The Beginning After The End – Capítulo 395

Abaixo do Taegrin Caelum

Nico Sever

Meus pés batiam ao longo do chão do extenso corredor. Era tão, tão grande… Era assim antes? As luzes pálidas piscando, acendendo e apagando, acendendo e apagando…

Conseguia ouvi-los, os idiotas na multidão, aplaudindo como se meu mundo inteiro não estivesse prestes a acabar, como se ele não fosse matá-la. Quando é que o meu amigo ficou tão cego pelo desejo de governar?

À distância, via apenas o minúsculo arco de uma luz opaca no final deste túnel que parecia se estender do início da minha vida até o fim.

Algo se moveu à direita, me afastei e depois desacelerei, meus passos apressados e estranhos se embaralhando enquanto tentava ficar parado para assistir e continuar a seguir em frente. Através de uma espécie de janela na parede do corredor, uma imagem estava sendo reproduzida.

Um grupo de aventureiros estava reunido em uma pequena clareira numa floresta. A Clareira das Bestas, lembrei. Apresentações estavam sendo feitas a um menino de máscara branca e cabelo castanho claro. “Elijah Knight, conjurador de classe A no estágio laranja escuro. Especialização única na terra.”

A voz estremeceu em mim que nem um choque elétrico. Era a minha voz, exceto que… Também não era. Era a minha memória, mas não. Elijah Knight foi o meu nome falso em Dicathen, quando meu verdadeiro eu foi subjugado, escondido… Não, tirado de mim.

Pensei que a maioria das memórias mais antigas foram enterradas por mim. O propósito de Elijah era se aproximar de Arthur, porém ele era fraco, uma ferramenta que serviu ao seu propósito e foi deixada de lado. Não era eu. Ele não era eu. Não eram as minhas memórias.

Podia ouvir Grey e Cecilia lutando de longe. Os sons das lâminas se chocando, cada barulho parecendo um golpe quase mortal na minha mente nervosa.

Comecei a correr de novo.

Mais memórias da breve vida de Elijah Knight passaram por ambos os lados: As Tumbas Terríveis e o Guardião Elderwood, a Academia Xyrus, seu crescente vínculo com Arthur, a bondade dos Leywins e Helsteas, Tessia Eralith…

Chega dessas coisas, pedi. Não me interessa. Não quero estas memórias.

“Que bagunça”, disse uma das luzes, piscando nervosamente.

Diminuí a velocidade de novo, as observando. Desde quando luzes falam?

“Isso? Acho que limpou bem o suficiente. Mais algumas horas e ele nem saberá que foi aberto”, falou um homem, a voz vindo de uma tela de televisão escondida no canto entre o teto e a parede lisa do corredor infinito.

“Não ouviu? Vechor foi atacado. Uma área de preparação para a guerra em Dicathen foi varrida do mapa” respondeu a luz com um pulso de brilho.

“Sabe que estou aqui há dias. Eu não ouvi nada. Que horas são, afinal?” O homem olhou em volta, uma expressão cansada no rosto. “Somos os únicos aqui em baixo há horas. Estou cansado que nem um javali wogart após a época de reprodução.”

“Pelos soberanos, você é nojento às vezes, sabia?”

Abaixo da tela, uma janela para outra memória mostrava o jovem Arthur entrando no quarto que compartilhamos em Xyrus. “Arthur!” gritou Elijah, agarrando-o com firmeza.

“Pronto, pronto. Sim, estou vivo. Você não vai poder se livrar de mim tão facilmente.”

“Eu sei”, disse com uma fungada molhada. “Você é tipo uma barata.”

Eu estava tão emocionado por ter o meu melhor amigo de volta. Bile subiu pela minha garganta. melhor amigo que assassinou meu único e verdadeiro amor…

“Não” murmurei com os dentes cerrados, lágrimas brotando dos cantos dos meus olhos. “Eu não me importo com nada disso. Onde está Cecil? Me mostre Cecilia!”

Senti a luz ficar mais brilhante, quase inclinada para mim. “Ele disse alguma coisa?” perguntou ela.

“Merda, vamos acabar de limpá-lo e levá-lo de volta para o quarto. Agrona não vai ficar feliz se ele acordar na mesa, e com certeza não quero ser o único a explicar o que aconteceu.”

Acordar? Pensei, repetindo as palavras para mim mesmo. Por que…

Um sonho, percebi. Só um sonho estúpido.

Acorde!

Meus olhos se abriram. A pedra úmida de um teto baixo encheu minha visão. Dois artefatos de iluminação brilhantes em suportes móveis iluminavam meu torso nu e coberto de sangue. Havia uma incisão em forma de cruz sobre meu esterno, as bordas vermelhas enquanto a carne se unia devagar, toda a ferida brilhando com uma pomada de cheiro químico.

Uma mulher de vestes vermelhas se aproximou, focada em molhar um pano em uma tigela na mesa ao meu lado. Então, encontrou os meus olhos e congelou. A boca dela se abriu, entretanto não emitiu som.

Tentei me mover e percebi meus pulsos algemados à mesa. Ao chutar, confirmei que minhas pernas também estavam. Fiquei tenso. O couro grosso e desgastado rangia enquanto me esforçava contra ele. Uma sensação de pânico surgiu em mim, e as amarras enfim se romperam e pararam na parede.

A mulher soltou um suspiro assustado, e a outra voz xingou quando algo metálico caiu no chão.

“F-Foice N-Nico” Ela gaguejou, dando um passo para trás e se curvando.

Com a mão livre, soltei o outro pulso e me sentei. Estava descansando em uma mesa fria de metal no centro de uma sala quase vazia. O ar bateu em mim, carregado de umidade.

A mulher abaixou lentamente o pano de volta para a tigela em um pequeno banco ao lado de uma bandeja de ferramentas, algumas ainda cobertas de sangue. Uma mesa maior estava pressionada contra uma parede, e vários implementos que não reconheci na hora foram colocados nela, juntos a um caderno aberto.

Metal raspou no chão, e me virei para ver um homem com as mesmas vestes brancas. Ele estava colocando vários pinos metálicos de volta em uma bandeja que deve ter deixado cair quando acordei.

“O que disse?” Questionei, contudo ele pareceu confuso, e notei que fazia algum tempo desde que alguém falou. “O que você não quer explicar?”

Não tinha certeza do que estava acontecendo ou a minha localização. A última coisa de que recordava era Vechor, e…

Grey!

Minha mão foi para a cruz cortada no meu esterno. Reuni mana, lembrando do pesadelo do meu núcleo sendo destruído.

Ele parecia estranho. Distante, tanto meu quanto não meu. Assim como as memórias do Elijah. Devido ao pensamento, rangi os dentes.

Um espinho de ferro ensanguentado se manifestou das sombras sob a mesa e afundou no peito do homem. Seus olhos se arregalaram enquanto ele agarrava o espinho, porém seus movimentos logo se tornaram fracos, e em segundos seu corpo mole cedeu. Seu sangue corria pelo metal preto liso em pequenas ramificações antes de pingar no chão úmido.

Garras geladas agarraram minhas entranhas, e meu núcleo parecia um centro de dor no meu abdômen, e isso tudo somente para conjurar o feitiço.

“O-O que aconteceu comigo…?” Me virei para a mulher, me segurando em um cotovelo trêmulo. “O que fizeram comigo?”

Ela recuou um passo, todavia ficou paralisada pelo meu olhar. “O Alto Soberano, ele… Ele…”

Ambas as suas mãos se levantaram e um escudo fraco de mana translúcido azul claro zumbiu entre nós. Se virou para correr e bateu contra um segundo espinho, que do meu ângulo, saiu do inferior das costas dela, e um anel carmesim manchou suas vestes brancas.

O suor frio surgiu na minha testa com o esforço e dor para conjurar. Meus braços tremeram quando quebrei as amarras do tornozelo, e tive que me apoiar na mesa lateral ao manobrar na frente da mulher.

O espinho entrou bem acima de seu quadril e a prendia no lugar, contudo era fino, fraco e trêmulo, assim como eu.

Apesar da dor e da fadiga, segurei o queixo dela e a forcei a me encarar. “O que estava fazendo comigo?”

“Q-Queria entender… Examinando o seu… Núcleo”, ofegou. “Ela… Curou ele. Mas está… Imperfeito…”

Pressionei os dedos nas marcas da incisão. Esses dois me abriram e bisbilhotaram dentro do meu corpo sem me perguntar e nem sequer contado. Não senti raiva, o que por si só parecia notável. Eu estava sempre irritado. Qualquer gota de adversidade me estressava.

Exceto…

Olhei para a mulher. Olhei mesmo para ela. Tinha olhos castanhos opacos e um cabelo que combinava. Linhas de preocupação estavam gravadas em seu rosto, e ela possuía manchas de pele machucada nos lábios, que me fez imaginá-la os mordendo olhando minhas entranhas, que nem fazem com animais.

“O que aconteceu no Victoriad? Capturamos Grey? Matamos?”

Li a resposta no rosto dela. Seus olhos dilataram, derramando lágrimas assustadas que se misturaram com o ranho do nariz. Os lábios se separaram e depois se fecharam forte, os músculos da mandíbula trabalhando em silêncio.

E senti…

Nada.

Fogo da alma saltou sobre o metal antes de correr a trilha de sangue e adentrá-la. Seus olhos castanhos rolaram para trás, e ela gritou, entretanto somente por um momento. O fogo entrou em seus pulmões um instante depois, terminando de matá-la. Não porque eu estava com raiva, e sim porque ela não importava.

Dispensei os dois espinhos de ferro que invoquei, deixando os corpos caírem no chão, caí contra a parede e deslizei para baixo, sentando no chão. Lá, só podia esperar que a dor e a fraqueza diminuíssem.

Minha atenção se voltou ao quarto.

Havia duas saídas. Por uma porta aberta, via uma pequena sala com uma mesa e prateleiras cheias de pergaminhos e folhas. Após minutos de descanso, me levantei e fui verificar o conteúdo, mas não havia nada de interesse. Isso, no entanto, me levou de volta ao livro aberto na mesa da sala de exame.

As notas estavam em uma taquigrafia rúnica. Folheei várias páginas até perceber o que era e passei mais alguns minutos examinando. Apenas confirmou o que já tinha adivinhado.

Cecilia me salvou. Usou seus poderes de controle absoluto sobre a mana para regenerar meu núcleo depois que Grey o destruiu. Todavia não estava tão forte que nem antes. Com o tempo, talvez pudesse recuperar a força original. Agrona permitiria outra runa ou duas, tinha certeza, o que forçaria meu núcleo a evoluir ainda mais.

“E se não…” Disse alto, mas parei, surpreso que a dormência que senti foi tão capturada na voz. A fraqueza do núcleo e magia me enfureceriam mais tarde, isso era certo, porém agora, no momento, neste lugar, sob os efeitos de tudo o que os pesquisadores fizeram comigo, me senti calmo.

Não, nem calmo. Não sentia… Nada. Exceto, talvez, uma leve sensação de curiosidade.

A segunda porta estava fechada e trancada. Puxei a barra da tranca e a deixei cair no chão, depois abri a porta.

Era um corredor largo e alto. Conseguia sentir o peso da mana de terra pressionando meus arredores. Onde quer que fosse, deveria ser o subsolo. À direita, o corredor se abriu para um grande espaço que parecia uma mistura de um laboratório com uma masmorra. Estive em muitas instalações semelhantes no Taegrin Caelum, sendo cutucado, aberto e testado.

A bile amarga queimou a parte de trás da garganta, e cuspi no chão.

O laboratório não estava ocupado, e não aparentava ter nada interessante nessa direção, então virei à esquerda. Várias fontes de mana irradiaram fracamente, e não tinha pressa de voltar para a fortaleza acima. Os cortes cirúrgicos no meu peito nu coçavam e meu núcleo doía.

Ainda não estava pronto para enfrentar nada disso, nem a decepção de Agrona ou a preocupação de Cecilia. Aqui nas masmorras frias, me sentia em casa na solidão. Era difícil admitir até para mim mesmo, mas apreciava o nada apático que substituiu a raiva sempre queimando em meu peito.

E então segui o caminho, curioso sobre quais segredos poderiam estar enterrados sob o Taegrin Caelum.

As pedras do chão e as paredes estavam ocasionalmente manchadas com marcas de garras e sangue antigo, criando um contraste peculiar. Laboratórios, consultórios e salas cirúrgicas se abriram em ambos os lados, alguns fechados e trancados, outros abertos, mas vazios e desinteressantes.

Então cheguei à primeira cela.

Uma barreira vibratória de força repelente separava a cela do corredor. Dentro da “sala” dez por dez, três mortos anões nus pendurados de cabeça para baixo por ganchos nas pernas. Seus corpos se abriram de maneira grotesca, a carne de suas barrigas afixada com alfinetes e grampos para os lados, revelando que seu torso foi escavado, todos os órgãos removidos.

Examinei os detalhes de seus rostos, procurando em minhas memórias submersas de Elijah por alguma conexão com esses cadáveres.

Os dois homens, não conseguia lembrar, porém havia algo familiar no rosto da terceira figura. Agora, pendurada que nem um pedaço de carne, sua mandíbula desequilibrada e a língua inchada a fazia parecer monstruosa e irreal, mas a memória dela era diferente. Nela, ela era firme, mas não cruel. Uma serva trabalhadora de Rahdeas que me ajudou a treinar quando jovem.

Mesmo que fosse uma professora dura, nunca me bateu ou zombou, ao contrário de muitos aqui. O nome dela… Eu não lembrava.

Me afastei dos defuntos e do desconforto que causavam, ainda não pronto para desistir da impassibilidade que se enrolou em mim como um pesado cobertor.

Cada cela nos corredores continha uma cena semelhante: cadáveres de homens, mulheres, humanos, elfos, alacryanos, bestas de mana e até um homem escalonado e com chifres, que pensei ser um basilisco meio transformado. As celas com mesas contendo pilhas de notas e bandejas de ossos e outras coisas empilhados e numerados, pedaços de carne e ferramentas.

Foi daí que veio o verdadeiro poder dos Vritra: não aceitavam nenhuma barreira à sua busca pelo conhecimento. Nada era muito cruel ou desumano para eles, contanto que avançassem sua compreensão do mundo.

Esse corredor terminou no cruzamento com um outro perpendicular, mais uma vez cheio de celas. Não senti nada de interesse à direita, e assim segui as vagas assinaturas de mana à esquerda.

Prestei atenção na primeira cela que avistei.

Dentro, através da barreira de mana transparente que selava o quarto, uma jovem estava acorrentada à parede. Pela cor laranja ardente dos olhos, a maneira que seus cabelos vermelhos caíam em lençóis lisos feito penas e pela escuridão cinzenta e roxa de sua pele, sabia que ela devia ser uma asura da raça fênix.

“Não tão jovem”, falei para mim mesmo, minha voz soando alta nos corredores silenciosos da masmorra.

A fênix se mexeu e seus olhos ardentes pareceram me engolir. “Não se comparar a você, criança de outro mundo…” Sua voz soava que nem a brasa de carvão aceso. Uma vez já queimou, tive certeza, porém esfriava conforme a própria asura escurecia.

“Você me conhece?” perguntei, genuinamente surpreso.

Ela balançou a cabeça, o único movimento real permitido pelo aperto das grossas correntes negras que a prendiam. “Não, mas sinto cheiro de renascimento em suas muitas células. Você é um reencarnado.”

Minhas sobrancelhas se ergueram e me movi um passo mais perto da barreira de mana. “O que você sabe sobre a reencarnação?”

Inclinou a cabeça um pouco enquanto olhava para mim, de repente me lembrando muito à imagem de um pássaro bastante usado para representar uma fênix. “Minha espécie sabe muito sobre renascimento. Deseja entender melhor o que você é? Trocarei conhecimento pela liberdade, reencarnado. Me liberte e ajude a escapar daqui, e o levarei aos membros mais sábios do meu clã, aqueles que percorreram os caminhos da morte e retornaram.”

Um lampejo da velha raiva queimou sob a pele, e dei um passo para longe da cela. Minha curiosidade murchou. “Não estou interessado em negociar com você, asura, e tenho certeza de que não trabalharei contra Agrona para ajudá-la. Se não quer conversar, pode voltar ao silêncio que está de pouco em pouco a engolindo.”

Sua cabeça caiu no peito quando soltou um suspiro derrotado e depois levantou de novo para que pudesse olhar nos meus olhos. “Vá, então. Vá contra seus desejos em busca da aprovação do basílico louco, animalzinho tolo e chorão. Quando acabar onde estou, talvez entenda.”

A raiva sempre presente se enrolou em torno das minhas entranhas que nem uma serpente do inferno, contudo a empurrei de volta e puxei o pesado manto da apatia para perto de mim. Em vez de me agitar ainda mais discutindo com a fênix, virei as costas e me afastei.

As próximas celas passaram sem que me concentrasse nelas além de reconhecer que continham mais prisioneiros. Ninguém tão interessante quanto a asura, entretanto, me arrependi de ter parado de falar com ela. Suas tentativas de negociar pela liberdade haviam perturbado na hora o meu frágil equilíbrio de emoções, e pude sentir o vazio abençoado sendo devorado pela raiva. Saber disso só acelerou o processo.

Animalzinho tolo e chorão, ouvi na cabeça, repetindo de novo e de novo. A ideia de voltar e matá-la onde estava, acorrentada à parede e indefesa, brotou na mente. Eles me chamariam de “assassino de asuras” se a matasse? Me perguntava, o pensamento servindo apenas para irritar ainda mais meu temperamento.

Não, claro que não. Mas Cadell matou um dragão velho e meio morto, e isso o tornou o “matador de dragões” por mais quinze anos. E se eu fizesse o mesmo? Não, Agrona só me puniria. Mesmo que corresse para ele agora e dissesse que seu prisioneiro estava tentando escapar, ele me repreenderia por estar aqui ou me diria que não importava, porque não envolvia seu precioso Legado.

Parei e fiquei pensativo por um instante.

“Eu não vou deixar você me fazer odiá-la também” disse em silêncio, olhando para o teto como se visse através das toneladas e toneladas de pedra que nos separavam naquele momento.

Tudo o que fiz por ele nesta vida foi para garantir a reencarnação de Cecilia.Tudo. Nada importava, exceto que tínhamos uma chance de viver juntos além deste mundo. Agrona cuidaria disso…

“Vá contra seus desejos”, falou ela. “Você vai entender.”

Meus pés começaram a se mover por conta própria, seguindo o corredor, enquanto pensamentos preenchiam meu crânio.

Algo estava diferente dentro de mim. Minha mão subiu até meu esterno e os dedos pressionaram a carne ainda se curando, todavia, não era meu núcleo que sentia. Parecia… Uma porta se abrindo, deixando uma brisa quente soprar pelos cantos escuros da mente. Do mesmo jeito que as memórias de Elijah — memórias enterradas e suprimidas há anos —, eu estava sentindo e lembrando as coisas de maneira diferente do que antes do Victoriad.

O que quer que Cecilia tenha feito, alterou mais do que apenas meu núcleo.

Tinha quebrado os feitiços de Agrona.

Um pensamento monótono e deslocado me agarrou. Quanto do que está em mim sou eu, e quanto é Agrona?

Entendia seu poder, sabia que ele havia usado comigo diversas vezes, mas isso sempre pareceu uma coisa boa. Nunca bebi álcool, porém vi pessoas se entregando por completo a ele, afundando em uma garrafa para aliviar a dor do passado e esquecer. O poder de Agrona era algo assim.

Agora, olhando para trás com a cabeça limpa…

Cecilia…

Eu fiz isso a ela. Deixei-o mexer com a mente dela — o ajudei, ofereci sugestões, fiz exigências…

Fiquei tonto e caí contra a parede entre duas celas.

Queria tanto que ela confiasse em mim que implorei a Agrona para implantar essa confiança em sua mente; para mudar até as memórias de nossa vida passada juntos. Tudo o que eu sempre quis foi estar com ela, mantê-la segura e dar a ela uma vida livre da dor e da tortura que suportou por causa de sua piscina de ki, porque alguns idiotas diziam que ela era algo chamado de “Legado”. Entretanto não confiei nela. Nunca confiei nela para poder cuidar de si mesma, para saber o que era melhor para si mesma.

Ela precisava saber. Eu tinha que contar a ela.

O escudo de mana mais próximo zumbiu horrivelmente quando o ocupante da cela se pressionou contra ele, e pulei para trás, o coração acelerado.

Tive que apertar os olhos e esfregá-los para ter certeza de que via as coisas corretamente.

“Por favor, diga a Agrona que sinto muito. Foice Nico, diga a ele, diga a ele que vou compensá-lo, eu prometo!”

“Soberano… Kiros?” perguntei, chocado.

O grande asura vestia trapos esfarrapados, e o cabelo estava sujo e desgrenhado em torno dos chifres, cujos pontos crepitavam de energia onde tocavam a barreira de mana que o continha.

“Você vai dizer a ele, vai?” Seus olhos vermelhos brilharam, e a pupila se estreitou em fendas e escamas douradas que ondulavam em sua pele. “Diga a ele!”

Era simplesmente demais. O peso das memórias — um tumulto conflituoso da vida passada, Elijah e a vida em Alacrya — de culpa, da fúria e do terror dos asuras ameaçaram me despedaçar, então me virei e corri. Corri de volta ao longo do corredor, correndo feito uma criança nas ruas, sendo perseguido por algum lojista ou guarda da cidade bravo, porque roubei um livro ou um punhado de frutas…

As celas passaram ao meu lado. O corredor parecia se desdobrar ao redor, se separando e me deixando exposto, o santuário de escuridão fria de repente uma armadilha que não podia escapar.

Corri até parar, respirando com dificuldade, e cheguei ao fim.

O mundo pareceu voltar ao lugar. O medo, a ansiedade, a frustração e a autoaversão ainda estavam lá, se agarrando a mim como um milhão de pequenas aranhas, mas cada respiração empurrava mais do pânico para fora, e o desejo de fugir se transformava em uma fadiga profunda. Se não fosse pelo que via, teria me deitado e fechado os olhos no chão.

Mas não conseguia tirar os olhos da cela à frente.

Devia ter passado pelo cruzamento dos corredores anteriores e seguido o caminho da direita sem perceber. No final havia uma enorme cela, pelo menos de seis metros quadrados e meio.

A forma enrolada de um dragão crescido encheu o espaço. Suas escamas brancas brilhavam na luz suave que inundava a cela, e a maneira que sua enorme cabeça descansava nos braços dianteiros fazia parecer que ela estava dormindo.

Mas… Não sentia nenhuma mana ou intenção dela. E não havia subida e descida constantes de seu corpo, nenhuma expansão e contração de respirações, mesmo as rasas. Ela estava cem por cento imóvel.

Nas minhas memórias de Elijah que ressurgiam, encontrei uma descrição familiar para este asura. Arthur me contou tudo sobre o dragão ferido que salvou sua vida e deu a ele o ovo de Sylvie. Pisando para o lado e me agachando, podia apenas ver a ferida antiga que marcava o seu peito. Em torno dele, as escamas foram removidas, todavia não via bem o suficiente para adivinhar o que mais os pesquisadores poderiam ter feito com o corpo.

“Vovó Sylvia.” O nome escapou dos meus lábios sem querer, contudo, logo quando ouvi, tive certeza de que estava correto.

Puxado por uma curiosidade mórbida, subi até a barreira de mana e descansei a mão contra ela. A barreira resistiu. Empurrei mais forte, imbuindo fogo da alma, e apesar da dor, a barreira ondulou e se afastou das chamas. Entrei, e ela se fechou mais uma vez ao redor do buraco que fiz.

Uma oscilação tonta sacudiu todo o meu corpo, cambaleei para frente e me toquei que estava no nariz frio do cadáver.

Havia algum tipo de magia poderosa na sala. Apertei os olhos com força contra a vertigem, esperando que passasse. Quando enfim passou, caminhei em círculos devagar ao redor da sala.

Runas finas foram gravadas no chão, paredes e teto. Uma estrutura complexa de feitiços estava entrelaçada para manter a barreira, entre outras coisas, mas eram tão complicadas que não entendi tudo o que faziam. Parte do feitiço, no entanto, manteve uma espécie de estase dentro da sala, impedindo que o que estivesse lá dentro apodrecesse.

Várias mesas foram deixadas na parede dos fundos, embora estivessem quase que vazias. Um grande pergaminho encadernado estava aberto na primeira página, que dizia: “observação sobre os restos do dragão Sylvia Indrath”.

Uma etiqueta de tecido marcava uma mancha cerca de um terço da distância para o tomo. Quando a puxei, o pergaminho pesado se abriu para uma segunda página. Esta dizia: “observações sobre a fisiologia dos dragões, núcleos e manipulação do éter.”

Ao lado do livro, apoiado em uma estrutura de metal, havia um objeto redondo do tamanho de dois punhos juntos.

A esfera branca tinha uma textura orgânica um pouco áspera na superfície e era meio transparente, revelando um leve tom roxo no interior.

Um núcleo. O núcleo de um dragão. O núcleo de Sylvia Indrath.

Parecia vazio e sem vida, como se qualquer indício de mana que uma vez pudesse ter sido contido dentro tivesse sido varrido. A Vontade foi dada ao Arthur pouco antes de sua morte. Então, o que era isso? Poderia ser nada mais do que um órgão vazio, morto, tipo um coração com todo o sangue fora dele?

Estendendo a mão, deixei meus dedos roçarem a superfície, e um choque brilhante percorreu meu braço.

Minha visão mudou, revelando partículas de energia se movendo dentro e ao redor do núcleo, feito vagalumes roxos brilhantes.

Tirei a mão e as partículas desapareceram. Com cautela, a estendi e pressionei uma ponta do dedo contra o núcleo. Mas… Nada aconteceu. A visão não reapareceu. Sem partículas roxas, sem visão ondulada.

Com cuidado, peguei o núcleo e o virei. Era muito leve, quase sem peso, porém a superfície era dura e inflexível. Não coloquei qualquer pressão com medo que fosse frágil. Não podia explicar por que, mas não queria quebrá-lo. Também não queria deixá-lo aqui neste lugar frio, esquecido e abandonado. Embora não tivesse ideia do que faria com ele, tomei a decisão imprudente de tomá-lo para mim. Com um pulso de mana, ativei meu anel dimensional e o escondi.

Este pequeno ato rebelde me aliviou, ajudando a amortecer a inundação esmagadora de emoções que senti há somente alguns minutos.

Com um sorriso conspiratório ao observar o corpo do dragão, saí da cela, sentindo menos tensão desta vez, e comecei a procurar meu caminho para sair da masmorra e voltar para Taegrin Caelum.

Precisava encontrar Cecilia.

Tínhamos que conversar.

Comentários

  1. Jupiter disse:

    Cheguie nos atuais mano, que dorga ksksks
    Mas ta muito bom

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