“E lá vamos nós.”
Me sentando em uma das cadeiras do Café, esperei a chegada de Melissa.
Sendo sincero, um dos motivos de querer encontrá-la aqui na Leviatã ao invés da seção C, era para não sermos notados.
Da última vez, tenho certeza de que algumas pessoas descobriram que me encontrei com a Melissa. Recebi alguns olhares aqui e ali, mas como ninguém sabia ao certo o que havia acontecido, o rumor acabou morrendo.
Mas fiquei irritado do mesmo jeito… Eu já recebia olhares desnecessários antes, não precisava de mais.
Para ser justo, a reação deles era compreensível. Afinal, Melissa era uma garota muito popular. Com o quão bonita e esperta que ela é, era óbvio que estaria no centro das atenções de todos os garotos da escola. Seja calouros ou veteranos.
Felizmente, dessa vez, eu vim preparado.
Por isso resolvi encontrá-la aqui. O prédio mais prestigioso e moderno de toda a escola.
O motivo?
Porque, atualmente, apenas trinta alunos moravam nesse prédio enorme.
Isso mesmo.
Apenas trinta.
Os Tops 10 de cada ano. Do primeiro ao terceiro.
Além disso, como eram figuras importantes, seja como líderes ou membros de alta posição em suas próprias facções, raramente apareciam por aqui. Em outras palavras, naquele momento, aquele era o local mais seguro e menos chamativo de toda a academia.
Sem contar que aqui foi minha única opção.
Considerando a personalidade de Melissa, sem chances que ela concordaria em se encontrar comigo em um lugar privado. Ela recusaria sem nem pensar duas vezes, mesmo se fosse minha amiga… o que não é o caso.
De qualquer forma, deixando de lado a popularidade da cientista, a conversa que teremos vai ser sobre um assunto delicado.
Então não posso deixar outras pessoas saberem sobre isso…
No meio tempo, esperando a Melissa chegar, ela apareceu depois de cinco minutos. Levantando a mão para sinalizar onde estava, eu a chamei.
“Aqui, Melissa.”
Quando me viu de longe, Melissa veio em minha direção. Usando uma blusa branca, calça jeans e óculos de aro dourado fino, ela se aproximou com a elegância de sempre.
Sob a luz brilhante do sol, caminhando com roupas casuais, Melissa estava absolutamente deslumbrante. Se não fosse por sua personalidade, acho que ela seria ainda mais popular.
Chegando na mesa onde estava, ela se sentou na minha frente e cruzou as pernas. Franzindo a testa, ela disse.
“Por favor, não olhe na minha direção por mais de cinco segundos. Só a sua existência me irrita.”
“…”
Sem saber o que falar, antes de poder responder, Melissa continuou a falar enquanto olhava ao redor.
“Entendi, então você escolheu esse lugar, porque ficou com medo que eu fizesse alguma coisa com você?”
Balançando a cabeça, um sorriso se abriu no meu rosto.
“Claro que não.”
Ela estava certa.
Maldita bruxa.
Entrelaçando os dedos, Melissa apoiou o queixo nas mãos e olhou na minha direção.
“De qualquer forma, vamos pular a conversa fiada e ir direto ao ponto.”
Concordando com a cabeça, coloquei a mão no bolso e ofereci os documentos que estive trabalhando.
Obviamente os papéis que entreguei não tinham todas as informações, só uma pequena parte. Afinal de contas, se o acordo não rolar, não quero ela roubando a minha ideia.
Eu só passei uma pequena parte das informações…
“Certo, aqui.”
“O que é isso?”
Olhando o papel em cima da mesa, Melissa fez uma careta e pegou.
“Uma ideia que estive trabalhando.”
Arqueando a sobrancelha, ela olhou desacreditada na minha direção.
“E…?”
Sinalizando para ela abrir o papel, sorri de forma misteriosa.
“Só lê.”
Ao perceber a minha expressão, a fisionomia da Melissa se intensificou. Ela quase optou por não abrir, mas no fim, a curiosidade venceu e abriu.
“Hmm… huh.”
À medida que examinava o papel, Melissa parecia indiferente no início. Contudo, um minuto depois, seus olhos se arregalaram e ela se sentou direito.
Encarando seriamente o documento à sua frente, suas mãos não puderam deixar de tremer de tempos em tempos.
‘Peguei ela.’
Assistindo Melissa ler o rascunho da ‘Cartas de Mana’, um sorriso triunfante apareceu no meu rosto. Ela mordeu a isca.
“V-Você, quanto?”
Depois de um minuto lendo tudo, Melissa baixou os papéis na mesa e fez seu melhor para continuar calma.
Essa ideia era algo que esteve pesquisando no passado… mas não era tão detalhado a esse ponto. E outra, ela percebeu que isso não era tudo.
Sorrindo, encostei na cadeira e falei.
“Quanto pelo quê?”
Sabia que consegui chamar a atenção dela.
O único motivo pelo qual escolhi especificamente Melissa para o projeto… é porque, na verdade, foi ela que criou a ‘Carta de Manas’.
Quando disse que ela era a única esperta o suficiente para criá-las… quis dizer literalmente.
Junto com outras invenções que criou, foi ela que criou a ‘Carta de Mana’. Se houvesse uma única pessoa em quem posso confiar no desenvolvimento do item, com certeza seria ela.
“Corta essa merda! Vá direto ao ponto e me diga quanto quer pela ideia.”
Colocando a mão no queixo, pensei por um momento antes de balançar a cabeça.
“Hmm, na verdade, minha intenção não é vender a ideia.”
Pega de surpresa, a voz da Melissa aumentou de tom e a aura ao seu redor se intensificou.
“O quê? Então só veio aqui se gabar sobre a sua ideia brilhante? Acho bom que esse não seja o caso…”
Tecnicamente, é a sua ideia… mas ela não precisava saber dessa parte.
Percebendo que o humor dela estava piorando, esticando a mão na direção dela, continuei.
“Não, na verdade, queria pedir sua cooperação para esse projeto.”
Assim que processou as minhas palavras, Melissa congelou. Franzindo o cenho, perguntou.
“Cooperação?”
“Sim.”
Erguendo a mão até o queixo, Melissa perguntou, confusa.
“E o que seria essa cooperação?
Sorrindo, respondi.
“Você cria o produto e eu cuido de vendê-lo. Simples, né?”
Reclinando-se na cadeira, Melissa ficou pensativa. Embora ela tenha compreendido a ideia geral do projeto, se tivesse todas as informações, com certeza conseguiria desenvolver o projeto mais rápido.
Além do mais, com o dinheiro que ganharia com as vendas, ela conseguiria bancar seus projetos mais caros… era uma situação em que todos saíam ganhando.
Depois de refletir por alguns instantes, Melissa finalmente pareceu tomar uma decisão. Olhando para mim, ela disse.
“Hmm… 60/40”
Inclinando a cabeça para o lado, perguntei.
“Sessenta para mim e quarenta para você?”
Negando com a cabeça, ela corrigiu.
“Não, sessenta para mim e quarenta para você.”
Sorrindo, balancei a cabeça.
“Desculpa, mas nada feito.”
Sem chances que iria concordar com esses termos ridículos. Afinal de contas, a ideia já estava quase completa.
Franzindo o cenho, Melissa pensou por mais um tempo e falou.
“50/50.”
Negando com a cabeça de novo, olhei direto nos olhos dela e falei seriamente.
“Noventa para mim e dez para você.”
“O QUÊ?!”
Levantando-se num pulo, a aura de <Classe F> da Melissa exalou de seu corpo, envolvendo um raio de um metro de onde estávamos.
Não me incomodando nem um pouco com a situação, ainda com um sorriso no rosto, disse com um tom calmo.
“Você sabe muito bem o quanto de dinheiro esse projeto vai dar, então não peça por muito.”
Mesmo ela ganhando dez por cento de tudo, quando as cartas forem lançadas no mercado… a quantidade de dinheiro que ela faria seria sem dúvidas muito maior do que o orçamento atual dela.
E com a sabedoria que tinha, ela definitivamente estava ciente disso. Ela só está testando as águas, mas descobri suas intenções.
Ao perceber que a pressão da sua aura não estava ajudando em nada, Melissa tencionou a mandíbula e controlou sua aura. Depois de refletir mais, ela balançou a cabeça determinada.
“Não, 10% são muito pouco para mim.”
*Suspiro*
Suspirando, dei de ombros e me levantei da cadeira, me preparando para ir embora.
“Muito bem.”
Sem saber como reagir, Melissa perguntou.
“Você está indo embora?”
Assentindo com a cabeça, confirmei.
“Yup.”
Surpreendida pelo meu comportamento repentino, Melissa ficou um pouco atrapalhada.
“Q-Que? Você não vai continuar negociando?”
“Não, dez por cento já é um número alto para mim no momento.”
“Ah…”
Segurando um sorriso, fingi não perceber que Melissa havia ficado um pouco constrangida e acenei.
“Bom, isso é tudo. Preciso voltar para o dormitório.”
Mordendo os lábios, Melissa pensou por alguns segundos antes de dizer, baixinho.
“Tudo bem, eu faço por dez…”
“Nove.”
Com os olhos arregalados, a garota me encarou e gritou.
“Que?! Está querendo morrer?! Você não acabou de dizer dez?!”
Balançando a cabeça, ignorei o surto dela e disse.
“Desculpa, mudei de ideia de novo. Oito.”
Por alguns segundos, Melissa ficou sem palavras. Pouco depois, seu corpo inteiro começou a tremer. Ela parecia estar à beira de explodir. No final, ao perceber que eu não estava dando a mínima, Melissa rangeu os dentes com tanta força que o som pôde ser ouvido de longe antes de cuspir as palavras com raiva.
“Me dê os papeis agora.”
Satisfeito que tinha ganhado, abri um sorriso.
Apesar de que podia puxar para 7%, estaria colocando minha vida em jogo assim.
Não acho que um por cento era o bastante para arriscar minha vida.
Pegando o papel que já tinha preparado, o ofereci para a cientista.
“Aqui está.”
Arrancando os papeis da minha mão com raiva, Melissa leu os termos antes de pegar uma caneta e assinar.
“Acho bom você rezar para eu não te ver nessas próximas semanas, se não.”
Dando uma leve risada, me sentei na cadeira e beberiquei o meu Expresso.
“Haha, não precisa ser agressiva, agora somos parceiros de negócios. Essa não é a forma com a qual deveria falar com a pessoa que vai estar trabalhando com você daqui para frente. Não é, parceira?”
Se olhar matasse, eu já estaria morto.
“Diga mais uma palavra e eu te esfolo aqui mesmo e agora.”
“Sheesh, não preci-“
“Falou alguma coisa?”
“Não…”
Obedecendo, fechei a boca. Apesar de ter ganhado hoje, ainda preciso agir com cautela. Se eu realmente acabasse entrando na lista negra dela, não importava o quanto estivesse preparado, eu iria tomar no cú.
Depois de ter certeza de que tudo estava em ordem, Melissa se levantou com os documentos que continham as informações completas sobre as ‘Cartas de Manas’ em mãos. Olhando na minha direção pela última vez, ela semicerrou os olhos.
“Parece que você está escondendo bastante coisa, não é? O Arnold, as teorias e agora isso? Eu não vou me meter porque não é da minha conta, mas é bom que você não faça uma burrada que estrague esse projeto… ou vou fazer você pagar por isso.”
Assim que terminou de falar, Melissa foi embora sem perder tempo. Pelo visto, estava louca para examinar o conteúdo que eu tinha lhe dado.
“Claro.”
Vendo ela ir embora, não pude deixar de relembrar da primeira vez que a encontrei.
Eu estava uma pilha de nervos naquele dia. Só de pensar no que poderia ter acontecido se eu tivesse entrado na lista negra dela, me aterrorizava.
Mas depois do que aconteceu todos esses meses, tenho que admitir que ganhei muita confiança desde aquele dia.
Eu não tinha mais medo de interagir com as pessoas, muito menos com os protagonistas.
Acho que as experiências da minha vida passada acabaram me transformando nessa pessoa covarde e excessivamente cautelosa, alguém introvertido e passivo. Sem perceber, acabei me fechando dentro de uma concha criada para me proteger de tudo.
‘E se esse mundo for de mentira?’
‘E se um dia eu acordasse e descobrisse que estava de volta ao meu mundo, como se tivesse acabado de despertar de um coma?’
‘E se tudo isso não passasse de um sonho longo?’
Esses são os tipos de pensamentos que passam pela minha cabeça todo dia.
Mas ultimamente, eles diminuíram.
Eu simplesmente evitava pensar nessas coisas.
Percebi que esse mundo sendo de mentira ou real, a única coisa que importava era a minha felicidade. Mesmo se tudo isso for fruto da minha imaginação… por que devo me limitar? No fim, era eu que estava passando por isso tudo. Por que a opinião dos outros deveria importar?
Contemplando o céu azulado, senti o ar fresco encher meus pulmões.
“Minha vida, minhas regras. Nada vai me parar de alcançar a minha felicidade.”