê faz o que é certo.”
As pessoas estavam indo com a correnteza e empilhando comentários de bajulação um atrás do outro em cima de Subaru, que estava corando de tanto encorajamento. Felt reagiu à isso com uma risada.
Felt: “Parece que é verdade que você fez bastante coisa, mas… pelo visto, o seu jeito de ser não mudou nada. Que alívio!”
Subaru: “Parem com isso, pessoal! Todo mundo junto não vale!!”
Assim que Felt resumiu a situação que estava se desenrolando, Subaru não aguentou mais e perdeu o controle de vez. A tensão que havia encoberto o lugar foi substituída pelo som de risadas.
Subaru: “Ah, merda, devo ter perdido uns anos da minha vida só com isso…”
Assim que toda a diversão na sala de chá chegou a um fim, um Subaru exausto foi para seu quarto.
Todos haviam, inexplicavelmente, quase afogado Subaru em elogios, logo em seguida começando a conversar entre si, como se tivessem esquecido que eram concorrentes.
Claro, era impossível dizer que ninguém estava tentando descobrir os segredos de ninguém, mas a maioria das vezes só estavam jogando conversa fora.
Embora as candidatas possam a qualquer momento bater de frente uma com a outra, se for ver de outra perspectiva, elas eram todas mulheres de idades semelhantes, então conversas sobre assuntos não relacionados ao estado do reino vinham naturalmente.
Emilia, na verdade, estava até ansiosa para uma oportunidade de conversar com outras garotas de sua idade.
Subaru: “Parando pra pensar, dá pra chamar uma conversa entre a Emilia-tan e a Beako disso.”
Beatrice: “Não fale sobre a idade real dela. Quer começar uma guerra, eu suponho?”
Beatrice repreendeu o imprudente Subaru com sua voz aguda.
Ao se virar na direção da qual veio a voz, ele se deparou com Beatrice sentada em uma pilha de futons, tentando desesperadamente aliviar a dormência de seus pés.
Subaru: “Você é um espírito mas mesmo assim seus pés ficam dormentes. Não era pra espíritos não terem circulação?”
Beatrice: “Eu tenho circulação, o corpo da Betty foi projetado para imitar minuciosamente o corpo de um ser humano de verdade. Betty sente a mesma dor que humanos sentem, eu suponho. Se eu ficar submersa por tempo demais, eu perderia a consciência.”
Subaru: “Então você respira também?”
Beatrice: “Claro que sim… ei, não tente sentir a respiração da Betty, eu suponho!”
Assim que o nariz de Subaru se aproximava dela, Beatrice, envergonhada, puxou os futons para em volta dela. Subaru se aproveitou para dar um peteleco no pé dormente dela, que se agitou tanto que parecia ter voltado ao normal. Beatrice começou a lacrimejar.
Beatrice: “Isso dói… estou prestes a chorar, eu suponho… Subaru é um malvado…”
Subaru: “Ok, ok, foi mal, foi mal. Vem cá, vem cá.”
Assim que se sentou, ele deu toques de leve em seus joelhos com um sorriso estampado no rosto, fazendo com que Beatrice vá para seu colo. Enquanto acariciava sua cabeça e suas tranças, Subaru disse para si mesmo: “De qualquer forma…”
Subaru: “A decoração interior deixa esse quarto bonito, e parece que os funcionários fizeram seu melhor pra combinar com o resto do hotel… mas tem uns errinhos aqui e ali.”
Era provavelmente porque a tecnologia de carpintaria deste mundo se desenvolveu de forma diferente à do seu antigo mundo.
O design do Pavilhão Pluma d’Água era bem parecido com o de um hotel do antigo mundo de Subaru, mas, fora as vigas de madeira e portas de papel, tinha uma coisa em especial que parecia errada.
Eles provavelmente tiveram muito trabalho tentando fazer as camas até que os designers decidiram colocar peles de animal em uma cama de madeira.
A sensação não era tão ruim, era só uma leve diferença do que Subaru estava acostumado.
Subaru: “Eu realmente não consigo aceitar com não poder dormir no chão porque as normas sociais aqui ditam que cobertores tem que ficar nas camas.”
Beatrice: “Colocar um cobertor diretamente no chão é coisa de pessoas na miséria. Betty não poderia perdoá-lo se seu companheiro se tornasse um homem pobre assim, eu suponho.”
Subaru: “Eu tô sempre fazendo você se esforçar tanto.”
Beatrice: “O que isso quer dizer?”
Garfiel: “Que que cês dois tão de conversa furada aê?”
Beatrice, que estava conversando com Subaru, se assustou com a repentina aparição de uma terceira pessoa. Já que seus pés ainda estavam meio dormentes, ela perdeu o equilíbrio e caiu em uma pilha de futons que estavam no chão, Subaru rapidamente foi até ela e a ajeitou.
Subaru: “Garfiel? Sua aventura já acabou?”
Garfiel: “Aquela tampinha finalmente me largou depois de ficar o dia todo com ela. Beatrice, que que deu em cê?”
Subaru: “Ela nunca ficou tão longe assim de casa antes, então ela está super animada! Ela teve até problemas para dormir, não é fofo?”
Parado na entrada do quarto estava Garfiel, que riu com tanta vontade que deu para ver seus dentes afiados.
Já que o lugar tinha uma porta de correr estilo Fusuma, Beatrice não ouviu ela se abrindo e levou um susto por causa da intromissão. Já Subaru estava sentado de frente para a porta, então ele havia visto Garfiel na hora que ele entrou.
Subaru: “Então, qual foi? Janta?”
Garfiel: “Nem, a janta provavelmente vai ser só depois. Tinha nada pra eu fazer sozinho lá no meu quarto, Capitão, e outra, o mano Otto ainda não voltou.”
Subaru: “Bem, o Otto não é mais uma criança, então não fique muito preocupado com ele. Mesmo se ele acabar ficando com alguma dívida, duvido que ele vá incomodar a gente pra ajudar a resolver.”
Garfiel: “Tendi.”
Otto havia saído há algumas horas para resolver uma dívida. Garfiel não tinha nada contra isso, já que, afinal de contas, ele sabia como Otto era.
Claro, quando se tratava de pedir ajuda a ele, tinha algo nele incrivelmente confiável.
Subaru: “Mas isso já é outra história.”
Garfiel: “Que que cê tá falando?”
Claro, Garfiel estava acostumado com Subaru falando sozinho. Garfiel apontou para o corredor com seu queixo.
Garfiel: “Se cê tá sem nada pra fazer, o Capitão pode ir junto comigo num negócio rapidão?”
Subaru: “Ir junto com você num negócio? Oh, um banho? É um banho, né? Você quer dizer um banho? Tomar banho ao ar livre é bom demais pra deixar passar. Eu tava dando uma olhada por aí e encontrei roupões de banho, só de pensar em ver a Emilia-tan num roupão já aumenta a minha alegria! Ela já tá lá em cima!”
Os tatames e a arquitetura eram bem difíceis de se recriar, mas os roupões pareciam ser comercializados. Subaru deu seus agradecimentos mentalmente para as pessoas de Kararagi responsáveis por isso.
No entanto, parado em frente ao animado Subaru, estava Garfiel com uma expressão séria, tão sombria que Subaru não conseguia mais ficar de brincadeira. Seu rosto demonstrou preocupação.
Subaru: “Garfiel. O que foi? Tem algo que você quer fazer?”
Garfiel: “Não, não é lá aquelas coisa, mas…”
Garfiel tocou a cicatriz branca em sua testa e ficou em silêncio por um momento. Então encarou Subaru…
Garfiel: “Eu só queria ter uma noção do quão forte esse maior herói do mundo é.”