The Beginning After The End – Capítulo 399

Um Caminho Divergido

O ar da Savana de Cerulean, lar do clã Thyestes, era quente e seco, mas uma leve brisa sempre soprava sobre as pastagens, fazendo o grande mato azul-esverdeado dançar feito ondas. Chamávamos de “vento do guerreiro”, um fenômeno mágico invocado há milênios, para garantir que os panteões treinando na savana quente sempre tivessem um vento para refrescá-los.

Eu podia ver o local por muitos quilômetros em cada direção do meu ponto alto, sobre os telhados de azulejos azuis do Armistício. Nossa extensa aldeia seguia em tons de vermelho e azul a partir do centro da savana Cerulean, e era o lugar que todos os panteões consideravam ser seu lar, mesmo aqueles de outros clãs que nunca viveram ali. Era o coração de toda a nossa raça.

“Por acreditar que nunca mais a verá, posso relevar o jeito que devora esta visão, velho amigo.”

“Compartilhar tais falas não me traz consolo, lorde Thyestes,” falei, desviando meu olhar que estava longe no horizonte, para focar no lorde panteão de muitos olhos. “Mas temo que seja assim.”

Os quatro olhos da face de Ademir se concentraram em mim, enquanto os dos lados de sua cabeça se moviam rápido, rastreando até o menor movimento ao redor. “Está pronto para me dizer por que deixou o Castelo Indrath, então?”

Acalmei a respiração e ajustei a postura, que estava se desajeitando. Um sinal dos meus conflitos internos, pensei.

Nós dois estávamos muito acima do chão, equilibrados com cuidado em cima de grandes hastes mais finas do que o meu mindinho. Uma espiral delas enchia o pátio central do Armistício. As menores e mais grosas ficavam do lado de fora da espiral, e cada uma ia afinando e crescendo mais até chegar à central, que era delicada como uma agulha.

Estávamos a várias hastes de distância das centrais, um frente ao outro, com ele em uma maior e mais fina. Embora eu pudesse ir além, falar de cima de meu lorde seria um ato de desrespeito.

Por tradição, o panteão superior também escolheu a pose de treino. Ele optou pela pose relativamente simples do “dançarino laminado”. Imitando ele, balancei em um dedo do pé direito e estiquei a outra perna em um ângulo descendente atrás de mim com os dedos do pé apontando para o chão. Minhas mãos estavam se apoiando em todo o meu corpo, uma baixo do meu esterno, e a segunda acima de meu estômago.

“Meu serviço a Kezess terminou,” falei prolongando um pouco a última sílaba. Então fiz uma longa pausa para pensar nas próximas palavras. “Não sou uma espada para ser usada como bem entender.”

Ele saiu da postura apenas em tempo suficiente para afastar uma mosca caçadora venenosa e depois deslizou sem esforço de volta. “Poucos asuras podem se lembrar do tempo antes de Kezess Indrath forjar os Oito Grandes e unir os clãs. Epheotus era um local repleto de guerras e mortes intermináveis, um mundo selvagem e indomável cheio de catástrofes ambulantes, como por exemplo a montanha viva, Geolus. Dizem que a própria Savana de Cerulean foi achatada por panteões utilizando a Devoradora de Mundos na batalha contra os dragões e hamadríades.

“E Kezess há muito tempo leva o crédito por acabar com essa era, proibindo o uso da técnica por causa de seu histórico. Seu uso quase destruiu nosso clã, raça e todo o continente. Ela não destrói só o mundo, mas também o usuário. Os panteões da época perceberam que seria melhor viver em subserviência do que morrer entre os escombros de nosso mundo destruído.”

Uma verdade repentina se revelou, e o conhecimento deixou uma estranheza amarga e fria em minhas entranhas. “Lorde Indrath se recusou a permitir que nosso clã se esquecesse da técnica. Ele exigiu que pelo menos um do clã sempre possuísse o conhecimento dela, para que pudesse usá-la se necessário.”

Ademir não respondeu. Não precisava.

Me lembrei da minha formação, do peso esmagador do meu orgulho ao trabalhar durante décadas para assimilar as informações da habilidade. O jovem e ansioso panteão que se considerava um guardião justo, protetor do conhecimento sagrado proibido, de seu clã, povo e de Epheotus inteira.

No entanto, esse orgulho me tornou fácil de manipular.

Assim como o jovem Taci.

Porque Kezess precisava que estivéssemos dispostos a usá-la se ele ordenasse.

“Receio que devo deixar Epheotus,” As palavras soaram tão cansadas quanto eu me sentia.

“Eu sei,” respondeu. Sua cabeça girou de leve e um olho roxo brilhante parou de se mexer sem parar, se concentrando em algo. Segui a linha do seu olhar, até avistar Wren correndo em direção à base das hastes de equilíbrio, acenando com a mão para chamar minha atenção.

Ademir deixou a pose de dançarino laminado e se acomodou em uma pose de descanso. “Não vou insultá-lo agindo como se tivesse alguma sabedoria para compartilhar com você, Aldir. Você é um modelo da nossa raça.”

“Obrigado, lorde Thyestes.” Então, vendo a agitação de Wren, pedi licença antes de me inclinar e cair. Usando do meu impulso, cheguei de maneira suave no chão duro. “O que foi, Wren?”

Ele estava com a mandíbula endurecida como pedra e falou rigidamente. “Meus golens viram uma força de dragões em movimento pela savana, liderada pelo seu velho parceiro Windsom. Algo a respeito de seus rostos pálidos e a forma que os joelhos deles tremem a cada passo me diz que não vieram em paz, por mais que aparentem não estar animados. Acha que, por algum acaso, isso tenha algo a ver com você?”

“Dragões? Marchando no Armistício?” Grunhiu o irritado Ademir, pousando ao nosso lado. “Agora, de todos os momentos possíveis? Se ele acha que vou deixar esse ultraje de lado—”

“Paz, amigo,” falei, tocando meus olhos fechados e descansando a mão sobre o peito dele. “Peço a sua palavra, Ademir. Não envolva o clã, seja qual for o resultado. Não estão aqui pelos Thyestes.”

“Podem vir atrás de um, mas vão encontrar todos, Aldir,” disse com firmeza, começando a se afastar de mim. “Nenhum membro do clã vai—”

“Então deve me banir.”

Ele foi pego tão desprevenido pela interrupção, que levou vários segundos para compreender minhas palavras. Ele bufou, mas não se mexeu e nem falou.

“Lorde Thyestes, eu dei cada momento da minha vida muito longa — sacrifiquei tudo fora dos meus deveres — para proteger meu clã e povo.” Movi a mão para atrás do pescoço dele, e o puxei até que nossas testas se tocassem. “Agora, estou preparado para ser exilado por opção e fazer o mesmo. Mas precisa me deixar.”

Sua mão descansou em meu antebraço por um momento, então se afastou, possibilitando a visão do sofrimento marcando seus traços normalmente calmos. Vários segundos se passaram, e o senti reunir forças.

“Então vá. Você… Está banido, Aldir. Está banido deste lugar e deste clã.”

Conforme proferia as palavras, um fogo abrasador rasgou a carne do meu pescoço: a Marca dos Banidos. Era um símbolo físico da falta de um lugar para mim no Armistício ou na Savana de Cerulean. A dor era diferente de tudo que já senti antes, entretanto não me permiti expressá-la além de ranger os dentes.

“Nenhum panteão em Epheotus o ajudará.” Sua voz ficou áspera e emocional quando disse o resto. “Mas saiba que ainda pode encontrar ajuda e socorro, se precisar. Caso procure repouso no mundo dos menores, vá ao lugar chamado de ‘Clareiras das Bestas’ em Dicathen. As antigas masmorras lá ainda contêm muitos segredos, e talvez até assistência a quaisquer filhos e filhas rebeldes do Armistício.”

O caminho que vivi foi longo e extenuante, porém eu sempre soube que ele terminaria aqui, no Armistício. Mas esse futuro agora havia sido mudado. Apesar de ter pedido por aquilo, fiquei por um momento desorientado e à deriva, isolado do próprio futuro e destino.

No mínimo, isso me libertava do fardo de ensinar a Devoradora de Mundos para outra pessoa, percebi isso depois de uma reflexão.

Wren se moveu, seus olhos inteligentes me lendo tão claramente como se eu fosse uma das tapeçarias de história no Castelo Indrath. Para um ser tão velho quanto eu, o novo era um conceito difícil de entender.

Mas eu não estava sem rumo. Sabia bem para onde iria em seguida, por mais que não entendesse o que poderia vir dessa jornada.

Com uma reverência final a Ademir, que não conseguia mais me olhar nos olhos por não ser mais um Thyestes, me virei saindo daquele campo de treinamento e fui às ruas grandes e lotadas do Armistício. Muitos tentavam disfarçar seus olhares enquanto eu caminhava pelas casas, pátios de treino e comércios, todos os quais agora haviam se fechado para mim. Ninguém me desejou adeus, boa sorte ou boa saúde e força, como era tradição.

Doeu mais do que imaginei. Minha falta de respeito por Kezess e suas decisões fomentou o ódio dentro de mim naquele momento. Quando usei a Devoradora de Mundos, sacrifiquei a honra e orgulho. Isso já foi ruim o suficiente, mas agora ele tomou meu lar e legado. Nunca perdoaria o senhor dos dragões.

Foi com esse fogo amargo e furioso ardendo dentro de mim que atravessei a fronteira do Armistício, porém foi o medo que me impediu de olhar para trás; o medo de que a perda tirasse todas as forças que tinha.

A vegetação da savana crescia até a altura dos ombros em ambos os lados do caminho bem trilhado, chicoteando seu ciano, turquesa e azul-petróleo para frente e para trás ao vento do guerreiro. As pastagens não pareciam mais um oceano suave, e sim dez milhões de lanças marchando comigo em direção ao meu amigo mais antigo e querido entre os dragões. Era interessante, pensar que agora ela estava ao meu lado.

Não demorou muito para os encontrar. Tive um pequeno prazer vingativo ao ver uma dúzia de soldados dragões pararem de repente, como se suas pernas não os levassem mais perto de mim. Windsom, que os liderava, ergueu o queixo e pôs a expressão mais fria possível em seu rosto, esperando que me aproximasse.

“Aldir do clã Thyestes, fui enviado para—”

“Não mais dos Thyestes,” falei formalmente, cortando seu discurso arrogante. “Fui banido.”

Os olhos de Windsom se estreitaram. “Uma proteção conveniente aos membros do seu clã, mas também simplifica as coisas para o lorde Indrath.”

“Você está aqui para me prender e me levar de volta para receber o julgamento de Kezess,” disse, dando um passo mais perto. A magia começou a me conectar à minha arma, Silverlight, formigando na ponta dos meus dedos.

Os soldados passaram a segurar mais firmemente suas armas.

A expressão dele permaneceu impassível. “Só se não nos der escolha. Lorde Indrath exige sua presença de imediato, e estamos aqui para obrigá-lo.” Suas sobrancelhas arquearam e ele se endireitou ainda mais, sua mana inchando em uma pobre imitação da verdadeira Força do Rei. “Terá violência, se necessário, embora lorde Indrath e eu acreditemos que você virá pacificamente.”

Analisei os rostos dos soldados; conhecia todos. Brawny Tassos, que salvei de um cavaleiro flamejante fênix durante as lutas depois do desaparecimento do príncipe Mordain. Os gêmeos Alkis e Irini foram treinados por Kordri desde que eram crianças. Fiquei surpreso ao ver Kastor, um dos guardas particulares da senhora Myre, o que não ocorreu ao ver o espantoso Spiros, que rebaixei por sua atitude insensível e amarga em relação aos outros clãs e que me odiava desde então.

A mesma coisa com os outros. Eu os conhecia. Eu os treinei, lutei com eles, os comandei.

Foi por isso que ele escolheu esses dragões. Não por causa de sua força — apesar de serem fortes sim, cada um de seu jeito — mas porque serviram e lutaram ao meu lado.

No fim, os anos de serviço não valeram nada. Eram iguais a Windsom: leais de corpo e alma a Kezess, e usavam sua lealdade para garantir que não vissem nada além do que ele desejava.

Agora, ele semeou medo entre eles, e vi isso em seus olhos. Estavam prontos para lutar comigo, contudo com medo. Como deveriam estar.

A ira se ergueu que nem uma serpente do inferno dentro de mim de novo. Pensei ter cortado laços com a morte. Depois de Elenoir, não tinha nem o coração, nem estômago para acabar com mais vidas, ou pelo menos foi o que dizia para mim mesmo. Neste momento, olhando para amigos e aliados, cada um deles pronto para dar suas vidas protegendo as mentiras de Kezess, tomei uma decisão.

Se não valorizavam suas vidas, por que eu valorizaria?

“Eu não vou voltar nem por escolha e nem pela força.”

Windsom não pôde suprimir toda a sua surpresa. Seus olhos se arregalaram e seu pé direito deslizou para trás meio passo, e a aura que emanava vacilou. “Você mudou, meu velho amigo. Não vejo nada do grande general Aldir que você já foi.” Virando-se para Spiros, assentiu. “Vivo, se possível, mas lorde Indrath prefere ter seu cadáver do que nada.”

“Mas, lorde Windsom, você nos garantiu que—”

A pergunta de Irini foi interrompida quando Spiros avançou com sua lança curta e gritou: “Derrubem-no!” Então os soldados se moveram, quebrando em formações de quatro pessoas, com Spiros, Tassos e dois outros se aproximando primeiro.

A Silverlight brilhou na forma de uma cópis curva, e avancei contra a investida de Spiros. A lâmina acertou a lança dele, que puxei para cima para bloquear um corte descendente da espada de duas mãos de Tassos. Uma longa lança acertou minhas costas e rasgou o tecido da túnica enquanto eu girava, e um chicote em chamas surgiu e envolveu meu antebraço.

Virando, joguei os dois para trás, arrancando o chicote de mim.

O impulso da lança longa veio mais uma vez, mas Silverlight saiu e acertou o cabo, cortando-a em dois.

O tempo começou a desacelerar.

Uma das soldadas com Alkis e Irini estava brilhando com runas douradas ao longo de sua pele bronzeada. Outro estava entre ela e eu, empunhando duas lâminas curtas em forma de folha erguidas defensivamente. Os gêmeos estavam cada um em um lado do outro par, com as armas em riste, mas estavam focados um no outro, parecia que os dois compartilhavam alguma comunicação silenciosa.

Em frente a eles, tendo circulado ao meu redor, os últimos quatro dragões estavam se transformando. Suas formas físicas cresceram, esbarrando uns nos outros, escamas correndo sobre seus corpos e feições humanoides se tornando reptilianas e monstruosas.

Vi apenas flashes de cores: branco e dourado, azul e preto, verde esmeralda e o laranja ardente de fogo distante, antes de voltar à ameaça mais próxima.

A ponta da lança cortada ainda estava no ar. Peguei nela, desviei e a deixei voar pro olho esquerdo do dragão coberto de runas. As lâminas gêmeas defensoras apareceram e derrubaram o projétil, porém não antes que os olhos do dragão coberto de runas se fechassem.

Minha assinatura de mana derreteu ao canalizar o Mirage Walk. Antes que o feitiço aevum da oponente tomasse forma, imbuí mana em todas as células do meu corpo e saí do meio de meus agressores, passando pelas lâminas gêmeas, chegando ao lado do dragão com runas. Seus olhos se abriram assim que Silverlight perfurou seu núcleo.

O peso lentamente crescente do feitiço de parada de tempo estalou feito uma corda desgastada. Girando, joguei o dragão nos seus protetores, os derrubando.

A rapieira pulou da minha mão e cortou o chicote em chamas, cujo fim caiu na terra e se contorceu feito uma serpente agonizando. Ao mesmo tempo, uma sombra apareceu sobre o campo de batalha.

Os dragões agora transformados por completo rodavam no céu acima. A maior, com suas escamas brilhantes brancas e douradas, abriu suas mandíbulas e soprou um cone de fogo azul tingido de roxo com éter.

A rapieira voltou à mão e cortei o ar enquanto invocava as artes de mana do tipo força da minha raça. As chamas foram cortadas em dois, e os soldados ao redor foram forçados a se esquivar devido ao fato do ataque queimar o chão nas laterais. O dragão branco e dourado se agitou e dobrou as asas, mergulhando para evitar meu ataque.

Manobrando, esculpi um grande arco à minha volta, projetando uma força cortante. A savana ressoou com o barulho de martelos caindo no aço quente quando a força acertou as armas infundidas de éter deles.

Todos, exceto o homem com as lâminas em forma de folhas gêmeas.

Meio de pé, furioso, olhando a companheira morta, ergueu suas lâminas tarde demais e recebeu meu ataque diretamente no peito, atravessando a armadura e cortando a carne. Senti a mana dele cintilar e desaparecer antes de seu corpo cair no chão. Um momento depois, a mulher com runas também sumiu.

Isso… Isso era mais uma crueldade que eu colocaria nas costas de Kezess. Essas mortes foram tanto trabalho dele quanto meu.

“General Aldir, por favor, pare com essa loucura!” Gritou Irini, ao lado da estrada. Ela se jogou na grama sempre em movimento para evitar o fogo do dragão e seus braços e pernas sangravam. “Nós só queríamos — hurk—”

Uma lâmina de grama ciana perfurou seu crânio graças ao vento do guerreiro. Seus olhos rosados e enevoados olhando para mim aterrorizados piscaram, então aquele “mato” a cortou mais ainda, a rasgando em pedaços.

A savana estava queimando, percebi. O fogo do dragão a incendiou, e ela estava lutando de volta. Defendendo a si e aos panteões.

“Irini!” gritou o irmão, sua voz quebrando. Correu para ela sem representar ameaças para mim, e desviei o foco.

Dois dos dragões transformados mergulharam de direções opostas, um soltando uma bola de fogo azul da boca, e o outro um raio branco. Escondido dentro do turbilhão de feitiços, senti a lança de Spiros assoviando no ar, e de outra direção o chicote estalou e cortou em direção às minhas pernas.

Com Mirage Walk já ativo, pude ir instantaneamente de um lugar para outro, evitando sem dificuldades os ataques. Ou melhor, deveria ter sido capaz de fazer isso, todavia quando tentei, me senti batendo contra uma barreira invisível. Meu ombro se deslocou por conta do impacto, e tropecei de volta para trás.

A lança me acertou logo abaixo do esterno. Com um brilho roxo, o éter infundido dentro dela perfurou a mana. A dor viajando pelo meu corpo e se alojando perto da coluna não era nada em comparação com a marca ainda queimando no pescoço.

Caindo em um joelho, peguei a ponta da lança com uma mão e levantei a rapieira sobre a cabeça com a outra.

Uma esfera transparente de luz fria me envolveu assim que sopros dos dragões convergiram.

O fogo e relâmpagos foram esmagados na barreira, e a Silverlight tremia conforme bebia desesperadamente mais da minha mana. Ondulações atravessaram o escudo, o despedaçando.

Fui para cima, correndo da explosão do raio. Com um grito, o dragão azul e preto em meio ao seu sopro, fechou as mandíbulas e se afastou de forma brusca.

Um instante depois, Silverlight cortou o ar, formando outro amplo arco de força de corte. O sangue explodiu da barriga do inimigo, e ele cambaleou para o lado antes de cair na savana, onde a grama ganhou vida, transformando o azul e verde em carmesim escuro.

Garras curvas feito cimitarras se fecharam em mim, prendendo meus braços. O maciço volume de um dragão verde esmeralda apagou o céu acima, e nós dois começamos a tremer.

“Vá, Kastor!” A branca e dourada gritou, e entendi.

O tremor se tornou uma vibração, e as escamas assumiram um brilho ametista.

Kastor estava nos teletransportando de volta à base do Monte Gelous.

Soltei a arma e tateei até o final de uma das grandes garras. Quando encontrei uma, torci o pulso, resultando em um som de estilhaçamento quando a garra quebrou em meu aperto. Kastor se encolheu e as garras restantes se fecharam com força. A dor substituiu toda a sensação no meu braço esquerdo, que se separou do corpo e caiu, levando a Silverlight com ele.

Quando ela caiu, girou e voou um pouco acima de mim e cortou o tornozelo de Kastor. Ainda parcialmente contido no aperto da garra decepada, despenquei. Spiros se arremessou em mim, numa forma parcial que lhe dava escamas pretas brilhantes e asas largas que surgiram de suas costas. Seus olhos queimavam violeta escaldante, e o fogo tremeluzia entre presas alongadas.

Me livrei da garra e fui de cabeça ao impulso selvagem. A Silverlight estava de volta e riscou uma linha vermelha e sangrenta do ombro de Spiros até o quadril.

No mesmo movimento, continuei com um corte pequeno e certeiro, cuja força cortou tudo entre mim e o chão, incluindo Urien do clã Somath, que explodiu em uma chuva de sangue.

Com um puxão feroz, tentei me ajeitar no ar, atingindo o chão. Bati forte, usando a força para levantar uma nuvem de poeira a fim de me ocultar, nem que fosse por um momento, enquanto rastreava as assinaturas de mana dos dragões restantes.

No chão, Tassos e o dragão com lança longa, Orrin, ambos do clã Indrath, estavam ombro a ombro à esquerda. À direita, ao longe, Windsom caiu bem longe do combate. Alkis havia desaparecido na savana, tinha certeza.

No céu, podia ouvir Kastor xingando de dor, e os outros dragões se mantiveram circulando o campo de batalha.

“Vamos acabar com isso” murmurei, não falando com nenhum deles em particular. “Não tem necessidade de o resto de vocês morrer também.”

“Traidor!” Tassos gritou, a palavra rolando como um trovão pela savana.

Através da fúria fria, senti meu coração bater com dor. Isso, vindo de um guerreiro cuja vida salvei uma vez e que jurou retribuir o favor algum dia, sorrindo com a dor de sua carne crescendo sobre membros queimados…

Nenhum deles podia ver o que eu via?

Não, claro que não. Nem eu vi, não até que Kezess me forçou a usar a técnica da Devoradora de Mundos. Até então, o seu controle sobre o meu ver do mundo era absoluto, um véu tão sutil e etéreo que não podia ser visto ou tocado.

Teria sido melhor se pudesse mostrá-los. Talvez outro alguém possa quebrar o feitiço dele um dia. Contudo, já que não seria eu, era tarde demais para eles.

Sentindo os arredores, senti as paredes desta vez antes de utilizar o Mirage Walk. Distorções no próprio espaço, invisíveis para todos os sentidos, exceto o instinto panteão. Um dos dragões estava utilizando éter para bloquear as explosões quase instantâneas de velocidade permitidas pelo Mirage Walk, a habilidade “secreta” do clã Thyestes.

Mas, claro, quando todos os clãs responderam a Kezess, não havia segredos dos dragões.

A Silverlight mudou de forma, tornando-se uma longa lança prateada ornamentada, e empurrei a barreira invisível. Embora a capacidade deles de influenciar o éter os tornasse a mais forte de todas as raças, não o controlavam. Criar algo sólido, como um bloqueio, era um uso sutil de sua influência que até o mais forte dos detentores do éter lutaria para manter contra a aplicação da força pura.

A barreira se quebrou. Bem acima, o dragão de ouro branco rugiu de surpresa e dor.

Tassos já estava se movendo, as duas mãos irradiando um brilho preto e púrpura que parecia atrair a luz. À direita, Kastor vinha semelhante a uma estrela negra.

Tassos era forte, um dos dragões de físico mais poderoso que comandei. Sua capacidade de influenciar o éter em sua arma o tornou um combatente mortal. Todavia treinei e lutei ao seu lado e conhecia suas habilidades melhor do que ele mesmo.

Toda a sua força estava atrás do mergulho aéreo, apontada para o meu pescoço com força suficiente para quebrar qualquer defesa. Atrasei minha investida para frente, canalizei o Mirage Walk e dei um único passo.

Feito uma cobra soberana golpeando, ele reposicionou a lâmina, a puxando com força em uma manobra rápida de impressionar. Se tivesse dado um passo em direção a ele, receberia um golpe fatal.

Dei somente meio passo, o suficiente para me tirar do alcance do corte original. Esse pequeno passo ocorreu com tanta velocidade e ímpeto, no entanto, que quando liberei a Silverlight, ela voou como se tivesse sido disparada de um arco divino.

A boca de Kastor se abriu para desencadear uma rajada de relâmpagos, e a minha arma acelerou em sua garganta, o desabando no chão, as asas verdes escuras se estilhaçando. A luz difusa da savana brilhava nos restos das escamas de esmeralda do pescoço distorcido.

Tassos sibilou de raiva e frustração, sua lâmina ardendo. Ao seu lado, Orrin Indrath ergueu os punhos cerrados, e mana começou a surgir ao meio deles.

Uma fumaça doentia e doce flutuava pelo caminho da savana ardente.

Um dragão rugiu no céu.

A terra tremeu.

Um anel de terra perto de mim desmoronou, caindo em um vazio infinito abaixo. O vento gritante veio fervendo do tal vazio que nem um dos animais elementais antigos que vagaram uma vez em Epheotus, girando o pilar estreito da terra em que estive em uma cela.

Dentro do furacão furioso rasgando para cima da fenda do mundo, os planos quase invisíveis de éter spatium moldados eram vistos.

Através do vento e do éter, pude ver o suor brilhando na testa de Orrin e o tremer de seus punhos com esforço.

O feitiço da prisão do vazio não era uma façanha qualquer. Abrir um buraco para o vazio era perigoso, na melhor das hipóteses, mas canalizar seu poder era prejudicial a todos, exceto aos manipuladores de mana mais talentosos. Orrin sempre se irritou com sua posição de guarda e soldado e sempre quis se destacar.

Um dragão tinha que chegar ao alto para se destacar no topo do Monte Gelous. Este, ao que parece, foi longe demais.

Estendendo minha mão, invoquei a Silverlight do fundo do cadáver de Kastor. Girando a agora lança, perfurei o círculo de terra sob meus pés, projetando uma onda de força profunda no chão.

O pilar, esculpido pelo feitiço dele, se estilhaçou e se partiu em pedaços antes de cair no vazio. Voei para cima, pairando, lutando contra a crescente atração do vazio devorando tudo. O vento subia e subia e subia, e ficava cada vez mais difícil ficar lá em cima. Porém a situação estava aumentando muito mais que o previsto do feitiço.

O rugido do vento era muito alto para ouvir qualquer coisa, entretanto o jeito que os dois dragões transformados rodavam em pânico e a maneira que todo o corpo de Orrin tremia deixava na cara que ele estava lutando e falhando para controlar o feitiço.

Devagar e dolorosamente, comecei a ser arrastado de volta. Meu ataque interrompeu a forma da magia, a tornando instável. Após um tempo, o domínio de Orrin desmoronaria, mas não ajudaria muito se já tivesse sido absorvido. E então refiz a arma, que se tornou uma esbelta rapieira de novo e deixou um arco prateado no ar onde cortou.

Sob mim, o vazio se agitou, e o nada meio roxo e meio preto se contraiu e mexeu ao devorar a força do meu ataque. Estoquei e cortei, cada golpe indo bem além do alcance da Siverlight, derramando cada vez mais força e mana na escuridão.

As paredes do vento estavam ficando cada vez mais instáveis. A forma de Orrin ficou mais indistinta, as bordas borradas.

O feitiço quebrou.

A magia rasgou a sua forma física até um nível celular, nada restando além de uma nuvem de sua mana purificada, e mesmo isso logo desapareceu na atmosfera.

Fui deixado pairando sobre um fosso profundo e circular que terminou em uma rocha quebrada e áspera a cerca de trinta metros do chão.

Tassos olhou, boquiaberto, para o lugar onde seu primo havia deixado de estar. A rapieira avançou e seu pescoço se abriu com um jato de sangue. Ambas as mãos se dirigiram à garganta, contudo não conseguiram impedir que o vermelho passasse por seus dedos. A espada caiu no chão, o brilho etéreo sumindo.

Os dragões voadores recuaram, um dourado e branco, e o outro laranja, vermelho e amarelo de um nascer do sol, os dois irradiando uma poderosa aura de medo ao circular no céu.  “O que fazemos?” O de ouro gritou.

“Acho que já vimos o suficiente” afirmou Windsom, fingindo tristeza. “É claro que o outrora poderoso e leal Aldir Thyestes foi perdido para a loucura. Voltaremos com uma força maior.”

Voei em direção a ele, subindo lentamente para que o olhasse confortavelmente.  “Nunca deveríamos ter continuado seguindo Kezess depois daquilo com os djinns, parceiro.”

O seu nariz enrugou.  “Lorde Indrath.”

“Deveríamos ter visto o que ele era. Temos a chance de fazer isso agora. Acerte as coisas.”

Ele balançou a cabeça e franziu a testa.  “Você somente provou ser muito fraco para cumprir o dever que foi atribuído.”

Não esperava que ele mostrasse remorso ou mudasse de ideia, mas ainda sentia a dor de se arrepender e perder sabendo que agora éramos inimigos.

Não houve mais troca de palavras. Ele conjurou um portal e o atravessou. Os dois dragões sobreviventes se viraram e voaram para longe em alta velocidade, e eu os deixei ir.

O movimento à direita me pegou desprevenido, porém era apenas Wren em seu trono de terra flutuante.

“Isso é o que Kezess queria” disse com um suspiro, falando tanto para mim quanto para Wren. “Que o sangue fosse derramado, para que ele me fizesse de monstro e corroer qualquer apoio que eu pudesse ter permanecendo em Epheotus.”

“Bastante adequado para aquele sociopata funcional usar os mesmos soldados que você ajudou a treinar para a tarefa.”

“Hmm.”

“Sabe, acho que pode ser hora de dar o fora daqui” continuou, observando os dragões irem ao horizonte. “Os valores das propriedades na Savana de Cerulean com certeza cairão considerando a infestação de dragões aqui. E buracos vazios. E grama assassina.” Me olhou com ceticismo. “A propósito, sabia disso? Um pequeno aviso teria sido bom. E se eu pisasse na folha errada e todas as outras ficassem irritadas e me transformassem em confete de titã?”

“Não é o momento para piadas” respondi, frio demais por dentro para encontrar qualquer diversão.

Ele se mexeu no assento, se recostou e descansou uma perna sobre a outra. “Eu discordo. Não tem melhor momento para um humor triste e pesado.”

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