Tate no Yuusha no Nariagari – Capítulo 9

Uma coisa chamada Escravo

Uma, duas, três… Duas semanas e só 40 moedas de prata. Consegui juntar um pouco mais do que a quantidade que tinha jogado naquele herói da lança bastardo. Isso era tudo sem sentido. Os lugares que podia ir com meu poder de ataque eram extremamente limitados. No entanto tentei ir até a floresta uma vez já que eu não iria tomar nenhum dano.

***

Seria isso um Balão Vermelho? Quando o ataquei com as mãos, recebi um choque similar com a acertar uma lata. Mesmo depois de 30 minutos atacando-o, o monstro não estava nem perto de morrer.

Me cansei e saí da floresta. Pelo que parece eu não conseguiria lutar com nenhum monstro além dos que encontrei nessa planície.

***

A propósito, depois de duas semanas, cheguei no nível 4. Mas não sabia até que pontos esses outros heróis malditos chegaram. O Balão Vermelho ainda estava mordendo meu braço sem pausa, tentando decepa-lo.

Já fez uma semana desde que eu fui até a floresta? Talvez devesse tentar mais uma vez.

— Hah… — suspirei

Não. Meu poder de ataque ainda estava muito baixo. Já que não conseguia dar nenhum dano, não seria capaz de derrotar nenhum monstro. Se não os matasse, receberia 0 pontos de experiência. Sem experiência, seria impossível aumentar meu poder de ataque. Que loop de merda.

***

Da taverna, comecei a caminhar por um beco que levava até o campo. Entretanto hoje tinha sido um pouco diferente comparado aos outros dias.

 — Parece que você está enfrentando um sério dilema.

— ?

Um homem estranho vestindo um fraque¹ e um chapéu, que parecia ser feito de seda, me parou. Esse cavalheiro excêntrico estava usando — como deveria dizer isso? — Um par de óculos escuros estupidamente grandes. Era realmente um sujeito estranho. Ele dava uma impressão que fugia do tema medieval. Seria melhor apenas ignorá-lo.

— Não tenho força suficiente — disse o estranho.

Na mosca! Um golpe certeiro no meu ponto fraco.

— Não consigo derrotar nenhum monstro.

Ele com certeza era do tipo que continuaria a falar coisas que incomodavam.

— Se este é o caso, então tenho algo especial para você, gentil senhor — falou o homem.

— E é aqui onde você irá me apresentar algum serviço para conseguir companheiros, não é?

Não tenho tempo ou dinheiro para cuidar de um perdedor que só está atrás do meu dinheiro.

— Companheiro? Não, não estou oferecendo algo tão inconveniente.

— Hm… então do que está falando?

O estranho rapidamente se aproximou e perguntou.

— Está interessado?

— Não chegue perto! É nojento.

— He he he, gosto do seu olhar. Bom, irei explicar!

O cavalheiro esquisito me provocava enquanto girava sua bengala.

— Estou falando de escravos.

— Escravos?

— Sim, escravos

“Escravidão era um sistema onde pessoas eram forçadas a trabalhar, sendo tratadas como objetos de quem os comprou. Presos contra suas vontades não tinham direito de sair, receber salário e se recusar a trabalhar. ”

Foi o que tinha lido na Wikipédia. Nossa, parece que a venda de escravos ainda existe nesse mundo

— Porquê eu iria querer um? — perguntei.

— Para ter uma pessoa que é competente e leal.

Estalo de língua.

— Nós lançamos uma maldição que irá puni-los até a morte se um dia tentarem trair você.

— Hm…

Interessante. Morte se desobedecerem. Alguém que não vai tolamente pensar em tirar vantagem de mim era exatamente do que precisava.

Meu poder de ataque era baixo, então gostaria de membros para minha equipe. No entanto todos seriam mercenários desleais. Portanto, não queria mantê-los por perto. Contudo os escravos nunca iriam me trair. Pois faze-lo significaria a morte.

 — Qual a sua resposta?

— Vamos dar uma olhada.

Sorrindo, o vendedor de escravos mostrou o caminho.

***

Caminhamos pelos becos por um tempo. Parecia que está nação tinha seus próprios problemas com corrupção. Nos esgueirando pelas vielas escuras, nós tínhamos chegado no que parecia ser uma tenda de circo.

 — Por aqui, senhor herói.

— Já estou indo.

O vendedor andava de forma esquisita. Como deveria descrever as passadas dele? Eram grandes o suficiente para serem chamadas de pulos.

Então, como esperado, ele me levou para dentro.

— Agora, só vou dizer isso para me prevenir. Se estiver pensando em me enganar…

— Esse deve ser o famoso — Soltar os balões—  que fez sua infâmia se espalhar pela cidade. Planejando fugir no caos, não é?

Hm… estão esse tinha sido o apelido que deram a isso. Bem, era um jeito conveniente de punir idiotas. Então a fama era de se esperar.

— Havia um cliente que queria escravizar um herói. Então pretendi me aproximar do senhor com esta possibilidade em aberto, mas mudei de ideia.

— ?

— Você tem todas as qualidades de um ótimo cliente, tanto as boas quanto as ruins.

— O que quer dizer?

— Quem sabe? O que você acha?

Não entendia esse cara. O que exatamente ele esperava de mim?

O portão se abriu de dentro da tenda de circo.

— Hm

O interior estava coberto com um leve odor de pele morta no ar. Por causa do forte odor, pude perceber que o ambiente não estava limpo. Dentro das numerosas celas, várias sombras humanoides se contorciam.

 — Agora, este aqui é recomendação minha

Me aproximei a cela e chequei seu conteúdo.

Rugidos.

— Não é humano — comentei

O que estava dentro da cela lembrava um humano com pelo, presas e garras.

— Isso é um homem-fera. É classificado como um humanoide — explicou o traficante.

— Ah, um homem-fera.

Uma espécie que aparecia em histórias de fantasia, contudo, na maioria das vezes, era como monstros inimigos.

— Sou um herói que foi invocado, então não sou bem informado sobre este mundo. Me conte mais.

Como aqueles heróis cuzões, estava muito desinformado em relação a esse mundo paralelo. Mas até eu percebi pessoas com orelhas de cão ou gato pela cidade. Tinha uma sensação estranha quando olhava para eles, já que eram raros.

— O Reino de Melromarc tradicionalmente considera os humanos superiores, o que faz daqui um lugar difícil para demi-humanos e homens-fera viverem.

— Hm

Era verdade que via essas espécies por aí, mas eram apenas mercadores ambulantes ou aventureiros vagabundos. Em outras palavras, estavam segregados da sociedade e não conseguiam um trabalho digno.

— Então, o que são eles afinal? —

— Demi-humanos lembram muito humanos, ainda assim têm algumas características que os diferencia. Homens-fera são ainda menos humanoides que demi-humanos.

— Entendi, então são quase a mesma coisa.

— Exatamente. E já que, supostamente, são relacionados aos monstros, eles têm dificuldade em viver nesta nação. Portanto, são muitas vezes tratados como escravos.

Cada mundo tinha sua escuridão. E nesse lugar que sabe muito bem da situação dos não-humanos, não têm criatura mais conveniente para se usar.

— E é possível pode punir um escravo — comentou o homem.

Ele estalou os dedos e um círculo mágico apareceu no seu braço enquanto um similar, implantado no peito do lobisomem, começou a brilhar.

Rugidos.

O demi-humano colocou a mão no peito e se contorceu de dor. Quando o traficante estalou os dedos de novo, o círculo mágico desapareceu.

— Com uma simples ação, como pode ver.

— Uma magia muito conveniente — sussurrei, olhando para o lobisomem que caiu de costas.

—Posso usá-la também? — perguntei.

— Com toda certeza. Você também pode mudar o comando, não precisa ser um estalar de dedos! O efeito também pode ser ativado se o escravo tentar fazer uma ação que o dono registrou como proibida.

— Entendi…

Isso era algo bem conveniente.

— Contudo, será necessário um ritual para implantar o código inato do seu corpo na magia vai.

— Para que os comandos de outros donos não o afetem?

— Sua esperteza no assunto é muito apreciada.

 O traficante sorriu de forma estranha. Que sujeito esquisito.

— Bem, quanto esse aqui custa?

— Então, esse lobisomem é de uma espécie competente…

Estava certo de que haviam muitos rumores sobre como eu agia quando o assunto era dinheiro.

— Que tal 15 moedas de ouro? — propôs o vendedor.

— Não tenho certeza sobre o preço de mercado… mas acho que você está falando o valor real, não é?

Uma moeda de ouro equivalia a cem de prata. Havia um motivo o rei ter nos entregado moedas de prata. Devido ao valor alto as de ouro são difíceis de trocar. A maioria das lojas da cidade não trabalhavam com valores tão altos. Por isso conta disso entregaram moedas mais comuns para os heróis.

 — É claro que sim.

Encara.

O traficante sorriu quando olhei de volta.

— Você mostrou isso sabendo que eu não poderia pagar, não foi?

— Sim. Você vai se tornar alguém grande um dia, vai ser inconveniente para nós se não mostrarmos nossos melhores produtos. Não podemos deixar um negociante incompetente lhe venda produtos inferiores.

Esse cara era mesmo estranho.

— Esse é o status do escravo, se estiver curioso.

Ele me mostrou um pequeno cristal. Um ícone começou a brilhar e palavras apareceram.

“Escravo de batalha LV 75. Espécie: Lobisomem.”

As técnicas e habilidades estavam aparecendo também. 75… Quase 20 vezes meu nível. Quão fácil seria lutar com alguém tão poderoso sob meu comando? Era muito provável que fosse mais forte que os outros heróis no momento.

Apesar do preço ser estranho pela qualidade. A saúde ruim era o problema, não seria muito útil mesmo se seguisse minhas ordens. Esse preço incluia os outros custos problemáticos?

— Era lutador no coliseu. O peguei quando ele foi descartado devido aos braços e pernas quebradas.

— Hm.

Então esse era defeituoso. Fraco mesmo com o alto nível.

— Agora que você viu nosso melhor produto, que tipo de escravo o cliente quer?

— Algo barato e que não esteja aleijado

— Nem para lutar ou para trabalhar? Então seguindo os rumores…

— Eu não fiz isso!

— He he he, não me importo se é verdade ou não. Então que outras qualidades você está procurando?

— Algo doméstico seria inconveniente. E claro, uma escrava sexual está fora de questão.

— Hm… parece que os rumores são realmente falsos.

— Eu não fiz isso…

Sim, posso dizer isso, já que não fiz nada.

O que precisava agora era alguém que possa derrotar monstros para mim, qualquer coisa que fosse usável.

— Sexo?

— De preferência masculino, mas não ligo muito para isso.

— Hm

O traficante coçou a bochecha.

— A qualidade não será alta o suficiente para poder considerá-lo um bichinho de estimação. Tudo bem com isso?

— Por que a aparência importaria?

— E se o nível for baixo?

— Se quiser força, vou treina-lo eu mesmo.

— Uma resposta interessante para alguém que não confia nas pessoas.

— Um escravo não é humano, certo? Treinar um escravo não é diferente de fortalecer esse escudo. Desde que não vá me trair, posso treiná-lo.

— Você me pegou.

 He he. O vendedor segurou a risada.

— Por aqui — disse o traficante

Nós andamos pela tenda repleta de celas por alguns minutos, saindo da área caótica para uma menos barulhenta. Olhei para o lado e vi desde jovens desnutridos até velhos sem esperança. Depois de andar um pouco mais, o traficante parou.

— Estes são os mais baratos que podemos oferecer para o senhor herói — disse ele enquanto apontava para três celas.

Na primeira havia um cara com orelhas de coelho, devia ter por volta de 20 anos e um de seus braços estava torcido em um ângulo esquisito.

Na segunda uma garota esquelética com uns 10 anos tremendo e tossindo de medo, suas orelhas eram circulares e tinha uma cauda estranhamente gorda.

Na terceira um homem-lagarto cego. Ele radiava uma aura estranhamente má, contudo, parecia humano demais para um homem-lagarto.

— A partir da esquerda nós temos, uma espécie coelho com uma doença genética, uma espécie guaxinim que está doente e em pânico e um homem-fera cego da tribo dos lagartos.

 Ah, então o terceiro é um homem-fera.

— Todos eles parecem problemáticos — reclamei.

— Só esses preenchem as suas condições. Se quiser mais barato que isso …

O vendedor olhou para traz.  Fiz o mesmo. Conseguia ver de longe: o fedor de morte. Um cheiro forte que lembrava um funeral. Algo ali…. Não quis olhar: Podia ser horrível demais.

— Quais são os preços?

— Começando pela esquerda são: 25, 30 e 40 Moedas de prata.

— E seus níveis?

— 5, 1 e 8.

Se considerasse a qualidade o homem-fera lagarto parecia ser o melhor. No entanto tinha o preço e a cegueira, sem mencionar que era muito magro. Mesmo o Rapaz-coelho não pudesse usar um dos braços, o resto do seu corpo parecia bem. A expressão dele era de uma profunda depressão…, mas era a mesma coisa para todos aqui.

— Parando para pensar, porque estão tão quietos.

— Eles vão ser punidos se fizerem barulho.

— Entendo.

Ou eles eram bem treinados, ou o traficante não me mostrou nenhum que não tinha sido bem treinado. O homem-lagarto provavelmente seria útil em batalha, entretanto essa era a única qualidade.

— Porque essa do meio é tão barata?

Apesar de estar desnutrida e assustada, ainda era uma garota. Porém seu rosto não era muito bonito. Uma espécie guaxinim, seria como um guaxinim de estimação. Uma menina que lembra tanto um humano que poderia ser vendida para outras funções.

— Os guaxinim são um pouco inferiores esteticamente. Se fosse uma raposa poderia ser vendida por um preço alto sem nenhum problema.

— Entendi…

Não era fofa o suficiente para ser tratada como mascote.

— O rosto dela é abaixo da média e ela entra em pânico durante a noite, então estamos tendo dificuldades para vende-la.

— Então esse é um dos seus produtos em estoque?

— Nossa, direto ao ponto.

Inadequada para trabalho comparado com os outros dois. O nível dela era o menor também. Estava sendo difícil decidir qual dos três era melhor.

Meus olhos se encontraram com os da menina.

Então. Senti as minhas emoções se descontrolando. Sim. Era uma garota, O mesmo sexo daquela vadia. Olhando para seus olhos assustados, conseguia sentir o intenso desejo de dominá-la. Seria bom se eu conseguisse ver aquela mulher nessa escrava. Isso acalmaria o rancor dentro de mim.

— Então vou comprar essa do meio

— Seu sorriso perverso é muito gratificante de se ver.

 O vendedor tirou uma chave, deixou a menina sair da cela e a prendeu em uma coleira.

 — Hein!?!

Olhando para a garota amedrontada, me senti satisfeito. Que sensação boa imaginar aquela vadia fazendo essa cara. Arrastando a mercadoria junto, o traficante retornou e chamou alguém de dentro da tenda semiaberta para buscar um vaso. Então, ele derramou um pouco de tinta em um pequeno pires e se dirigiu até mim.

— Senhor Herói, Por favor dê um pouco de seu sangue. Então o ritual vai estar completo e essa escrava se tornará sua.

— Entendo.

Usei uma faca para abrir um pequeno corte no meu dedo. Se outra pessoa tentasse me esfaquear, o escudo iria responder. Porém não respondia se eu tentasse me machucar. Além disso, não ativa fora das batalhas.

Esperei o sangue sair, então pinguei várias gotas no pires. O traficante molhou um pincel com a tinta, logo depois ele rasgou as roupas da escrava até a cintura e pintou o estigma no corpo dela.

— Gyaaaaaaaaaa!! — grito a garota

 A marca começou a brilhar e um ícone apareceu na minha janela de status.

 Obteve um escravo.

Uma mensagem com os termos de serviço apareceu. Numerosas clausulas estavam listadas. Foleei por tudo e coloquei a punição por traição como dor extrema.

Olhei para o ícone de companheiro próximo ao registro do escravo. Já que o nome dela era desconhecido, ‘Escravo A’ estava escrito ali. Parecia que poderia mudar as especificações quando quisesse. Vou ler com calma depois.

— Agora essa escrava é sua, Senhor Herói. Por favor conclua sua compra.

— Tudo bem.

 Entreguei 31 moedas de prata.

— Tem uma a mais.

— É pelo ritual. Você iria cobrar de qualquer jeito, não é?

— Você me entende bem…

 Se pagasse o serviço com antecedência, ele não vai pode reclamar depois. Porém, se me cobrarem quiser mais depois, o que poderia fazer?

— Bom, está tudo bem. Já que conseguimos nosso estoque mesmo.

— Quanto você iria cobrar pela cerimônia, por sinal?

— He he he, nossos serviços estavam incluídos nas 30 moedas de prata.

— É mesmo, quem diria?

 O traficante riu, então ri de volta.

— Você é muito esperto! Estou chocado — afirmou o vendedor

— Sinta se libre para falar o que quiser de mim.

— Estamos esperando sua próxima visita.

— Eu também.

***

 Comandei a escrava para me seguir e sai da tenda de circo. Ela vinha atrás de mim com uma expressão triste.

— Me diga seu nome

Tosse.

Ela virou o rosto, se recusando a responder. No entanto essa reação era tola. A escrava desobedeceu, então a punição foi ativada.

Gritos de dor.

A menina segurava o peitoral por conta da dor

— Vamos tentar de novo, me diga seu nome.

— Raphtalia…

Tosse. Tosse

— Raphtalia? Tudo bem, vamos.

Depois de anunciar seu nome, a dor parou e ela conseguiu respirar de novo. Segurando a mão dela, continuei a caminhar pela viela.

 — …

A garota olhou para mim, na mão que segurava a dela e caminhou junto também.


Notas:

1 –  Fraque é um traje cerimonial que se usa em eventos que tenham lugar durante o dia. É o equivalente diurno à casaca e ao smoking. Imagem.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Opções

Não funciona com o modo escuro
Resetar