-Vuuuuam!
Avançando um passo dentro do portal, senti o mundo ao meu redor virar.
Primeiro começou com a minha visão… tudo se tornou preto.
Depois minha audição e tato… no fim, todos os meus sentidos desapareceram.
Não sentia nada.
Parecia que tinha virado uma partícula insignificante de poeira pairando pelo espaço, sozinho.
Em seguida, perdi meu senso de tempo.
O que poderia ter sido segundos, parecia como se tivesse sido uma eternidade.
-Vuuuuam!
“Fuuuuu…”
Finalmente, depois de não sei quanto tempo, senti meus sentidos voltando aos poucos e comecei a escutar o som leve da minha respiração.
Como já tinha passado por isso antes, quando entrei na dungeon do Mercado Negro, consegui de alguma forma me ajustar a sensação.
Diferente da última vez, eu não vomitei.
Abrindo os olhos, vi que estava dentro de um espaço escuro e úmido.
No mesmo instante, um cheiro forte de granito invadiu minhas narinas, seguida por uma rajada de ar frio passando por mim.
Olhando em volta, vi muitos alunos fazendo careta e segurando o estômago, tentando ao máximo não vomitar.
-Blaaargh! -Blaaargh! -Blaaargh!
Bom, sempre tem pessoas que não conseguem aguentar.
Porque as dungeons eram restritas apenas para pessoas com Licença de Herói, exceto por alguns, a maioria dos alunos presentes nunca estiveram dentro de uma. A reação deles é compreensiva.
Aproximando-se e parando em frente a todos, um aluno do segundo ano usando o uniforme verde da Lock, sorriu de forma calorosa na nossa direção.
O estudante tinha cabelos curtos, pretos e levemente cacheados, que caíam suavemente pelas laterais do rosto. Seus profundos olhos pretos que pareciam carregar um toque de calor e gentileza, complementavam perfeitamente seu cabelo. Ele não tinha uma aparência particularmente marcante, mas transmitia a impressão de ser uma pessoa amigável e capaz de conquistar a simpatia dos outros à primeira vista.
Quando começou a falar, sua voz grossa e agradável ressoou pelos ouvidos de todos os presentes, os acalmando um pouco.
“Muito bem, queridos colegas, vou dar cinco minutos para se recuperarem antes de começar as explicações.”
Quando suas palavras entraram nos ouvidos dos alunos, a maioria conseguiu se recompor.
Surpreso pelo que aconteceu, encarei o pessoal que a segundos atrás pareciam estar à beira da morte, como se tivessem sido curados em um passe de mágica. Olhando em minha volta, finalmente percebi o que tinha acontecido.
‘A densidade da mana ao redor aumentou… Entendi, esse aluno do segundo ano deve ter misturado mana com a sua voz, criando um efeito de acalmar…”
Interessante…
Esse garoto certamente conseguiu meu interesse.
Conseguir afetar o humor de uma pessoa apenas com algumas palavras…
Aterrorizante.
Ainda mais se ele for seu oponente.
Com apenas poucas palavras, ele conseguiria influenciar o estado mental de alguém. Imagina você em uma batalha e do nada perde todas as suas habilidades para pensar com clareza por causa da sua raiva…
Isso resultaria no oponente cometer erros… Exatamente como aconteceu com o Alex, da Galxicus.
Olhando na direção com brilho nos olhos, nem hesitei em decidir recrutar ele para o meu grupo de mercenário.
Embora esse garoto nunca tenha aparecido na novel, ainda assim fiquei fascinado pelo poder dele.
Sem dúvidas, interessante.
Um peão ou uma peça importante?
Preciso observar mais antes de decidir.
“Ok, agora que todos estão melhores, vou ser breve. Meu nome é Benjamin Hor e, como podem ver pelo meu uniforme, sou do segundo ano. Vou explicar de forma simples algumas coisas importantes que vocês precisam manter na cabeça para sua própria segurança, então, aguentem um minuto por favor.”
Apontando para sua esquerda, onde vários trajes de combate cinza estavam espalhados pelo chão, disse.
“A minha esquerda, tem várias roupas que vocês precisarão usar quando estiverem dentro dungeon.”
“Elas são equipadas com um aparelho de rastreamento e, também, um mecanismo de defesa que consegue resistir a ataques de monstro de <Classe E> por pelo menos uma vez. Dessa forma, vamos conseguir proteger vocês se por acaso uma situação inesperada acontecer.”
Olhando para o grupo e vendo que todos estavam acompanhando, Benjamin sorriu.
“Depois de explicar tudo para vocês, vou dar alguns segundos para colocarem as roupas de combate. Por favor, tenham certeza de usá-las, porque são essenciais para mantê-los seguros…”
E, com isso, Benjamin passou mais algumas instruções para nós.
Para ser sincero, depois de ouvir a primeira parte, parei de ouvir por completo. São as mesmas regras que tive que ouvir quando entrei na dungeon do Mercado Negro.
Nada de diferente.
Depois de explicar por alguns minutos, Benjamin sorriu enquanto passava seus olhos por todos os alunos.
“Bom, acho que já disse tudo que precisava. Por favor, coloquem os trajes de combate e esperem na linha do início.”
Assentindo com a cabeça, peguei um traje e rapidamente o coloquei.
Obviamente, havia duas pilhas, uma para as garotas e outra para os garotos. Enquanto colocava a roupa, isso começou a me lembrar do traje que tivemos que colocar na aula da Realidade Virtual.
Embora não seja apertado como aquela, ainda dava uma sensação estranha de rigidez no corpo.
Na parte da frente do traje, várias proteções pretas feitas de um material especial de absorção de impacto estavam fixadas nas regiões do peito e do abdômen, bem como nos joelhos, cotovelos e outras áreas vitais no corpo.
Eles foram feitos, especialmente, para proteger as partes mais vulneráveis do corpo.
Por mais que no começo estava um pouco desconfortável, à medida que me movia, comecei a me acostumar com o traje.
Chegando na linha de partida da dungeon, fiz alguns alongamentos para ativar meus músculos.
-Bump!
“Huh?”
Enquanto alongava, senti alguém trombando comigo e me virei. Assim que me virei, avistei Arnold parado há alguns metros de onde eu estava. Olhando na minha direção, com o olhar cheio de desprezo, ele disse lentamente.
“Acho bom você ficar atento dentro da dungeon… já que não tem nenhuma vigilância, nunca se sabe o que pode acontecer…”
“Ok…”
Sorrindo de forma educada, acenei com a cabeça e recuei alguns metros.
Ele não desistiu, né?
Bom, tanto faz para mim.
Eu já sabia o que faria com ele mesmo…
Junto com outros olhares, eu já tinha percebido o olhar dele no momento da avaliação. E, comparado aos outros olhares, o jeito que ele me olhava só continha intenções maliciosas.
…Acho que o Jin não deve ter contado para ele o que aconteceu em Hollberg. Talvez por ter simplesmente se esquecido ou por acreditar que meu rank era mais alto, Jin ainda não havia falado sobre mim para Arnold.
Perfeito.
Pensando bem, acho que os outros também devem estar pensando que tenho uma Classe maior, assim como o Jin.
No final, acho que eles ainda estão pensando que estou escondendo a minha força, já que enganar a esfera não era tão difícil assim.
Existiam certos artefatos que limitavam a circulação de mana de uma pessoa, fazendo com que eles parecessem ter uma Classe menor, no entanto, para fazer isso gastava muito tempo e era um processo extremamente doloroso, e por esse motivo muitas pessoas evitavam de fazê-lo.
Sinceramente, estou grato do Jin não ter falado nada.
Eu ainda tinha rancor contra o Arnold pelo que ele fez comigo na Realidade Virtual.
Apesar dos pais deles terem uma influência maior que as dos meus, agora que o Jin estava fora da jogada, eu não precisava me preocupar com ele atacando a minha família.
E mesmo se ele decidisse fazer isso…bom.
Agora que tenho mais conhecimento sobre esse mundo, sabia de diversas formas de acabar com ele… E nem precisava ser cara-a-cara. Eu apenas precisava manipular tudo ao redor dele, de um jeito que tornaria a vida dele um inferno.
Pausando minha linha de pensamento, olhando para ele pelo canto dos olhos, sorri mentalmente.
‘Você que deveria tomar cuidado…’
“Beleza, pessoal, parece que todo mundo já está pronto.”
Parado na beirada da caverna, Benjamin olhou para todos os alunos presentes.
O jeito que todos estavam alinhados o fez lembrar de uma maratona.
Na frente, estavam os alunos mais confiantes e atrás, os menos confiantes.
Vendo que todo mundo estava pronto, Benjamin levantou as mãos e disse, de forma lenta.
“Em suas marcas, preparar… Já!”
-Beeep!
-Swoooosh! -Swoooosh! -Swoooosh!
E como um efeito dominó, todos os alunos correram com tudo.
Mesmo sem terem uma visão clara da frente, os alunos correram sem medo pela caverna. Completamente esquecidos que isso não era uma corrida, mas sim, uma dungeon.
Vendo todos correrem com tudo, balancei a cabeça em desdém.
Idiotas.
Correr na frente dos outros logo no início, provavelmente é a pior decisão que alguém pode fazer… principalmente, em um lugar desconhecido e sem nenhuma informação.
-Kehuuuk! -Keuuuk! -Keuuuk!
E bem na hora… uns metros à minha frente, onde a maioria dos alunos estavam agrupados, olhos amarelos apareceram do nada.
Parando de correr e olhando os milhares de pares de olhos a distância, murmurei de forma involuntária.
“A prova finalmente começou…”